Sunday, December 30, 2012

Os melhores de 2012 - Janeiro

Às moscas: Super-recomendação: Meu Tio Iauaretê na voz de Lim...: Descobri por acidente este tesouro. Tesouro, mesmo, porque eu não conheço nenhuma leitura de Guimarães Rosa tão boa como essa, ainda mais d...

Thursday, December 27, 2012

Profeta do óbvio?

“Man, as we realize if we reflect for a moment, never perceives anything fully or comprehends anything completely.” 

 “We may think that we have ourselves under control; yet a friend can easily tells us things about ourselves of which we have no knowledge.” 

 “He hears and does not hear; he sees, yet is blind; he knows and is ignorant.”  


Carl Jung em Man and His Symbols

Foto Minha: Erector Square

Sunday, December 23, 2012

Onde fica a sua Califórnia?

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California
Joni Mitchell


Sitting in a park in Paris France
Reading the news and it sure looks bad
They won't give peace a chance
That was just a dream some of us had
Still a lot of lands to see
But I wouldn't want to stay here
It's too old and cold and settled in its ways here
Oh but California

California I'm coming home
I'm going to see the folks I dig
I'll even kiss a Sunset pig
California I'm coming home

I met a redneck on a Grecian isle
Who did the goat dance very well
He gave me back my smile
But he kept my camera to sell
Oh the rogue the red red rogue
He cooked good omelettes and stews
And I might have stayed on with him there
But my heart cried out for you California

Oh California I'm coming home
Oh make me feel good rock 'n' roll band
I'm your biggest fan
California I'm coming home

Oh it gets so lonely
When you're walking
And the streets are full of strangers
All the news of home you read
Just gives you the blues
Just gives you the blues
So I bought me a ticket
I caught a plane to Spain
Went to a party down a red dirt road
There were lots of pretty people there
Reading Rolling Stone reading Vogue
They said "How long can you hang around?"
I said a week maybe two
Just until my skin turns brown
Then I'm going home to California

California I'm coming home
Oh will you take me as I am
Strung out on another man
California I'm coming home

Oh it gets so lonely
When you're walking
And the streets are full of strangers
All the news of home you read
More about the war
And the bloody changes
Oh will you take me as I am?
Will you take me as I am?
Will you?


A letra vem do ótimo site de Joni Mitchell 
Observação: 
1. Joni Mitchell não é da Califórnia. 
2. Minha Califórnia eu não sei mais muito bem onde fica e nem sei se tenho força de procurar.  
3. Para situar, a canção é do fim dos anos 60.
4. Uma canção de Joni Mitchell pode ser a minha Califórnia de três minutos e meio.

Friday, December 21, 2012

Recordar é viver


 Ouvi dizer que essas são cenas do filme que os editores da Veja fizeram quando tentaram entrar no ramo cinematográfico e produzir uma biografia "alternativa" do Lula. Não se fazem mais filmes "históricos" como antigamente...

Wednesday, December 19, 2012

The great art of putting together improvised music

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Miles Davis podia ter ficado tocando Kind of Blue o resto da vida mas o nome era curioso e intrépido. Da fase do fim dos anos 60 tenho ouvido muito "Orange Lady" [do tecladista Joe Zawinul], que foi gravada no dia 19 de novembro de 1969 mas só lançada bem depois, no LP Big Fun de 1974:

São esses os instrumentistas:
Miles Davis (trumpete);
Steve Grossman (saxophone soprano);
Bennie Maupin (clarineta baixo);
Herbie Hancock (piano elétrico);
Chick Corea (piano elétrico);
John McLaughlin (guitarra);
Khalil Balakrishna (sítara);
Bihari Sharma (tabla, tamboura);
Ron Carter (baixo);
Harvey Brooks (baixo elétrico);
Billy Cobham (bateria);
Aírto Moreira (percussão).

