Wednesday, March 30, 2011

Retalhos costurados: Os dinossauros não estão extintos


[ilustração: essa cena reproduz o momento em que o Tiranossauro Bolsonaro, enfurecido com os filhos que acabavam de chegar na madrugada da terça-feira de carnaval vindos do baile do orgulho gay-afro-cubano, perseguia os filhos para dar-lhes uma chuva de torturas terapeuticas.]


Reagir com indignação aos três patetas do apocalipse da família Bolsonaro é, na minha opinião, bater em cachorro morto. Reagir com espanto é fruto de ingenuidade ou ignorância. Reagir com ironia, portanto, foi meu primeiro instinto:


Está lançada a campanha "Ajude os Bolsonaros a Soltar a Franga e Sair da Lama": alguém aí conhece um cubano socialista, negro, gay e com espírito cívico suficiente para se animar a dar um bom abraço fraterno nesses três patetas do apocalipse? O planeta terra, o Brasil e principalmente o Rio de Janeiro de São Sebastião Maia agradecem.


Mas também não acho que seja adequado ficar fingindo que os dinossauros agora são mais ou menos inofensivos, fazendo apenas piruetas grotescas no circo da mídia. Mais uma vez, um post de João Vilaverde deu o mote para a minha glosa ao comentar reportagem recente sobre comemorações do golpe de primeiro de abril [já repararam que a coisa toda já tinha começado como farsa quando resolveram marcar o golpe pela data da saída dos tanques e dos soldados dos quartéis, uma vez que Jango caiu mesmo no dia da mentira?]. Na dita reportagem transcrevem esse trecho de um dos discursos:


"O Brasil vem mantendo a sua versão de democracia, não uma democracia de fato. Sub-repticiamente, nós vivemos hoje sob uma tirania. Está em pleno andamento hoje uma república sindicalista."

Sandra Cavalcanti, 25 de março de 2011.


Há seis meses atrás essa cantilena das viúvas da ditadura virava componente do discurso de um candidato a presidente supostamente progressista:


"Diziam que existia uma República sindicalista no período de Jango. Eles eram anjos. República sindicalista existe agora"

José Serra, 15 de julho de 2010


Bom, antes de qualquer coisa, no espírito do “recordar é viver”: tanto o brontossauro emplumado com cara de vampiro como a tiranossaura que cospia fogo nos mendigos do Rio de Janeiro estão se referindo a uma velha fantasia mentirosa de um outro velho pássaro emplumado, um corvo chamado Carlos Lacerda:


"Vamos recordar um episódio conhecido como Carta Brandi. Foi divulgado o texto de uma carta que um peronista de nome Brandi teria mandado ao Jango propondo a criação de uma república sindicalista na América Latina, a partir de um eixo Brasil-Argentina. O petardo partiu da Tribuna mas logo surgiram desconfianças de que a assinatura da carta era falsa. Nesse meio tempo, o Perón caiu. O Lacerda foi à Argentina e eu o acompanhei com a missão de levantar a 'autenticidade' da carta. Descobri que a assinatura era de fato falsa. Avisei ao Lacerda. Ele disse: 'você não tinha nada que descobrir. O Jango que descobrisse'".

Newton Carlos, ex-repórter da Tribuna da Imprensa em depoimento sobre o caso de 1955 feito em 2002


Para completar, cito a sabedoria profética do grande contista guatemalteco [país de larga e triste tradição dinosáurica]:


El Dinosaurio

Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.

Augusto Monteroso, 1959


Tuesday, March 29, 2011

A "renovação" faz 45 anos e Glauber Rocha estava lá

Cada vez que chega as eleições no Brasil os piores candidatos ficam falando que são o "novo" e que querem "renovar". Bem nada mais velho que esse papo de novo. Exemplifico através de um filme que conheci em um dos blogues mais interessantes que eu conheço: há 45 anos esse tal "novo" tinha chegado ao poder no governo do Maranhão e para documentar seu triunfo com estilo decidiu chamar ninguém menos que um já consagrado Glauber Rocha para documentar a posse. O resultado é profético:

Friday, March 25, 2011

Diário de Pindorama

[ilustração: Após mudar seu penteado para tentar fugir do ódio popular depois de ter sido flagrada trocando poemas alheios por dinheiro público, vemos aqui foto de Maria Bethânia para a sua ficha na polícia cultural. Notem, por favor, o olhar altaneiro e desafiante da vilã.]

