Friday, August 25, 2017

Sobre reportagem do New York Times sobre Angola

Título de reportagem recente do jornal New York Times sugere que houve uma inversão na relação entre Portugal e Angola e que a antiga colônia estaria agora "dominando" sua antiga metrópole. A reportagem centra atenção nos investimentos feitos por angolanos endinheirados em imóveis de alto luxo e em outros negócios em Portugal e nas dificuldades em investigar possíveis irregularidades nessas transações por causa de um possível tráfico de influência ou mais simplesmente pelo poder daquele dinheiro que se conta em bilhões.
Isabel dos Santos, filha de Agostinho dos Santos

Volto à sugestão do título de que acontecia uma repetição, agora com os papéis invertidos, da situação colonial. Só mesmo uma miopia muito particular para sugerir algo assim. Seria porque o repórter e talvez muitos dos seus leitores imaginam que no período colonial o que se passava era que os endinheirados portugueses iam fazer investimentos de luxo em Angola? O tom algo sarcástico me fez lembrar certas notícias dos jornais ingleses, país que tem uma história colonial com vários pontos em comum com a portuguesa. Nessas reportagens os endinheirados das ex-colônias inglesas, volta e meia, fazem compras na Inglaterra, não apenas no mercado imobiliário, mas em negócios de alta visibilidade cultural como o comércio e o futebol. Em níveis diferentes de sutileza, esses endinheirados – que até namoravam princesas – são vistos como intrusos e seu estado endinheirado volta e meia questionado em função da miséria de grande parte da população dos seus países natais. No caso parece que incomoda a alguns o fato desses endinheirados serem filhos de gente poderosa, sem parar para pensar que a grande maioria dos endinheirados de hoje em qualquer país são filhos dos endinheirados de ontem. 

Infelizmente no século XXI existe essa necessidade constante de reafirmar o óbvio, então vamos lá: os endinheirados de Angola, assim como seus pares de todos os cantos do mundo, estão longe de representar sua nação e muito menos o seu povo. Nem sequer representam o grupo de imigrantes angolanos em Portugal ou em qualquer outro lugar do mundo, composto de pessoas que nunca terão sequer um milhãozinho de dólares na mão para fazer bonito numa festa chique em Cannes. Os endinheirados de qualquer lugar, mesmo dos países mais ricos, representam única e exclusivamente uma coisa: a riqueza paquidérmica dos donos de um mundo plutocrático.


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Eike Batista, filho de Eliezer Batista
Não quero repetir nenhuma dessas ladainhas anticoloniais que parecem esperar que um dia Portugal, Inglaterra ou os Estados Unidos como nações vão ajudar qualquer outro país a melhorar substancialmente. Alguns portugueses, ingleses e estadounidenses podem ajudar mas achar que o estado nesses países vai deixar de lado o núcleo da sua atuação internacional, que é uma diplomacia cínica que serve apenas aos interesses econômicos dos seus próprios endinheirados é uma ilusão. 

E tenho tentado me recusar a esse jogo das redes sociais no qual as pessoas querem resolver todas as dores do mundo com um parágrafo no FCBK. Ainda mais neste caso porque não tenho a menor condição de sair fazendo análises e oferecendo soluções aos Angolanos para problemas que brasileiros [ou portugueses ou ingleses ou estadounidenses] também têm e não conseguem resolver. Apenas constato que o que fazem os endinheirados angolanos [ou brasileiros, ou portugueses, ou ingleses, ou estadounidenses] com o seu dinheiro é assunto que só há de ser resolvido um dia por cada nação em seus próprios termos, quando a maioria de "desendinheirados" resolver que está na hora de trocar nossas plutocracias por algum tipo de democracia para valer. 

Wednesday, August 23, 2017

Entre o 1984 de Orwell e o nosso 2017

Estamos lendo em voz alta em conjunto e ao ritmo de um capítulo por dia o livro 1984 de George Orwell. Estamos ainda no capítulo 5 e, se algumas passagens me impressionam, não é pelo que o livro teria, supostamente, de profecia sobre o futuro. Acho que Orwell foi esperto o suficiente ao não tentar adivinhar como seria a vida de fato em 1984, mas em concentrar-se numa espécie de caricatura grotesca para coisas grotescas que já aconteciam na época mesma em que o livro foi escrito.  

Nem por isso deixei de sentir um arrepio, por exemplo, lendo em voz alta para o meu filho, que nasceu nos Estados Unidos menos de três meses antes do ataque de 11 de setembro e que, portanto, vive num país em guerra desde sempre, a seguinte passagem: 

"Winston could not definitely remember 
a time when his country had not been at war..."
"Winston não podia se lembrar com exatidão sobre um tempo 
em que seu país não estivesse em guerra..."

O curioso é que o estado de guerra permanente em que os Estados Unidos vivem desde então foi normatizado a tal ponto que todas as muitas mudanças introduzidas na cultura e na vida diária foram completamente normatizadas e por isso passam desapercebidas. A exceção é claro são aqueles que, em troca de algum sonho de ascenção numa sociedade estratificada e engessada há muito tempo, estão no campo de batalha, e de suas famílias - muito se fala sobre eles, sempre com um pieguismo culpado de filme americano, mas no fim das contas o fim do alistamento universal depois do Vietnã permitiu que a guerra seja invisível para muita gente. 

