Tuesday, March 31, 2009

Encheção de Linguística

Para ilustrar esse post sobre jogo de cena e sobre a volta de quem nunca foi embora, nada melhor que um peça ditada por Eça de Queirós sobre a vida depois da morte de Getúlio Vargas...
Fonte:http://remoabc.files.wordpress.com/2008/09/cartaz-getulio.jpg

Vivendo por metáforas: “jogo” político e “atuação” política

A política [em qualquer lugar] é curiosa e não é por nada que a gente usa para lá e para cá o termo “jogo politico”. Explico com um exemplo: quando está na oposição, X reclama indignado do abuso das Medidas Provisórias de Y. Quando Y passa para a oposição passa a reclamar indignado das MPs de X, que, por sua vez, abusa das MPs agora que está no poder, em nome da “governabilidade”. Indignados viram pragmáticos e pragmáticos viram indignados de um dia para o outro, sem com isso perder um pingo de “convicção” em suas “atuações parlamentares” [e note como o termo “atuação” fica bem aqui]. E assim ninguém faz nada com um sistema que funciona capengo desde o Sarney – e já se vão mais de 20 anos.
E o jogo se repete em inúmeros outros campos de debate exatamente do mesmo jeito: no poder, X é um pragmático e diz que é preciso ser responsável com o orçamento e dar o aumento "possível" ao salário mínimo. Y, indignado e, agora, na oposição, reclama que o aumento deveria [e poderia] ser muito melhor. Imaginem que eu vivi para ver ACM, pragmático/no poder desde 1964 até 2002, e portanto até então cauteloso [ou indiferente] para com o salário mínimo, reclamar indignado da tribuna do senado contra o aumento insuficiente dado por Lula. Como se não bastasse, vi Aloísio Mercadante, indignado/oposição desde que nasceu até 2002, se levantar e defender o aumento, agora "responsável" e “possível”, dado pelo governo!
Sei que parece que sou um cínico, mas não sou, de jeito nenhum. Não quero dizer com isso que são “todos farinha do mesmo saco” e dá tudo na mesma. Não são, e eu sei onde estão as minhas convicções políticas. Só que as diferenças, importantes, fundamentais mesmo, não são entre o céu e o inferno como as indignações de circunstâncias fazem crer. Às vezes tenho a impressão que estamos repetindo os debates histriônicos do nosso outro período democrático, entre Getulistas e UDNistas – se vocês tiverem a paciência de ler qualquer coisa daquela época dos dois lados vai entender o que eu quero dizer. Quem leva a sério esse teatro melodramático de quinta categoria não está só se fazendo de bobo; está também ajudando a perpetuar um debate politico de baixíssimo nível – dos dois lados.
E as MPs continuam a jorrar aos borbotões do executivo, esteja ele com quer estiver; e o salário mínimo continua a ser instrumento de manobras populistas como sempre foi desde os discursos em São Januário no dia primeiro de maio, etc…
Constato, meio melancolicamente, que não somos mesmo o “país do futuro”; parece que não passamos de um quarentão ainda em crise de adolescência. Mas não é para levar nada disso muito à sério: deve ser um ataque de melancolia quarentona da minha parte…

Monday, March 30, 2009

BMR - final

Conto
Contos de Machado de Assis
A cartomante
A causa secreta
Academias de Sião
Missa do Galo
A igreja do Diabo
O caso da vara
Pilades e Orestes
Trio em lá menor
O alienista
Pai contra mãe
Espelho
O enfermeiro
Suje-se gordo!
Uns braços
Um homem célebre
Canção de esponsais
Teoria do Medalhão

De Sagarana de Guimarães Rosa
O burrinho pedrês
Traços biográficos de Lalino Salãthiel
Duelo
São Marcos
Corpo Fechado
Conversa de bois
A hora e a vez de Augusto Matraga

De Laços de Família de Clarice Lispector
Amor
Feliz Aniversário
O crime do professor de matemática
Uma galinha
O búfalo
A menor mulher do mundo
Os laços de família


De Contos Reunidos de Rubem Fonseca
Passeio Noturno 1
Passeio Noturno 2
Intestino Grosso
O cobrador
O outro
Feliz ano novo
Confraria dos espadas
Corações Solitários