Nossa visão de nós mesmos é paradoxal. Gostamos de pensar que somos gentis e afáveis mas também sabemos que nos matamos diariamente uns aos outros como se estivéssemos em plena guerra civil. Da mesma forma, gostamos de pensar que somos uma sociedade tolerante mas, de tempos em tempos, escolhemos um bode expiatório para saciar nossa sede de indignação hipócrita e o ódio então parece uma espécie de esporte nacional.

Um exemplo:

A deputada que dança quando um companheiro de partido é absolvido depois de um escândalo vira capa de revista e de jornal e objeto central do aparente ódio nacional à corrupção [e eis aí mais um paradoxo: como é que podemos ser tão corruptos e odiar tanto a corrupção?]. De repente, era como se estivesse ela mesma mais envolvida no tal escândalo que o tal sujeito. Mas, “quem era ele mesmo?”: nossa amnésia seletiva é algo para se estudar também. Como sou adepto do lema “recordar é viver”, aí vai: o deputado em questão era João Magno, ex-prefeito de Ipatinga, acusado de lavar uns 200.000 dólares na agência de publicidade do sócio do vice-governador do mesmo estado, quantia que é uma enormidade para mim mas café pequeno perto de 1,7 bilhão de dólares de apenas UM dos depósitos feitos em UMA das contas de lavagem de dinheiro do banco de Daniel Dantas. Dançando entre quatro paredes estavam e estão muitos empresários [de onde veio o dinheiro?], outros políticos e inclusive jornalistas aprendizes de Carlos Lacerda que continuam as mesmas práticas corruptas e o mesmo jogo de cena de sempre, em que o indignado de hoje é o pragmático de amanhã e vice-versa.

Outro exemplo parecido: Fernandinho Beira-Mar, o maquiavélico gênio do mal responsável por todos os males criminais do nosso país, está preso faz tempo e, que eu saiba, o tráfico de drogas não diminuiu em nada – aliás qualquer redução na oferta implicaria apenas num aumento do preço do produto disponível na praça.

E ainda mais um exemplo: de 4 em 4 anos, depois de uns seis meses de euforia induzida em nome da venda de desodorantes da copa, TVs da copa, guaranás da seleção, cervejas canarinho, carros da copa etc, se não ganhamos a tal Copa do Mundo escolhemos sempre uns dois ou três judas para pagar pelo nosso “terrível desastre”, o “fracasso nacional”, o “vexame” etc.

Não se trata de simpatizar com deputados dançarinos, traficantes talentosos ou jogadores de futebol milionários, nem de concordar com o que eles fazem e fizeram ou deixam e deixaram de fazer, mas apenas constatar que todo esse auê trata-se de uma cortina de fumaça para evitar conversar sobre coisas mais complicadas e desagradáveis que esses arremedos de enredo de novela das oito.

Chego agora ao caso em questão:

Parece que Maria Bethânia fez o que vários outros fizeram e continuam fazendo desde que a lei Rouanet foi criada como um paliativo para a paralisação completa das agências públicas de apoio à cultura, delegando na prática à iniciativa privada a decisão do que merece ou não ser financiado com dinheiro público: montou um projeto e obteve permissão para buscar financiamento privado para o mesmo em troca de renúncia fiscal. Nesse caso, pelo que eu sei, era um projeto para filmar/gravar poemas recitados pela Bethânia e disponibilizá-los gratuitamente online.

Sinceramente não sei de mais detalhes e acho que não faz muita diferença para a observação que eu quero fazer: financiaram-se assim MILHARES de projetos, de excelentes a péssimos, de perdulários a econômicos, de relativamente modestos a megalomaníacos. Para ser mais específico, em 2010 foram apresentados 12.825 projetos [56% deles aprovados ainda que apenas 25% tenham conseguido captar recursos] num montante de R$ 1.270.800.432,14 [fonte]. Em outras palavras no ano passado parece que pouco mais de 3.000 projetos conseguiram dinheiro de fato a partir da decisão de alguém dentro de uma grande empresa que decidiu neles “investir” [as aspas aqui porque afinal de contas o dinheiro é do contribuinte, não deles]. Entre eles o tal projeto da Bethânia.

