Tuesday, December 26, 2006

Homenagem ao poder de síntese

Ando lendo uma quantidade excessiva de antologias e resenhas de poesia e o resultado foi esse texto em "homenagem" a esses augustos críticos que nos explicam qualquer coisa em um par de parágrafos.

A Geração de 65*

A Geração de 65 é das mais vigorosas do século, principalmente no que diz respeito à chamada lírica da solidão anabolizante, com uma busca incessante da experimentação estética em linhas arrojadas, porém eminentemente bucólicas. Foram publicados inicialmente nas páginas amarelas das revistas Broca, Espelho e, é claro, Klut – O Passado Condena; além do lendário caderno de cultura do jornal Folha de Montezuma dirigido na época por Eulálio Fagundes Feitosa e Júlia Jorge de Medeiros. A de 65 é uma geração marcada acima de tudo pelo desastre da desclassificação da seleção iugoslava nas eliminatórias para a Copa da Inglaterra. Seu líder inconteste e figura mais importante é, sem dúvida, Xerxes Feitosa. Advogado, militante estudantil, jornalista e dono de uma academia de ginástica, Xerxes Feitosa teve em Largos Anéis, seu primeiro livro de poemas, um sucesso sem precedentes, tendo permanecido na lista dos mais vendidos por 33 semanas consecutivas. O sucesso descomunal do livro de Xerxes acabou gerando protestos de emissoras de televisão, que reclamavam da competição desleal contra seus programas, abandonados às moscas enquanto a cidade promovia intermináveis saraus que sempre terminavam com a leitura entusiasmada dos poemas mais famosos de Xerxes: “Lava,” “Ode ao Envelope Lacrado” e principalemente “Fragmentos de um Frango de Poliuretano.” Magnitudes Infinitesimais marca uma guinada histórica na trajetória do poeta, com poemas curtos e grossos alusivos à polêmica com a televisão que desembocou no manifesto Televisão Também é Cultura. Destacam-se nesse livro os poemas “Lápides em Pó” e “Estrofes em Trufas.” Destacam-se também na Geração de 65 Coriolano França Júnior, poeta do amor solitário e das divagações amarguradas sobre a falta de dinheiro, e Gérson Gilson Siqueira, conhecido pelo seu rigor informal e comprometimento social com as memórias da juventude no bairro Servo-Croata de Montezuma. O crítico Almenara Salustiano descreve a Geração de 65 com as seguintes palavras: “Jovens maduros, paradigmáticos, mórbido-emotivos e por vezes até confusos, mas sempre estéticos, os poetas da Geração de 65 fundem o cru e o cozido, o macro e o micro, o hermenêutico e o seráfico numa síntese de opostos ortodoxos.”

*Texto extraído da antologia “Os Duzentos Melhores Poetas de Montezuma” de Olavo Penafiel Filho.

Fazer o quê?

Quem tiver alguma resposta que preste que atire a primeira pedra! O poeta mexicano Jaime Sabines articulou o dilema da seguinte forma em 1956, enquanto estava enfurnado em uma loja trabalhando como comerciante em seu estado natal, Chiapas:

¿Qué putas puedo hacer con mi rodilla,
con mi pierna tan larga y tan flaca,
con mis brazos, con mi lengua,
con mis flacos ojos?
¿Qué puedo hacer en este remolino
de imbéciles de buena voluntad?
¿Qué puedo con inteligentes podridos
y con dulces niñas que no quieren hombres sino poesía?
¿Qué puedo entre los poetas uniformados
por la academia o por el comunismo?
¿Qué, entre vendedores o políticos
o pastores de almas?
¿Qué putas puedo hacer, Tarumba,
si no soy santo, ni héroe, ni bandido,
ni adorador del arte,
ni boticario,
ni rebelde?
¿Qué puedo hacer si puedo hacerlo todo
y no tengo ganas sino de mirar y mirar?

Esse poema faz parte da série que Sabines transformou no livro Tarumba, um exercício memorável de sobrevivência... Porque não basta sobreviver, tem que sobreviver bonito...

