Monday, March 30, 2015

Mini-ensaio apressado: Flannery O'Connor e Clarice Lispector

Flannery O’Connor tinha cinco anos de idade e uma galinha de estimação. Sabe-se lá de que jeito, a menina ensinou a galinha a andar para trás e o feito virou tema de um curta-metragem de 1931 que a Pathé inseria antes da principal atração nos seus cinemas. A futura escritora do alto dos seus cinco anos aparecia na tela por alguns segundos com seu bichinho de estimação empoleirado no ombro. A galinha faz seu número e depois o narrador engraçadinho diz que o cameraman podia fazer isso com todos os outros bichos e começava a mostrar vários animais de fazenda em sequências mostradas de de trás para frente:



Aqui está o filme no site da Pathé, com seus detalhes técnicos e aqui o depoimento com o sarcasmo típico de Flannery O'Connor.

Flannery O'Connor gostava de dizer que aquilo tinha sido o ponto mais alto da sua vida e que tudo depois tinha sido um anticlimático.

Na universidade O'Connor ocupou o posto de cartunista no jornal dos alunos já com um tipo de humor ácido e nem um pouco "mulherzinha":



e note como ela assinava os seus cartoons com um passarinho:



O'Connor sempre criou animais domésticos e são bem conhecidas as fotos dela, já escritora consagrada, com pavões que ela mesmo criava:



Pelo menos um par de vezes O'Connor se referiu a um certo grupo de pessoas como "galinhas sem asa" que seriam objeto da sua obra. A primeira em uma carta de 1950: "... I am largely worried about the wingless chicken. I feel this is the time for me to fulfill myself by stepping in and saving the chicken, but I don't know exactly how since I am not bold. I only know I believe in the complete chicken." Quando a New Yorker publicou uma resenha não assinada espinafrando um texto da escritora em 1955 ela voltou à imagem com mais clareza: "It was a case in which it is easy to see that the moral sense has been bred out of certain sections of the population, like the wings had been bred off certain chickens to produce more white meat on them. This is a generation of wingless chicken which I suppose is what Nietzsche meant when he said God was dead."

Essa fixação com galinhas, essa mistura de piedade e crueldade narrativa e essa mistura ambiciosa de declarações de humildade e de pretensões artísticas altíssimas, sempre me fizeram pensar em Flannery O'Connor e Clarice Lispector como parceiras.Termino aqui, com o conto "Uma galinha" na voz de Aracy Balabanian, uma heroína digna de Flannery O'Connor.



Saturday, March 28, 2015

Poesia [narrativa] minha: "Tudo vai ficar da cor que você quiser"

Tudo vai ficar da cor que você quiser

Um ser humano
pariu num sonho
duas meninas
a liberdade
e a segurança
são um casal
muito moderno
que já não sabe
viver sozinho
mas já não sabe
viver em paz
uma co’a outra
vivem trancadas
o dia inteiro
no mesmo quarto
se debatiam
feito afogadas
no mar bravio
até que mortas
de tão cansadas
dormiam juntas
no mesmo catre
quando acordava
de madrugada
a segurança
admirava
embevecida
a liberdade
sua parceira
de toda vida
infatigável
e devagar
se devolvia
ao sono leve
dos assassinos
dormia muito
a segurança
perdia a hora
quando saía
e não chegava
a tempo ao porto
perdia a hora
perdia o barco
chegava tarde
ao velho forte
feito ruína
pelo inimigo
perdia a praça
perdia o emprego
e sem dinheiro
assim perdia
seu quinto império
a profecia
o Daniel
que acalmava
dentro da cova
os meus leões
a liberdade
assassinada
ressuscitava
antes do almoço
morta de fome
comia um boi
e doze vacas
e esperava
mordendo o braço
lambendo os beiços
roendo as cordas
contando as horas
pra sobremesa
queria ir-se
raspando o prato
pegava a chave
não havia porta
sair de casa
pela janela
já não alcança
o trinco solto
rasgando seda
pegava a prancha
secava o mar
minas são muitas
rodoviária
minas não mais
volta pra casa
nem deus resiste
em seus desígnios
à liberdade
e à segurança
e seus relógios
desconjuntados
soltando pino
dentro do bolso
cheirando a pinho
dentro do poço
desanimadas
a liberdade
e a segurança
voltavam juntas
desesperadas
ao mesmo quarto
ao mesmo embate
então trancadas
o dia inteiro
no mesmo quarto
se debatendo
feito afogadas
até que mortas
de tão cansadas
se deitam juntas
no mesmo catre
e vão se amar
e se matar
somos assim
em meio à zona
do nosso mundo
misterioso
todos se encaixam
perfeitamente
mas seus encaixes
são tão perfeitos
que são perversos
quem dá seu passo
daqui pra fora
periga nunca
voltar ao eixo
quem volta um dia
por outro lado
encontra tudo
em seu lugar
nem deus resiste
em seus desígnios
à teimosia
dum ser humano
em se atrasar
contar histórias
ou em sonhar



