Monday, February 20, 2006

Uma novela - Bubú

Continuo na minha busca desesperada por leitores. Ainda não apelei para a pornografia, mas resolvi adotar o folhetim em capítulos para competir com as novelas das 5, 6, 7 e 8. Da Globo.

Sheila e Bubú

A cama do fé-da-puta do cachorro ficava na sala e era muito melhor que aquele colchão mofado que era mais um mofão acolchoado onde eu tinha que dormir naquele quartinho que nem armário tinha, que era abafado no verão e frio no inverno, praonde eu tinha que ir e ficar quando não tivesse fazendo algum serviço na casa ou no quintal. “Olha, Sheila, aqui em casa o sistema é assim: parou de trabalhar, terminou o serviço – você pode ir direto já pro seu quarto e se a gente precisar a gente te chama.” E a porcaria do cachorro lá, assistindo televisão enviado nas pernas da patroa, empestando o sofá todo de pelo, com aquele cheiro de cachorro.
E então eu sabia que eles iam me despedir – a empregada da vizinha me disse que eles sempre despediam as empregadas depois de seis meses – e a porcaria do cachorro ainda ficava lá latindo pra mim toda a hora que me via e o nojento do patrão rindo e falando que era assim mesmo, que cachorro não gostava mesmo de preto, que não tinha jeito, que era o cheiro de preto que eles não gostavam e ele rindo e o fé-da-puta latindo ainda mais alto e a patroa toda fresca falando “Vem cá, meu lindo. Vem pro colo da mamãe; cê tá com medo da Sheila, não é meu bubú?”
Seu bubú, tem base? Ela chamava a porcaria do cachorro de Bubú! Mas o Bubú não perdia por esperar – eles foram pro sítio e me deixaram pra tomar conta do cachorro e da casa. Ah, mas eu peguei o Bubú – ele começou a me encher o saco latindo – e passei um arrame velho que eu achei no quarto de despejo em volta da boca dele e o fé-da-puta quis até me morder, mas eu tranquei a boca dele, prendi ele nas pernas e desci o chinelo nele todo sem dó, depois enfiei a cabeça dele e esfreguei aquele focinho nojento na privada e dei uma boa descarga e aí joguei ele longe e ainda meti um pontapé bem forte nele.
Não vou mentir: foi bom demais na hora, mas foi meio-ruim depois também, porque eu sei que foi meio-covardia minha. O cachorro se enfiou debaixo da cama da patroa e de lá não saiu mais e eu peguei meus trens e fui embora daquela porcaria de casa na hora.

Monday, February 06, 2006

Uma gota de fenomenologia

Esse texto é uma homenagem aos milhares de livrinhos fininhos que se propõem a explicar em 50 páginas qualquer coisa, do Marxismo ao machismo e de Bakhtin a Bakunin:

Uma gota de fenomenologia


Uma coisa é a coisa que a gente vive nos ossos, nos nervos, na carne e na pele; aquilo que chega e esfria ou esquenta o sangue do caboclo. Outra coisa bem outra é assistir essa mesma coisa, mais ou menos de longe. Nem a mãe de um caboclo que passa fome sabe o que é passar fome do jeito que o caboclo que passa fome sabe. A mãe sabe outra coisa, que é o que é ser mãe de um caboclo que passa fome. Isso nem o caboclo sabe: o que ela sabe é dela só, diferente do caboclo e diferente do médico que recebe o tal caboclo e a mãe dele no hospital. O médico sabe da fome do cabloco de um outro jeito porque ele já ficou mais longe daquela fome um tanto mais que a mãe e outro tanto bem mais que o caboclo. O jeito que o médico sabe da fome daquele caboclo pode ser mais ou menos só dele ainda, mas isso só se ele pôr muito reparo no caboclo e na mãe dele. O que geralmente atrapalha o médico é que ele geralmente acha que sabe mais da fome do caboclo que o próprio caboclo e a mãe do caboclo e por isso ele não presta atenção nos dois e por isso ele acaba que sabe de uma fome que é igual à fome que qualquer outro médico em qualquer outro hospital sabe. Mais longe ainda que esse médico fica o jornalista que aparece do nada na porta do hospital para ver e falar com o caboclo e a mãe dele e o médico para depois escrever sobre eles no jornal. O jornalista é geralmente pior só porque geralmente ele acha que já sabe o que o caboclo, a mãe dele e o médico sabem e que por isso sabe mais que eles todos. Agora, a pior raça mesmo de todas é a do fé-da-puta que vem escrever sobre a história da fome do caboclo, da mãe do caboclo, do médico e do jornalista porque esse já ficou tão longe, mas tão longe, que o que ele escreve ainda parece ser mas já não tem quase nada que ver com aquela fome do caboclo: o que ele escreve é essa tal de literatura.

PS. Não custa lembrar que se a fome passar nem o caboclo sabe mais a mesma coisa que sabia quando passava fome. O que ele tem depois que a fome passa e só uma idéia (mais uma) do que era a fome que ele um dia passou. Quando ele pára de passar fome e ainda acha que sabe o que é passar fome do mesmo jeito que o outro caboclo que ainda passa fome ele arrisca pretensão quase tão grande quanto a do médico, do jornalista e do bosta do escritor.