Poesia
Seleções de Gregório de Mattos
Seleções de Castro Alves
Seleções de Cruz e Souza
Seleções de Manuel Bandeira
Seleções de Carlos Drummond de Andrade
Seleções de João Cabral de Mello Neto
Seleções de Hilda Hilst

V

Romance
Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis
Macunaíma de Mário de Andrade
Vidas Secas de Graciliano Ramos
Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa
Expedição Montaigne de Antônio Callado

Sunday, March 29, 2009

IV

Não-Ficção
De Sermões de Vieira

Sexagésima [1655]
Quarta-Feira de Cinza [1672]
Santo Antônio (aos Peixes) [1654]
Primeira Dominga do Advento [1650]
Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda [1640]
Mandato [1655]
Primeira Dominga da Quaresma [1653]

Os Sertões de Euclides da Cunha
“Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade
Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Hollanda

Thursday, March 26, 2009

III
Mas essa velha idéia de Reyes me seduziu, pela maneira como ela foi apresentada e principalmente porque vivo em contato permanente com gente que não conhece NADA de literatura brasileira e não dá para sugerir, digamos, 25 livros brasileiros a alguém que já é especializado em outra coisa que demanda muito tempo e só quer se educar um pouco mais. Bom, imagine alguém te sugerindo ler uma coleção de 55 livros chineses – e olha que o tamanho da história da China – para você se educar “minimamente” sobre literatura chinesa. Como se diz na minha terra “tem base?” A idéia de uma biblioteca mínima chinesa de 55 livros “tem base”, mas, infelizmente, eu só tenho uma vida... É com esse espírito (na melhor das hipóteses) que as pessoas se sentem quando vêm me perguntar sobre literatura brasileira ou latino americana!
[continua...]

Wednesday, March 25, 2009

fonte: http://www.yale.edu/ytravel/images/Yale%20Gate.png
II
Eu trabalho em um lugar obcecado com a idéia (que sempre detestei) de exercer esse cargo infame que os americanos chamam ironicamente gatekeeper, ser esse guardião das portas sagradas do panteão da literatura, que diz o que pode e o que não pode entrar. Por exemplo, acho infame essa discussão sobre se letras de MPB são poesia ou não, uma discussão que não acompanhei em detalhes [a vida é curta] mas que me pareceu marcada pelo desejo de alguns de se instituir como gatekeepers da “grande” poesia.
Acho mesmo que num mundo ideal toda a lista de “melhores” de qualquer coisa devia ter o nome do autor/autores no título, como em “Melhores Contos do Século XX para Fulano de Tal”. E quando digo nomes, por favor, estou falando de pessoas físicas – nada de instituições como em, por exemplo, “Os Melhores Poemas Brasileiros para a Acadêmia de São João de Meriti”. Imagino agora gente que conhece minimamente o mundo editorial de verdade (esses são os mais terríveis gatekeepers e ninguém reclama deles) lendo isso, balançando a cabeça e murmurando, “pobre, Paulo, criança inocente...”

Tuesday, March 24, 2009

Biblioteca Mínima Representativa 1 [post em 5 partes]


Reyes no Rio de Janeiro
Fonte:http://riodejaneiro.cervantes.es/FichasCultura/Imagenes/11267.JPG

I
Quando vivia no Rio de Janeiro como embaixador do México nos anos 30, Alfonso Reyes escrevia Monterrey, Correo literário de Alfonso Reyes, uma revista-de-um-homem-só, espécie de precursor dos blogues de hoje em dia (a idéia é de um artigo de José Emilio Pacheco sobre Monterrey). Reyes escrevia todo o conteúdo da revista, mandava imprimir na gráfica e então enviava a seus amigos e conhecidos de todos os cantos da América Latina e da Europa.
Em um dos números Reyes lançou um desafio: queria que todas as literaturas nacionais da América Latina escolhessem sua “Biblioteca Mínima Representativa” – uma apresentação fundamental dessas literaturas, “la que ofreceríamos al viajero ilustre. Ella podría consultarse en todos nuestros consulados, legaciones y embajadas. Cada comisionado oficial llevaría en su maleta (…) La ofreceríamos a las bibliotecas públicas extranjeras y aun a las escuelas de los países amigos. (…) La B.M. sería nuestro pasaporte para el mundo, sería nuestra moneda espirutual.” Parece que só os Cubanos responderam ao chamado de Don Alfonso.