Esse assunto só costumava chegar aos jornais quando algum cineasta ou ator de teatro com trânsito na imprensa expressa indignação porque seu projeto não foi aprovado. Ou quando os vendedores de indignação pegam alguém para linchar. Imagino uma conversa nacional assim:

“- Ei, vamos aproveitar para conversar sobre a lei Rouanet e discutir o papel do estado na cultura?

- Ora, mas que conversa mais chata! Vamos simplesmente aproveitar que Maria Bethânia é a encarnação mensal da Odete Roitman no jornal e nos sentir indignados todos juntos mais uma vez!”

Em outras palavras, um pouco cansado desse estar cansado [como era mesmo o nome daquele movimento cívico de indignação?], observo com tristeza que escolheram logo a Bethânia para fazer a dança da pizza nesse começo de ano e prefiro escutar de novo o belo CD que ela gravou com Omara Portuondo que descobri graças ao Limas da Pérsia:



Wednesday, March 23, 2011

Deep Undercurrents 1



Song of Alice

She was the ... the patron saint of 23rd Street. She was around for a lot of time, she ...
wandering around the hotel hallways in the middle of the night, carrying a little ... yellow cardboard box.


And she... inhabited the place, like a ... butterfly. There was this kind of sadness about her and they...
and she did have this light...
and nobody ever knew her real name.

Those times, I see her coming on a,
stepping through broken bottles and gum, carrying her shoes, barefoot.
People said she was crazy, but I ...


About six months before the fire, there was a ... big blackout, famous summer blackout.
She walked around through the halls, giving everyone candles.
Scared everybody away in the end.
And when the fire happened, you know,
everybody assumed it was her. Terrible fires all that year and little ones.
I don't know if it was fair or not,
but everybody blamed her for it.



And then one day, she ... she just vanished.

And later, they ... said her name was Alice. The whole time, I never knew her name.

Letra de “Song of Alice” de Keren Ann e Sean Gullete


"Sei que não atentaram na mulher; nem fosse possível. Vive-se perto demais, num lugarejo, às sombras frouxas, a gente se afaz ao devagar das pessoas. A gente não revê os que não valem a pena. Acham ainda que não valia a pena? Se, pois, se. No que nem pensaram; e não se indagou, a muita coisa. Para quê? A mulher - malandraja, a malacafar, suja de si, misericordiada, tão em velha e feia, feita tonta, no crime não arrependida - e guia de um cego. Vocês todos nunca suspeitaram que ela pudesse arcar-se no mais fechado extremo, nos domínios do demasiado?

Soubessem-lhe ao menos o nome. Não, pergunto, e ninguém o intéira. Chamavam-na de a Mula-Marmela, somente, a abominada. A que tinha dores nas cadeiras: andava meio se agachando; com os joelhos para diante. Vivesse embrenhada, mesmo quando ao claro, na rua. Qualquer ponto em que passasse parecia apertado."

Trecho do conto “Benfazeja” de Guimarães Rosa

Tuesday, March 22, 2011

Convite em Ladino

La Sosiedad de Estudios Kripto-Judios (Society for Crypto-Judaic Studies)

va tener su

21en kongreso del 7 a 9 Agusto en

San Diego, California.

Envitan a partisipantes ke keren dar konferensia sovre kualker tema relasionado kon kripto-judaismo, ansi ke aspektos de la istoria i vida sefaradi.

Todo el ke kere partisipar kon una "ponensia" (konferensia, diskorso) es envitado de mandar un resume de 200 biervos de su ensayo, antes del 1 Mayo 2011, a

Seth Ward (prof. Religious Studies, University of Wyoming) : sward@uwyo.edu

Monday, March 21, 2011

Primavera em New Haven

[Ilustração: quando se sente sozinho por essas bandas glaciais, o alegre cidadão ao lado pode sempre bater um papo bem humorado com suas roupas congeladas.]

E finalmente chegou a primavera na Nova Inglaterra: 2ºC e neve com chuva lá fora...

