Saturday, March 28, 2015

Poesia [narrativa] minha: "Tudo vai ficar da cor que você quiser"

Tudo vai ficar da cor que você quiser

Um ser humano
pariu num sonho
duas meninas
a liberdade
e a segurança
são um casal
muito moderno
que já não sabe
viver sozinho
mas já não sabe
viver em paz
uma co’a outra
vivem trancadas
o dia inteiro
no mesmo quarto
se debatiam
feito afogadas
no mar bravio
até que mortas
de tão cansadas
dormiam juntas
no mesmo catre
quando acordava
de madrugada
a segurança
admirava
embevecida
a liberdade
sua parceira
de toda vida
infatigável
e devagar
se devolvia
ao sono leve
dos assassinos
dormia muito
a segurança
perdia a hora
quando saía
e não chegava
a tempo ao porto
perdia a hora
perdia o barco
chegava tarde
ao velho forte
feito ruína
pelo inimigo
perdia a praça
perdia o emprego
e sem dinheiro
assim perdia
seu quinto império
a profecia
o Daniel
que acalmava
dentro da cova
os meus leões
a liberdade
assassinada
ressuscitava
antes do almoço
morta de fome
comia um boi
e doze vacas
e esperava
mordendo o braço
lambendo os beiços
roendo as cordas
contando as horas
pra sobremesa
queria ir-se
raspando o prato
pegava a chave
não havia porta
sair de casa
pela janela
já não alcança
o trinco solto
rasgando seda
pegava a prancha
secava o mar
minas são muitas
rodoviária
minas não mais
volta pra casa
nem deus resiste
em seus desígnios
à liberdade
e à segurança
e seus relógios
desconjuntados
soltando pino
dentro do bolso
cheirando a pinho
dentro do poço
desanimadas
a liberdade
e a segurança
voltavam juntas
desesperadas
ao mesmo quarto
ao mesmo embate
então trancadas
o dia inteiro
no mesmo quarto
se debatendo
feito afogadas
até que mortas
de tão cansadas
se deitam juntas
no mesmo catre
e vão se amar
e se matar
somos assim
em meio à zona
do nosso mundo
misterioso
todos se encaixam
perfeitamente
mas seus encaixes
são tão perfeitos
que são perversos
quem dá seu passo
daqui pra fora
periga nunca
voltar ao eixo
quem volta um dia
por outro lado
encontra tudo
em seu lugar
nem deus resiste
em seus desígnios
à teimosia
dum ser humano
em se atrasar
contar histórias
ou em sonhar



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