Monday, March 23, 2009

O última a sair feche as portas, apague a luz e tranque as janelas

A gringolândia está derretendo! São mais ou menos 500.000 empregos que viram fumaça por mês desde novembro do ano passado. Isso mesmo: mais de 2 milhões de desempregados em menos de quatro meses, numa espécie de inversão macabra daquela dança de números da campanha eleitoral brasileira "criarei 100 milhões de empregos em 2 anos!" "Eu farei mais: criarei 122 milhões de empregos em um ano e meio" Ah, é? Pois eu criarei 333 milhões de empregos em 3 meses" etc.
Desde que um risonho ator de segunda categoria virou presidente até o filhinho-de-papai
de Yale disfarçado de cowboy sair a um par de meses, esse país inteiro viveu uma fantasia capitalista impossível: viver de consumir, apenas. Termos como "economia pós-industrial" ou "economia de serviços" não passam de eufemismos - e instrutivos exemplos de como os eufemismos podem ser perigosos - para uma economia que só cresce na medida em que o consumo do que você não precisa com o dinheiro que você também cresce. A China produz [o outro paraíso dos capitalistas: trabalhadores esfomeados sem sindicatos nem leis trabalhistas], parte do lucro resultante vai para o bolso de Wall Street [onde até pouco um apt de 2 quartos de 1 milhão de dólares era a coisa mais comum] e os desempregados e subempregados
americanos resultantes desse processo pedem empréstimos ao banco para continuar consumindo e depois pedem empréstimos para pagar os empréstimos e ter crédito para pedir mais empréstimos e assim sucessivamente até que... BUM!!!
Como esses empréstimos foram contraídos tendo como garantia casas, chamam isso de "housing bubble", mas não passa de mais um eufemismo, daqueles que parecem ser a grande especialidade dos economistas... não há literatura mais fantasiosa e poderosamente mortal do que as colunas de jornal que os cardeais do neo-liberalismo ainda têm. Seria cômico se não produzisse a miséria que produz...

Friday, March 20, 2009

O último a sair, por favor, apague a luz e feche a porta

Depois de Che Guevaras vendendo guaraná e Mao Tsé Tungs vendendo casas populares, isso. Agora só nos falta mesmo um curso de "empreendorismo revolucionário"...


Fonte: http://jaeh.files.wordpress.com/2007/10/mkt_de_guerrilha.jpg

Thursday, March 19, 2009

O último a sair, por favor, apague a luz

"One of the most pathetic aspects of human history is that every civilization expresses itself most pretentiously, compounds its partial and universal values most convincingly, and claims immortality for its finite existence at the very moment when the decay which leads to death has already begun."
Reinhold Neibuhr, escrito há uns 50 anos atrás

Tuesday, March 17, 2009

Da série: ainda existem grandes canções de amor

Fiona Apple canta feito com intensidade de uma possessa e escreve canções de amor como os blues de Muddy Waters: oscilando entre declarações de devoção e ameaças mais ou menos veladas. Para o vídeo com versão acústica clique aqui - embora esse arranjo não tem a marca registrada dela: o piano tocado por ela mesma com uma mão esquerda "pesada", marcando o ritmo. Para o video com a versão original clique aqui.

Foto:http://img.photobucket.com/albums/v287/hereinmyvortex/FionaApple.jpg

As Fast As You Can
Fiona Apple

I let the beast in too soon, I don't know how to live
Without my hand on his throat; I fight him always and still
Oh darling, it's so sweet, you think you know how crazy
How crazy I am
You say you don't spook easy, you won't go, but I know
And I pray that you will
Fast as you can, baby runfree yourself of me
Fast as you can
I may be soft in your palm but I'll soon grow
Hungry for a fight, and I will not let you win
My pretty mouth will frame the phrases that will
Disprove your faith in man
So if you catch me trying to find my way into your
Heart from under your skin
Fast as you can, baby scratch me out, free yourself
Fast as you can
Fast as you can, baby scratch me out, free yourself
Fast as you can
Sometimes my mind don't shake and shift
But most of the time, it does
And I get to the place where I'm begging for a lift
Or I'll drown in the wonders and the was
And I'll be your girl, if you say it's a gift
And you give me some more of your drugs
Yeah, I'll be your pet, if you just tell me it's a gift
'Cause I'm tired of whys, choking on whys,
Just need a little because, because
I let the beast in and then;
I even tried forgiving him, but it's too soon
So I'll fight again, again, again, again, again.
And for a little while more, I'll soar the
Uneven wind, complain and blame
The sterile land
But if you're getting any bright ideas, quiet dear
I'm blooming within
Fast as you can, baby wait watch me, I'll be out
Fast as I can, maybe late but at least about
Fast as you can leave me, let this thing
Run its route
Fast as you can [x4]