Monday, December 18, 2006

Musas?

Musas?

Uma pergunta de uma aluna estrangeira sobre uma canção da Rita Lee e Zélia Duncan que foi gravada por Maria Rita me chamou a atenção para a freqüência com que a palavra musa anda aparecendo na mídia brasileira e para o significado peculiar dessa palavra nesse contexto. Que diacho quer dizer para uma mulher ser chamada de "musa"? E que tal "musa do congresso", "musa do verão", "musa da novela", "musa da torcida"? Quem é a "musa dos mecânicos"? Somos um país de homens punheteiros e mulheres de papel? Cada país e cada época têm a musa que merece? Com a palavra um respeitado poeta:

O POETA ASSASSINA A MUSA

Há dez dias que Clotilde
- Uma das musas queridas -
Anda aborrecendo o poeta.
Aparece carinhosa,
De repente vira as costas,
Diz várias coisas amargas,
Bate impaciente o pé.
Então o poeta aporrinhado
Joga álcool e ateia fogo
Nas vestes da musa.
A musa descabelada
Sai cantando pela rua.
Súbito o corpo grande se estende no chão.

Diversas musas sobressalentes
Desandam a entoar meus cânticos de dor.
Clotilde ressuscitará no terceiro dia,
Clotilde e o poeta farão as pazes.
Música! Bebidas! Venham todos à função.


Murilo Mendes, 1930-1933

Musas?

Uma pergunta de uma aluna estrangeira sobre uma canção da Rita Lee e Zélia Duncan que foi gravada por Maria Rita me chamou a atenção para a freqüência com que a palavra musa anda aparecendo na mídia brasileira e para o significado peculiar dessa palavra nesse contexto. Que diacho quer dizer para uma mulher ser chamada de "musa"? E que tal "musa do congresso", "musa do verão", "musa da novela", "musa da torcida"? Quem é a "musa dos mecânicos"? Somos um país de homens punheteiros e mulheres de papel? Cada país e cada época têm a musa que merece? Com a palavra um respeitado poeta:

O POETA ASSASSINA A MUSA

Há dez dias que Clotilde
- Uma das musas queridas -
Anda aborrecendo o poeta.
Aparece carinhosa,
De repente vira as costas,
Diz várias coisas amargas,
Bate impaciente o pé.
Então o poeta aporrinhado
Joga álcool e ateia fogo
Nas vestes da musa.
A musa descabelada
Sai cantando pela rua.
Súbito o corpo grande se estende no chão.

Diversas musas sobressalentes
Desandam a entoar meus cânticos de dor.
Clotilde ressuscitará no terceiro dia,
Clotilde e o poeta farão as pazes.
Música! Bebidas! Venham todos à função.


Murilo Mendes, 1930-1933

Em homenagens às musas

Intrigante a maneira como a palavra "musa" anda sapecando nossos meios de comunicação ... Cada país e cada época têm as musas que merece? Cada cabloco tem as musas que merece!

O POETA ASSASSINA A MUSA

Há dez dias que Clotilde
- Uma das musas queridas -
Anda aborrecendo o poeta.
Aparece carinhosa,
De repente vira as costas,
Diz várias coisas amargas,
Bate impaciente o pé.
Então o poeta aporrinhado
Joga álcool e ateia fogo
Nas vestes da musa.
A musa descabelada
Sai cantando pela rua.
Súbito o corpo grande se estende do chão.

Diversas musas sobresalentes
Desandam a entoar meus cânticos de dor.
Clotilde ressuscitará no meu terceiro dia,
Clotilde e o poeta farão as pazes.
Música! Bebidas! Venham todos à função.

Murilo Mendes, 1930-1933

Friday, December 15, 2006

Voltei 2

Consegui abrir meu blog aos comentários da imensa massa de leitores que me perseguia desde o ano passado. Então vou tentar de novo esse negócio. Vou passar nos meus e-mails o anúncio dessa volta triunfal e esperar pelas garrafas com mensagens...