Monday, March 23, 2015

Retablos mexicanos ontem e hoje

A partir do fim do século XVIII e principalmente no século XIX, vários artistas mexicanos começaram a fazer pequenas pinturas em placas de zinco de 35 por 35 cm. Essas pinturas eram imagens religiosas ou votivas [em agradecimento por graças concedidas].


Nossa Senhora do Refúgio, la Refugiana,
popular em Zacatecas, a Minas Gerais de prata.


Ex-voto agradecendo a intervenção da Virgem de Guadalupe evitando uma tragédia
num acidente de trem

Os retablos refletem o desejo ou a necessidade de uma fé celebrada em casa, numa época de grande instabilidade no México. Exerceram uma influência considerável em Diego Rivera e principalmente em Frida Kahlo, que buscaram se apropriar de uma arte popular entranhada na cultura mexicana para fazer arte popular-engajada.

As mãos do Doutor Moore, um retrato feito por encomenda
para um cirurgião de Los Angeles por Diego Rivera


Retrato do Botanista Luther Burbank de Frida Kahlo


Alfredo Vilchis Roque, um artista popular, tem usado a tradição do retablo de outra maneira, re-imaginando a Revolução Mexicana ou trabalhando para clientes pertencentes a grupos marginalizados num contexto contemporâneo. Às vezes acho muito interessante o trabalho dele, outras vezes fico um pouco desconfiado de uma pose naif meio oportunista, mas procuro, como postura geral, não ficar fazendo julgamentos morais fáceis de ninguém.




Thursday, March 19, 2015

Recordar é viver: Era uma vez um mural

Diego Rivera foi contratado pela família Rockefeller para fazer um mural no Rockefeller Center, conjunto de edifícios concebido como um verdadeiro monumento de fé da família endinheirada ao capitalismo posto em dúvida pela terrível crise de 1929.



Rivera resolveu plantar quase no meio do mural a figura de ninguém menos que Lênin. A família Rockefeller pressionou para que ele apagasse Lênin, mas Rivera bateu o pé. No máximo incluiria um Abraham Lincoln do outro lado do mural. Resolveram então pagar integralmente ao muralista mexicano a quantia combinada e depois destruíram o mural, ainda que alguns na família Rockefeller quisessem transportá-lo para o MoMA. A inteligência de Rivera fez da destruição do mural no coração de Manhattan um ato simbólico poderoso e ele considerou a obra como tal plenamente bem sucedida. Lucienne Bloch fez escondida fotografias do mural antes que ele fosse destruído e as imagens correram o mundo.  

Exatamente um dia depois da demolição do mural, Hitler promovia a infame queima de livros no dia 10 de maio de 1933 na Bebelplatz de Berlim:




Rivera voltou ao México e, de posse de fotografias do original, refez o mural no Palacio de Bellas Artes na Cidade do México. Aproveitou para incluir no mural Marx, Engels, Trotsky e mais outros líderes comunistas, inclusive os americanos Bertram David Wolfe e Jay Lovestone. E ainda meteu John D. Rockefeller Jr., de copo na mão, no meio de uma cena de "decadência burguesa".


Clique na imagem para vê-la em tamanho maior
Em tempos em que pessoas podem ser agredidas na rua por estarem vestindo uma camisa vermelha e que gente porta cartazes pedindo um golpe militar e menos Paulo Freire, me lembrei desse momento difícil nos anos 30 e do destemor inteligente de Rivera em peitar seus endinheirados patronos. 

