Thursday, April 30, 2009

desanimado

foto: Mira Schendel - Grafite e Letraset sobre folhas
de papel arroz montadas entre placas de
acrílico transparente - 1967 - 100x100cm

fonte: http://www.ubm.br/ubm/imagens/cultura/ref19/schendel.JPG


porque
a palavra poderosa
pouco consegue
mesmo dos poucos
que escutam


Vieira

Wednesday, April 29, 2009

Poesia Mexicana - José Emilio Pacheco em dose dupla

Uma vez em Lisboa perguntei a uma pessoa na rua: "O que é que tem depois dessa ponte?" A pessoa me respondeu sem hesitar: "Ora, Portugal continua."
Pois é, amigos, isto é tudo o que eu tenho a dizer sobre a tal "gripe porcina": o México continua!
O resto eu deixo com as palavras de José Emilio Pacheco:

Tierra
La honda tierra es
la suma de los muertos.
Carne unánime
de las generaciones consumidas.

Pisamos huesos,
sangre seca, restos,
invisibles heridas.

El polvo
que nos mancha la cara
es el vestigio
de un incesante crimen.
No me preguntes cómo pasa el tiempo, 1969

Cerdo ante Dios

Tengo siete años. En la granja observo
por la ventana a un hombre que se persigna
y procede a matar un cerdo.
No quiere ver el espectáculo.
Casi humanos, escucho
alaridos premonitorios.
(Casi humano es, dicen los zoólogos,
el interior del cerdo inteligente,
aun más que perros y caballos).
Criaturitas de Dios, los llama mi abuela.
Hermano cerdo, hubiera dicho san Francisco.
Y ahora es el tajo y el gotear de la sangre.
Y soy un niño pero ya me pregunto:
¿Dios creó a los cerdos para ser devorados?
¿A quién responde: a la plegaria del cerdo
o al que se persignó para degollarlo?
Si Dios existe, ¿por qué sufre este cerdo?
Bulle la carne en el aceite.
Dentro de poco tragaré como un cerdo.

Pero no voy a persignarme en la mesa.
Desde entonces, 1975-1978

Tuesday, April 28, 2009

Érico Veríssimo - "Sonata"


"A história que vou contar não tem a rigor um princípio, um meio e um fim. O Tempo é um rio sem nascentes a correr incessantemente para a Eternidade, mas bem se pode dar que em inesperados trechos de seu curso o nosso barco se afaste da correnteza, derivando para algum braço morto feito de antigas águas ficadas, e só Deus sabe o que então nos poderá acontecer. No entanto, para facilitar a narrativa, vamos supor que tudo tenha começado naquela tarde de abril.
Era o primeiro ano da Guerra e eu evitava ler os jornais ou dar ouvidos às pessoas que falavam em combates, bombardeios e movimentos de tropas.
"Os alemães romperão facilmente a linha Maginot" assegurou-me um dia o desconhecido que se sentara a meu lado num banco de praça. "Em poucas semanas estarão senhores de Paris." Sacudi a cabeça e repliquei: "Impossível. Paris não é uma cidade do espaço, mas do tempo. É um estado de alma e como tal inacessível às Panzerdivisionen." O homem lançou-me um olhar enviesado, misto de estranheza e alarma. Ora, estou habituado a ser olhado desse modo. Um lunático! É o que murmuram de mim os inquilinos da casa de cômodos onde tenho um quarto alugado, com direito à mesa parca e ao banheiro coletivo.
E é natural que pensem assim. Sou um sujeito um tanto esquisito, um tímido, um solitário que às vezes passa horas inteiras a conversar consigo mesmo em voz alta. "Bicho-de-concha!" — já disseram de mim. Sim, mas a essa apagada ostra não resta nem o consolo de ter produzido em sua solidão alguma pérola rara, a não ser... Mas não devo antecipar nem julgar."

Monday, April 27, 2009

Cachorrada

George Rodrigue, artista da Louisiana famoso pela serie Blue Dog
http://dreamdogsart.typepad.com/photos/uncategorized/2008/03/09/rodrigue_blue_dog_watchdog.jpg



"Outside of a dog a book is man's best friend. Inside of a dog it's too dark to read."
--Groucho Marx

Sobre outras formas de comunicação além da palavra



Há várias formas de propor um argumento além das palavras. A exposição do MoMa de Nova Iorque sobre Mira Schendel e León Ferrari é um bom exemplo. Lá estão um argentino e uma brasileira nascidos nos anos vinte. Sem forçar a barra com analogias entre os dois países, a geração dos dois, os anos 60, etc. O curador sugere com sutil eloqüência que vale a pena pensar nesses dois juntos. E sutileza eloqüente é um artigo raro, não é mesmo?

Friday, April 24, 2009

Poesia Minha - Sobre o amor

William Adolphe Borguereau
Dante e Virgílio no Inferno, 1850
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/70/William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Dante_And_Virgil_In_Hell_(1850).jpg/482px-William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Dante_And_Virgil_In_Hell_(1850).jpg


[Esse poema está muito complicado. Ando dando voltas e voltas com ele há mais de um ano. Essa é uma versão ainda rascunho.]


