Friday, September 30, 2011

Poesia Minha - A Fernando Vallejo

A Fernando Vallejo

ah, mísero presente sem futuro

sucessão de horas e dias vãos

vazios de intenção e cheios de mortos

és a luz que é desordem e eu

sou a escuridão suspensa estática

sou, mas já não tenho nome

sou nada, nada, nada, nada, nada

não tenho teu grande e metálico estômago

não sei digerir o veneno remédio

que me ofereces com essa cara dura

só posso alimentar comigo mesmo,

com meus desejos de largar

e meus ardores de se ter,

a chama viva dessa língua podre

que é um rio que ninguém contém,

fugaz, desprezível, mutante

passageiro, traiçoeiro

como o Riberão Arrudas de menino:

fiapo imundo de água morta

que nas chuvas de verão de repente

inchava e engolia a cidade inteira

com a fúria-felicidade infantil

que é porque não se sabe

só essa coisa macabra e bêbada

furiosa perra negra sem cabeça

que sai da boca desdentada e vil

dessa matilha de terno e gravata

feito sabão em pó e cocaína

me subindo derretendo as narinas

pode enfrentar essa tua luz que cega,

estúpido presente sem futuro,

e me salvar de mim mesmo por ti.

Tuesday, September 27, 2011

A primavera árabe além do mundo árabe


No verão que passou, Daphni Leef montou sua barraca na rua, em plena Rotschild Boulevard em Tel-Aviv, e avisou no Fcbk, "juntem-se a mim e vamos protestar juntos contra o alto custo da moradia em Israel!" E foi assim que começou a maior onda de protestos de Israel. Por favor, pensem em Daphni Leef antes de achar que Israel é apenas um bando de Netanyahus e fanáticos religiosos! Eles são Israel também, como Sarney e os neo-nazistas do Rio grande do Sul também são o Brasil, como Sarah Palin e as milícias também são os Estados Unidos, como Berlusconi e os adoradores de Musolini também são a Itália, como Calderón e a Legião de Cristo também são o México.
E não deixe de se perguntar: porque é que provavelmente você nunca ouviu falar em Daphni Leef?

Monday, September 26, 2011

Biroscas de New Haven – The Great Wall of China


Há uns anos atrás, quando funcionava nos fundos mais profundos da mercearia que mudou para o prédio ao lado, o The Great Wall of China se enquadrava perfeitamente no meu conceito de birosca. Hoje o restaurante cresceu e se diversificou, servindo [dizem] o melhor dim sum [pasteizinhos geralmente cozinhos a vapor ] e o melhor hot pot da cidade [espécie de fondue chinês]. Mas o que me interessa mesmo é o menu ainda birosqueiro do The Great Wall of China: uma marmita de isopor estufada até os limites do possível com uma montanha de arroz e quatro generosas porções de qualquer uma das dez ou quinze opções colocadas num típico buffet de serve-serve, que não acontece neste caso porque quem serve é uma das duas donas do restaurante, mulheres de mal-humor milenar que nunca perde tempo com sorrisos. Uma delas é casada com o cozinheiro, homem de gentileza também milenar e uma verruga cabeluda na bochecha direita que parece um ½ bigode Fumanchu, que comanda uma cozinha limpa e organizada [quem entra, como eu, pela porta de trás, passa pela cozinha]. Pois é, meus caros, essa comida, simples, honesta, variada e muito bem feita custa apenas 7 mangos, acompanhada ainda da melhor sopa de restaurante chinês americano que eu conheço! A marmita que supostamente serve para um caboclo alimenta minha família de quatro. De quebra, o reetaurante tem uma padaria chinesa de primeira oferece quase sempre “pork buns” [espécie de pão doce recheado de carne de porco], sesame buns [bolinha de pão frita feito um churro e coberta de grãozinhos de gergelim e outras delícias.

Saturday, September 24, 2011

O mineiro e o queijo

Trailer de O MINEIRO E O QUEIJO por claquete_com no Videolog.tv.