Acho que só mesmo quem já passou um ano inteiro num lugar com clima temperado sabe o que é esperar pela primavera em março. Ou quem lê esse blogueiro de 1/2 tigela. Outro dia li num blogue brasileiro uma pessoa falando [e várias comentando] indignadamente sobre como os americanos estúpidos e desperdiçados não põem as suas roupas para secar num varal e ficam usando secadoras de roupas que consomem energia e me dei conta que aprendi coisas sobre as quais a maioria dos meus compatriotas não tem a menor idéia. Onde eu vivo, se você pendurar uma cueca num varal do lado de fora da casa entre outubro e abril, você pode jogar disco com sua cueca depois, mas se você chegar perto da praia de outubro a abril você tem que estar usando umas duzentas camadas de roupas, inclusive no rosto [e recomendo destapar os olhos por medidas de segurança, mas vou logo avisando por experiência própria que é possível alguém sentir frio nos olhos].
Bom, porque março é o pior mês? Você já está de saco cheio do frio que começou - na sua humilde opinião de exilado dos trópicos - em outubro do ano passado, quando os termômetros começaram a ficar permanentemente abaixo de 5ºC. Neva, não neva, neva demais, neva de menos e os meses vão passando lentamente - seus amigos esportistas americanos saem todos animados para esquiar e voltam com as caras insuportavelmente saudáveis com queimaduras do vento gelado e você se sente um ET - não, você é um ET. Repito: o pior mês de todos, disparado, é março, quando os calendários anunciam uma primavera que definitivamente ainda não chegou. Tudo bem que as minhas tulipas e lírios já começaram a despontar da terra - um verdadeiro milagre depois de meses completamente enterrados debaixo de neve e gelo - e que eu já até plantei cebolas, alfaces e rabanetes. Mas essa neve com chuva na segunda-feira serve como aviso: a primavera por aqui só começa na segunda metade da primavera do calendário. Por isso estou aqui, escondido no último andar da bilbioteca de ciências humanas e sociais, escondido no meio de mais de 15 milhões de volumes: para me lembrar porque é que eu vim parar aqui nesse frio.

Pelo menos agora a neve cai e já se derrete - estamos acima de zero.

Sunday, March 20, 2011

Prosa minha: Ano da Fumaça

Há coisas que estão aí mas a gente não vê; só cogita na existência delas quando o destino faz um movimento mais brusco e nos dá um tranco. Sem aviso nem explicação, o tranco nos obriga a mover e assim deita a rodar a roda da história. Ali as opções são três: tentar fugir, tentar se matar ou, na falta de talento, força ou coragem, viver no fogo lento daquele inferno. Mas essa clareza eu só tive mesmo quando vi aquela cara rasgada, a cabeça rachada em gomos feito uma fruta amassada soltando um caldo grosso que empapava o chão. Mesmo que agora o Ano da Fumaça esteja num canto cada menos visitado da memória, me lembro ter sentido naquela hora exatamente o que sinto agora: nojo e medo mas também uma forma de êxtase, uma felicidade cristalina, difícil de explicar. Ali naquele momento eu não apenas entendi o que eu era e quais eram as minhas opções; eu também saí de um estupor de anos e a covardia já não era mais capaz de me paralisar. Ainda em choque eu cheguei mais perto e dei com a minha enxada naquele resto de cara em carne viva que se afundava na terra enlameada.
Trecho de conto em que ando trabalhando faz tempo.

Wednesday, March 16, 2011

Música que fez minha cabeça: Waterboys


Fisherman’s Blues

Mike Scott

I wish I was a fisherman
tumbling on the seas
far away from dry land
and its bitter memories
casting out my sweet line
with abandonment and love
no ceiling bearing down on me
save the starry sky above
with light in my head
with you in my arms...

I wish I was the brakeman
on a hurtling fevered train
crashing head long into the heartland
like a cannon in the rain
with the feeling of the sleepers
and the burning of the coal
counting the towns flashing by
and a night that's full of soul
with light in my head
with you in my arms...

And I know I will be loosened
from the bonds that hold me fast
and the chains all around me
will fall away at last
and on that grand and fateful day
I will take thee in my hand
I will ride on a train
I will be the fisherman
With light in my head
You in my arms...

Light in my head
You in my arms...

Light in my head
You...

With light in my head
You in my arms...


O nome da banda eu acho péssimo, mas esse disco dos Waterboys particularmente é sensacional e nele a música que eu mais gosto é justamente essa. Eu escutava essa música e a minha vontade era chutar o mundo inteiro e sair correndo da minha própria vida, que na época era de uma mediocridade de dar dó. O nome aponta para um blues, mas a estrutura emocional da canção é de um samba de Cartola: triste mas alegre ou alegre mas triste. Só que com o coração na mão. E eu ainda continuo esperando - sem desespero - pelo meu "grand and fateful day"... que não há de chegar tão cedo.

