Saturday, May 31, 2014

Traduzindo uma tradução: Daniel Sada "de volta" ao português

Arte minha: "O caco de lua que a janela emoldura"
Eis a abertura do conto de Daniel Sada chamado "El fenómeno ominoso" na minha tradução para o português, no original em espanhol e na tradução para o inglês de Katherine Silver:

"Pode-se viver longe, muito longe, lá onde não chega estrada alguma nem há trilhos de trem por perto: num velho aposento perdido na chapada; lá onde não existem nem veredas fortuitas nem inimigo que salte, nesse duro espaço que amolda vontades e cede ao abandono deixando atrás de si os ares mundanos, a esfumaçante sociedade que nunca pára, as tentações imediatas. Em troca... optar e para sempre pelo retiro, pela experiência viva que afina os sentidos e alarga toda a forma. Acaso seria necessário? Não, mas uma vez, sim, - aproximadamente - se pode viver sozinho. Longe, onde o tempo não apressa as sábias lentidões."

"Se puede vivir lejos, muy lejos, allá donde no llega ninguna carretera ni hay vías de tren cercanas: en un viejo aposento perdido en la llanura; allá donde no existen ni veredas fortuitas ni enemigo que salte, en ese duro espacio que amolda voluntades y cede al abandono dejando tras de sí los aires mundaneros, la humeante sociedad que nunca para, las tentaciones prontas. A cambio… Optar y para siempre por el retiramiento, por la experiencia viva que afina los sentidos y alarga cuanta forma. ¿Acaso es necesario? No, pero alguna vez sí -aproximadamente- se puede vivir solo. Lejos, donde el tiempo no premia las sabias lentitudes."

You can live far away, very far away, out there where neither roads nor train tracks reach: in an old shack lost on the plain; out there where no fortuitous sidewalks exist nor enemies lurk, in that hardened space that molds the will and leads to resignation, leaving in its wake worldly airs,
ceaseless and smoldering society, immediate temptations. In exchange for ... To opt for, and forever more, withdrawal, first-hand experience that sharpens the senses and extends what it creates. Is it necessary? No, but at some point, yes-more or less-one can live alone. Far away, where time doesn't reward the wisdom of the slow.

Traduzir aqui se trata apenas do prazer [útil haja visto a minha profissão] da leitura mais minuciosa que há. E o prazer e a utilidade da tradução aparecem com mais clareza justo naqueles momentos em que trombamos com alguma coisa que exige algo mais que alguma solução imediata e simples entre os dois idiomas. 
Daniel Sada é o escritor mais profundamente Roseano que eu conheço e essa sua profundidade rara é em certa medida produto do fato de ele estar escrevendo em uma outra língua: Sada "traduziu" para o espanhol do norte mexicano, a serviço do seu próprio estilo único, aquela sintaxe solta e aquela dicção que brinca de fingir a língua vernacular "do mato" em formas mais antigas que marcam Guimarães Rosa.  Por exemplo, no uso curioso do verbo "premiar" em espanhol no seu sentido menos comum de "apressar" [esse segundo premiar espanhol do latim premere que é também "apertar/espremer" e nos deu no português o adjetivo premente]. Ou na interpolação de um "aproximadamente" devidamente acentuado por travessões no meio de uma frase que já vacilava em admitir a possibilidade da vida realmente solitária. 
Enfim: traduzir Sada me força a conhecer o texto de Sada e de Guimarães Rosa mais intimamente e a viver pelo menos por alguns momentos nesse "longe, muito longe" do conto, onde a "experiência viva [...] afina os sentidos e alarga toda a forma".



Friday, May 30, 2014

Postal: 1492, 1905, 1961

Imagens: 
1. "Primeros homenajes en el Nuevo Mundo a Colón" José Garnelo Alda, 1892, Museo Naval de Madrid
2. "Lord Curzon [Vice-rei da India] e o Nizam de Hyderabad ["admnistrador" dos territórios onde estão hoje os estados de
Andra Pradesh, Karnataka e Maharashtra], Índia, 1905
3. John F. Kennedy e o presidente da Venezuela Rómulo Betancourt 
em palanque em La Morita, Venezuela, 1961.