Aproveito para colocar um trecho interessante de um bom texto sobre as gravações dessa época, que coloca de forma interessante a questão do improviso:
During this stage in his career Miles appeared almost obsessed with incorporating as many disparate musical influences as possible, seemingly using anything or anyone he could lay his hands on. The question has often been asked whether Miles had a vision for the end result or was just randomly throwing things into his cauldron, and was as surprised by the results as anyone else.
“I think that Miles definitely had a vision,” Dave Holland commented. “But when you put together improvised music, you’re dealing with musicians and their approach and style of playing. One of the things I learnt from Miles is that you don’t come in with a fixed vision. The vision is there, but it is not finished. The composition a classical composer writes is finished, and all musicians do is interpret it. Improvised music is different. Part of your palette is the musicians you’re working with, and so with this group it will come out one way, and with that group it will come out another way. So if you ask me, ‘Did Miles have a vision?’ I’ll say ‘Yes.’ But ask, ‘Did he know what the end result would sound like?’ and I’d have to say ‘No.’ He couldn’t. When he was putting something together, he was listening and selecting what he liked. To me this is the great art of putting together improvised music. Miles worked in the tradition where you create a form that’s clear, but that also has enough room for the musicians to be creative with. Miles was giving us a context for the music, and then we found what we could do within that context.”
Vivemos tempos muito ensaiadinhos, obcecados por "produtos" artísticos "well made" [o termo é usado para scripts que amarram com capricho todas as suas pontas] e é interessante contrastar isso de vez em quando com a espontaneidade e da coragem de outros tempos. Fazia-se muita porcaria também, mas isso fazemos hoje aos montes, deve ser inevitável.

Monday, December 17, 2012

Metralhadoras e circo em Newtown

1. Newtown fica a menos de 45 minutos de New Haven, perto de Danbury, que costumava ser um centro importante de imigrantes brasileiros aqui em CT. 40 funcionários/professores de Yale moram lá. É uma cidadezinha como outra qualquer de um estado americano que não é conhecido pela defesa ferrenha das armas de fogo;
2. Newtown é sede de uma associação chamada National Shooting Sports Foundation, que atua na defesa dos "direitos" de qualquer cidadão ter a sua metralhadora em casa;
3. Ainda em 2012, após reclamações constantes por causa de barulho, a cidade tentou criar leis restringindo um pouco o uso de armas de fogo. Os proponentes eram policiais e caçadores registrados da região que se preocupavam com o problema;
4. A segunda reunião sobre o tema foi invadida por um número considerável de gente opondo-se radicalmente a qualquer restrição e a proposta acabou sendo arquivada;
5. Entre os proprietários desse tipo de armamento estava a mãe de Adam Lanza, que ensinou aos dois a atirar e acreditava na possibilidade de  um colapso eminente da civilização;
6. O resto todos conhecem. Os jornais entopem suas primeiras páginas de fotografias de crianças assassinadas e deve haver mais repórteres agora que a população inteira da cidade de Newtown enchendo a paciência de qualquer padeiro da cidade da cidade por mais uma entrevista lacrimosa e perseguindo os familiares das vítimas incessantes;
7. Meu único contato com a mídia é pelo rádio no carro e pelos jornais na internet - assim nossa casa é mais ou menos imunizada contra a histeria coletiva que se espalha pela região. In infelizmente meu filho deve estar agora na escola entregue a essa obsessão pelos detalhes mais insignificantes da tragédia e pela paranóia geral - ouvi no rádios que os pais tem procurado as escolas para pedir mais "segurança".

Friday, December 14, 2012

Recordar é viver: o tamanho do nosso atraso

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Esse é um retrato montado a partir da leitura de trechos do livro Anos de Capanema [online aqui] em busca do DNA político um certo sociólogo francês articulador das teses do Dualismo]

1. Em 1939 o Brasil tinha 629 estabelecimentos de ensino. 530 particulares e 99 públicos, dos quais 43 no estado de São Paulo.

2. Foram fechadas mais de 700 escolas que ensinavam seus alunos em línguas estrangeiras naqueles anos de febre nacionalista - os alemães e os japoneses eram os mais prejudicados.

3. O ensino secundário era pensado como algo feito apenas para formar as elites do país, dando aos jovens mancebos “uma formação moral e ética, consubstanciada na crença em Deus, na religião, na família e na pátria” (209).

4. E frente ao problema de um largo contingente de crianças de 11 anos, que não conseguiam entrar na escola do ensino médio mas ainda não podiam trabalhar, a ilustrada FIESP propunha ao governo reduzir para 11 o limite de 14 anos para o trabalho legal.

