Monday, November 30, 2009

Homero Aridjis - Sobre lo irresistible de algunas frases falsas

Hay frases que llegan con fácil belleza y casi se escriben solas, no dejan de parecernos ajenas o voces impostadas de nosotros mismos, y hay algo en ellas que nos parece falso y su sentido dice cosas diferentes a las que creemos o queremos creer, o también, subrepticiamente nos refutan. Luego, porque nos gustan, se nos pone la cuestión de elegir entre lo que aparentemente es bello y mentiroso y nuestra ruda verdad.
Pero también oralmente nos visitan, nos hablan cuando nos expresamos sobre personas, libros, cosas, situaciones, y cargadas de brillo elogian, detractan, mesuran sin que concuerde su significado con la imagen interna que nosotros tenemos o queremos tener de la persona, libro, cosa o situación a los que las aplicamos, salvo que la frase que nos parece falsa sea como una caja de doble fondo que guarda bajo su apariencia un reconocimiento, una deshonestidad, una imprecisión de juicio más nuestros que los que manifestamos en nuestras frases construidas racionalmente como verdaderas.
Ajedrez-Navegaciones, 1969

Thursday, November 26, 2009

Diário da Babilônia - Gobble Gobble


Última quinta-feira de novembro, dia de ação de graças nos Estados Unidos. Sou definitivamente um estrangeiro. O rádio traz um programa especial de DUAS horas sobre como cozinhar um peru. Editor de revista de culinária fala sobre como todas as revistas culinárias "do mundo" estão atrás de uma forma nova de assar peru. Ele descreve um "exótico" método que usa sal grosso, "igual a um churrasco", penso eu. A mobilização é geral. Um faz questão de batatas doces, o outro de purê de batata. "Ó céus como agradar a todos?" Será que o meu peru vai sair "perfeito" [em português brasileiro isso soa ainda mais estranho...].
Amanhã é o "Black Friday", abertura oficial da temporada de caça ao presente de natal. Todas as lojas têm promoções e descontos "imperdíveis". Os jornais estão abarrotados de cupons "sensacionais". Algumas lojas vão abrir às 5 da manhã. Ano passado um pobre diabo morreu pisoteado na porta do Wal Mart às cinco e meia da manhã. Sou definitivamente um estrangeiro.
Não tenho a menor pretensão de me adaptar. O Dia de Ação de Graças não significa nada.

Wednesday, November 25, 2009

(Ainda que na ausência do dinheiro): Fama!!!!

Deu no blogue da FLIP: Carlito Azevedo escolheu os três melhores poemas da oficina da FLIP esse ano e um deles foi o meu.

Nós vamos afundar


Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem
ainda.
Jorge de Lima


Não é: "o que é arte?", mas, "quando é arte?"
A partir de Nelson Goodman



Antes dos remorsos
desse avião despedaçado
que nunca passeou com os filhos,
antes dos poetas míopes,
do homem de chapéu Panamá,
e dos colecionadores de nuvens,
antes que o sino dobre
e o mosquito amigo do rei
penetre a pele velada
pelo mosquiteiro furado,
nós vamos afundar
dançando devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos reencontrar
transformadas em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade
vai estar nos esperando
com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos reconhecer
e nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntas.

Paulo Moreira

Tuesday, November 24, 2009

Mais três aforismos de Mark Twain


"Man is the only animal that blushes. Or needs to."

"There is no sadder thing than a young pessimist, except an old optimist."

"All good things arrive unto them that wait - and don't die in the meantime."

Monday, November 23, 2009

Pérolas de Mark Twain 1

Fomos visitar a casa de Mark Twain em Hartford. Para mim ele é uma espécie de Dickens Americano [adoro Dickens mas conheço muito pouco Twain além do que li na adolescência, Tom Sawyer e Huck Finn]. Famoso pelos aforismos, Twain tem uma série que usam a mesma estratégia retórica: começam como sentenças de moralismo ianque e depois viram tudo de pernas para o ar. Eis um exemplo:

"Always obey your parents - when they are present."