Sobre o amor
Uma aura quase cheiro de desastre:
olhos de gato, duros, amarelos,
olhando pra mim, e o meu desejo inato
de esconder pelo menos uma beirinha
da verdade na manga do meu sapato,
olhos me estudando,
sóbrios, especuladores,
com a atenção intensa e indiferente
de um bebê (muito além desse sonoro
peido humano que passa por audácia).
E eu mal-acompanhado
por um desses dessa tribo
que mora na praia
e come sardinha em lata,
que me atira logo,
cheio de certeza:
“esse tipo ordinário aí eu conheço
de longe, pelo cheiro.”
Eu truco afiado e seco
como um jacaré no sol:
“caráter é caroço e casca:
punhal que não se vê o cabo.”
Meu mau-companheiro aceita meu truco
e pede um longo seis
em forma de aparte em prosa:
“Eu digo e repito quantas vezes você quiser ouvir: esse negócio de amor é uma bela duma balela. Essa gente toda por aí diz que ama isso, que ama aquilo, que ama não- sei-o-quê, mas a gente só ama mesmo só o que ainda não tem.
Amor que dura a gente encosta um dedinho de leve nele, ele abre as asas e vai embora.
É por isso que eu digo: melhor largar mão de tudo e não ter precisão de nada, principalmente daquilo que não pode ser seu sem esforço além do seu próprio puro ordinário de dia de semana.
Melhor ainda se o que a vida negaceia ao caboclo não interesse mais a ele.
A gente então vai e se esconde na barra da calça da gente mesmo e finge acreditar que tudo ou é bobagem ou é obrigação sem graça e a gente se esconde, principalmente, da gente mesmo, que o desprezo que a gente sente pela gente mesmo é o pior dos venenos sem soro.
E me vem esse povo todo aí falando de amor; tenha paciência. Não tem nem sentido nenhum tentar satisfazer vontade de amor nenhum. Tem é que arrancar tudo o que cheira a amor pra fora do corpo, corpo este que aliás é uma outra bela duma balela.
O corpo não passa de uma puta-velha vendendo pente pra careca, vendendo um paraíso de cartolina para retardados mentais. O corpo não passa de uma porcaria duma gaiola em que a gente vive dentro, preso sem conseguir nem se sentar nem se pôr de pé, até chegar o dia da gente pedir arrêgo e sair fora dele e morrer.
Mas isso também já é meio outro assunto.”
Mal acompanhado
eu estava além da conta.
Tentei um golpe sucinto:
“O amor não morre;
ele vai é embora,
e aí quem morre é você,
fulminado, carcomido,
cego, e pior:
sem nem saber que.
E além do mais, você me desculpe,
mas coragem não existe
sem descrer da boa sorte.”
Ele não aceitou o empate:
“O que eu sei é que esse tal amor seu
bate a carteira dos dois patos
e cai fora e aí ficam os dois,
a carne pendurada
no gancho do açougue,
um de frente pro outro,
tentando, cada um sozinho,
acender um fósforo já usado
numa lata cheia d’água.”

Azar.

Eu baixei as malas no chão
e tranquei a porta do quarto
brigando com as chaves
e quando eu me virei
lá estava ela,
nua, descalça,
nem vergonha, nem modéstia:
a fome, a sede.

Thursday, April 23, 2009

Grandes Profetas Brasileiros: Maio de 2002

Degradação do Judiciário
DALMO DE ABREU DALLARI

Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais.

Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.
Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica.
Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e transparência indispensáveis num sistema democrático.
Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente -pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga-, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país.
É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção.





É importante assinalar que aquele alto funcionário do Executivo especializou-se em "inventar" soluções jurídicas no interesse do governo. Ele foi assessor muito próximo do ex-presidente Collor, que nunca se notabilizou pelo respeito ao direito. Já no governo Fernando Henrique, o mesmo dr. Gilmar Mendes, que pertence ao Ministério Público da União, aparece assessorando o ministro da Justiça Nelson Jobim, na tentativa de anular a demarcação de áreas indígenas. Alegando inconstitucionalidade, duas vezes negada pelo STF, "inventaram" uma tese jurídica, que serviu de base para um decreto do presidente Fernando Henrique revogando o decreto em que se baseavam as demarcações. Mais recentemente, o advogado-geral da União, derrotado no Judiciário em outro caso, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem decisões judiciais.
Medidas desse tipo, propostas e adotadas por sugestão do advogado-geral da União, muitas vezes eram claramente inconstitucionais e deram fundamento para a concessão de liminares e decisões de juízes e tribunais, contra atos de autoridades federais.
Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um "manicômio judiciário".
Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no "Informe", veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (edição 107, dezembro de 2001). Num texto sereno e objetivo, significativamente intitulado "Manicômio Judiciário" e assinado pelo presidente daquele tribunal, observa-se que "não são decisões injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo".
E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr. Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na "indústria de liminares".
A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um problema ético. Revelou a revista "Época" (22/4/ 02, pág. 40) que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é um dos proprietários- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito longe de se enquadrar na "reputação ilibada", exigida pelo artigo 101 da Constituição, para que alguém integre o Supremo.
A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada, contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou "ação entre amigos". É assim que se degradam as instituições e se corrompem os fundamentos da ordem constitucional democrática.