5. Enquanto isso a Universidade do Distrito Federal idealizada por Anísio Teixeira em 1935 era impiedosamente bombardeada por Alceu Amoroso Lima que reclamava de diretores de faculdades “que não escondem suas idéias e pragação comunistas” (227). Os professores? Jorge de Lima, Sérgio Buarque de Holanda, Mário de Andrade, Villa-Lobos, Portinari, entre outros.  Em 1937 Capanema entrega a reitoria da UDF para…. Alceu Amoroso Lima! E segue-se a extinção em 1938, sem dó nem piedade. Mais de 500 alunos e 50 professores no olho da rua sem choro nem vela.

6. O núcleo do projeto do governo federal para o ensino superior era a formação da Universidade do Brasil [hoje UFRJ] a partir de um ajuntamento de escolas de ensino superior que atendia desde 1920 pelo nome de Universidade do Rio de Janeiro. A Universidade do Brasil devia “fixar o padrão do ensino superior em todo o país” (223). O time de professores franceses contratados para dar corpo ao projeto é vetado cuidadosamente por ninguém menos que… Alceu Amoroso Lima! São “professores habituados à pesquisa e de estudos bem orientados, mas ligados à Igreja” (232).

Wednesday, December 12, 2012

Feliz Aniversário, Belo Horizonte


Foto minha: aí estão elas...
Belo Horizonte de Pedra  

De onde veio essa pedra
que o asfalto agora afoga?

Do Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras.

Quem, lá do alto,
perfurava blocos
no Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras?

Quem, logo abaixo,
broqueava rocha
no Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras?

Quem, logo ao lado,
tinia a marreta
dos cavoqueiros
nos blocos de pedra
de cor igual?

Quem catava com a alavanca
e puxava para a prancha
tanta pedra
tão manchada de suor
no Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras?

Quem, no telheiro,
desbastava os blocos,
retinindo os picões
no Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras.

Quem, na ferraria,
reapontava as brocas velhas,
cansadas da guerra
no Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras?

De onde veio essa pedra
que o asfalto agora afoga?

Do Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras.

De onde veio essa saudade
do que nunca aconteceu?

Do Acaba Mundo, Carapuça
Prado Lopes, Lagoinha,
e o Morro das Pedras?


A origem desse poema, agora de aniversário, está nessa descrição que Abilio Barreto publicou no jornal A Capital em 1897:
" Alí o trabalho é intenso, junto aos enormes blocos de pedra de uma cor igual, tiniam as marretas dos cavouqueiros, ouvia-se a cantarola dos operários, ritmando o seu árduo labor, alavancas em punho, movendo pedras para as pranchas; no telheiro o picão retinia, desbastando grandes pedaços de pedra, preparando-as para as obras. 
Na ferraria, diversos trabalhadores pontavam as brocas.
Do alto da pedreira era lindo o panorama de Belo Horizonte, ao longe. Alí os operários perfuravam um bloco cantando uma canção melancólica, ao passo que em baixo a turma de operários broqueava as rochas."