Da série: e hoje todos dizem que lutaram pela democracia

Foto:http://publica.corretorunibancoaig.com.br/arq/revista/edicoes/e48/brc.htm
“Não há ditadura no Brasil. O Brasil é um país liberal, o país da alegria. Nós somos um povo livre. Nossos líderes sabem o que é melhor para nós e nos governam com espírito de tolerância e patriotismo.”

Péle, respondendo a pergunta sobre a nossa ditadura militar em entrevista ao jornal La Opinión em 1972 .


[Não quero com esses posts - o outro foi o do editorial tenebroso da FSP em 1971 - ficar apontando o dedo na cara dos outros. Não estou aqui dizendo que Pelé torturou ninguém nem que ganhou rios de dinheiro com obras faraônicas que ninguém podia fiscalizar. Considero essas declarações do Pelé como uma espécie de apoio desinteressado e desconheço qualquer elaboração mais profunda do seu ponto de vista - jogadores de futebol são grandes pelo que fazem dentro do campo e não tem a obrigação de ser brilhantes fora dele.
Em vista da polêmica sobre o termo "ditabranda" na FSP, a minha única intenção é chamar a atenção para um fato curioso que exemplifica bem a relação safada que o Brasil tem com a sua história: é óbvio que muita gente apoiou a ditadura militar em diversos momentos diferentes mas hoje em dia, fora um ou dois coróneis furiosos, praticamente todo o mundo alega ter sido contra a ditadura e mesmo ter sido perseguido por ela.
Quem defendeu publicamente a ditadura, particularmente entre 1968 e 1974, errou feio, fez muito feio, defendeu um regime de brutalidade, de tortura e assassinatos. Passe os olhos em um jornal brasileiro qualquer daqueles anos sombrios [vale a pena] e fica óbvio que as coisas eram bem diferentes. Mas defender [ou conscientemente e hipocritamente se omitir] aquele estado de coisas é uma coisa; outra coisa, bem diferente, é MENTIR e dizer que não teve nada a ver com nada de feio que aconteceu naquela época e que até "lutou" contra a ditadura.
Assim, hoje em dia você não encontra mais ninguém que votou no Collor ou no Maluf ou no Pitta ou no Newton Cardoso e se pergunta: "ué, mas eles não receberam milhões de votos? Onde é que eles foram parar?"

Monday, March 16, 2009

Poesia minha: Prólogo

Prólogo

No princípio, nada:
Pés fincados no meio do barro.

E veio o verbo, o sexo, o fogo,
a roda, o livro, deuses, anjos e inferno
e o sujeito se levantou, se vestiu
fechou o portão da casa, saiu pro trabalho
e nunca mais voltou.

[Obs. Essa é velha e eu nem gosto mais muito dela; paciência. A gente pare esses filhos e, raquíticos ou não, eles têm que sair pelo mundo afora um dia.]

Friday, March 13, 2009

Grandes Canções de Amor


Mais uma vez esse blogue faz um esforço de provar que é possível escrever canções de amor sem cair nas convenções aborrecidas da dor de corno nem rimar "amor" com "dor", "na cama" com "me ama", "paixão" com "emoção", etc...

This Tornado Loves You [clique no título se quiser ouvir a canção no youtube]
Neko Case

My love, I am the speed of sound
I left the motherless, fatherless
Their souls dangling inside out from their mouths
But it's never enough
I want you

Carve your name across three counties
Ground it in with bloody hides
Their broken necks will lie in the ditch
Till you stop it, stop it, stop it, stop it
Stop this madness
I want you

I have waited with a glacier's patience
Smashed every transformer with every trailer
Till nothing was standing
Sixty five miles wide
Still you are nowhere, still you are nowhere
Nowhere in sight
Come out to meet me
Run out to meet me
Come into the light

Climb the boxcars to the engine
Through the smoke and to the sky
Your rails have always outrun mine
So I picked them up and crashed them down
In a moment close to now
Cause I miss, I miss, I miss, I miss
I miss, I miss, I miss, I miss
How you'd sigh yourself to sleep
When I'd rake the springtime
Across your sheets

My love, I am the speed of sound
I left the motherless, fatherless
Their souls dangling inside out from their mouths
But it's never enough

My love, I'm an owl on the sill
In the evening
But morning finds you
Still warm and breathing

This tornado loves you
What will make you believe me?