De Pindorama a Babilônia, tá feia a coisa

Em 1928 o 1% mais ricos nos Estados Unidos eram senhores de 24% da renda nacional.

FDR
Um certo Franklin Delano Roosevelt governou os Estados Unidos de 1933 [quando recebeu um país com 13 milhões de desempregados] a 1945 [quando ajudou os russos a derrotar Hitler]. Depois de quatro mandatos na presidência, tinha reduzido a 11% a porcentagem da renda nacional que estava nas mãos do 1% mais ricos em 1944. FDR era um membro da elite americana que estudou em Harvard e formou-se em direito em Columbia, mas sacudiu o país e enfrentou poderes econômicos fortíssimos em confronto às vezes aberto. Brigou por exemplo com a corte suprema até conseguir mantê-la longe de engessar a política econômica em nome de dogmas do liberalismo do século XIX.

Seria bom se os políticos de hoje em dia dessem um lida nos discursos de FDR, um sujeito que sabia falar com o público de forma direta, sem esse medo de ofender que transforma muitos políticos em verdadeiros seguidores de Odorico Paraguaçu. Exemplos:

Em 1934 respondendo aos críticos que reclamavam da intervenção do estado na economia:
Those, fortunately few in number, who are frightened by boldness and cowed by the necessity for making decisions, complain that all we have done is unnecessary and subject to great risks. Now that these people are coming out of their storm cellars, they forget that there ever was a storm. They point to England. They would have you believe that England has made progress out of her depression by a do-nothing policy, by letting nature take her course. England has her peculiarities and we have ours but I do not believe any intelligent observer can accuse England of undue orthodoxy in the present emergency.
Did England let nature take her course? No. Did England hold to the gold standard when her reserves were threatened? No. Has England gone back to the gold standard today? No. Did England hesitate to call in ten billion dollars of her war bonds bearing 5 percent interest, to issue new bonds therefore bearing only 3 1/2 percent interest, thereby saving the British Treasury one hundred and fifty million dollars a year in interest alone? No. And let it be recorded that the British bankers helped. Is it not a fact that ever since the year 1909, Great Britain in many ways has advanced further along lines of social security than the United States? Is it not a fact that relations between capital and labor on the basis of collective bargaining are much further advanced in Great Britain than in the United States? It is perhaps not strange that the conservative British press has told us with pardonable irony that much of our New Deal program is only an attempt to catch up with English reforms that go back ten years or more.

Em 1938, ainda no mesmo assunto:
I am still convinced that the American people, since 1932, continue to insist on two requisites of private enterprise, and the relationship of Government to it. The first is a complete honesty, a complete honesty at the top in looking after the use of other people's money, and in apportioning and paying individual and corporate taxes (according to) in accordance with ability to pay. And the second is sincere respect for the need of all people who are at the bottom, all people at the bottom who need to get work -- and through work to get a (really) fair share of the good things of life, and a chance to save and a chance to rise.

FDR não era nenhum santo, como todo e qualquer político não é. Ele rifou, por exemplo, os direitos políticos e sociais dos negros nos Estados Unidos em nome do apoio do Partido Democrata nos estados do Sul. Nem era remotamente socialista, muito antes pelo contrário. Mas indubitavelmente construiu um país muito mais próspero e muito mais justo, contrariando os interesses do tal 1% mais rico. Porque soube construir um consenso político poderoso que durou mais ou menos 10 anos e soube tirar o máximo desse consenso.

A partir de Ronald Reagan, os Estados Unidos começaram a dar marcha a ré na história. Em trinta anos voltaram para onde estavam antes de Roosevelt. Em 2012 o 1% mais rico do país possui 23% da renda nacional. Nessa toada chegaram ao século XIX antes do meio do século.

Por falar em século XIX, diz o Banco Mundial que no Brasil os 20% mais ricos [grande maioria das pessoas que saíram às ruas pelo menos em São Paulo de acordo com a insuspeita Folha de São Paulo] ganham 30 vezes mais que os 20% mais pobres. A média nos países desenvolvidos é de 6 vezes mais. Mesmo a média na América Latina como um todo é bem melhor, 12 vezes mais entre os 20% de cima e os 20% de baixo. É uma pena que a mediocridade intelectual, a covardia política e a leniência em nome de uma suposta governabilidade não nos permitam seguir muito adiante quando confrontados com o mesmo tipo de ansiedade que produziu 1964. O Brasil já teve Paulo Freire, Augusto Boal, Sérgio Buarque de Holanda, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Lúcio Costa, e outros que mesmo quando erraram nunca tiveram medo de ousar em imaginar um mundo diferente. Pensar parece uma ousadia hoje em dia. Pelo jeito, só mesmo fazendo FDR encarnar em algum médium espírita ou mãe-de-santo no Brasil. Isso bem rápido, antes que o espiritismo, a umbanda e o candomblé acabem sendo proibidos como cultos satânicos.