Viva a porcaria!!!!!! - Voltei

"Assim como não se come caviar e lagosta todos os dias, na literatura um pouco de arroz com feijão não faria mal nenhum."
Que tal um McDonalds bem nojento todos os dias? Ver filmes da Xuxa, assistir Faustão, ler porcaria - porque não? É preciso lutar pelo direito de cada cidadão consumidor de amar o seu lixo cultural sem ser incomodado por esses intelectuais super-poderosos que monopolizam os meios de comunicação completamente!!!!

Tuesday, March 14, 2006

Bubú capítulo 2

Atendendo a bilhões de pedidos agora deve ficar mais fácil registrar seus comentários online!

Sheila e Walton

E aí minha mãe apareceu de repente lá na casa da tia Sharon pra me buscar e todo mundo lá estranhou ela aparecer assim de repente. E ela chegou daquele jeito tão bem nervosa dela que tia Sharon deve de ter achado melhor nem perguntar nada e muito menos eu. Só o jeito que ela pegou assim no meu braço já deu pra sentir que o trem tava feio.
Queria lembrar quem foi o burro que falou outro dia na televisão que perguntar não ofende – qualquer menino da minha idade e até bem mais novo sabe muito bem que isso é a maior mentira da paróquia e já provou na própria pele o preço salamargo de uma pergunta mal perguntada na hora errada. Eu por mim já apanhei mais do que eu dava conta na minha vida, então eu não sou retardado igual o Felixton meu colega de escola, que encheu tanto o saco da mãe dele que ele foi parar no hospital e anda por aí com a perna meio torta até hoje. Eu não gosto de perna torta nem nos outros então eu logo vi que era melhor não nem abrir o bico.
Mas tem dia em que nem não abrir o bico resolve porque é se falar o bicho pega, se calar o bicho come. E o dia em que a minha mãe pareceu lá na casa da tia Sharon e me buscou foi um dia desses assim. Já no meio do caminho para o ponto de ônibus ela já me desceu um tapão na cabeça e eu “ai, mãe!” e ela ainda rosnou um “anda logo, menino” e deu um puxão que o meu braço quase virou dois: um toco solto na mão dela e outro preso aqui nimim.

Monday, February 20, 2006

Uma novela - Bubú

Continuo na minha busca desesperada por leitores. Ainda não apelei para a pornografia, mas resolvi adotar o folhetim em capítulos para competir com as novelas das 5, 6, 7 e 8. Da Globo.

Sheila e Bubú

A cama do fé-da-puta do cachorro ficava na sala e era muito melhor que aquele colchão mofado que era mais um mofão acolchoado onde eu tinha que dormir naquele quartinho que nem armário tinha, que era abafado no verão e frio no inverno, praonde eu tinha que ir e ficar quando não tivesse fazendo algum serviço na casa ou no quintal. “Olha, Sheila, aqui em casa o sistema é assim: parou de trabalhar, terminou o serviço – você pode ir direto já pro seu quarto e se a gente precisar a gente te chama.” E a porcaria do cachorro lá, assistindo televisão enviado nas pernas da patroa, empestando o sofá todo de pelo, com aquele cheiro de cachorro.
E então eu sabia que eles iam me despedir – a empregada da vizinha me disse que eles sempre despediam as empregadas depois de seis meses – e a porcaria do cachorro ainda ficava lá latindo pra mim toda a hora que me via e o nojento do patrão rindo e falando que era assim mesmo, que cachorro não gostava mesmo de preto, que não tinha jeito, que era o cheiro de preto que eles não gostavam e ele rindo e o fé-da-puta latindo ainda mais alto e a patroa toda fresca falando “Vem cá, meu lindo. Vem pro colo da mamãe; cê tá com medo da Sheila, não é meu bubú?”
Seu bubú, tem base? Ela chamava a porcaria do cachorro de Bubú! Mas o Bubú não perdia por esperar – eles foram pro sítio e me deixaram pra tomar conta do cachorro e da casa. Ah, mas eu peguei o Bubú – ele começou a me encher o saco latindo – e passei um arrame velho que eu achei no quarto de despejo em volta da boca dele e o fé-da-puta quis até me morder, mas eu tranquei a boca dele, prendi ele nas pernas e desci o chinelo nele todo sem dó, depois enfiei a cabeça dele e esfreguei aquele focinho nojento na privada e dei uma boa descarga e aí joguei ele longe e ainda meti um pontapé bem forte nele.
Não vou mentir: foi bom demais na hora, mas foi meio-ruim depois também, porque eu sei que foi meio-covardia minha. O cachorro se enfiou debaixo da cama da patroa e de lá não saiu mais e eu peguei meus trens e fui embora daquela porcaria de casa na hora.