Thursday, March 12, 2009

Faço minhas as palavras dos outros

Cordel dos Excomungados




I

Peço à musa do improviso

Que me dê inspiração,

Ciência e sabedoria,

Inteligência e razão,

Peço que Deus que me proteja

Para falar de uma igreja

Que comete aberração.



II

Pelas fogueiras que arderam

No tempo da Inquisição,

Pelas mulheres queimadas

Sem apelo ou compaixão,

Pensava que o Vaticano

Tinha mudado de plano,

Abolido a excomunhão.



III

Mas o bispo Dom José,

Um homem conservador,

Tratou com impiedade

A vítima de um estuprador,

Massacrada e abusada,

Sofrida e violentada,

Sem futuro e sem amor.



IV

Depois que houve o estupro,

A menina engravidou.

Ela só tem nove anos,

A Justiça autorizou

Que a criança abortasse

Antes que a vida brotasse

Um fruto do desamor.



V

O aborto, já previsto

Na nossa legislação,

Teve o apoio declarado

Do ministro Temporão,

Que é médico bom e zeloso,

E mostrou ser corajoso

Ao enfrentar a questão.



VI

Além de excomungar

O ministro Temporão,

Dom José excomungou

Da menina, sem razão,

A mãe, a vó e a tia

E se brincar puniria

Até a quarta geração.



VII

É esquisito que a igreja,

Que tanto prega o perdão,

Resolva excomungar médicos

Que cumpriram sua missão

E num beco sem saída

Livraram uma pobre vida

Do fel da desilusão.



VIII

Mas o mundo está virado

E cheio de desatinos:

Missa virou presepada,

Tem dança até do pepino,

Padre que usa bermuda,

Deixando mulher buchuda

E bolindo com os meninos.



IX

Milhões morrendo de Aids:

É grande a devastação,

Mas a igreja acha bom

Furunfar sem proteção

E o padre prega na missa

Que camisinha na lingüiça

É uma coisa do Cão.



X

E esta quem me contou

Foi Lima do Camarão:

Dom José excomungou

A equipe de plantão,

A família da menina

E o ministro Temporão,

Mas para o estuprador,

Que por certo perdoou,

O arcebispo reservou

A vaga de sacristão.





Autor: Miguezim de Princesa - Poeta popular, paraibano radicado em Brasília.

Wednesday, March 11, 2009

Fragmento de conto meu: "Meu rio"

Lembra que a gente alugou o apartamento no centro achando que assim não ia ter essa onda de cidade pequena? Belo Horizonte naquela época devia ser a maior cidade pequena do mundo – talvez ainda seja, não sei. Lembra quando a gente foi tentar alugar um apartamento na Lagoinha, perto da Rua Itapecerica? Logo os moradores e depois a rua inteira estavam ali, olhando e comentando enquanto a gente conversava com o corretor na saída do prédio. Então a gente acabou alugando aquele dois-quartos no centro, lembra? A história inventada saiu decorada na ponta da língua, cada hora um dos dois falando um pedaço, detalhes nem demais nem de menos, um sempre completando o outro: Viemos estudar. Vestibular no fim do ano. Engenharia, os dois. Cursinho intensivo. Do norte, bem para lá de Diamantina – São João. Primos.
E aí então foram 40 dias trancados lá dentro daquele apartamento quase vazio, com todas as janelas fechadas cheias de jornal velho colado naquele calor horroroso. Quer dizer, trancados mais ou menos: de dia a gente pegava a mochila estufada de jornal amassado e saía “prá aula”, lembra? Era cada dia um bairro diferente, bandeira, né? Sempre tomando muito cuidado para não ser seguido ali da saída do prédio ou na volta, zanzando pela cidade: segunda na Serra, terça no Prado, quarta Sagrada Família, quinta Floresta, quinta Planalto, sexta Vilarinho, sábado Lagoinha e depois o Bonfim e depois o Jaguarão, lembra? 40 dias esperando a porra do dia 20 de novembro, gastando estupidamente uma grana que tinha custado tanto para arrumar comendo macarrão com salsicha e batendo perna pela cidade.

