Monday, February 13, 2017

Sobre o discurso da eficiência e a política como gerenciamento do poder

Colagem minha: Lendo Ruffato
A preocupação central do capitalismo é o lucro/prejuízo, a grossíssimo modo, a diferença entre o custo de produzir algo e o ganho com a venda desse algo. Digamos que daí se origina todo o discurso sobre eficiência, que é o lado racionalista do capitalismo. O outro lado, o que origina um discurso irracionalista e hedonista, é aquele que alimenta a sociedade do consumo, movida além da necessidade pelo desejo gerado pelo mundo da publicidade. 

Esse texto é sobre o discurso da eficiência produtiva e é sobre ele que eu quero escrever aqui brevemente. Há muito tempo que o discurso da administração/gerenciamento é produzido pelo capital para além dele mesmo. Em uma contínua expansão, logo que é articulado ele sai das empresas capitalistas para a administração pública, e dali para a administração do lar e da vida privada. Seu vocabulário e sua sintaxe vão sendo exportados para a reflexão sobre todos os aspectos da experiência humana por divulgadores incansáveis desse discurso em todos os meios de comunicação.

De forma bastante esquemática, eis o esqueleto do seu evangelho: assim como se administra/gerencia um negócio no sentido de sua máxima eficiência produtiva, deveríamos administrar/gerenciar o estado, a saúde, a segurança, a alimentação, a educação, a carreira profissional, a vida espiritual, a vida privada, todos os relacionamentos afetivos etc. Somos convidados a imaginar que simplesmente tudo na vida se expressa em termos da relação custo e benefício numa cadeia produtiva e que essa expressão pode e deve ser mensurada numericamente em índices – do índice de eficiência ao índice de satisfação, e deste ao índice de felicidade e do desenvolvimento humano. Mensurar tudo numericamente é fundamental para que então possamos escolher o que fazer e como fazê-lo com “objetividade”. Tudo que diz respeito ao ser humano deve ser “produtivo” – trazer uma relação satisfatória entre custo e benefício que possa ser mensurada em números.


Esse discurso da administração/gerenciamento transformou a política em administração do poder. Com isso qualquer diferença radical entre um governo de direita e um governo de esquerda foi dissolvida numa disputa entre duas propostas de “gestão eficiente” que devem convencer o cliente/eleitor potencial. Essa política como administração do poder trabalha sempre em torno da mais pronta e efetiva satisfação de todas demandas do capital, que o discurso da administração/gerenciamento personaliza como um ente cheios de poder e caprichos que atende pelo nome de “Mercado”. Toda ação política é então medida pela sua eficiência em fazer com que o Mercado “reaja bem”, primeiro no curto horizonte do dia de hoje, depois desta semana, depois deste mês e finalmente deste ano - o "horizonte de expectativa" se transforma em nada mais que uma manchete vazia no jornal de hoje que embrulha o peixe velho de amanhã. Esse “reagir bem” é determinado por uma série de mensagens “objetivas” é o único norte da política como administração do poder. Os desarranjos periódicos do capital são sempre culpa de um grupo político que, estando no comando do poder, não soube administrar o estado em harmonia com os “desejos e necessidades” do Mercado. Um grupo político deve ser então substituído por outro, que promete durante a campanha eleitoral administrar com mais eficiência o mínimo de recursos e gerar com eles o máximo de benefícios. Com o passar dos anos, o sofrimento palpável que essas crises produzem faz nascer um discurso anti-institucional radical. Não é de se admirar que num contexto como esse, onde o estado invariavelmente faz o papel de vilão que “atrapalha” o mercado, a figura do homem de negócios bem-sucedido – esse mago/guru da administração/gerenciamento – seja o candidato político mais sedutor para o paradoxal posto de político anti-política.

Saturday, February 04, 2017

Postais do Inferno: Sobre tamanhos


"Eu estou tentando dizer tudo numa só frase, entre uma Maiúscula e um ponto final. Estou ainda tentando conter tudo, se possível, na cabeça de um alfinete. Eu não sei como fazê-lo. Eu só sei continuar tentando cada vez de um jeito diferente." 
“I’m trying to say it all in one sentence, between one Cap and one period. I’m still trying to put it all, if possible, on one pinhead. I don’t know how to do it.  All I know to do is to keep on trying in a new way.”
William Faulkner, carta a Malcolm Cowley

Desenho meu: Auto-Retrato

 "(…) o que me interessa, na ficção, primeiro que tudo, é o problema do destino, sorte e azar, vida e morte. O homem a “N” dimensões ou então, representado a uma só dimensão: uma linha, evoluindo num gráfico. Para o primeiro caso, nem o romance ainda não chega; para o segundo, o conto basta. Questão de economia.
João Guimarães Rosa, entrevista a Ascendino Leite

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Thursday, February 02, 2017

Postais do Inferno: soluções de Mencken, Cage e Aguilar Mora

Desenho meu: Schoenberg e Cage
“Para cada problema complexo há uma resposta clara, simples e errada”. H. L. Mencken
"For every complex problem there is an answer that is clear, simple, and wrong."


"[Schoenberg] me perguntou qual era o princípio na base de todas as soluções e eu não sabia a resposta. Isso foi em 1935 e se passariam pelo menos 15 anos até que eu pudesse responder àquela pergunta. Hoje eu responderia que o princípio na base de todas as nossas soluções é a pergunta que fazemos." John Cage
"[Schoenberg] asked me what the principle underlying all the solutions was I couldn't answer. This happened in 1935 and it would be at least fifteen more years before I could answer his question. Now I would answer that the principle underlying all of our solutions is the question we ask."

"Eu queria evitar essas reações de triste debilidade que imediatamente buscam interpretações ou argumentos para 'demonstrar' algo da obra ou que buscam analisar para revelar o seu 'sentido'." Jorge Aguilar Mora
"Yo quería evitar esas reacciones de triste debilidad que inmediatamente buscan interpretaciones o argumentos para 'demostrar' algo de la obra o que buscan analizar para revelar su 'sentido'."