Wednesday, April 22, 2009

Diário da Babilônia

Poster de campanha contra o consumo de bebidas alcoólicas nos EUA no começo do século XX
fonte:http://3.bp.blogspot.com/_473nrD5vEv8/SM4_WJX-DpI/AAAAAAAAAxI/WKM4I0Fubv4/s400/temperance-movement.jpg


Parto aqui de uma curta reflexão feita pelo escritor nicaragüense Sergio Ramírez sobre o anti-tabagismo para tentar entender o que parece um paradoxo inexplicável da cultura estadunidense.

O puritanismo sempre julga o que é bom ou mal para a saúde em termos absolutos. Esse julgamento parte da oposição entre a necessidade e o prazer, separados de maneira radical. O cigarro, por exemplo, não “serve” para nada e vira portanto a encarnação do mal absoluto. Chegamos ao coração da cruzada contra o cigarro, a mesma fonte da cruzada que terminou na proibição do consumo de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos de 1919 a 1933, chamada na época também de “Noble Experiment” – se alguém quiser entender porque a máfia italiana se instalou nos EUA e não no Brasil ou na Argentina, encontra aqui uma boa pista.

[Adianto aqui que não estou advogando em causa própria: não fumo, e tenho mesmo pessoas próximas que sofrem muito com problemas de saúde causados, em grande parte, pelo cigarro.]

As coisas se complicam quando esse discurso se aplica a certas atividades que expõem com mais clareza o fato de que necessidade e prazer não podem ser separados assim. Estou me referindo aqui à alimentação e ao sexo. Ninguém pode negar que comida e sexo são necessidades da espécie; precisamos nos reproduzir e nos alimentar. Mas quando buscamos prazer na comida e no sexo [assim pensa a mente puritana] nos aproximamos perigosamente das chamas do inferno, porque passamos da necessidade para o prazer, da virtude ao pecado. Saltamos da alimentação à gula e da reprodução à luxúria em um segundo, numa garfada a mais ou em numa posição diferente na cama. Chegamos aqui aos filhotes da lei seca: as cruzadas contra o fast-food e a pornografia.

Como se isso já não fosse complicado o suficiente, temos o curto-circuito causado pela convivência “carnal” num mesmo tempo e espaço desse puritanismo feroz e de um consumismo igualmente feroz. O consumismo é uma das molas mestras de um capitalismo “maduro” que precisa continuar a se expandir continuamente para não “apodrecer”, fabricando desejos de consumo onde não há nem sinal de necessidade. A linguagem articulada desse consumismo é a propaganda. E a propaganda fala, pelo menos em parte, a linguagem do prazer. Digo em parte porque é verdade que vende-se muito coisa em cima da idéia absurda de que comprar é economizar, que é uma forma de transferir a linguagem da produção racional puritana para o campo do consumo. Mas é inegável que vende-se muito mais em cima da idéia da busca do prazer como um fim em si mesmo. Basta escolher aleatoriamente dez peças de propaganda para perceber que o discurso do “faça um bem a si mesmo”, “trate-se bem”, “dê a si mesmo o direito de ter esse prazer” ou “curta a vida” se reveza com o “faça parte do seleto grupo de pessoas de sucesso” e com o “seja racional: fique rico ou economize gastando seu dinheiro com isso” e misturas diferentes das três vertentes. Mas o discurso hedonista predomina, mesmo porque cai como uma luva na ideologia consumista.

E aí voltamos ao puritanismo e podemos entender melhor o convívio tenso, explosivo às vezes, entre hedonismo e puritanismo, entre obesidade mórbida e anorexia, entre pornografia e moralismo, entre cruzadas contra o excesso e elegias ao prazer na cultura dos Estados Unidos.

Tuesday, April 21, 2009

Medo

























[a campanha nacional do medo em marcha
a revolução do medo da revolução
a expropriação do medo
o arrocho do medo
as armadilhas do medo
o medo instrumental instrumento do medo
os combatentes do medo
a copa do mundo do medo
a libertação incondicional do medo
extirpa elimina amputa expurga o medo
os prisioneiros do medo
a propaganda armada do medo
as táticas e tarefas do medo
as operações e missões do medo
os modelos de ação do medo
cultiva propaga alastra massifica o medo
a frieza objetiva do medo consciente
o medo das armas da luta de classes do medo
o medo abre poder de fogo do medo
contra os inimigos do medo
o medo rápido e breve e preciso
a pressão e as condições concretas do medo
a lista de milagres econômicos do medo
um ataque surpresa do medo
o esquadrão do medo
tiro e pontaria e fogo do medo
a política e a polícia do medo
vamos interrogar o medo
com a audácia matemática do medo
o êxito e o medo
o êxodo e o medo
a tortura e medo
o eletro-choque do medo
vamos enforcar o medo dando corda ao medo
vamos passear no campo minado do medo
cavar trincheiras no medo
apoiar o medo do grupo da base do medo
todo o dia beber a água do medo e respirar o ar do medo
vamos sentir saudade do futuro sem medo
o atirador de facas do medo
e os seus artefatos do medo
as bombas caseiras do medo
abrir a fogo de metralhadora a trilha do medo
a melhor amiga do medo
é a disciplina do medo
denunciar o tempo limite do medo
capturar e divulgar ao mundo inteiro os papéis do medo
os propósitos escusos do medo
a ocupação gradual do medo
envolvimento integral e dedicação total ao medo
objetivos e princípios do medo popular
do medo do povo do medo
os revolucionários do medo
os reacionários do medo
o medo militar
o medo sindical
o medo estudantil
o medo de massas
o medo da vanguarda
modelo de medo
medo
medo
medo
medo]