Quem mora fora de Minas Gerais acha que conhece queijo de minas, mas na verdade nunca sequer provou um canastra meia-cura legítimo. Esse é o motivo, além da habitual pão-duragem dos estabelecimentos comerciais, pelo fato de que o pão de queijo em outras partes do Brasil é geralmente uma porcaria. Isso não é fruto de egoísmo dos mineiros. O queijo de qualidade é um produto artesanal e forma de resistência de pequenos produtores de leite contra o monopólio de certas distribuidoras... bom o resto da história está no filme de Helvécio Ratton "O mineiro e o queijo"

Wednesday, September 21, 2011

Morar fora do Brasil é:

Procurar por livre e espontânea vontade no iutúbio um vídeo, por exemplo, do Parangolé. Explico o porquê: você lê notícias online e volta e meia alguém comenta ou cita essa música sobra a qual todo mundo tem uma opinião [positiva ou negativa] e sobre a qual todo o mundo faz piada. São essas coisas que, em se vivendo no Brasil, a gente acaba ouvindo pela rua, por bem ou por mal.

Monday, September 19, 2011

Tigres del Norte - Jaula de Oro



La jaula de oro

Enrique Franco, Los tigres del norte

Aquí estoy establecido,
en los Estados Unidos.
Diez años pasaron ya
en que crucé de mojado,
papeles no he arreglado,
sigo siendo un ilegal.
Tengo mi esposa y mis hijos,
que me los traje muy chicos,
y se han olvidado ya
de mi MEXICO querido,
del que yo nunca me olvido,
y no puedo regresar,
¿De que me sirve el dinero,
si estoy como prisionero
dentro desta gran nación?
cuando me acuerdo hasta lloro,
aunque la jaula sea de oro,
no deja de ser prisión,

" Y ESCUCHAME HIJO,
TE GUSTARIA QUE REGRESARAMOS A VIVIR A MEXICO?"
What’re you talkin about, dad?
I don't wanna go back to MEXICO, dad! No way dad!

Mis hijos no hablan conmigo.
Otro idioma han aprendido,
y olvidado el español.
Piensan como americanos,
niegan que son MEXICANOS
auque tengan mi color.
De mi trabajo a mi casa,
no sé lo que me pasa,
que aunque soy hombre de hogar,
casi no salgo a la calle
pues tengo miedo que me hallen
y me pueden deportar.
De que me sirve el dinero,
si estoy como prisionero
dentro desta gran nación.
Cuando me acuerdo hasta lloro,
aunque la jaula sea de oro,
no deja de ser prisión.


Saturday, September 17, 2011

Ironias computacionais ou como comprar presunto por lebre

Você coloca o nome do documentário Você também pode dar um presunto legal numa busca num site que vende filmes e livros e recebe como opções de compra:

VOCE TAMBEM PODE SER UM LIDER

VOCE TAMBEM PODE SER FELIZ

COMO PASSEI EM 15 CONCURSOS

VOCE PODE CURAR A SUA VIDA

VOCE PODE CURAR A SUA VIDA – COM ILUSTRAÇOES

VOCE PODE SER FELIZ SEM SER PERFEITA

VOCE PODE – VIVA BEM

50 COISAS QUE VOCE PODE FAZER PARA COMBATER A INSONIA

AMAR PODE DAR CERTO

50 COISAS QUE VOCE PODE FAZER PARA COMBATER A ALERGIA

NAO DEIXA PARA DEPOIS O QUE VOCE PODE FAZER AGORA

O QUE A DIETA ORTOMOLECULAR PODE FAZER POR VOCE

[E finalmente]

LIVROS – TUDO O QUE VOCE NAO PODE DEIXAR DE LER

Thursday, September 15, 2011

Diário da Babilônia: Sobre a política nos Estados Unidos


Moro numa cidade governada pelo mesmo prefeito há 18 anos (contra o qual, aliás, não tenho nada contra). Na terça-feira ele ganhou mais 2 anos de mandato na prefeitura. Houve eleição na terça-feira? Não exatamente, aconteceram as primárias do seu partido, que domina a política municipal elegendo TODOS os prefeitos da cidade desde 1932.Isso se chama, no vocabulário político daqui, viver em território "azul". Tão azul que até o café aqui embaixo [meu escritório é no segundo andar] se chama Blue State Café [ver foto], lugar que não dá para classificar como birosca de New Haven, mas tem um café cortado invocado [e muito caro, infelizmente].