Monday, March 14, 2011

Música: Yasmin Levy


O ladino é uma língua em vias de extinção. Era o iídiche dos judeus da península ibérica e a expulsão dos judeus no mesmo ano em que Colombo zarpava rumo às "Índias" espalhou a língua por outras partes do mediterrâneo. O ladino é um primo nosso, uma língua mais próxima de nós do que nossa visão simplista de Iracemas e Caramurus indica. Era provavelmente a língua de muita gente boa e ruim que chegou aqui no período colonial. Tal era a porcentagem de judeus entre os portugueses que na América espanhola os sobrenomes portugueses eram quase sinônimo de "sangue impuro". Yasmin Levy nasceu em Israel e faz aqui uma versão contemporânea de um hino tradicional em ladino.

Irme kero

Irme kero, madre, a yerushlayim [yerushlayim: Jerusalém]

komer de sus frutos, bever de sus aguas

Refrão: En el me arrimo yo [arrimar: apoyar]

i en el m'afalago yo [afalagar: consolar]

en el senyor de todo’l mundo [2X]

Y el Bet Amikdash lo vor d'enfrente
 [Bet Amikdash: Beit HaMikdash, O Templo]

A mi me parese la luna kresiente

Refrão

i lo estan fraguando kon piedras presiozas [fraguar: construir]

i lo estan lavorando kon piedras presiozas [lavorar: lavrar, trabalhar]

Refrão


Sunday, March 13, 2011

Reciclar o Lixo Literário?

[Foto: Jardim Gramacho de livro de Marcos Prado]

“Sem espaço para a crítica, criou-se uma espécie de não literatura dentro da literatura. Há muito lixo. E quem vai selecionar isso? Quem se interessa em editar isso? A voz do crítico perdeu ressonância. O papel dele era refletir sobre o texto e levá-lo ao conhecimento dos outros, gerando discussão. Agora, não há mais ninguém para ordenar esse diálogo.”
Benedito Nunes, citação de artigo na revista Cult.

Friday, March 11, 2011

Poesia Minha - Divertimento



































[Ilustração: still do filme Alma do osso de Cao Guimarães]

Pai e mãe é muito bom

Barriga cheia é mió:

Quem tem barriga cheia

Tem pai, tem mãe, tem vó.

Canção do Rio São Francisco

Quando eu era criança

toda a criança queria

crescer e não ser criança

pra poder nadar no rio

o dia inteiro, em paz.


Quando eu era criança,

na outra margem do rio

os moleques se gabavam

do preço que eu não tinha

quando eu era criança.


Quando eu era criança,

n’água morna da beirinha,

puxando ronco, brincando,

caçando piabas e girinos,

moles, soltos toda-a-vida.


Quando eu era criança,

coisas velhas, esquecidas,

teimam em não se apagar:

O homem da rua saiu

quando eu era criança.


Valham-me as nove almas,

saiu o Não-sei-que-diga!

Três morreram enforcadas!

Eh-vem o cão-coxo, mofino!

Outras três foram queimadas!


Quando eu era criança

saiu de mim meu moinho.

Três morreram afogadas!

Nove almas na farinha

do pão que ele amassa.


Quando eu era criança

tropeiro na troca firme,

dura baldroca cigana:

boçal, crioulo e ladino,

lado a lado na mercança.


Quando eu era criança,

carne sua, carne minha

carne dura, carne fraca,

carne pai e carne filha,

carne mole, carne brava.


Quando eu era criança

eu também sou da família

também tenho carne lá.

Quem amansa o sinhozinho

é cipó timbó amassado.


Quando eu era criança

o que esquenta fica frio

na barra da saia-branca.

Cabaça-preta desanima,

tingui-capeta quebranta.


Quando eu era crianca,

o que dele mata o brio

é reza-brava Africana;

chá d’alface faz dormir

sonho de sono pesado.


Quando eu era criança,

do outro lado do rio

também queriam crescer

e pelejar todo dia

no eito bravo no sol.


Quando eu era criança,

porque lá não se comia

amontoado no cocho,

porque lá não se comia

feito porco na ceva.