Monday, April 20, 2009

Poesia Mexicana - Carlos Pellicer 3

fonte:http://sepiensa.org.mx/contenidos/l_novo/home/images/pellicerfoto_06.jpg
Provavelmente foi um Pellicer assim, mais jovem, que sobrevoou a Guanabara em um avião de acrobacias em 1922…


A última parte do poema sobre a Guanabara de Carlos Pellicer:

TERCERA VEZ
Desde el avión,
la orquestra panorámica de Río de Janeiro
se escucha en mi corazón.
Desde la cumbre del Corcovado
hasta las olas de Copacabana,
la dicha es una simple distancia que ha pasado
borrando fechas próximas con sus manos plateadas.
Ataré mi existencia sideral
A la divina roca del Pao de Azúcar
Que ve nacer la aurora antes que el agua mar.
El mar de Río de Janeiro
es una antigua barcarola
que está aprendiendo la ola
leve de mi pensamiento.
Guanabara su nombre. Guanabara,
como una estrella que se alargara
sobre el ritmo del momento.
Ciudad naval, tus avenidas
De orohidrográficos prodigios
Anclan mis ojos en un aire
de eternidades sin abismos.
Tu mar y tu montaña
- un puñadito de Andes y mil litros de Atlántico - ,
pasan bajo las alas
del avión, como síntesis del continente amado.
Las grandes rocas están de oro,
las montañas en verde y morado.
El agua se mueve en semitono.
La ciudad es u libro deshojado.
El aire está en soprano ligero.
La escuadra va a salir a pescar.
Un “loopoing the loop” hace pedazos el regreso
Y hace estallar la ciudad.

Sunday, April 19, 2009

Das oligarquias injustiçadas à imprensa imparcial, e daí de volta às oligarquias em um círculo perfeito

Só para confundir, uma foto de 2008 que encontrei na rede.
http://kmspagu.files.wordpress.com/2009/03/jacksonroseana.jpg

Tudo o que gostaria de dizer sobre o triste caso em que os Sarney derrubaram um governador por abuso do poder econômico no Maranhão se encontra no blogue do Idelber. Leiam e comprovem que informação não precisa ser “imparcial”; pelo contrário. Desconfio muito sempre que um meio de comunicação qualquer proclama sua imparcialidade, principalmente no Brasil. Para mim é a mesma coisa que uma família de oligarcas abusando do seu poder descomunal para cassar o mandato de um adversário por abuso do poder econômico.

Poesia Mexicana - Carlos Pellicer 2

Fonte: La Jornada. Carlos Pellicer en Zinancantepec, 1969 Foto: Raúl Anguiano

Segunda parte do poema de Pellicer

SEGUNDA VEZ
Lo que me importa el mundo
desde de la sombra eléctrica de un aeroplano.
- Soy un poco de sol desnudo
Libre de los pies y de las manos.
Estoy, solamente,
Estoy, nada más.
El cielo en mi frente
Cambiandome el mar.
El motor que perfora el aire espeso
Algo tiene de bólido y de toro.
Pasamos muy cerca del queso
de la luna matinal, leche y oro.
Bajo las alas tensas, plásticas,
La naturaleza es un proyecto acceptable,
Las mujeres nunca han sido románticas
Y la patria es continentizable.
El mundo es una pobre cosa
Llena de gustos yanquis y consideraciones.
Mas desde el aeroplano se medita en la Gloria
De unir banderas y cantar canciones.
Se ve hasta el Polo Sur.
(Naturalmente, con los anteojos de mis ojos.)
en el idioma quedan lo rápido y lo azul
dominando un mapa incoloro.
Abajo están las viudas y los juristas,
La Emulsión Scott y los grandes deudores.
(Por un momento el alma se contrista
como un poco de viento sobre un campo sin flores.)
se raja la hélice mil veces por minuto.
Una nube pasó sin volar.
Abajo, en el fondo del mundo
La tinta del poema se ha empezado a borrar.

Friday, April 17, 2009

Troca-troca

Em homenagem à popularidade impressionante desse blogue resolvi trocar seu nome...