"O Progresso e a Modernidade substituíram a missão cristã de Espanha e Portugal e a missão civilizatória de França e Inglaterra e tornaram-se o novo objetivo da versão imperial dos Estados Unidos para os colonialismos anteriores."
Walter Mignolo, "Globalization, Civilization Processes, 
and the Relocation of Languages and Cultures"

Thursday, May 29, 2014

Postal da Babilônia

Arte Minha: Glossário


"It's possible to find something sinister 
in the effort to hide half your emotional spectrum from your children." 
Comentário sobre o hábito bizarro de certos pais aqui nos Estados Unidos de NUNCA dar o menor sinal de raiva ou frustração ou desespero com os filhos 

Tuesday, May 27, 2014

Decálogo para enfrentar ano de eleições na internet

Eu não me canso de ficar espantado com a infantilidade do bate-boca [a palavra debate não se aplica aqui] sobre política que se intensifica em ano de eleições. Nem quero discutir o dilúvio de fraudes [fotos montadas, fotos com legendas completamente falsas e associações alucinadas] que vem por aí. Independente dele, o conteúdo do tal bate-boca é digno de uma revista de fofoca e as estratégias retóricas são dignas daquelas intermináveis discussões entre torcedores de futebol de times rivais.
Alguns exemplos:
1. O sujeito que fica indignado quando "acusam" seu candidato de beber demais, mas espalha alegremente que o outro candidato não passa de um "cheirador de cocaína". Pois eu preferiria um presidente pinguço e cheirador de cocaína com uma proposta de governo convincente a mais um abstêmio empunhando uma vassoura moralista [sejamos inventivos: que tal um rodo para "passar o rodo" nos marajás?]. Vem aí uma chuva de preconceitos para os inimigos e um vendaval de indignações de ocasião para os amigos. A "não gosta de mulher", B é "sapatão", C é "papa-óstia", D tem "esposa com cara de piranha", E é uma "frustrada encalhada", F é "um gordinho safado", G tem "cara de marginal favelado", H "não deve saber nem assinar o nome", I é "cabeça-chata", J "não tem classe", L é "playboy", e por aí afora até o Z. A mesma fonte dessas pérolas vai depois com a cara mais limpa do mundo condenar preconceitos contra mulheres, homossexuais, etc.
2. Opiniões alheias são consideradas apenas em função de quem elas favorecem/desfavorecem. Um economista é um imbecil porque criticou o governo e um economista confiável dois meses depois porque apoiou alguma medida do mesmo governo; um cantor é um grande filósofo se diz que não gosta do governo X porque ele é gordo e um filósofo é um petralha imbecil se declara apoio a uma candidatura do PT; a análise política de um jogador de futebol vale muito mais que a de um analista político desde que a opinião do boleiro coincida com a sua.
3. Está aberta também a temporada de associações estapafúrdias: entre a banana que jogaram para o jogador brasileiro e a crise na Venezuela e a cor da camisa do candidato X ou o penteado do candidato Y e a barriga do candidato Z e as eleições na Colombia e o Ibope da novela das oito e a política de saneamento básico e o aquecimento global e a falta de água em São Paulo e a desclassificação da seleção da Suécia para a Copa.
4. No capítulo de associações menos estapafúrdias vigora a lei de dois pesos e duas medidas. Enquanto o candidato que não conta com a sua preferência é acusado de todo o tipo de corrupção com base em associações suspeitas [Abre o olho: o cara cumprimentou o Z com um abraço super-caloroso quando o time deles ganhou o campeonato brasileiro; é claro que os dois estão juntos em tudo], as associações suspeitas do candidato da sua preferência são olimpicamente ignoradas como ossos do ofício para garantir um bem maior [Ei, só porque ele almoça com Z todas as sextas e indicou o primo de Z para o ministério tal, isso não significa que ele tenha alguma coisa com os 769 milhões de dólares falsificados que encontraram na gaveta de cuecas do Z].
5. Quando alguma informação aparece no radar os critérios para interpretá-la são dignos daqueles torcedores apaixonados que questionam aquele penalti em que o zagueiro bateu no atacante com uma barra de ferro como excesso de severidade do juiz. Alguns exemplos:
-Os que estão contra o governo: Subiu o preço do tomate? Culpa do governo. Caiu o preço do tomate? Flutuação do mercado. Para a opinião dos que estão com o governo inverta tudo: Subiu o preço do tomate? Flutuação do mercado. Caiu o preço do tomate? Mérito do governo.