Todo mundo quer ser gente.

Thursday, March 10, 2011

Sobre escritores 7


"Chekhov was never confortable as a playwright. 'Ah, why have I written plays and not stories!' he wrote to Suvorin in 1896. 'Subjetcs have been wasted, wasted to no purpose, scandalously and unproductively.'" [...] “I am not destined to be a playwright. I have no luck at it. But I’m not sad over it, for I can still go on writing stories. In that sphere I feel at home; but when I write a play, I feel uneasy, as though someone were peering over my shoulder.”
[
Reading Chekhov - A Critical Journey, Janet Malcolm, 170]
Escrever para teatro não é fundamentalmente diferente, mas exacerba a questão da recepção na cabeça de quem escreve, já que no teatro essa recepção é um fantasma que no dia da estréia torna uma forma concreta, de carne e osso, direta e imediata. O público teatral não é uma abstração como "o leitor". Ele se levanta e vai embora ou cochila na cadeira ou começa a conversar ou não ri nos momentos engraçados ou não aplaude no final ou vaia. O teatro põe o artista na corda bamba.

Tuesday, March 08, 2011

Alalaô on the Rocks 3 - Carnaval em Vera Cruz


[Ilustração: George Condo documenta foliões performáticos durante pausa para café e cigarro na concentração da Sapucaí.]

" Con grandes dificultades llegó a la esquina elegida. El calor y el estruendo informe, la promiscua continuidad de tantos extraños le provocaba un malestar confuso. Entre aplausos apareció la descubierta de charros y chinas poblanas. Bajo gritos y música desfiló la comparsa inicial: los jotos vestidos de pavos reales. Siguieron mulatos disfrazados de vikingos, guerreros aztecas y penachos de rumbera.
Desfilaron cavernarios, kukluzklanes, la corte de Luis XV con sus blancas pelucas entalcadas y sus falsos lunares, Blancanieves y los Siete Enanos (Adelina sentía que la empujaban y las manoseaban), Barbazul en plena tortura y asesinato de sus mujeres, Maximiliano y Carlota en Chapultepec, pieles rojas, caníbales teñidos de betún y adornados con huesos humanos (la transpiración humedecía su espalda), Romeo y Julieta en el balcón de Verona, Hitler y sus mariscales llenos de monóculos y eswásticas, gigantes y cabezudos, James Dean al frente de sus rebeldes sin causa, Pierrot, Arlequín y Colombina, doce Elvis Presleys que trataban de cantar en inglés y moverse como él. (Adelina cerró los ojos ante el brillo del col y el caos de épocas, personajes, historias.)
Empezaron los carros alegóricos, unos tirados por tractores, otros improvisados sobre camiones de redilas: el de la Cervecería Moctezuma, Miss México, Miss California, notablemente aterrada por lo que veía como un desfile salvaje, las Orquídeas del Cine Nacional, el Campamento Gitano-niñas que lloriqueaban por el calor, el miedo de caerse y la forzada inmovilidad-, el Idilio de los Volcanes según el calendario de Helguera, la Conquista de México, las Mil y una Noches, sedilla de cartón, lentejuelas y trapos.
La sobresaltaron un aliento húmedo de tequila y una caricia envolvente: -Véngase, mamasota, que aquí está su rey-. Adelina, enfurecida, volvió la cabeza. ¿Pero hacia quién, cómo descubrir al culpable entre la multitud burlona o entusiasmada? Los carros alegóricos seguían desfilando: los Piratas en las isla del Tesoro, Sangre Jarocha, Guadalupe la Chinaca, Rza de Bronce, Cielito Lindo, la Adelita, la Valentina y Pancho Villa, los Buzos en el país de las sirenas, los astronautas y los extraterrestres."
Trecho de "La Reina" conto de José Emilio Pacheco

Monday, March 07, 2011

Alalaô on The Rocks 2 - Direto da Sapucaí Digital


[Ilustração: George Condo retrata flagrante de famosos do camarote da cerveja Zumbi.]
Nervosa, a ex-BBB fuma um cigarro e pergunta para seu assessor: “Como está a bunda?”. E ele: “Perfeita como sempre”.

Parte de "reportagem" sobre os "bastidores" da Sapucaí no Uol.

Friday, March 04, 2011

Em clima de Alalaô no gelo: Livros e Calcinhas?