Poesia Mexicana - Carlos Pellicer

retrato de Pellicer por Oswaldo Guayasamin
foto:http://www.correodelmaestro.com/anteriores/2003/noviembre/fotos/pellicer.jpg


Carlos Pellicer era piloto amador e fez vôos acrobáticos na baía da Guanabara em 1922. Essa é a primeira parte de três do poema resultante:

SUITE BRASILEIRA – Poemas aéreos

PRIMERA VEZ
Desde el avión,
vi hacer piruetas a Río de Janeiro
arriesgando el porvenir de sus puestas de sol.
Se ponía de cabeza
sin derramar su bahía.
Y en la lotería de sus isletas
ganaba y perdía.
El cielo se llenaba de automóviles
y de sombra a las 12 del día.
El Pão de Açúcar era un espantapájaros
soberbio, de lógica y fantasía.
Las palmeras desnudas
andaban de compras por la Rúa D'Ouvidor.
De pronto la ciudad
entró en espiral
junto con el avión,
lo mismo que 300 kilates de diamantes
en el embudo de un buen corazón.
Al bajar,
tenía yo los ojos azules
y agua de mar dentro del corazón.

Thursday, April 16, 2009

Porque ninguém ouve falar sobre esse "El Sistema"?

Foto:http://www.el-sistema-film.com/gallery/projekt/streicher_EvaKinader.jpg
250.000 crianças e jovens venezuelanos de origem simples recebem educação musical clássica intensiva. A Venezuela conta hoje com mais de 100 orquestras juvenis e infantis. O homem responsável por isso se chama José Antonio Abreu, o criador da Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela mais conhecido como "El Sistema". Gustavo Dudamel, escolhido aos 28 anos para ser o maestro a Filarmônica de Los Angeles, é um nome respeitado e conhecido no mundo de música erudita e é a cara pública desse programa empolgante. O YouTube tem um pequeno documentário da TV inglesa e várias gravações interessantes de duas orquestras de jovens, a Simon Bolivar e a Teresa Carreno.
No Brasil a gente costuma reclamar da maneira preconceituosa e negativa como o país é coberto pela imprensa do primeiro mundo. Eu só digo uma coisa: se alguém quer mesmo entender as motivações e parcialidades da mídia de qualquer lugar, devia começar não pelo que é noticiado e de que forma, mas principalmente pelo que não é noticiado ou é noticiado com meia coluna na página 15 de algum caderno esquecido numa quarta-feira.

Wednesday, April 15, 2009

Admirável mundo novo


Source: http://www.cinevent.com/images/cv199921.jpg

Como diria Jorge Ben “deu no niuiórquitaimis”: um site de encontros chamado SeekingArrangement.com divide seu público em dois campos bem definidos: de um lado, Sugar Daddies, em geral quarentões e cinquentões, metade deles casados, todos mais ou menos cheios da nota; do outro lado, Sugar Babies, em geral mulheres entre 18 e 25 anos, todas em busca de “mentores”. A proporção é de 10 Sugar Babies para cada 1 Sugar Daddy disponível.
Eu sei que muita gente deve estar pensando na profissão mais velha do mundo mas a tal reportagem, que acompanha alguns dos participantes desse mundo algo
bizarro, mostra que a coisa é um pouco mais complicada. Só 30% dos arranjos feitos no tal site involvem uma mesada regular e a coisa não acaba necessariamente com um pagamento explícito em dinheiro corrente. Digo apenas que As histórias são mais interessantes do que eu imaginava quando vi a primeira página.

Machado de Assis em "D. Paula"

fonte:http://farm3.static.flickr.com/2213/1820414622_2108f2040b.jpg
Reparem na dança de tempos verbais do primeiro parágrafo de “D. Paula” de Machado de Assis:

“Não era possível chegar mais a ponto. D. Paula entrou na sala exatamente quando a sobrinha enxugava os olhos cansados de chorar. Compreende-se o assombro da tia. Entender-se-á também o da sobrinha, em se sabendo que D. Paula vive no alto da Tijuca, donde raras vezes desce; a última foi pelo Natal passado, e estamos em maio de 1882. Desceu ontem, à tarde, e foi para casa da irmã, Rua do Lavradio. Hoje, tão depressa almoçou, vestiu-se e correu a visitar a sobrinha. A primeira escrava que a viu, quis ir avisar a senhora, mas D. Paula ordenou-lhe que não, e foi pé ante pé, muito devagar, para impedir o rumor das saias, abriu a porta da sala de visitas, e entrou.”

Passado nas duas primeiras sentenças, presente na segunda, futuro e presente de novo. “Estamos” em maio de 1882 [a história é publicada em 1884] e quando D. Paula veio visistar a sobrinha “hoje” voltamos ao passado. Tudo isso sem grandes alardes: isso é que eu chamaria de pirotecnia discreta. E a dança se estende aos sujeitos que aparecem e desaparecem: na primeira frase, nada. Na segunda D. Paula e a sobrinha são sujeitos que a gente observa meio de longe, num palco. Quem compreende e entenderá? O leitor, o narrador, os dois?

Li hoje um artigo John Gledson [em inglês] disponível online sobre esse conto, construído habilmente a partir das traduções para o inglês. Uma lição de estilo.