-5% de inflação é um perigo mortal quando você está contra o governo mas é um paraíso quando você está a favor;
-Lucros estratosféricos de instituições financeiras que eram a prova cabal de que o governo passado era do partido de Darth Vader agora são indicadores do sucesso do Brasil;
- O dólar caiu? Ruim para a economia. O dólar subiu? Ruim para a economia. O dólar ficou estável: ruim para a economia. Se uma semana depois o jogo vira são duas as opções: você vira de opinião ou começa a duvidar da confiabilidade das estatísticas.
- 0.001% de crescimento do PIB "está muito bom" se você gosta do governo e se você não gosta é um absurdo; a influência da conjuntura externa que justificou os fracassos do seu time [ops, partido] agora não tem nada a ver com o crescimento; o preço do tomate hoje é um ultraje, amanhã é apenas conjuntural e a falência de 250 pequenas empresas por ano é algo que pode não depender ou depender completamente do governo dependendo de quem está no governo;
6. As esferas de governo também se embaralham ao gosto do freguês: a coleta de lixo vira culpa do governo federal e o tráfico de drogas em escala internacional culpa do governo estadual; se o banqueiro tal se livra de uma sentença no tribunal a culpa é toda do governo federal, os ministros apontados para o STF pelo governo chegaram lá por motivos espúrios ou por mérito e são monstros mancomunados com os políticos ou heróis independentes de capa preta de acordo com cada sentença que proferem se a tal sentença faz com que o candidato X ou Y apareçam melhor. Greve dos professores da rede MUNICIPAL é sinal de desgoverno federal e se a coleta de lixo no seu bairro é uma porcaria vote em Z para presidente que tudo se resolve.
7. Quem perde uma eleição sempre acusa o eleitorado que elegeu o outro candidato de burrice ou de falta de cultura ou informação ou mesmo de venalidade. Milagrosamente quando seu candidato ganha "a voz do povo é a voz de Deus" e elogia-se profusamente a "maturidade" do mesmo eleitorado. Misteriosamente uma horda obtusa de eleitores pés-de-chinelo só entra em ação quando você perde a eleição.
8. Nunca se discutem políticas de governo porque todo o tempo e energia fica ocupado com acusações moralistas: vote em X porque ele não é nem ladrão nem FDP como Y. O moralismo tem duas faces opostas e complementares: seu inimigo é um aprendiz de Darth Vader e seu candidato um novo Buda; X nos levará ao inferno na terra e Y ao paraíso do tal "primeiro mundo". O mundo funciona como uma novela dos anos 80 [faz muito tempo que eu não assisto novela então não quero falar do que eu não conheço]: as pessoas são "malvadas" ou "boazinhas" e o máximo de flexibilidade admite que, de vez em quando, um "malvado" pode virar "bonzinho". E, afinal de contas, tudo o que um presidente precisa para resolver todos os problemas do seu país é uma caneta e a vontade de assinar um decreto decretando o fim da corrupção e da infelicidade e o império da alegria e da justiça, não é mesmo? E se a realidade aponta para políticos de carne e osso sem super-poderes no mundo real, ora bolas, desde quando o entusiasmo de um torcedor de futebol pelo seu time arrefece por causa da realidade?
9. Assim ignoram-se completamente questões relevantes que poderiam até mesmo acabar gerando compromissos interessantes: você pretende sucatear as universidades como o último presidente do seu partido fez? Você pretende comprometer-se a colocar o respeito aos direitos humanos dos povos indígenas em primeiro plano nas suas prioridades? Você vai fazer exatamente o quê, a partir da esfera federal, sobre o problema da segurança pública? Melhor ainda, o que é o problema da segurança pública para você: um problema de polícia ou a polícia é uma grande parte do problema?
10. Ah, enquanto isso ninguém dá a menor pelota para as eleições do congresso nacional, que levam para Brasília uns 250 deputados venais sem os quais ninguém vai conseguir governar. Sim, porque os "Graças a Deus" e "Se Deus permitir" dos candidatos e a falta de disposição dos governantes de enfrentar questões polêmicas para os evangélicos não tem nada a ver com o fato de que os deputados eleitos em cima de uma plataforma especificamente evangélica são mais de 100, não é mesmo?      