Tuesday, March 10, 2009

Para o dia da muher: Van Dykes

Li na revista New Yorker essa semana um artigo SENSACIONAL sobre um grupo fascinante de lésbicas militantes dos anos 70. Era um grupo bem pequeno, radicalmente lésbico-feminista, que simplesmente não dirigia sequer uma palavra a qualquer homem e que viviam em comunas rurais espalhadas pelos Estados Unidos, comunidades chamadas de “womyn’s territory” [elas não queriam saber de “men” nem nome mulher] em que nem crianças do sexo masculino podiam entrar.
Umas poucas dessas mulheres se encontram pelas estradas da vida e decidem criar um novo grupo chamado "Van Dykes". O nome é uma brincadeira com um sobrenome que existe [e que nome tinha o ator Dick Van Dyke…], com os carros em que elas viviam e viajavam [vans] e com “dyke” que quer dizer sapatão na gíria. Todas elas então mudam de nome, adotando o mesmo sobrenome [Van Dyke] como uma nova família e vivem viajando em uma pequena caravana de vans que vai de comuna em comuna, de festival em festival. As Van Dykes são totalmente contra a monogamia, então ali nas kombis ninguém era de ninguém. Fazem uma viagem quixotesca até o sul do México em busca do paraíso lésbico [longe do frio terroroso do norte] e depois têm uma adesão entusiasmada e radical ao sado-masoquismo. Isso é só um resumo apressado do artigo, que centra atenção na única delas que ainda usa o nome daquela época, “Lamar Van Dyke”, atual proprietária de uma loja de tatuagens. Vale a pena pelas histórias de gente que acreditava piamente em reinventar o mundo com pouco mais do que a própria vontade. O artigo fecha com a voz de Lamar Van Dyke:
“Your generation wants to fit in (…) Gays in the military and gay marriage? This is what you guys have come up with?” There was no contempt in her voice; it was something else – an almost incredulous maternal disappointment. “We didn’t sit around looking at our phone or looking at our computer or looking at the television – we didn’t sit around looking at screens,” she said. “We didn’t wait for a signal to do something. We were off doing whatever we wanted.”
Só assim para explicar as pessoas que acham uma grande conquista feminima o poder político de figuras como Margaret Thatcher ou Condoleezza Rice, ou o fato de que as mulheres podem votar no “muso do verão” ou “muso do carnaval”

Friday, March 06, 2009

José Vasconcelos em Salvador, entre laranjas e pêssegos

Brasil, 1922. Para comemorar o centenário da independência, o governo de Epitácio Pessoa patrocina uma grande feira internacional no Rio de Janeiro. Do México vem José Vasconcelos, então ministro da cultura. A primeira parada é em Salvador:
"Quise detenerme en el mercado para ver las negras con sus trajes pintorescos, para examinar los frutos del trópico, tan gratos a los sentidos; pero advertí que el funcionario no deseaba que advirtiese la existencia de los negros; el espetáculo está suprimido del turismo oficial; probablemente hasta se avergonzaba de las naranjas que, tan dulces y ardientes, se ofrecían en pirámides; pero es fruta del trópico, y la civilización es hija del Norte; tal vez hubiera deseado que su tierra jugosa produjese duraznos ácidos, para parecerse al Norte." (La raza cósmica, 50)