Tuesday, April 14, 2009

Morreu o Amadeu

Menos um motivo para voltar para Belo Horizonte...
A notícia saiu [para mim] no blogue do Ewerton:

Monday, April 13, 2009

Da série "Nóis é pobre mais adeverte": A Geração de 65




A Geração de 65 é das mais vigorosas do século, principalmente no que diz respeito à chamada lírica da solidão anabolizante, com uma busca incessante da experimentação estética em linhas arrojadas, porém eminentemente bucólicas. Foram publicados inicialmente nas páginas amarelas das revistas Broca, Espelho e, é claro, Klut – O Passado Condena; além do lendário caderno de cultura do jornal Folha de Montezuma dirigido na época por Eulálio Fagundes Feitosa e Júlia Jorge de Medeiros. Essa é uma geração marcada acima de tudo pelo desastre da desclassificação da seleção iugoslava nas eliminatórias para a Copa da Inglaterra e seu líder inconteste e figura mais importante é, sem dúvida, Xerxes Feitosa. Advogado, militante estudantil, jornalista e dono de uma academia de ginástica, Xerxes Feitosa teve em Largos Anéis, seu primeiro livro de poemas, um sucesso sem precedentes, tendo permanecido na lista dos mais vendidos do Vale por 33 semanas consecutivas. O sucesso descomunal de Largos Anéis acabou gerando protestos de emissoras de televisão, que reclamavam da competição desleal contra seus programas, abandonados às moscas enquanto a cidade promovia intermináveis saraus que sempre terminavam com a leitura entusiasmada dos poemas mais famosos de Xerxes: “Lava,” “Ode ao Envelope Lacrado” e principalemente “Fragmentos de um Frango de Poliuretano.” Magnitudes Infinitesimais marca uma guinada histórica na trajetória do poeta, com poemas curtos e grossos alusivos à polêmica com a televisão que culminou com o manifesto Televisão Também é Cultura. Destacam-se nesse livro os poemas “Lápides em Pó” e “Estrofes em Trufas.” Destacam-se também na Geração de 65 Coriolano França Júnior, poeta do amor solitário e das divagações amarguradas sobre a falta de dinheiro, e Gérson Gilson Siqueira, conhecido pelo seu rigor informal e comprometimento antisocial com as memórias da juventude no bairro Servo-Croata de Montezuma. O crítico Almenara Salustiano descreve a Geração de 65 com as seguintes palavras: “Jovens maduros, paradigmáticos, mórbido-emotivos e por vezes até confusos, mas sempre estéticos, os poetas da Geração de 65 fundem o cru e o cozido, o macro e o micro, o hermenêutico e o seráfico numa síntese de opostos ortodoxos.”

Sunday, April 12, 2009

Inferno na terra: "Luvina" de Juan Rulfo

Foto tirada por Juan Rulfo
Fonte: http://www.elangelcaido.org/2005/11/200511jrulfo/200511jrulfo.html


“Mientras tanto, los viejos aguardan por ellos por el día de la muerte, sentados en sus puertas, con los brazos caídos, movidos sólo por esa gracia que es la gratitud del hijo... Solos, en aquella soledad de Luvina.
“Un día traté de convencerlos de que se fueran a otro lugar, donde la tierra fuera buena. ‘¡Vámonos de aquí! —les dije—. No faltará modo de acomodarnos en alguna parte. El gobierno nos ayudará.’
“Ellos me oyeron, sin parpadear, mirándome desde el fondo de sus ojos, de los que sólo se asomaba una lucecita allá muy adentro.
“—¿Dices que el gobierno nos ayudará, profesor? ¿Tú no conoces al gobierno?
“Les dije que sí.
“—También nosotros lo conocemos. Da esa casualidad. De lo que no sabemos nada es de la madre de gobierno.
“Yo les dije que era la Patria. Ellos movieron la cabeza diciendo que no. Y se rieron. Fue la única vez que he visto reír a la gente de Luvina. Pelaron los dientes molenques y me dijeron que no, que el gobierno no tenía madre.
“Y tienen razón, ¿sabe usted? El señor ese sólo se acuerda de ellos cuando alguno de los muchachos ha hecho alguna fechoría acá abajo. Entonces manda por él hasta Luvina y se lo matan. De ahí en más no saben si existe.
“—Tú nos quieres decir que dejemos Luvina porque, según tú, ya estuvo bueno de aguantar hambres sin necesidad —me dijeron—. Pero si nosotros nos vamos, Quién se llevará a nuestros muertos? Ellos viven aquí y no podemos dejarlos solos."

Friday, April 10, 2009

Clarice Lispector: Milagre de Sábado


Francisco de Zurbarán: "Plato con limones, cesta con naranjas y una taza con una rosa", 1633
Fonte: http://imagecache01a.allposters.com/images/pic/BRGPOD/209896%7EStill-Life-Posters.jpg
Para uma reprodução maior e melhor: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/95/Francisco_de_Zurbar%C3%A1n_063.jpg

"[...] Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.
Pão é amor entre estranhos."
De "A Repartição dos Pães" de Clarice Lispector
fonte: http://www.releituras.com/clispector_paes.asp

Thursday, April 09, 2009

Sempre Alerta!