Monday, February 06, 2006

Uma gota de fenomenologia

Esse texto é uma homenagem aos milhares de livrinhos fininhos que se propõem a explicar em 50 páginas qualquer coisa, do Marxismo ao machismo e de Bakhtin a Bakunin:

Uma gota de fenomenologia


Uma coisa é a coisa que a gente vive nos ossos, nos nervos, na carne e na pele; aquilo que chega e esfria ou esquenta o sangue do caboclo. Outra coisa bem outra é assistir essa mesma coisa, mais ou menos de longe. Nem a mãe de um caboclo que passa fome sabe o que é passar fome do jeito que o caboclo que passa fome sabe. A mãe sabe outra coisa, que é o que é ser mãe de um caboclo que passa fome. Isso nem o caboclo sabe: o que ela sabe é dela só, diferente do caboclo e diferente do médico que recebe o tal caboclo e a mãe dele no hospital. O médico sabe da fome do cabloco de um outro jeito porque ele já ficou mais longe daquela fome um tanto mais que a mãe e outro tanto bem mais que o caboclo. O jeito que o médico sabe da fome daquele caboclo pode ser mais ou menos só dele ainda, mas isso só se ele pôr muito reparo no caboclo e na mãe dele. O que geralmente atrapalha o médico é que ele geralmente acha que sabe mais da fome do caboclo que o próprio caboclo e a mãe do caboclo e por isso ele não presta atenção nos dois e por isso ele acaba que sabe de uma fome que é igual à fome que qualquer outro médico em qualquer outro hospital sabe. Mais longe ainda que esse médico fica o jornalista que aparece do nada na porta do hospital para ver e falar com o caboclo e a mãe dele e o médico para depois escrever sobre eles no jornal. O jornalista é geralmente pior só porque geralmente ele acha que já sabe o que o caboclo, a mãe dele e o médico sabem e que por isso sabe mais que eles todos. Agora, a pior raça mesmo de todas é a do fé-da-puta que vem escrever sobre a história da fome do caboclo, da mãe do caboclo, do médico e do jornalista porque esse já ficou tão longe, mas tão longe, que o que ele escreve ainda parece ser mas já não tem quase nada que ver com aquela fome do caboclo: o que ele escreve é essa tal de literatura.

PS. Não custa lembrar que se a fome passar nem o caboclo sabe mais a mesma coisa que sabia quando passava fome. O que ele tem depois que a fome passa e só uma idéia (mais uma) do que era a fome que ele um dia passou. Quando ele pára de passar fome e ainda acha que sabe o que é passar fome do mesmo jeito que o outro caboclo que ainda passa fome ele arrisca pretensão quase tão grande quanto a do médico, do jornalista e do bosta do escritor.