Saturday, May 24, 2014

Postal: "politics is not spreading honey"


"... politics is not spreading honey around the main building
at the Documenta art exhibition. It's putting electrodes on people's texticles,
locking them up, putting them in fear of their lives. 
There was some anger separating me from the naïveté of Jasper Johns,
who could celebrate his national flag so un-ironically. 
In South Africa you could not begin to paint the flag."
William Kentridge

Friday, May 23, 2014

"A troca incessante de canais" como estética


Tá no Ar a TV na TV - Episodio 1 by AdneTRIP


"Even when the museum uses video and television programming in supplementary and didactic ways, it offers an alternative to channel flicking that is grounded in the materiality of the exhibited objects and in their temporal aura." [33] 

"... buried under the rubble of a discourse textuality that proceeds increasingly according to the laws of channel flicking" [64-65]

"... fantasies of omnipotence: channel-flicking as the contemporary strategy of narcissistic derealization."

Traduzido por Sérgio Alcides [que está passando um semestre aqui em Yale] como "troca incessante de canais", o termo aparece três vezes no livro Twilight Memories: Marking Time in a Culture of Amnesia de Andreas Huyssen, que ganhei do meu irmão Pedro há um tempão mas que só terminei de ler hoje, me preparando para escrever um texto sobre a memória do período da ditadura e adaptações de livros escritos por ex-prisioneiros da repressão no cinema brasileiro contemporâneo. Mas não pude parar de pensar no "Tá no Ar" da Rede Globo, um programa inteiro baseado nessa tal "troca incessante de canais".

Thursday, May 22, 2014

Frasista


"It is clearer than crystal to the capitalist lords of our planet and of everything in it that things in general are settled for ever: that we should cost as little as possible when at work and we should spend as much as possible when not; that the losses belong to all of us but the profits belong only to them; that we should choose judiciously between two versions of the same thing every four years; and that we should keep the wheels turning whether we die on the way or die when we finally reach the precipice."

"Capitalism is a formidable machine that turns everything into a commodity, reduces everyone to human labor, and churns out a spectacular, sad army composed of the depressed, the anxious and the numb; the obese and the hungry; the heartless and the heartbroken; the cynic and the fundamentalist; the tycoon and the homeless."

"Work to death to buy more of what you don't need and if it's not enough don't worry: credit will let you spend the money you don't have so that you learn in due time that what the large print gives, the small print takes away."

O autor das três frases sou eu mesmo, pensando na abertura de Tale of Two Cities de Dickens numa vã tentativa de ganhar o livro Critique of Everyday Life do Henri Lefebvre que acabou de sair em inglês pela Verso. Por que ainda que você seja o mais pessimista dos homens realmente a esperança é a última que morre. 

Wednesday, May 21, 2014

Recordar é viver: o grito de um heterodoxo sitiado entre ortodoxias

Andrzej Pagowski,
"Uriel Acosta"
Cartaz para o National Jewish Theater (E. R. Kaminski)
c.1980s



Uriel/Gabriel da Costa nasceu em O Porto em 1585 teria recebeu educação católica [pelo menos da porta de casa para fora] da sua família de judeus convertidos, muitos deles vítimas da inquisição Portuguesa. Aos 22 anos Uriel se enche de dúvidas sobre a fé que ele estudara com afinco e devoção até então, uma vez que "a razão me ditava muitas coisas e continuamente sussurrava ao meu ouvido algumas que eram manifestamente contrárias" à sua fé. Em completo segredo ele começa a estudar o Pentateuco e acaba resolvendo abandonar seu cargo eclesiástico e cair fora, levando mãe e irmãos para Hamburgo, onde passa a praticar abertamente o judaísmo. Mas há um imenso contraste entre o judaísmo que ele aprende e ensina escondido em sua casa em Portugal e o que é praticado abertamente em Hamburgo:

"Ao cabo de uns dias, me dei conta de que os costumes e regulamentos dos judeus mal se ajustam a aqueles que foram prescritos por Moisés." 

Escrevendo Propostas contra a tradição, um livro em que defendia entre outras coisas que a alma não era imortal, Uriel se meteu numa enrascada não só com a comunidade judia mas com os cristãos também. Acabou preso e, apesar de poder sair com o pagamento de fiança de 300 florins, teve seus livro recolhido e era perseguido na rua por gritos de herege. Chegaram a jogar pedras na sua casa. Atormentado pela perseguição, Uriel decide que é melhor retratar-se publicamente e tornar-se, de certa forma, marrano outra vez, agora confinando seu judaísmo heterodoxo dentro de casa. Um menino, sobrinho que morava em sua casa, denuncia à comunidade que Uriel não segue os preceitos da ortodoxia judaica dentro de casa. A própria família se volta contra ele, um casamento próximo vai por água abaixo e ele perde acesso aos seus bens e dinheiro. À guerra familiar segue-se outra sessão de esculhambação pública:

"... estalou uma guerra pública com os rabinos e o povo, que conceberam novos ódios                contra mim e impudicamente me fizeram mil ultrajes, só comparáveis a meu desprezo." 