Fonte:http://www.buzznet.com/groups/qotd/forum/topics/420801/qotd-feel-about-pledge-allegiance/
Não faz muito tempo escrevi aqui sobre meu desconforto com o fato do meu filho ter que jurar a bandeira americana diariamente na escola e com toda a cultura “épica/heróica/nacionalista” que prevalece nos Estados Unidos.
Dizem que quando os americanos sairam do Vietnã os amigos estranharam porque o cartunista Henfil não demonstrou grande entusiasmo. Henfil explicou: “Estou é preocupado. E agora? Para onde é que eles vão?"
Segue um breve resumo incompleto de 230 anos de guerra:

1775-1782 Guerras de independência
1810-1819 Gradual anexação da Flórida
1812 Inglaterra de novo
1813 Ilhas Marquesas [1a base naval no Pacífico]
1840-1841 Fiji e Samoa
1846-8 México
1852-1853 Marines na Argentina
1854 Bombardeio naval na Nicarágua
1855 Marines em Montevidéu
1857 Marines na Nicarágua
1859 Shanghai na China
1861-5 Guerra Civil
1890 – Intervenção na Argentina
1891 – Intervenção no Chile
Intervenção no Haiti
1893 – Anexação do Havaí
1894 - Intervenção na Nicarágua
1894-5 Intervenção na Guerra Sino-Japonesa
1895 - Intervenção no Panamá [então província da Colômbia]
1898 - Espanha
1898-1910 Ocupação das Filipinas [extensão da Guerra com Espanha]
1898-1902 1a ocupação de Cuba [extensão da Guerra com Espanha]
1898-hoje Ocupação de Porto Rico [extensão da Guerra com Espanha]
1898-1900 Rebelião dos Boxers na China
1898 – Segunda intervenção na Nicarágua
1901-1914 Segunda ocupação do Panamá
1903 – Honduras
1903-4 República Dominicana
1904-5 intervenção na Coréia durante a guerra Russo-Japonesa
1906-9 Segunda intervenção em Cuba
1907 – Terceira intervenção na Nicarágua
1908 – 3a ocupação do Panamá
1910 – 4a intervenção na Nicarágua
1911 – 2a intervenção em Honduras
1911-1941 – Ocupação de partes da China
1912 – 3a intervenção em Cuba
4a intervenção em Honduras
1914 – 2a intervenção na República Dominicana
2a Intervenção no Haiti [Ocupação até 1934]
1916 – 3a intervenção na República Dominicana [Ocupação até 1924]
1917 – Ocupação de Cuba até 1933
1917-1918 – Primeira Guerra Mundial
1918-1920 – 4a intervenção no Panamá
1920 – Intervenção na Guatemala
1922-1927 China, contra revolta nacionalista [Marines ficam até 1934]
1924 – 5a intervenção em Honduras
1925 – 5a intervenção no Panamá
1932 – Intervenção em El Salvador
1941-1945 Segunda Guerra Mundial
1948-1950 Apoio a luta contra rebeldes nas Filipinas
1950 – Intervenção contra movimento de independência em Porto Rico
1950-3 Guerra da Coréia
1950-1975 Vietnam War
1958 – 6a intervenção no Panamá
1965-1966 Invasão da República Dominicana [com tropas brasileiras]
1969-1975 Camboja
1983-1984 Invasão da ilha de Grenada
1989 – 6a intervenção no Panamá
1990-1a Guerra do Golfo
1992-1994 Somália com tropas da ONU
1993 Bombardeios na Guerra da Bósnia
1999 Bombardeios durante conflito em Kosovo
2001 até hoje Afganistão
2003 até hoje Iraque

Wednesday, April 08, 2009

Dura Profecia

Borges imagina a si mesmo com 61 anos se encontrando consigo mesmo com 84 anos à beira da morte:


"—Escribirás el libro con el que hemos soñado tanto tiempo. Hacia 1979 comprenderás que tu supuesta obra no es otra cosa que una serie de borradores, de borradores misceláneos, y cederás a la vana y supersticiosa tentación de escribir tu gran libro. La superstición que nos ha infligido el Fausto de Goethe, Salammbó, el Ulysses. Llené, increíblemente, muchas páginas.

—Y al final comprendiste que habías fracasado.

—Algo peor. Comprendí que era una obra maestra en el sentido más abrumador de la palabra. Mis buenas intenciones no habían pasado de las primeras páginas; en las otras estaban los laberintos, los cuchillos, el hombre que se cree una imagen, el reflejo que se cree verdadero, el tigre de las noches, las batallas que vuelven en la sangre, Juan Muraña ciego y fatal, la voz de Macedonio, la nave hecha con las uñas de los muertos, el inglés antiguo repetido en las tardes.

—Ese museo me es familiar —observé con ironía.

—Además, los falsos recuerdos, el doble juego de los símbolos, las largas enumeraciones, el buen manejo del prosaísmo, las simetrías imperfectas que descubren con alborozo los críticos, las citas no siempre apócrifas.

—¿Publicaste ese libro?

—Jugué, sin convicción, con el melodramático propósito de destruirlo, acaso por el fuego. Acabé por publicarlo en Madrid, bajo un seudónimo. Se habló de un torpe imitador de Borges, que tenía el defecto de no ser Borges y de haber repetido lo exterior del modelo.

—No me sorprende —dije yo—. Todo escritor acaba por ser su menos inteligente discípulo.

—Ese libro fue uno de los caminos que me llevaron a esta noche. En cuanto a los demás... La humillación de la vejez, la convicción de haber vivido ya cada día...

—No escribiré ese libro —dije.