Friday, January 06, 2006

2 cachorros e meu recorde

Enquanto eu me aproximo cada vez mais (como se alguém pudesse se aproximar cada vez menos) de entrar para o Guiness Beer Book of Stupid Records como o dono do blog menos visitado desse mundo digital sem pai nem mãe, mais um texto, agora sobre cachorros com direito a epígrafe da venrável senhora woolf! woolf!:

2 cachorros


Such conduct in a man even, in the year 1842,
would have called for some excuse from a biographer;
in a woman no excuse could have availed;
her name must have been blotted in ignominy from the page.
But the moral code of dogs, whether better or worse,
is certainly different from ours, and there was nothing
in Flush’s conduct in this respect that requires a veil now,
or unfitted him for the society of the purest
and the chastest in the land then.
Virginia Woolf


10 de dezembro, 10.55 da manhã
- Porcaria d cadela já vem me atrapalhar o banho d sol. Já ficamos os 2 trancados nessa porcaria de quintal c/ esse pedaçinho d corredor c/ nem bem 2 horas de sol p/ dia e ainda me vem vc! Sai! Sai!
- Pelo cheiro d cebola e repolho picados da espelunca daquele chinês seboso já devem ser quase 11 horas. O sol já vai embora daqui a pouco – será q vc pode chegar um pouquinho p/ lá?
- Vc anda com o focinho entupido. O chinês está tirando a carne do pacote. Hummm... Qto tempo s/ nem lamber um bocadinho de sangue caído no chão da cozinha! Pq é q a Zélia tinha q nos largar aqui com esse muquirana q só nos dá uma porcaria de marmita quase vazia p lamber uma vez p/ dia – se ñ é dia de coxa d galinha só sobra uma ½ dúzia d grãos de arroz p/ um dia inteiro.
- Deixa d ser chorão, reclamando da vida na melhor parte do dia. O almoço já vem.
- Ñ fosse todo o cachorro antes d tudo um forte já estávamos os 2 mortos. E desse jeito o nosso destino – vc acha q cura essa sua sarna c/ essa comida? É demais p/ a cabeça de 1 cachorro. Aquele bando de pulhas passeando livres a noite inteira d muro em muro impunemente e nós 2 aqui presos sem nem 1 sapato velho p/ desabafar a raiva!
- Sente o cheiro d sabão barato e creme d alisar cabelo; o guardador d carro já dobrou a esquina.
- O q é q adianta? Ele entrega todo o dia a marmita pro velho e p/ mais q a gente abane o rabo e faça a festa ele só libera a porcaria da marmita com 1 mero punhadinho q ñ dá nem pro buraco do dente. Miséria de vida!

11 de dezembro, 10.55 da manhã
- Lá vem vc, porcaria de cadela, atrapalhar meu banho de sol. Será que –
- Vamos fugir hoje?
- O q?
- Vamos embora daqui qdo a porta abrir qdo o guardador d carro trouxer a comida.
- Mas logo na única hora em q alguém aparece p/ aqui c/ comida nós vamos embora? Além disso, nós ñ duraríamos 2 dias lá fora.
- Pq?
- Lá fora é 1 mato s/ cachorro, um verdadeiro hospício de gatos, uma selvageria generalizada. Porteiros, zeladores de prédios, raças de gente da pior espécie, prontos p/ te meter o pé nas costelas ou no focinho ou te dar c/ 1 pedra na cabeça ou te escaldar c/ água fervendo ou coisa pior.
- Pior do q viver aqui ñ pode ser. Eu me recuso a morrer de fome.
- Vira essa boca babenta p/ lá, eu ñ vou morrer nunca!
- Então?
- Vc nunca morou na rua sem dono, ñ tem idéia do q é. Vc nem sabe ler.
- Qualquer cachorro c/ 1 mínimo d bom senso e faro razoável aprende a ler o essencial em 2 semanas. Vc mesmo disse.
- Vc se lembra daquela corujinha empalhada safada insolente trepada em cima da mesa do escritório lá em cima?
- Aquela porcariazinha teve o que mereceu.
- É, mas o q é q aconteceu depois que nós 2 demos cabo daquela lambisgóia?
- Tomamos 1 sova c/ um pedaço de fio de cobre q me doeu o lombo 1 semana, mas aquela porcariazinha ñ podia ficar ali em cima da mesa nos provocando impunemente, podia?
- Mas depois da surra que vc recebeu vc decidiu dar o troco nas galochas da Zélia, vc lembra?
- Ela me deu outra surra pior e me trancou no canil frio debaixo da escada 2 dias.
- Pois lá fora isso vc pode se considerar sortuda se conseguir ser tratada assim uma semana inteira!
- Mas qdo eu estiver livre aqueles palhaços ronronando e rebolando lá em cima do muro vão finalmente ter o q merecem.
- Vc vai, eu fico. Assim me sobra mais comida e eu tomo o meu banhozinho de sol em paz s/ encheção de saco.
- Mas q belo covarde vc me saiu, hein? Eu vou dar no pé e ninguém vai me pegar, vc vai ver.
- Vai, bocó, mas a liberdade é 1 golpe de vista, ilusão de ótica, miragem, sonho. Afie as garras e os dentes e apure os latidos pq pode até ser bom de vez em qdo lá fora, mas geralmente é uma lástima obscenamente horrível p/ 1 cachorro s/ dono. Vc ainda vai se lembrar desse quintal c/ 1 paraíso perdido onde vc podia se encostar num canto e sonhar c/ 1 osso bem carnudo ou 1 bom tufo d penas na boca e pode enfiar seu rabo entre as pernas e deixá-lo lá pq lá fora quem balança o rabo na hora errada vira sabão!
- Vira vc essa boba fedida p/ longe d mim e chega p/ lá!