A coisa ainda piora quando ele aconselha dois sonsos [um italiano e um espanhol] que querem se convertem ao judaísmo que "não o fizessem e que, muito pelo contrário, ficassem como estavam: que não sabiam o jugo que iam jogar sobre suas nucas". Os dois o denunciam aos rabinos que dizem a Uriel que ele tem que abjurar suas crenças hereges na frente de todos na sinagoga, depois tomar uma surra de chicote e finalmente prostrar-se no chão para que todos na sinagoga andem por cima dele. Uriel se recusa e é excomungado. Durante sete anos qualquer pessoa da comunidade que cruza com ele na rua cospe na sua cara e ele diz que "lutavam contra mim dois exércitos: um do povo e outro dos meus parentes". Finalmente ele se sujeita ao ritual de penitência pública - que já foi bastante abusada como fonte de anti-semitismo por ninguém menos que Marcelino Menéndez de Pelayo, figura central dos estudos literários na Espanha na segunda metade do século XIX. 

Se sujeita, mas publica uma auto-biografia em latim que é um ajuste de contas com o mundo e com si mesmo, cheio de ressentimento e orgulho ferido. Exemplar Humanae Vitae termina proclamando a soberania absoluta do que chama de lei natural, que os mandamentos mosaico apenas repetem, e a fé na liberdade humana de qualquer opressão dogmática. Uriel termina seu livro assim: 

"Aqui está a verdadeira história de minha vida; e o personagem que neste vão teatro               da vida interpretei ao longo de minha vã e sempre insegura vida e que exibo ante o                 leitor. Julguem agora corretamente, filhos dos homens, e sem afeto algum,                 livremente, emitam um juízo verdadeiro. Isto é algo particularmente digno dos                         homens que realmente merecem esse nome. E se encontrarem algo que os leve à                         comiseração, reconheçam a miseria humana e a deplorem, posto que dela mesma                     vocês também participam. Para que nada falte, mi nome, o cristão que tive em                           Portugal, foi Gabriel da Costa. Entre os judeus, quem dera nunca os houvera                               encontrado, ligeiramente modificado, fui chamado Uriel."   


Uriel/Gabriel da Costa termina sua auto-biografia em 1639 e no ano seguinte se mata em Amsterdam, 16 anos antes da excomunhão de outro marrano insolente, um tal de Baruch/Benedito Espinoza aos 26 anos. Exemplar Humanae Vitae esperaria ainda 47 anos para ser publicado. 

Para ler Uriel da Costa a gente tem que se equilibrar entre três posturas bastante diferentes. Num extremo Menéndez Pelayo no raiar do século XX tentando imputar à comunidade judaica de Amsterdam/Hamburgo um comportamento claramente autoritário e vil semelhante ao que se imputa normalmente à Igreja Católica; no meio Ricardo Forster no fim do século XX tentando inventar um mito dos marranos como Derridianos avant la lettre; e no outro extremo José Faur já no século XXI, disposto a fazer de Exemplar Humanae Vitae um panfleto anti-semita escrito/editado por ressentidos que se recusam a sujeitar-se aos rabinos de Amsterdam por estarem infectados de um senso de honra ibérico. Isso para não falar no herói romântico da peça alemã "Uriel Acosta" de Karl Gutzkow - que até vira tio de Baruch Spinoza! Em algum lugar entre esses, principalmente temperando Forster com Faur, está o Uriel/Gabriel que eu encontrei e trouxe para aqui.  

Monday, May 19, 2014

Música: Step Right Up de Tom Waits em três versões

Tom Waits, fazendo poesia da mais alta qualidade com a matéria mais besta do dia-a-dia, rindo do nosso achaque comercial de todos os dias nos contratos de prestações de serviços e atendimentos feitos por telefone ["large print giveth, 
and the small print taketh away"] e adicionando aquele tempero manqué daqueles sensacionais vendedores de rua de qualquer esquina de qualquer cidade onde ainda há esquinas não-privatizadas e não-higienizadas. 