Tuesday, September 13, 2011

Palpites sobre palpites

Curiosa mescla de despretensão e eloqüência no ensaio de Alcir Pécora que encontrei aqui através de sugestão de Masé Lemos no FCBK.

1. Baseado em impressão pessoal, Pécora, que anda lendo ficção e poesia contemporânea no Brasil e achando-a "fraca", fala na "relativa perda da capacidade cultural da literatura de se mostrar relevante, não apenas para mim, mas para muitos que estão comprometidos com a cultura: como se alguma coisa se introduzisse nela (sem eventos violentos) e a tornasse inofensiva, doméstica." Vire o texto ao contrário e você vai encontrar uma enorme melancolia pelos bons tempos em que a literatura era ofensiva e pública. Mas eu acho que muita coisa "fraca" e "irrelevante" foi [e é] feita para ser literatura ofensiva e pública...
2. Logo depois Pécora fala da multidão de escrevinhadores espalhados pelos quatro cantos de tudo nesse mundo pindorâmico como "um problema basicamente de inflação simbólica". Gente demais escrevendo e muita gente escrevendo mal ou apenas medianamente. Mas, por exemplo, no começo dos anos 30 para cada Drummond - em geral ignorado por todos os meios de comunicação então - havia um exército de Bilacs sonhando em ser príncipes da poesia brasileira atochando todos os jornais e revistas e livrarias com seus livros... Vivemos realmente uma época diferente? Ou será que essa queixa contra o "o atual democratismo inflacionário das representações" [escorregamos da inflação para o democratismo...] vemos aqui um outro tipo de nostalgia, por um tempo em que uma meia-dúzia de mesas num bar no centro do Rio de Janeiro reuniria toda a inteligência nacional, oriunda quase toda, aliás, da mesma classe social, do mesmo grupo étnico e do mesmo gênero. Suspeito que sempre foi assim: 99.99% do que se escreve não é mesmo excepcional - e não fosse assim o 0.01% restante não seria chamado justamente de... excepcional.
3. Finalmente Pécora, que é um crítico muito mais inteligente que o deserto de idéias que anda preenchendo as páginas cada vez mais magras dos jornais de Pindorama, é mais específico ao descrever a literatura "forte":
"Fosse bom, problematizaria a representação, a identidade “nossa”, do “eu”, a própria ideia de identidade; nos obrigaria a retroceder para fora de nossa experiência comum. Ou mesmo nos expulsaria do poético, envelheceria de um golpe os lugares comuns da invenção. Ele teria complicado o mundo representado, e destruído a subjetividade expressa. Mas quem está fazendo isso?"
E agora, José? Para uma nota despretensiosa que ele chama de "palpites", Alcir Pécora exige muito da literatura contemporânea “forte”. E não é para exigir? Fico pensando em alguém que sente na frente do seu computador com essa missão e imagino um caso de paralisia instantânea. Isso sem falar que não basta querer tudo isso, não é mesmo?

Os falsos palpites de Alcir Pécora merecem mais que esses palpites de ½ tigela de um sujeito atarefado até as orelhas com outras coisas que lhe provém seu sustento...