O velho cão recosta a cabeça entre as patas e cai imediatamente em sono profundo embalado pelo zumbido abafado dos carros lá fora. Logo veio um sonho e nele apareceram um gato de olhos amarelados repugnantes, um pombo arrogante cheio de penas e um dos chinelos peludos da sua querida desaparecida verdadeira dona que apareceu como sempre com um pelo pedaço de pão besuntado de manteiga ou até um osso balançando da mão e a roupa cheirando a laranja, cigarro, benzina, água de colônia, pipoca, lã e sabão e o chamava com a voz tão doce, tão cheia de amor e alegria e fiu, fiu, totooó, vem cá lindinho vem... e no seu sonho o velho cão e ela saem juntos passeando na rua, ele se deliciando com cada poste e cada canto cheio de tantos cheiros tão bons e os vira-latas com os olhos queimando de inveja e latindo e rosnando indignados chamando-o de “seis pernas” e “meleca de madame” e ele desfilando triunfalmente cheirando cada poste e cada canto e cobrindo com 2 ou 3 gotas de urina cada ponto estratégico da rua e voltando para casa lindo glorioso feliz um cão com dono voltando para casa e ai do gato repugnante e do pombo arrogante e do chinelo peludo cruzando a sua frente despudoradamente...

Wednesday, January 04, 2006

(Quase) glória da ciência nacional

Vamos mudar de registro para continuar furiosos:

(Quase) glória da ciência nacional

Já estavam quase aprendendo a viver
quase sem comer
quando, infelizmente,
vieram a falecer,
deixando para trás aqueles que,
já quase aprendendo
a viver quase sem qualquer desejo,
acabaram, infelizmente, comprando
com um revólver arrendado
uma passagem (com escalas)
ao Carandiru
mais próximo onde,
infelizmente, vieram
também a falecer antes
de aprender de novo
a ser pobre sem trauma de pobreza,
mas
não sem antes dar
ao Estado o que é do Estado
quando o Estado precisa ser Estado:
esse medo duro,
generalizado,
embalado a vácuo,
que cria um ajustamento sem dor,
ou, se preferirem,
um consenso asmático
(quem tiver estômago,
faça uma pesquisa
e pergunte a esfinge
que atende pelo curioso nome,
brasileiro médio,
se ele concorda com a frase,
cunhada de próprio punho,
“o bandido bom é o bandido morto”)
que transformou e transforma
quinhentos anos de violência crassa
na identidade nacional maior.

Enquanto isso, nós,
com a cabeça enterrada
na areia fresca da praia
fazendo as pazes conosco,
vivendo em guerra conosco,
querendo sempre não ver:
são sempre quase todos quase
tataranetos de escravos
moídos em doce duro
que adoça o café amargo
que só vem depois
da tal sobremesa.