Step Right Up
Tom Waits

Step right up, step right up, step right up,
Everyone's a winner, bargains galore
That's right, you too can be the proud owner
Of the quality goes in before the name goes on
One-tenth of a dollar, one-tenth of a dollar, we got service after sales
How about perfume? we got perfume, how 'bout an engagement ring?
Something for the little lady, something for the little lady,
Something for the little lady, hmm
Three for a dollar
We got a year-end clearance, 
we got a white sale
And a smoke-damaged furniture, you can drive it away today
Act now, 
act now, 
and receive as our gift, 
our gift to you
They come in all colors, one size fits all
No muss, no fuss, no spills, you're tired of kitchen drudgery
Everything must go, 
going out of business, going out of business
Going out of business sale
Fifty percent off original retail price, skip the middle man
Don't settle for less
How do we do it? how do we do it? volume, volume, turn up the volume
Now you've heard it advertised, don't hesitate
Don't be caught with your drawers down,
Don't be caught with your drawers down
You can step right up, step right up

That's right, it filets, it chops, it dices, slices,
Never stops, lasts a lifetime, mows your lawn
And it mows your lawn and it picks up the kids from school
It gets rid of unwanted facial hair, 
it gets rid of embarrassing age spots,
It delivers a pizza, 
and it lengthens, 
and it strengthens
And it finds that slipper that's been at large under the chaise lounge for several weeks
And it plays a mean Rhythm Master,
It makes excuses for unwanted lipstick on your collar
And it's only a dollar, 
step right up, 
it's only a dollar, 
step right up

'Cause it forges your signature
If not completely satisfied, mail back unused portion of product
For complete refund of price of purchase
Step right up
Please allow thirty days for delivery, 
don't be fooled by cheap imitations
You can live in it, live in it, laugh in it, love in it
Swim in it, sleep in it,
Live in it, swim in it, laugh in it, love in it
Removes embarrassing stains from contour sheets, 
that's right
And it entertains visiting relatives, 
it turns a sandwich into a banquet
Tired of being the life of the party?
Change your shorts, 
change your life, change your life
Change into a nine-year-old Hindu boy, 
get rid of your wife,
And it walks your dog, 
and it doubles on sax
Doubles on sax, you can jump back Jack, see you later alligator
See you later alligator
And it steals your car
It gets rid of your gambling debts, it quits smoking
It's a friend, and it's a companion,
And it's the only product you will ever need
Follow these easy assembly instructions, it never needs ironing
Well it takes weights off hips, bust, thighs, chin, midriff,
Gives you dandruff, and it finds you a job, 
it is a job
And it strips the phone company free take ten for five exchange,
And it gives you denture breath
And you know it's a friend, and it's a companion
And it gets rid of your traveler's checks
It's new, it's improved, it's old-fashioned
Well it takes care of business, never needs winding,
Never needs winding, never needs winding
Gets rid of blackheads, 
the heartbreak of psoriasis,
Christ, you don't know the meaning of heartbreak, buddy,
C'mon, c'mon, 
c'mon, c'mon
'Cause it's effective, it's defective, it creates household odors,
It disinfects, it sanitizes for your protection
It gives you an erection, it wins the election
Why put up with painful corns any longer?
It's a redeemable coupon, no obligation, no salesman will visit your home
We got a jackpot, jackpot, jackpot, 
prizes, prizes, prizes, 
all work guaranteed
How do we do it, how do we do it, how do we do it, how do we do it
We need your business, 
we're going out of business
We'll give you the business
Get on the business 
end of our going-out-of-business sale
Receive our free brochure, 
free brochure
Read the easy-to-follow assembly instructions, 
batteries not included
Send before midnight tomorrow, terms available,
Step right up, step right up, step right up
You got it, buddy: 
the large print giveth, 
and the small print taketh away
Step right up, you can step right up, you can step right up
C'mon step right up
(Get away from me kid, you bother me...)
Step right up, step right up, step right up, c'mon, c'mon, c'mon, c'mon, c'mon
Step right up, you can step right up, c'mon and step right up,
C'mon and step right up

Primeiro em versão mais lenta ao vivo na TV alemã; depois na SENSACIONAL versão original, mais rápida e finalmente uma outra versão ao vivo na frança, num tempo intermediário:

Friday, May 16, 2014

Machado de Assis, precursor de Rousseau

Jean-Jacques Rousseau
Joaquim Maria Machado de Assis















O original em francês não tem nada demais:
           "Le remords s'endort devant un destin prospère, et s'aigrit dans l'adversité."