Friday, November 20, 2009

Um exemplo de frase faulkneriana


Faulkner escreveu um ensaio chamado "Mississippi" em que se misturam autobiografia, história e ficção. Desse ensaio tirei uma frase faulkeneriana e traduzi para o português:
The Anglo-Saxon, who would stay, to endure: the tall man roaring with Protestant scripture and boiled whiskey, Bible and jug in one hand and like as not an Indian tomahawk in the other, brawling, turbulent, uxorious and polygamous: a married invincible bachelor without destination but only motion, advancement, dragging his gravid wife and most of his mother-in-law’s kin behind him into the trackless wilderness, to spawn that child behind a log-crotched rifle and then get her with another one before they moved again, and at the same time scattering his inexhaustible other seed in three hundred miles of dusky bellies: without avarice or compassion or forethought either: felling a tree which took two thousand years to grow, to extract from it a bear or a capful of wild honey. (Essays, Speeches, and Public Letters, 14)
[O anglo-saxão, que permaneceria, para persistir: o tall man rugindo com as suas escrituras protestantes e o seu whisky fervido, Bíblia e jarro numa mão e possivelmente uma machadinha índia na outra, pelejando alto, turbulentos, uxório e polígamo: um invencível solteiro casado sem destino mas provido apenas de movimento, avanço, arrastando sua esposa grávida e a maioria da família da sogra atrás de si para a mata fechada, para desovar aquele filho debaixo de um rifle e engravidá-la com outro antes de se mudar outra vez, e ao mesmo tempo espalhando sua semente incansável em trezentas milhas de barrigas morenas: sem avareza nem compaixão nem planejamento; derrubando uma árvore que levou trezentos anos para crescer para arrancar de lá um urso ou uma colméia cheia de mel selvagem.]

Thursday, November 19, 2009

"I'm still trying to put all mankind's history in one sentence"


"As regards to any specific book, I’m trying primarily to tell a story, in the most effective way I can think of, the most moving, the most exhaustive. But I think even that is incidental to what I am trying to do, taking my output (the course of it) as a whole. I am telling the same story over and over, which is myself and the world. Tom Wolfe was trying to say everything, the world plus “I” or filtered through “I” or the effort of “I” to embrace the world in which he was born and walked a little while and then lay down again, into one volume. I am trying to go a step further. This I think accounts for what people call the obscurity, the involved formless “style,” endless sentences. I’m trying to say it all in one sentence, between one Cap and one period. I’m still trying to put it all, if possible, on one pinhead. I don’t know how to do it. All I know to do is to keep on trying in a new way. I’m inclined to think that my material, the South, is not very important to me. I just happen to know it, and don’t have time in one life to learn another one and write at the same time. Though the one I know is probably as good as another, life is a phenomenon but not a novelty, the same frantic steeplechase toward nothing everywhere and man stinks the same stink no matter where in time.”

Wednesday, November 18, 2009

Poema meu ou, rindo da desgraça própria com redondilhas e rimas fáceis

Imagem: uma das aranhas de Louise Bourgeois
Fonte: blogue da Art 21

Apneia

be still be calm be quiet now my precious boy
don't struggle like that or i will only love you more
Robert Smith


As seis pernas coloridas
terminando em pontinhas
delicadas
mal deixam rastros no chão.
As seis perninhas coloridas
dançando em volta da linha
enquanto ela desce do teto,
cuidadosa, devagar.
Ela pousa em minha cama,
no escuro do meu corpo,
quando eu pego no sono
e paro de respirar.
Sua língua abre meus olhos
devagar
enquanto passa a linha
pelo buraco da agulha
e as perninhas coloridas
começam a me embrulhar
num pacote apertado
do tamanho justo
do meu punho fechado.
Subimos juntos de volta
até a teia, até o teto,
onde ninguém pode me pegar,
onde eu, calmo, espero
a hora do seu jantar
que já vai chegar.

Tuesday, November 17, 2009

Monday, November 16, 2009

Fitzgerald e Hollywood


Scott Fitzgerald era o rei da cocada literária nos anos 20 nos Estados Unidos. Mas aí chegaram os anos 30 e parecia que ninguém mais queria saber dele ou que ele não conseguia escrever mais nada que chamasse a atenção. Sem um tostão no bolso e com a mulher internada num sanatório, Fitzgerald vai para Hollywood em 1937. Não brinca em serviço, ele. Estuda minuciosamente filmes que tinham feito sucesso na época, como “A Star is Born”. Já no primeiro trabalho vêm as decepções: depois de uma primeira revisão a produção impõe que Fitzgerald trabalhe com outro roteirista e meses depois o trabalho o produtor do filme, ainda insatisfeito, resolve fazer várias outras modificações. Esse sistema de “linha de montagem” para scripts tinha sido criado nos anos 20 por um executivo prodígio, Irving Thalberg: várias equipes de escritores revisando e modificando o script até que ele chegue à forma final. Fitzgerald ficou furioso com as mudanças nos diálogos e escreveu uma carta quase desesperada ao produtor:
"To say I'm disillusioned is putting it mildly," Fitzgerald continued. "For 19 years, with two years out for sickness, I've written best-selling entertainment, and my dialogue is supposedly right up at top. But I learn from the script that you've suddenly decided that it isn't good dialogue and you can take a few cuts off and do much better. I am utterly miserable at seeing months of work and thought negated in one hasty week. I hope you’re big enough to take this letter as it’s meant – a desperate plea to restore the dialogue to its former quality…. Oh, Joe, can’t producers ever be wrong? I’m a good writer – honest."
Os diálogos não foram restaurados e “Three Comrades” foi considerado um dos 10 melhores filmes do ano. Por conta do sucesso Fitzgerald ganhou um aumento, mas continuava decepcionado:
“I am now considered a success in Hollywood because something which I did not write is going on my name, and something which I did write has been quietly buried without fuss or row – not even a squeak from me. The change from regarding this as a potential art to looking at it as a cynical business has begun. But I still think that some time during my stay out here I will be able to get something of my own on the screen that I can ask my friends to see.”