Perplexidades

Vivo há 6 anos nos EUA dando aulas na universidade e tendo contato com alunos americanos, mas as perplexidades mútuas e os estranhamentos continuam. Aqui vão alguns:
1. Tenho uma dose muito grande de ironia para com a seriedade que eu tinha com relação ao futebol porque vejo meus alunos envolvidos em longas discussões sobre baseball e futebol americano e elas me parecem completamente absurdas. Tenho certeza que as horas e horas gastas com conversas sobre técnicos e gols e esquemas táticos de futebol são tão absurdas quanto aos olhos e ouvidos de alguém vê o futebol com o mesmo olhar que eu tenho para o Badmington;
2. Meus alunos simplesmente não conseguem entender a obsessão dos brasileiros, ainda mais dos brasileiros adultos, com a Disney. Suponho que para eles é como se todo estrangeiro adulto que fosse ao Brasil e passasse uma semana no Parque da Turma da Mônica;
3. Meus alunos, em geral, não vêem grandes diferenças entre as novelas brasileiras e as novelas mexicanas - talvez um pouco mais de sexo. Depois de anos sem assistir, também não vejo mais grandes diferenças;
4. Em termos de cinema meus alunos chegam à minha aula, em geral, sem conhecer mais que, no máximo, Cidade de Deus, Tropa de Elite e Central do Brasil;
5. Meus alunos em geral gostam muito de Tupac e de Beyoncé - muitos deles nem sabe quem é, por exemplo, Cole Porter;
6. Meus alunos têm uma tendência a pensar no sistema de identificação racial brasileiro como "diferente" quando na realidade é o sistema americano que é bem diferente;
7. Meus alunos ficam surpresos quando eu digo que nos últimos 20 anos o presidente brasileiro nunca teve mais que 30% do congresso formado por membros do seu partido;
8. O intenso entusiasmo coletivo com o Carnaval é tão aleatório quanto o do 4 de julho;
9. Os americanos assistem sentados a concertos que no Brasil rapidamente teriam se transformado em uma grande festa dançante;
10. Os americanos tendem a aplaudir sentados a espetáculos que os brasileiros, imagino, aplaudiriam de pé pedindo bis;
11. Eu gosto muito de viver aqui, mas não tenho qualquer pretensão de me integrar à vida americana além do [pouco] que já fiz. Isso não me frustra, nem me alegra.
12. Assisto a tudo aqui [política, debates culturais, polêmicas] "de fora" e, em muitos casos, não assisto, me recuso a acompanhar certas notícias que me parecem fúteis, uma pauta ditada pela mídia que eu não quero seguir por não sentir qualquer tipo de urgência;
13. Não assistir ao JN é não ter que seguir pauta nenhuma no seu nível mais tosco, mas a pauta segue sendo dada, em qualquer lugar.


Monday, December 10, 2012

Escavando notas

"... the physical realities of the New World worked from the very beginning to deactivate the utopian ingenuity of the West."
Mari Carmen Ramírez, Inverted Utopias

Colombo escreveu ao rei em sua terceira viagem e não pode esconder sua decepção com a falta de formosura das sereias do novo mundo.


“El día pasado, cuando el Almirante iba al río del Oro, dijo que vido tres sirenas que salieron bien alto de la mar, pero no eran tan hermosas como las pintan, que en alguna manera tenían forma de
hombre en la cara. Dijo también que otras veces vido algunas en Guinea, en la costa de Manegueta”.
 Cristóbal Colón, quarta-feira 9 de janeiro de 1493 

Friday, December 07, 2012

Só um quadradinho


Imaginem um quadrado pequenino do território de um país imenso como o Brasil. Uma área rural, em geral pobre, atormentada por secas periódicas e pontilhada por cidades pequenininhas. Desde quadradinho vieram:
• a inspiração para um dos melhores poemas do nosso romantismo;
• uma cidade praticamente construída por um místico que até hoje é venerado/detestado ardentemente [e aliás por aqui passou um outro místico, que se estabeleceu não muito longe dali como veremos],
• um bandido/rebelde que se tornou uma das figuras míticas mais impressionantes da cultura brasileira;
• uma impressionante poesia popular de raízes orais;
• ali um pioneiro da industrialização brasileira construiu uma das primeiras usinas hidroelétricas do país e virou herói de cinema;
• ali um dos melhores prosistas brasileiros foi prefeito e escreveu relatórios famosos,
• dali saiu um dos maiores compositores e músicos populares do Brasil para cantar na diáspora do “sul-maravilha” a saudade da sua terra;
• ali, logo ao lado, existiu, ao sul, uma comunidade de miseráveis seguidores do tal místico que passou por esse quadradinho, uma cidade e um líder religioso que são personagens de um dos melhores livros do país;
• ali, logo ao lado, existiu, ao norte, o quilombo mais famoso da história colonial;
• ali logo ao lado existiu, à leste, uma das organizações pioneiras da luta pelo acesso à terra no Brasil, onde fez-se aliás um dos maiores documentários do país;
•Dali também veio o primeiro presidente de origem proletária no Brasil e um dos mais populares de todos os tempos.  
E eu nem vou a Recife, a leste, porque senão vira covardia e eu tenho mais o que fazer.
 
No ensaio “Colonialist Criticism” Achebe critica duramente o discurso crítico que parte do que ele define como “the assumption that when you talk about a people’s ‘level of development’ you define their total condition and assign them an indisputable and unambiguous place on mankind’s evolutionary ladder; in other words, that you are enabled by the authority of that phrase to account for all the material as well as spiritual circumstance.” Ele resume de forma mordaz esse tipo de discurso como “Show me a people’s plumbing, you say, and I can tell you their art”.