Em português seria mais ou menos algo assim:
          "O remorso adormece ante um destino próspero, e se amargura na adversidade"  


Mas a tradução para o inglês "corrige" o original, estabelecendo na frase um sentido de simetria ausente do original que eu acho uma beleza:
          "remorse sleeps in the calm sunshine of prosperity, but wakes amid the storms of adversity"

E em português a tradução da tradução para o inglês seria algo assim:
           "O remorso dorme sob a serena luz solar da prosperidade, mas acorda em meio às tempestades da adversidade."

A tradução inglesa é um pouco "over-the-top" e poderia ser um pouquinho menos floreada para ficar assim [e de passagem restaurando o "e" ao invés do "mas"]:
           "O remorso dorme sob a luz da prosperidade, e acorda com as tempestades da adversidade."

É nessa eloquente tradução inglesa [mais que no original] que eu encontro um "momento Machado de Assis" nas Confissões de Jean-Jacques Rousseau. Não é por nada que a tal sentença aparece na parte do livro em que Rousseau relembra seus tempos de adolescente agregado, fingindo ter se convertido ao catolicismo para conseguir trabalhar na transcrição de cartas ditadas por uma patroa já consumida por um câncer de mama terminal em meio a um frenesi de intrigas e atenções de empregados e parentes que apostam em ser contemplados no testamento da velha.

Thursday, May 15, 2014

Malavita!

Mariano Rajoy
Jacques Chirac
Helmut Kohln

Carlos Salinas de Gortari
Maluf

Berlusconi




Perry Anderson escreveu no London Review of Books um artigo que deveria ser amplamente lido e discutido no Brasil. O artigo trata de problemas supostamente europeus, mas na verdade descreve com clareza uma crise no sistema político-representativo que é, em realidade, mundial. Deixo aqui apenas um trecho:
"[...] the [European] Union is not an excrescence on member states that might otherwise be healthy enough. It reflects, as much as it deepens, long-term trends within them. At national level, virtually everywhere, executives domesticate or manipulate legislatures with greater ease; parties lose members; voters lose belief that they count, as political choices narrow and promises of difference on the hustings dwindle or vanish in office.
With this generalised involution has come a pervasive corruption of the political class, a topic on which political science, talkative enough on what in the language of accountants is termed the democratic deficit of the Union, typically falls silent. The forms of this corruption have yet to find a systematic taxonomy. There is pre-electoral corruption: the funding of persons or parties from illegal sources – or legal ones – against the promise, explicit or tacit, of future favours. There is post-electoral corruption: the use of office to obtain money by malversation of revenues, or kickbacks on contracts. There is purchase of voices or votes in legislatures. There is straightforward theft from the public purse. There is faking of credentials for political gain. There is enrichment from public office after the event, as well as during or before it. The panorama of this malavita is impressive. A fresco of it could start with Helmut Kohl, ruler of Germany for sixteen years, who amassed some two million Deutschmarks in slush funds from illegal donors whose names, once he was exposed, he refused to reveal for fear of the favours they had received coming to light. Across the Rhine, Jacques Chirac, president of the French Republic for twelve years, was convicted of embezzling public funds, abuse of office and conflicts of interest, once his immunity came to an end. Neither suffered any penalty. These were the two most powerful politicians of their time in Europe. A glance at the scene since then is enough to dispel any illusion that they were unusual."
A insistência no Brasil em lidar com suas mazelas políticas como resultado de especificidades culturais do país não é só um traço peculiar de um masoquismo que, por exemplo, pode ser encontrado em Portugal ou em outros países latino-americanos. É também um tremendo ponto cego que me lembra a insistência em discutir certos problemas econômicos como exclusivamente mazelas nacionais enquanto eles afetam de forma semelhante a países diferentes como Argentina e México. A malavita de que fala Perry Anderson tem causas muito mais profundas [e sérias] do que alguma coisa que poderia se resolver com a troca de um governante ou partido por outro, justamente porque ela aponta para um esvaziamento progressivo da política, que se transforma num espetáculo que não apenas enfurece mas também oculta as forças hegemônicas que "administram" as coisas no mundo inteiro.