Senti outro arrepio, de outra natureza, quando li essa outra passagem que apresenta com precisão acidental um certo estado de espírito dos dias de hoje:

"The enemy of the moment always represented absolute evil, and it followed that any past or future agreement with him was impossible." [43]
"O inimigo do memento sempre representava o mal absoluto, e daí concluía-se que qualquer acordo, passado ou futuro, com ele era impossível.  

Um mundo como o nosso, aparentemente governado por conflitos sempre dispostos de forma tão absoluta e irreconciliável, rapidamente caminha para um mundo totalitário, onde o único destino aceitável para os nossos inimigos políticos [e outros inimigos também] é a cadeia. Ou pior: a morte.  

Saturday, August 19, 2017

Poesia mexicana: Muerte sin fin de José Gorostiza

Natureza Morta da pintora Janet Fish [mais dela aqui]
Como chamar a atenção de gente que não conhece literatura mexicana para um poema maravilhoso como "Muerte sin fin" de José Gorostiza? Enchê-lo de superlativos do tipo "o melhor", "o mais importante", "o mais maravilhoso"? Fazer comparações com poemas maravilhosos que o leitor brasileiro conhece? Escrever desse jeito é fazer um ritual que para mim está gasto e sem sentido, mas não fazer esses rituais significa escrever às moscas? Minha gastura ganha. Não sou hoje um bom defensor de "Muerte sin fin" nem de Gorostiza. Paciência. Hoje estou assim, "um desabar de anjos caídos à delcícia intacta do seu pesocontido dentro do meu corpo como a água do poema de Gorostiza está contida nessa primeira parte do poema dentro do copo "rede de cristal que a estrangula".  

MUERTE SIN FIN



                                    Conmigo está el consejo y el ser: yo
                                    soy la inteligencia; mía es la fortaleza
                                    PROVERBIOS, 8, 14

                  Con él estaba yo ordenándolo todo;y
                                    fui su delicia todos los días, teniendo
                                    solaz delante de él en todo tiempo.
                                    PROVERBIOS, 8, 30

                  Mas el que peca contra mí defrauda
                                    su alma; todos los que me aborrecen
                                    aman la muerte.
                                    PROVERBIOS, 8, 36

I
LLENO DE MI, sitiado en mi epidermis
por un dios inasible que me ahoga,
mentido acaso
por su radiante atmósfera de luces
que oculta mi conciencia derramada,
mis alas rotas en esquirlas de aire,
mi torpe andar a tientas por el lodo;
lleno de mí —ahíto— me descubro
en la imagen atónita del agua,
que tan sólo es un tumbo inmarcesible,
un desplome de ángeles caídos
a la delicia intacta de su peso,
que nada tiene
sino la cara en blanco
hundida a medias ya, como una risa agónica,
en las tenues holandas de la nube
y en los funestos cánticos del mar
—más resabio de sal o albor de cúmulo
que sola prisa de acosada espuma.
No obstante —oh paradoja— constreñida
por el rigor del vaso que la aclara,
el agua toma forma.
En él se asienta, ahonda y edifica,
cumple una edad amarga de silencios
y un reposo gentil de muerte niña,
sonriente, que desflora
un más allá de pájaros
en desbandada.
En la red de cristal que la estrangula,
allí, como en el agua de un espejo,
se reconoce;
atada allí, gota con gota,
marchito el tropo de espuma en la garganta
¡qué desnudez de agua tan intensa,
qué agua tan agua,
está en su orbe tornasol soñando,
cantando ya una sed de hielo justo!
¡Mas qué vaso —también— más providente
éste que así se hinche
como una estrella en grano,
que así, en heroica promisión, se enciende
como un seno habitado por la dicha,
y rinde así, puntual,
una rotunda flor
de transparencia al agua,
un ojo proyectil que cobra alturas
y una ventana a gritos luminosos
sobre esa libertad enardecida

que se agobia de cándidas prisiones!

Wednesday, August 09, 2017

Juan Rulfo por ele mesmo, entre o horror e a maravilha, desde a infância

Juan e seu irmão Severiano
Eis aqui Juan Rulfo, contando do seu encontro formador com os horrores da guerra e as maravilhas da leitura ali na infância:


Cuando se fue a la Cristiada, el cura de mi pueblo dejó su biblioteca en la casa porque nosotros vivíamos frente al curato convertido en cuartel y, antes de irse, el cura hizo toda su mudanza. Tenía muchos libros porque él se decía censor eclesiástico y recogía de las casas los libros de la gente que los tenía para ver si podía leerlos. Tenía el índex y con ése los prohibía, pero lo que hacía en realidad era quedarse con ellos porque en su biblioteca había muchos más libros profanos que religiosos, los mismos que yo me senté a leer, las novelas de Alejandro Dumas, las de Victor Hugo, Dick Turpin, Buffalo Bill, Sitting Bull. Todo eso lo leí yo a los diez años, me pasaba todo el tiempo leyendo, no podías salir a la calle porque te podía tocar un balazo. Yo oía muchos balazos. Después de algún combate entre los federales y los cristeros había colgados en todos los postes. Eso sí, tanto saqueaban los federales como los cristeros. (Vital: 2004, 36)

A Cristiada foi um levante de grupos católicos contra as reformas do governo de Plutarco Elías Calles [o laicizante de um é o anti-clérico do outro]. Lá fora as balas, os saques e os corpos pendurados pelo pescoço nos postes; ali dentro a literatura.