Sexta de carnaval. Meu termômetro marca 4 graus positivos, mas ainda são três da tarde...

Amanhã na Inglaterra vão comemorar uma "Noite dos Livros" e na primeira página do site do The Guardian tem uma matéria interessante com sugestões de escritores sobre o que dar, inclusive com dicas de livros infantis.


Enquanto isso a Inglaterra também aparece hoje com destaque na primeira página do site do "Estrago de Minas": "Mais de 150 calcinhas são doadas para carnaval feminista na Inglaterra".

É como diz aquela velha canção: "quem te conhece não esquece jamais, ó Minas Gerais..."



Thursday, March 03, 2011

Razões de Estado 2

“Debemos aceptar como una realidad que en la Argentina hay personas desaparecidas. El problema no está en asegurar o negar esa realidad, sino en saber las razones por las cuales estas personas han desaparecido. Hay varias razones esenciales: han desaparecido por pasar a la clandestinidad y sumarse a la subversión; han desaparecido porque la subversión las eliminó por considerarlas traidoras a su causa; han desaparecido porque en un enfrentamiento, donde ha habido incendios y explosiones, el cadáver fue mutilado hasta resultar irreconocible. Y acepto que puede haber desaparecidos por excesos cometidos durante la represión. Esta es nuestra responsabilidad; las otras alternativas no las gobernamos nosotros. Y es de esta última de la que nos hacemos responsables: el gobierno ha puesto su mayor empeño para evitar que esos casos puedan repetirse.”

Videla, 14 de setembro de 1977





Los dinosaurios – Charly García

Los amigos del barrio pueden desaparecer
Los cantores de radio pueden desaparecer
Los que están en los diarios pueden desaparecer
La persona que amas puede desaparecer.
Los que están en el aire pueden desaparecer en el aire
Los que están en la calle pueden desaparecer en la calle.
Los amigos del barrio pueden desaparecer,
Pero los dinosaurios van a desaparecer.
No estoy tranquilo mi amor,
Hoy es sábado a la noche,
Un amigo está en cana.
Oh mi amor
Desaparece el mundo
Si los pesados mi amor llevan todo ese montón de equipajes en la mano
Oh mi amor yo quiero estar liviano.
Cuando el mundo tira para abajo
es mejor no estar atado a nada
Imaginen a los dinosaurios en la cama
Cuando el mundo tira para abajo
es mejor no estar atado a nada
Imaginen a los dinosaurios en la cama

Wednesday, March 02, 2011

Razões de Estado 1


“No, no se podía fusilar. Pongamos un número, pongamos cinco mil. La sociedad argentina, cambiante, traicionera, no se hubiere bancado los fusilamientos: ayer dos en Buenos Aires, hoy seis en Córdoba, mañana cuatro en Rosario, y así hasta cinco mil, 10 mil, 30 mil. No había otra manera. Había que desaparecerlos. Es lo que enseñaban los manuales de la represión en Argelia, en Vietnam. Estuvimos todos de acuerdo. ¿Dar a conocer dónde están los restos? Pero ¿qué es lo que podíamos señalar? ¿El mar, el Río de la Plata, el Riachuelo? Se pensó, en su momento, dar a conocer las listas. Pero luego se planteó: si se dan por muertos, enseguida vienen las preguntas que no se pueden responder: quién mató, dónde, cómo.”


General Videla, Argentina


"No más que los esperábamos, cada uno tenía su fecha y su hora, pero eso sí, sin apuro, fumando despacio, de cuando en cuando el negro López venía con café y entonces dejábamos de trabajar y comentábamos las novedades, casi siempre lo mismo, la visita del jefe, los cambios de arriba, las performances en San Isidro. Ellos, claro, no podían saber que los estábamos esperando, lo que se dice esperando, esas cosas tenían que pasar sin escombro, ustedes proceden tranquilos, palabra del jefe, cada tanto lo repetía por las dudas, ustedes la van piano piano, total era fácil, si algo patinaba no se la iban a tomar con nosotros, los responsables estaban arriba y el jefe era de ley, ustedes tranquilos, muchachos, si hay lío aquí la cara la doy yo, lo único que les pido es que no se me vayan a equivocar de sujeto, primero la averiguación para no meter la pata y después pueden proceder nomás."

Julio Cortázar, "Segunda vez"