Friday, November 13, 2009

Um conto de Lydia Davies

TRYING TO LEARN

I am trying to learn that this playful man who teases me is the same as that serious man talking money to me so seriously he does not even see me anymore and that patient man offering me advice in times of trouble and that angry man slamming the door as he leaves the house. I have often wanted the playful man to be more serious, and the serious man to be less serious, and the patient man to be more playful. As for the angry man, he is a stranger to me and I do not feel it is wrong to hate him. Now I am learning that if I say bitter words to the angry man as he leaves the house, I am at the same time wounding the others, the ones I do not want to wound, the playful man teasing, the serious man talking money, and the patient man offering advice. Yet I look at the patient man, for instance, whom I would want above all to protect from such bitter words as mine, and though I tell myself he is the same man as the others, I can only believe I said those words, not to him, but to another, my enemy, who deserved all my anger.

Tuesday, November 10, 2009

Enquete: primeira ou terceira pessoa?

Em primeira pessoa fica assim:

Mal abro a boca
já falo eu mesmo
e o lugar de onde eu vim.

Mal abro a boca
já falo essa vida
que passa da minha boca
pra fora, onde nasce
vive e morre o mundo.

Mal abro a boca
já mexo com quem escuta,
não pelo que disse aqui
mas pelo que se ouve aí,
desse outro lado
onde eu não posso entrar.

Mal abro a boca
e bordo som e palavra,
num tipo de música
sutil, que às vezes transborda,
mas quase sempre não.

Mal abro a boca.


Em terceira pessoa, assim:

Mal abre a boca o sujeito
já falaram ele mesmo
e o lugar de onde ele vem.

Mal abre a boca o sujeito
já fala essa vida
que passa da sua boca
pra fora, onde nasce
vive e morre o mundo.

Mal abre a boca o sujeito
já mexeu com quem escuta,
não pelo que disse lá
mas pelo que se ouve aqui,
desse outro lado
onde ele não pode entrar.

Mal abre a boca o sujeito
e borda, som e palavra,
um tipo de música
sutil, que às vezes transborda,
mas quase sempre não.

Mal abre a boca o sujeito.

Monday, November 09, 2009

Alma masculina em corpo de mulher




Não deve ser fácil ser atriz em Hollywood, onde papéis femininos são chamados de “handbags” [uma espécie de adereço para o personagem masculino principal] ou, menos poeticamente, “girlfriend parts.” James Cameron ficou famoso, além da xaropada multi-milionária chamada “Titanic,” pelos filmes da série “O exterminador do futuro” e por dirigir filmes da série “Alien”, e seus filmes chamam a atenção justamente por não terem nada de comédias românticas mas terem personagens femininos marcantes e importantes. Olha que interessante a descrição da técnica de Cameron para escrever para esses papéis femininos:

“As a young writer, Cameron borrowed a trick from Walter Hill, who, working on the outer-space horror movie ‘Alien,’ took a character (a young ensign named Ripley) that was originally male and, with minimal revision, made the character female. (Sigourney Weaver played the role, Ellen Ripley.) As Cameron described the technique, ‘You write a dialogue for a guy and then change the name.’” New Yorker, October 26, 2009

Friday, November 06, 2009

Darwin, o oráculo, e as tartarugas

Tenho uma profunda desconfiança das pessoas que tentam fazer de Darwin uma espécie de oráculo infalível e incriticável, algo que já fizeram antes com Freud e com Marx. Fico desconfiado principalmente quando as críticas a qualquer aspecto do pensamento de Darwin são imediatamente vinculadas a qualquer tipo de fundamentalismo religioso obscurantista. É como se eu tivesse que escolher entre aceitar tudo o que Darwin disse ou ir morar com Bin Laden nas cavernas do Paquistão. Entre os dois fundametalismos, entre a direita religiosa e a direita neo-liberal darwinista, eu fico com nenhum dos dois.
Vejam, por exemplo, esse trecho de The Descent of Man:

“At some future period, not very distant as measured by centuries, the civilised races of man will almost certainly exterminate, and replace, the savage races throughout the world. At the same time the anthropomorphous apes, as Professor Schaaffhausen has remarked, will no doubt be exterminated. The break between man and his nearest allies will then be wider, for it will intervene between man in a more civilised state, as we may hope, even than the Caucasian, and some ape as low as a baboon, instead of as now between the negro or Australian and the gorilla.”

Está aí bem clara a ideologia da supremacia racial ligada ao “extermínio e substituição das raças selvagens”, germe de muita coisa muito feia do século XX. Não custa também lembrar que o nome completo do grande livro de Darwin era On the Origin of the Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Não é que, uma vez que o pensamento de Darwin possa ser vinculado a Hitler, ele seja responsável por Hitler e deva ser jogado no lixo. De jeito nenhum. Mas muita gente que acha que Darwin é a salvação do mundo contra o obscurantismo religioso acha que, já que o pensamento de Marx pode ser vinculado a Stalin, ele por isso deve ser jogado no lixo…
Não dá para jogar toda a culpa em Spencer e companhia e negar que Darwin também lia Malthus com entusiasmo e justificava não apenas o imperialismo britânico em seu lado mais terrível, mas também a crueldade extrema no tratamento das terríveis desigualdades sociais dentro da própria Inglaterra. Falando, por exemplo, contra as campanhas de vacinação, Darwin diz em The Descent of Man:

“Thus the weak members of civilized society propagate their kind. No one who has attended to the breeding of domestic animals will doubt that this must be highly injurious to the race of man.”

Ajudar os mais pobres a não morrer de fome, frio e doença é, para Darwin, prejudicar a sociedade civilizada… O poder britânico está ligado com a crueldade com que ele lida com os seus fracos internamente, já que a competição sem controle. “natural”, fortalece a raça, selecionando os mais fortes. O desaparecimento das “raças selvagens” fora da Inglaterra é portanto uma questão de tempo e de bom senso e também um acontecimento “natural”. Apesar de toda a militância ateísta, não se pode negar que aqui o conceito de “natural” adquire um sentido perversamente parecido com o de “vontade divina”. Assim são as coisas, não há nada que se possa fazer sem alterar o equilíbrio “natural” das coisas.
José Emilio Pacheco tem um poema maravilhoso sobre o assunto:

Los mares del sur
Felicidad de estar aquí en esta playa
aún sin Milton ni Sheraton.
Arena como al principio de la creación, victoria
de la existencia. Mira cómo salen
del cascarón las tortuguitas.

Observa cómo avanzan sobre la playa ardiente
hacia el mar que es la vida y nos dio la vida.
Prueba esta agua fresquísima del pozo.
No comeremos ni siquiera almejas
por no pensar en nada que recuerde la muerte.

Los paraísos duran un instante.

Llegan las aves, bajan en picada
y hacen vuelos raspantes y se elevan
con la presa en el pico: las tortugas
recién nacidas. Ya no son gaviotas:
es la Luftwaffe sobre Varsovia.

Con que angustia se arrastran hacia la orilla,
víctimas sin más culpa que haber nacido.
Diez entre mil alcanzarán la orilla.
Las demás serán devoradas.

Que otros llamen a esto de selección natural,
equilibrio de las especies.

Para mi es el horror del mundo.
Ciudad de la memoria, 1986-1989

Wednesday, November 04, 2009

Trecho






























Imagem retirada de http://homepages.wmich.edu/~p3morefi/heart.html, com a legenda:
"This is the human heart.
This is the organ that keeps blood running throughout your body.
You must have one of these."