Wednesday, December 05, 2012

Sinceramente

Uma pedacinho do novo livro de Salman Rushdie:

"The immortal writers of the past were his guides. He was not, after all, the first writer to be endangered or sequestered or anathematized for his art. He thought of mighty Dostoyevsky facing the firing squad and then, after the last-minute commutation of his sentence, spending four years in a prison camp, and of Genet unstoppably writing his violently homoerotic masterpiece Our Lady of the Flowers in jail…. Rabelais too had been condemned by religious authority; the Catholic Church had been unable to stomach his satirical hyperabundance. But he had been defended by the king, François I, on the grounds that his genius could not be suppressed. Those were the days, when artists could be defended by kings because they were good at what they did. These were lesser times."

Midnight's Children é um romance magnífico agora, sinceramente, o cara escreve sobre ele mesmo na terceira pessoa e se compara a Dostoyevsky, Genet e Rabelais no mesmo parágrafo... e depois acha que o Aiatolá deveria te-lo protegido pela qualidade excepcional da sua prosa! Recomendo a resenha interessante de Zoë Heller, onde ela coloca certos pingos em certos iis. Principalmente no contraste entre as grandiloqüentes ideias da literatura como salvação da humanidade e os seus grandes profetas, gente como Rushdie e Vargas Llosa, esses distintos dinossauros que viajam o globo espalhando generosamente sua sabedoria implacável sobre as nossas cabecinhas:

"The job of literature, he instructs us in the final pages of this memoir, is to encourage “understanding, sympathy and identification with people not like oneself…to make the world feel larger, wider than before.” Some readers may find, by the end of Joseph Anton, that the world feels rather smaller and grimmer than before. But they should not be unduly alarmed. The world is as large and as wide as it ever was; it’s just Rushdie who got small."

Flagrante de um leitor sem livro recebendo a graça divina das sábias palavras Salman Rushdie

Tuesday, December 04, 2012

Prosa minha


Instituto do Patrimônio Histórico de Montezuma

... the imagining of fraternity,
wihout which the reassurance of fraticide
cannot be born...
Benedict Anderson, 202

Em Montezuma há uma forma de lembrar o passado que funciona como a forma mais efetiva de esquecimento que eu conheço. Ao invés de ignorar um passado incômodo qualquer fingindo que ele não está ali fedendo na sala de visitas, essa nossa forma de lembrança faz o seguinte: toma-se o bicho com as mãos, arranca-lhe as tripas, enche-lhe com palha, joga-se-o de volta na cova onde ele estava, mija-lhe gasolina em cima e joga-se um fósforo aceso. Aí dançamos em volta do fogo por três dias e pronto: nove meses depois nasce na sala de jantar uma bela e frondosa estátua equestre, completa com capa, espada, escudo e coroa de louros. A ela adoramos, a ela louvamos, a ela dedicamos todos os pombos de Montezuma.


Monday, December 03, 2012

Recordar é viver

Está no centro do Rio de Janeiro a Matriz de Santa Rita, centro do poder de José Caetano Ferreira de Aguiar
1828. Ainda faltam dois anos para o Brasil cumprir seu acordo com a Inglaterra: em troca do reconhecimento da independência, o fim do tráfico de escravos. Registram-se a chegada de 45.870 escravos africanos ao Rio de Janeiro. São mais de cem por dia, todos os dias do ano, em média. 2.019 deles chegam mortos ou morrem logo depois que chegam e são enterrados num mais ou menos do tamanho de um campo de futebol. A freguesia de Santa Rita ganha uma fortuna com esse cemitério, onde um par de escravos despeja os corpos de qualquer jeito em valas comuns rasas, enterrados sem esquifes nem mortalhas. O vigário geral do bispado e da matriz de Santa Rita, José Caetano Ferreira de Aguiar, chegou a senador do império de 1826 a 1836, com direito a retrato como benfeitor da Casa de Misericórdia. Protegido do Bispo José Joaquim Justiniano, sexto bispo do Rio de Janeiro, morto em 1805.