Sunday, September 11, 2011

"el Nunca Más debe ser para todos los países del mundo"

"La Argentina está siendo reconocida a nivel mundial por sus méritos en avances de derechos humanos sobre el terrorismo de Estado. Como en ningún lugar de Latinoamérica, se están llevando adelante juicios. El encuentro de los nietos es romper con el plan sistemático de robo de bebés y devolverles a los chicos sus derechos. Hubo cosas muy importantes, como la creación del Banco Nacional de Datos Genéticos, y hemos sentado precedentes en el ámbito jurídico y en el psicológico. La memoria, que mantenemos en cada centro clandestino... Hay un trabajo permanente que los organismos de derechos humanos llevamos a cabo desde hace 34 años y ahora también el Estado. El reconocimiento también es para eso, es a un país que no bajó los brazos. Nosotros formamos parte de este país y el mérito, si es que lo tenemos, es la perseverancia, la tozudez y haber hecho las cosas con amor y en paz, jamás por venganza o con odio, sino con un sentimiento muy sano de reparación, reconstrucción y de establecer que esto pasó en la Argentina, pero esto pasó en el globo, concierne al mundo entero. Por eso el Nunca Más debe ser para todos los países del mundo."

Trecho de entrevista com Estella Carlotto.

Enquanto isso, no Brasil...

Thursday, September 08, 2011

Reciclando: Fazer o quê?


Quem tiver alguma resposta que atire a primeira pedra! O poeta mexicano Jaime Sabines articulou o dilema da seguinte forma em 1956, enquanto estava enfurnado em uma loja trabalhando como comerciante em seu estado natal, Chiapas:


¿Qué putas puedo hacer con mi rodilla,

con mi pierna tan larga y tan flaca,

con mis brazos, con mi lengua,

con mis flacos ojos?

¿Qué puedo hacer en este remolino

de imbéciles de buena voluntad?

¿Qué puedo con inteligentes podridos

y con dulces niñas que no quieren hombres sino poesía?

¿Qué puedo entre los poetas uniformados

por la academia o por el comunismo?

¿Qué, entre vendedores o políticos

o pastores de almas?

¿Qué putas puedo hacer, Tarumba,

si no soy santo, ni héroe, ni bandido,

ni adorador del arte,

ni boticario,

ni rebelde?

¿Qué puedo hacer si puedo hacerlo todo

y no tengo ganas sino de mirar y mirar?


Esse poema faz parte da série que Sabines transformou no livro Tarumba, um exercício memorável de sobrevivência... Porque não basta sobreviver, tem que sobreviver bonito...

Monday, September 05, 2011

Poesia Americana 2: Rae Armantrout

Exact

Rae Armantrout

Quick, before you die,

describe


the exact shade

of this hotel carpet.


What is the meaning

of the irregular,yellow


spheres, some

hollow,


gathered in patches

on this bedspread?


If you love me,

worship


the objects

I have caused


to represent me in my absence.

*

Over and over

tiers


of houses spill

pleasantly


down that hillside.

It


might be possible

to count occurrences.


Mais sobre Rae Armantrout aqui.

Saturday, September 03, 2011

Viva la mídia loca


Manchete no site da uol, com direito a vídeo: "Brinco de Dilma cai no chão e a presidente se abaixa para pegá-lo."
Cheio de emoção me preparei para ver o vídeo estarrecedor, mas acabei desistindo pois estava ocupado, comunicando aos meus 372689 amigos do twitter outra notícia bombástica: que eu estava cortando as minhas unhas com meu cortador novo...

Thursday, September 01, 2011

Poesia Americana: Donald Hall

Affirmation

Donald Hall

To grow old is to lose everything.

Aging, everybody knows it.

Even when we are young,

we glimpse it sometimes,

and nod our heads

when a grandfather dies.

Then we row for years on the midsummer

pond, ignorant and content. But a marriage,

that began without harm, scatters

into debris on the shore,

and a friend from school drops

cold on a rocky strand. If a new love carries us

past middle age, our wife will die

at her strongest and most beautiful.

New women come and go. All go.

The pretty lover who announces

that she is temporary is temporary.

The bold woman, middle-aged against

our old age, sinks under an anxiety she cannot withstand.

Another friend of decades estranges himself

in words that pollute thirty years.

Let us stifle under mud at the pond's edge

and affirm that it is fitting and delicious to lose everything.

Mais Donald Hall aqui.