Tuesday, March 17, 2015

Um Playground para os Bilionários

Um apartamento no novo condomínio de luxo One57 em Nova Iorque chegou ao preço de nada mais nada menos que 100 milhões de dólares.

Tauscher não está interessado em fazer perguntas demais.
77% dos apartamentos no One57 foram comprados por entidades financeiras de origem obscura e 58% desse tipo de apartamento em Nova Iorque é comprado em dinheiro vivo. Rudy Tauscher, gerente de um desses condomínios disse: “O edifício não sabe de onde vem o dinheiro. Não nos interessa.” Em outras palavras o tal mercado super-luxo é também um convite para que todos os Perellas do mundo venham lavar seus helicópteros cheios de pasta de cocaína em Nova Iorque.

Sabe quanto desconto os moradores desses apartamentos terão no seu IPTU [property tax]? 95%. Esse ano cada apartamento deixará de pagar a bagatela de 360 mil dólares em imposto à cidade.

Sabe como os empresários que construíram o prédio conseguiram esse desconto? Financiando 61 apartamentos no Bronx.

One 57 é aquele magrelo bem mais alto que os outros.
É fácil perceber que o One57 é bem mais alto que os seus colegas luxuosos, estourando em muito o teto de construções de Manhattan, chegando mesmo ao dobro da altura dos velhotes que estão mais perto do Central Park. Ora, os envolvidos no projeto "compram" metros de altura de prédios ali em volta que não chegaram ao teto permitido pela cidade. O resultado são prédios estranhamento finos, com uma proporção bastante peculiar: enquanto o finado World Trade Center tinha a proporção de 1 de largura para sete de altura, esses prédios chegam a ser 27 vezes mais altos que largos.

Brad Hoylman, membro do senado estadual propôs que se sobre-taxa a todos os imóveis acima de 5 milhões para gerar fundos que subsidiariam a construção de habitação para famílias de renda média e baixa. As chances de um projeto desse tipo passar é muito baixa, já que os responsáveis pelos projetos de alto luxo da cidade também têm relações, digamos, íntimas com um grande número de políticos tanto republicanos como democratas.

Desde 2010 o número de famílias sem casa na cidade cresceu 21.5% chegando ao número impressionante de 68.000 famílias vivendo na rua ou em abrigos provisórios. Os mais sortudos como uma amiga minha conseguem resistir a serem expulsos [chegaram a bloquear a porta de entrada do apartamento dela com uma "reforma" que a prendeu lá dentro] até receber uma indenização que a permitiu dar entrada numa casa em Connecticut. Seu apartamento foi ocupado por mais um desses robôs que trabalham em Wall Street, cheios de dinheiro e vazios de tudo mais.

Bloomberg, o prefeito bilionário
Essas mudanças não são apenas resultado das forças do mercado. O todo poderoso prefeito Bloomberg, que passou 12 anos no cargo, dizia que “se nós pudéssemos fazer com que todos os bilionários do mundo se mudassem para cá seria uma benção.” A ideia por trás disso é que o dinheiro desses bilionários beneficiariam a todos na cidade, um discurso repetido desde Reagan nos Estados Unidos por políticos dos dois partidos. Os resultados são os mesmos de sempre: um país cada vez mais cruel, cada vez mais parecido com o Brasil na desigualdade. Um país onde tentar viver do seu trabalho humilde é visto como uma espécie de falha de caráter.

Mais informações sobre esse assunto vocês encontram em inglês em artigo de Matin Filler chamado "New York: Conspicuous Construction" do New York Review of Books que está aqui.

