Friday, July 26, 2019

Benito Juárez no privado e na vida pública




Em 1819 Benito Juárez, índio zapoteca, orfão ainda na infância, chega com 12 anos à casa dos Maza Parada, onde sua irmã Josefa trabalha como empregada doméstica. Sete anos depois, em 1826 nasce Margarita Eustaquia, adotada pelos donos da casa. Em 1843, Juárez tornou-se um advogado prominente e militante do Partido liberal quando se casa com Margarita, que tinha então 17. Juárez tinha de 37 anos e já tinha vivido com Juana Rosa Chagoya, com quem teve dois filhos. Com Margarita Benito teve 12 filhos, 5 deles falecidos ainda antes dos 7 anos de idade. 9 anos depois do casamento ele defende publicamente a necessidade de oferecer educação às mulheres em nome do bem comum:

“Formar a la mujer con todas las recomendaciones que exige su necesaria y elevada mission, es formar el germen fecundo de regeneración, mejora social. Por esto es que su educación jamás debe descuidarse.”
Congreso de Oaxaca, 1852

Uma carreira meteórica levaria Juárez à presidência do México. Mas as muitas turbulâncias daqueles tempos também o forçariam a passar temporadas longe de sua família. Numa de suas cartas privadas ao seu genro ele se expressa assim a respeito da educação dos filhos:

“suplico a usted que no los ponga en bajo la dirección de ningun jesuita ni de ningun sectario de alguna religion; que aprendan a filosofar, esto es, que aprendan a investigar el por qué o la razón de las cosas, para que en su tránsito en este mundo tengan por guía la verdad y no los errores y preocupaciones que hacen infelices y degradados a los hombres y a los pueblos.”

A principal das turbulências que Juárez enfrentou foi a invasão do México por Inglaterra, França e Espanha para punir os mexicanos por uma moratória da dívida. O ditador feito imperador dos franceses, Napoleão III, resolve manter suas tropas no México e submeter o país a um príncipe austríaco, Maximiliano (primo de D. Pedro, que conheceu quando viajou ao Brasil numa expedição científica). Contam eles com o apoio pusilânime dos setores mais reacionários da sociedade mexicana no clero e no patido conservador, inconformados com o fim de privilégios que herdaram do tempo colonial. Em 1864 Juárez é convidado por Maximiliano para vir à capital e fazer um concerto conciliador em troca da aceitação da monarquia. Juárez responde o convite feito em privado com uma carta pública que termina assim:

Es dado al hombre, señor, atacar los derechos ajenos, apoderarse de sus bienes, atentar contra la vida de los que defienden su nacionalidad, hacer de sus virtudes un crimen y de los vicios propios la virtud; pero hay una cosa que está fuera del alcance de la perversidad y es el fallo tremendo de la historia. Ella nos juzgará.

Três anos depois Juárez estava na Cidade do México como presidente da república e vencedor triunfal da guerra de resistência à ocupação francesa. Juárez e os mexicanos salvaram a América Latina de ter o mesmo fim que a África ou o Oriente Médio, divididos entre europeus em protetorados e novos territórios coloniais. Chovem pedidos de personalidades como Victor Hugo para que Juárez perdoe Maximiliano, mas o príncipe e sua esposa são fuzilados – Manet tem a cara de pau de citar o quadro em que Goya denunciava as atrocidades napoleônicas na Espanha para pintar o fuzilamento do príncipe.

Depois de 5 anos de luta encarniçada, Juárez volta a capital e em seu manifesto triunfante escreve a sua frase mais famosa:

Que el pueblo y el Gobierno respeten los derechos de todos. Entre los individuos, como entre las naciones, el respeto al derecho ajeno es la paz.

Cinco dias depois de ler o manifesto Maximiliano era fuzilado. O primeiro nome e o sobrenome desse gigante mexicano chegam ao século XX nos nomes comuns de crianças como o futuro tenente brasileiro Juárez Távora e o future palhaço fascista Benito Mussolini.  

Thursday, July 11, 2019

Poesia minha: um soneto


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Foi um tempo cabuloso aquele
Em que vivemos em Belo Horizonte
E sempre havia alguém querendo
Mutilar os nossos brinquedos.

Hoje finalmente envelhecemos
E a cidade inteira se espanta
Com ondas de suicídios, acidentes
Escabrosos, assassinatos fúteis

E tantos deprimidos, ansiosos e dementes
Perambulando sem saber dos fantasmas
Daquele tempo que ninguém quer lembrar

Que vivem sufocando debaixo do asfalto
suportando toneladas de concreto armado
E – com razão – nos querem muito mal.


Arte: Leticia Galizzi

Tuesday, July 09, 2019

Leituras da semana - Bello


Leituras da Semana

1. Ando lendo muito Andrés Bello e lendo bastante sobre ele também. Junto com as leituras que ando fazendo de e sobre José Bonifácio de Andrada, ando vivendo no começo do século XIX por esses dias. Tendo vivido o mundo colonial, as independências e depois a dura luta pela consolidação dos novos países latino-americanos, Andrés Bello talvez seja o intelectual mais importante da época.

Era um conservador, como Bonifácio. Se não foi protagonista de qualquer independência (trabalhou no serviço diplomático de Venezuela, Colômbia e Chile), teve longa carreira no governo do Chile, onde morreu consagrado como patrono da universidade e senador da república. Acreditava que a ordem era o aspecto mais importante para a consolidação dos estados nacionais e a paz na América Latina. E a ordem para ele só poderia vir com um governo forte e centralizador – capaz de atuar sem muita interferência do legislativo ou mesmo do judiciário. Simpatizava com a monarquia liberal, não absoluta, no modelo inglês. Na impossibilidade de um regime desse tipo na América espanhola, ele tinha como ideal uma república relativamente autoritária que promovesse através do estado a educação de elites e povo com o objeto de preparar os cidadãos para exercer a vida cívica de acordo com os princípios da razão e da ciência. Também era favorável que se enfatizasse os laços tradicionais com a Espanha e a sua cultura (incluindo o catolicismo), como forma de prover um estado nacional coeso e ordenado.

Pessoalmente, não poderia discordar mais de Andrés Bello em todos esses pontos. Reconheço sua inteligência e na sua voz ponderada vejo um equilíbrio difícil de manter num mundo virado de cabeça para baixo. Aprendo com ele, mesmo que ele se refira a um mundo muito distante do meu no tempo e no espaço. Eis aí um tipo de conservadorismo que acho que vale a pena discutir e debater. Discordando dele percebo que torno meus próprios argumentos melhores, pois ele me força a levar em conta fatores e problemas que eu tenderia a descontar.

Discordar de qualquer lunático que pensa que a terra é plana, ao contrário, me parece uma tremenda perda de tempo. Sinto que o seu discurso agressivo e infantil acaba pautando os meus contra-argumentos, que assim se deixam balizar pela sua ignorância e a estupidez. Daí ter me decidido a me afundar nos livros e deixar grande parte das requisições do mundo das redes sociais.