Trecho de romance que ando escrevendo nas parcas horas vagas:

Montezuma, Minas Gerais, existe. Está no mapa, pode procurar. Fica no norte do estado, perto da Bahia. Parece que ninguém sabe disso, nem em Belo Horizonte, que é um lugar que também existe, ainda que aqui fora, onde eu vivo, há quem duvide. Meu projeto pessoal, minha contribuição social, estadual, nacional, universal enfim, é convencer primeiro Belo Horizonte, depois o Brasil (metonímia de Rio de Janeiro e São Paulo, pelo menos para quem vive em São Paulo ou Rio de Janeiro) e finalmente o mundo inteiro, que Montezuma existe.
Mas, você deve se perguntar, por que? Aqui nunca nasceu alguém importante, nunca houve ouro nem diamante, nenhuma grande batalha, nenhum bandido famoso, nenhum desastre terrível, nenhuma igreja barroca, nenhum metal radioativo, nada. Se eu dissesse que temos termas e fontes de água mineral, eu sei o que você pensaria: “viajar 600 kilômetros prá tomar banho de cachoeira?”
Nada disso. O que temos é um modo de vida, de paz e harmonia.
Aqui, uma vez por ano, escolhemos a dedo um jovem saudável e belo para o Auto das Flores, que alguns chamam de aniquilamento seletivo e outros, de execução extra-judicial. É sempre alguém da mesma família, os Moreiras, porque os Moreiras são muitos e não fazem a menor falta nos outros 364 dias do ano.
O coração humano, como o conhecemos, é uma carne fibrosa mas doce. Não recomendaria um assado porque a carne fica dura e não entranha bem o tempero, por mais forte que seja. Por melhor que seja a aparência do orgão quando extraído de um corpo vivo anda pulsante (por um breve instante de jorro e gozo, mais vivo que o corpo de que o separamos) não se engane: inteiro o tempero não entranha direito. Certamente o coração em seus últimos extertores é muito mais bonito que o miserável cérebro humano (essa carne amarga, babosa, arenosa, que apenas moemos e damos aos porcos; mas não se esqueça: o mineiro dá o milho, o porco come o milho e o mineiro come o porco), mas não se engane: assado, a carne cordial fica dura. De volta ao que interessa, o coração limpa-se com faca de ponta; corta-se em filetes bem finos; refoga-se com alho, cebola, sal e um par de folhas de louro; acrescenta-se um bom molho de orapronobis; depois duas xícaras de água morna e então pelo menos trinta minutos na panela de pressão.
E depois a paz.

Monday, November 02, 2009

Diário da Babilônia – Em busca de segurança


Esse post de certa forma foi inspirado por um post interessante do Diego Viana, “A ‘sensação de segurança’ é um engodo”.

Vários estados americanos adotaram variações da lei conhecida popularmente como “Three-Strikes Laws”, em que uma pessoa que é condenada criminalmente três vezes recebe na terceira vez uma sentença de prisão perpétua, ou seja, pelo menos 25 anos antes da liberdade condicional.
Desde 1994, a Califórnia tem uma das versões mais severas dessa lei, já que lá a natureza do terceiro crime não importa. A maneira como a lei é aplicada dentro da Califórnia varia bastante, como sempre acontece apesar de todas as garantias que não da parte das pessoas que acham que novas leis resolvem qualquer problema. Variam, principalmente, de acordo com as convicções políticas do promotor público, e por isso os casos mais notórios vêm do Vale Central, que é o berço político de coisas como Nixon e Reagan, para quem acha que a Califórnia é um paraíso de surfistas e hippies relaxados no sul e gênios da computação e homossexuais politizados no norte.
Já em 1995 Jerry Dellaney Williams pega prisão perpétua por roubar uma fatia de pizza de quatro crianças. Outro sujeito que roubou um biscoito doughnut foi condenado à prisão perpétua; um viciado em drogas que tinha roubado a própria casa entrou pelo cano porque estava com um punhado de cocaína; um outro vai passar a vida atrás das grades por roubar três tacos de golfe; e um tal de Leonardo Andrade roubou $150 em fitas de vídeo casssete e recebeu por isso duas sentenças de 25 anos.
Mais ou menos um quarto da população carcerária do estado da Califórnia está cumprindo sentenças originadas pela Three Strikes Law (4000 pessoas), das quais mais ou menos dois terços cometeram crimes não violentos. Em um estado à beira da bancarrota, cortando gastos com educação a ponto de por em risco uma das melhores redes universitárias do mundo, essa população carcerária custa quase $200 milhões de dólares, custos que vão subir à medida em que essas pessoas, que ficam pressas 600% mais tempo do que deveriam por seus crimes, envelhecem atrás das grades. Em 2006 uma revisão da lei tinha grande apoio popular até que o governador exterminador do futuro, então ainda muito popular, gravou um anúncio aterrorizante em que alertava para a orda de maníacos sanguinários que sairiam livres pela Califórnia fazendo picadinho dos cidadãos honestos do estado. O texto, gravado com aquela voz de Conan, dizia: "Under Proposition 66, 26,000 dangerous criminals will be released from prison, child molesters, rapists, murderers. Vote 'No' on 66. Keep them behind bars."