Monday, March 16, 2015

Fragmentos de um mini-curso 1: Famigerados Tall Men com as raízes presas no nada


“The Anglo-Saxon, who would stay, to endure: the tall man roaring with Protestant scripture and boiled whiskey, Bible and jug in one hand and like as not an Indian tomahawk in the other, brawling, turbulent, uxorious and polygamous: a married invincible bachelor without destination but only motion, advancement, dragging his gravid wife and most of his mother-in-law’s kin behind him into the trackless wilderness, to spawn that child behind a log-crotched rifle and then get her with another one before they moved again, and at the same time scattering his inexhaustible other seed in three hundred miles of dusky bellies: without avarice or compassion or forethought either: felling a tree which took two thousand years to grow, to extract from it a bear or a capful of wild honey.”

"Mississippi" de William Faulkner que você ler aqui



"Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:

— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...

— "Ah, bem!..." — soltou, exultante."


"Famigerado" de Guimarães Rosa que você pode ler aqui.




“Cuando crecí y lo busqué me dijeron que estaba muerto. Es algo difícil crecer sabiendo que la cosa de donde podemos agarrarnos para enraizar está muerta. Con nosotros, eso pasó.”
"¡Diles que no me maten! de Juan Rulfo, que você pode ler aqui.

Tuesday, March 10, 2015

Flannery O'Connor explica porquê o Sul tem a literatura dos Estados Unidos que eu mais gosto

Flannery O'Connor
"The problem [...] will be to know how far [the writer] can distort without destroying, and in order not to destroy, he will have to descend far enough into himself to reach those underground springs that give life to big work. This descent into himself will, at the same time, be a descent into his region. It will be a descent through the darkness of the familiar into a world where, like the blind man cured in the gospels, he sees men its if they were trees, but walking. This is the beginning of vision, and I feel it is a vision which we in the South must at least try to understand if we want to participate in the continuance of a vital Southern literature. I hate to think that in twenty years Southern writers too may be writing about men in gray-flannel suits and may have lost their ability to see that these gentlemen are even greater freaks than what we are writing about now. I hate to think of the day when the Southern writer will satisfy the tired reader."
Flannery O'Connor, "Some Aspects of the Grotesque in Southern Fiction" (1960) 

Saturday, March 07, 2015

Poesia minha: Resposta

Resposta
Foto minha: Janela do OISS

Como é que eu ando na vida
Eu sou um homem novo
Eu sou o mesmo velho
Que eu sempre fui
Eu sou um homem livre
Eu sou o mesmo escravo de Jó
Que eu sempre fui
Sou o seu melhor irmão
E sou o mesmo assassino
Que comeu o seu coração
E depois voltou por mais
Mesmo quando já não há
Mesmo porque sempre há
Alguma coisa nova para matar

Como é que eu ando na vida
Eu quero muito poder morrer
Eu quero muito continuar vivo
E só peço um fim tranquilo
Num cantinho bem quentinho
Estou a ponto de implodir
Feito um cassino de Hollywood
Feito uma válvula de televisão

Foto minha: Janela do OISS 2
Como é que eu ando na vida
Eu sou puro orgulho
Puro sorriso resplandecente
Sem vergonha safado demente
E sou aquele de quem você tem pena
O coitadinho sem rumo
O perdido o abandonado
O entortado sem conserto
Incoerente incompleto inocente
Sozinho triste olhar de peixe morto
Barriga para cima boiando no prato
Eu sou o favorito de todos de longe
Mas de perto ninguém me quer

Como é que eu ando na vida
Eu como minha boca no almoço
Eu rasgo meus olhos no chão
Eu sou sem pai nem mãe
Sou uma plaquinha enferrujada
No cemitério da paz em risco amém
Meu pai erra por aí feito eu
Entre sete palmos de terra
E um monte grama verdinha
Sou um dia na vida em silêncio
É só o que eu peço
Um dia na vida em silêncio
Eu quero esquecer
Mas eu me lembro de tudo
E quero muito voltar
Para fazer tudo de novo outra vez

Como é que eu ando na vida
Sou esse único lugar nesse clarão
Onde você ainda pode se esconder
Sou um zero à esquerda
Sou um milhão
Quem me pague que me venda
Quem me troque que me entenda
Sou só uma piada
Sou uma HK cheia de disposição
Tenho um rei morto na barriga
Prezo muito o amor dos seus
Não tenho o menor interesse no seu perdão