—Lo escribirás. Mis palabras, que ahora son el presente, serán apenas la memoria de un sueño.

Me molestó su tono dogmático, sin duda el que uso en mis clases. Me molestó que nos pareciéramos tanto y que aprovechara la impunidad que le daba la cercanía de la muerte."

Tuesday, April 07, 2009

Sugestão: La escena de la memoria


http://www.fundacion.telefonica.com/at/tem/tem192.jpg
Li Ana Peluso no La escena de la memoria e perpetrei essa filosofada de botequim:
"Sobre Deus dizia Maimonides que atribuir quaisquer qualidades humanas [físicas ou mentais] a Ele é um ato de profundo narcisismo humano. Eu concordo com ele. Toda a vez que o ser humano fala de Deus acaba falando de si mesmo e do seu mundo. Nossa vida é um embate com o mundo, com os outros e conosco mesmo, um embate cheio de dor e sofrimento e de prazer e alegria. Mas com toda a nossa prepotência continuamos assistindo impotentes quando chega a tempestade e arranca tudo do chão. Somos dotados de livre arbítrio mas o mundo como é nos deixa impotentes frente a um destino onde não há senso de justiça [nem de injustiça; sejamos, pelo menos nós, um pouco mais justos]."
Blogue bom [para mim] é assim: dá vontade de falar!

Monday, April 06, 2009

Poema meu: Kafka e Drummond

Revisei esse poema de cabo a rabo até ficar feliz com ele. Esse poema volta com a minha humilde convicção de que ele pode acabar me causando o mesmo desgosto de novo.

Kafka e Drummond


Ciego a las culpas, el destino puede ser despiadado con las mínimas distracciones.
(…)
A la realidad le gustan las simetrías y los leves anacronismos.
Jorge Luis Borges, “Sur”



Imagine No meio do caminho
tinha uma pedra traduzido
por um judeu da Hungria –
um maluco de Budapeste
diziam aqui –
em 1939,
quatro dias antes
da Polônia começar a cair.

Preso numa ilha
margem no meio do rio Danúbio,
condenado a construir com as mãos nuas
um prédio de pedra,
sempre demolido
depois do último encaixe,
o louco de Budapeste
aproveita a pausa entre o arremate
e a demolição, foge
e vem parar no Brasil.

Aqui pede ao poeta,
funcionário de ferro e pedra,
apenas um rastro, não importa
que o guiasse pelo labirinto,
os jardins da gripe,
os bondes do tédio,
as lojas do pranto
do Estado Novo
para arrancar um par de vistos
para a mãe e a noiva
ainda na Hungria
os ferozes padeiros do mal,
os ferozes leiteiros do mal
dançam em brasas aos pés de Hitler
até Ferenc Szálasi chegar
e começar a dança da morte.

Mas naquele tempo
era livre a navegação
mas proibido fazer barcos
mas tivesse encontrado
mais três poetas de pedra
e as duas estariam aqui
comigo, disse Paulo Rónai
mas aquele era tempo de homens
partidos – como agora.

Imagine agora mais tarde
lendo um artigo do amigo
louco de Budapeste
Drummond de repente
compreende, lívido:
Kafka sou eu! Sou eu, Kafka!
(que nem Rónai,
nem Carpeaux, nem mesmo
Rosenfeld conheciam
até que Sérgio
Buarque de Holanda
chegasse da Alemanha).

Saturday, April 04, 2009

Heróis e Zeros à Esquerda

Eu tenho a convicção de que não precisamos de heróis de qualquer espécie. Esclareço que acho que admirar alguém é diferente de transformar alguém em herói. Nem heróis literários eu tenho – admiração profunda por vários escritores, sim, mas ficar achando que fulano é gênio, é perfeito, é infalível, é vidente, é um santo, etc… como me disseram uma vez: “me incluam fora dessa”.
Nessa história de criar heróis parece [pode ser preconceito meu, eu admito] que está implícito a idéia de uma admiração desmedida sem senso crítico. Babação de ovo não faz bem nem ao objeto babado, muito pelo contrário. Aliás se você reparar bem vai ver que é muito comum o elogio que esconde uma bomba, a famosa “faca de dois gumes”.
Mas eu moro nos EUA, um país de um sentido quase obsessivamente épico da sua história e identidade, e portanto país de heróis, super heróis e congeners. E imagine meu horror quando escutei o professor do meu filho, então com seis anos, proclamar aos seus alunos cheio de convicção: "Be a hero or be a zero!"
Na hora em que escutei aquilo dito para o meu filho, eu pensei imediatamente: "Ai, caramba, parem o trem agora que eu quero sair!!!"

Wednesday, April 01, 2009

Recordar é viver, principalmente no dia da mentira

foto:http://www.revistaforum.com.br/Imagens/Artigo/39541-2921FA3-C957F6BCEDE33C.jpg

Hoje fazem 45 anos que aconteceu o golpe de primeiro de abril - o dia da mentira. Vamos a um pedaço do editorial do jornal O Globo do dia seguinte

02/04/1964
"Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições."

Nesse dia eu só desejo que nunca mais nos aconteça nada parecido com isso e principalmente que nunca mais aconteça isso como foi em 64, sem resistência.