Tuesday, March 03, 2009

Hayao Miyazaki



Para usar o recurso favorito dos preguiçosos eu posso simplesmente dizer que Hayao Miyazaki é o Walt Disney do Japão. Mas para falar a verdade, os filmes de Miyazaki são muito melhores do que os clássicos da Disney. Dono de uma imaginação visual e narrativa especial, Miyazaki surpreende várias vezes com sacadas inusitadas em cada filme que faz e nenhum de seus filmes padecem da pieguice maniqueísta dos filmes da Disney, criando histórias muito mais interessantes e intrigantes para as crianças e os adultos.
Um exemplo em termos visuais: o castelo com patas, mistura fantástica de monstrengo e máquina que dá nome ao filme Howl’s Moving Castle
[ver foto, trailer aqui]. Em termos visuais e também narrativos temos a sensacional sacada da história de um espírito chamado No Face [Sem Cara] [ver foto]
no filme Spirited Away – é para deixar Lewis Carroll de cabelo em pé. No Face entra no Spa para espíritos do filme com a ajuda da heroína Chihiro. Uma vez lá dentro, No Face tenta agradar os outros o tempo todo, mas pode simplesmente engolir qualquer um com uma horrível boca meio desdentada. No Face começa a fabricar pedacinhos de ouro quando vê que os empregados são todos loucos pelo vil metal e logo eles começam a servir No Face com dezenas de pratos e travessas de comida [enquanto a bruxa dona do Spa está dormindo]. Assim No Face vai crescendo, ganhando pernas e braços – e o resto da história só vendo o filme.
Os filmes de Miyazaki são tão populares no Japão que Miyazaki bateu o Titanic com Spirited Away [trailer aqui] – filme que ganhou o Oscar de melhor animação em 2003. Minha esposa encontrou os filmes do Studio Ghibli na nossa busca desesperada por cinema de animação que a gente pudesse assistir com o meu filho em meio a uma febre de Pokemon na escola dele – e os filmes do Pokemon eu prefiro nem comentar. Na loja de vídeo o atendente nos confirmou que Myiazaki era mesmo uma ótima opção e fomos para casa com Spirited Away. Ficamos embasbacados e dali não paramos mais: já vimos uns dez filmes dele e de outros do seu Studio Ghibli.
Todos os seus filmes têm algumas coisas em comum:
- O desenho sempre parte de um mundo reconhecível mas ao mesmo tempo cheio de coisas fantasiosas e são detalhistas ao extremo, mostrando um desenhista [Miyazaki desenha todos os storyboards, escreve, dirige, e faz até as letras das canções dos filmes] com um poder de observação sensacional: desde o acompanhamento sutil das sombras e do movimento da água, até cadarços de sapato e os gestos mais corriqueiros das crianças.
- As heroínas dos filmes são sempre meninas [deve ser o diretor mais feminista do cinema infantil] que têm que encarar mais ou menos sozinhas desafios e aventuras de todo o tipo e buscar novos amigos e alianças às vezes inusitadas;
- os filmes sempre têm cenas deslumbrantes de vôo, com aviões antigos e máquinas voadoras das mais esquisitas, bruxas com vassouras, dragões, montros, fantasmas, todos sempre voando;
freqüentemente Miyazaki dá um jeito de dizer alguma coisa contra as guerras e a destruição da natureza, embora nenhum dos dois temas seja abordado com a pieguice dos filmes americanos – em Princesa Mononoke [trailer aqui], por exemplo, os espíritos da floresta lutam uma guerra sanguinária contra uma mulher que por sua vez contrói uma cidade/usina metalúrgica completamente dominada pelas mulheres em pleno Japão medieval. A cidade das mulheres vive em guerra com a floresta, mas também com os samurais do rei e todos os três lados têm os seus motivos.

Monday, March 02, 2009

Mário de Andrade, 1942


"Tendo deformado toda minha obra por um antiindividualismo dirigido e voluntarioso, toda a minha obra não é mais que um hiperindividualismo implacável. É melancólico chegar assim no crepúsculo sem contar com a solidariedade de si mesmo".
Como diria o amigo Carlos Drummond de Andrade: "Você é duro, José".

Sunday, March 01, 2009

Recomendação: Para ler sem olhar

Esse blogue é ótimo. Diego Viana discute as coisas com uma prosa clara de quem pensa com a própria cabeça e sem apelações. E ler alguém pensando de verdade faz muito bem para a cabeça de qualquer um. Além do mais, as discussões são importantes sem ser pretensiosas.

Respondi a um post recente dele assim:
Eu sou professor de uma institutuição de elite americana e percebo mesmo nela esse mesmo movimento geral em direção ao que eu chamo simplesmente, talvez tacanhamente de “imbecilidade”. Para mim essa crise tem a ver com a expansão do que a gente poderia chamar de cultura corporativa a todas as esferas de atividade humana, e a educação e o conhecimento não estão imunes de forma alguma.
Essa cultura corporativa prima pelo pragmatismo mais rasteiro e imediatista possível que reduz qualquer esfera humana a um simples par de fórmulas fáceis. Os resultados são trágicos: os EUA gastam mais $ que qualquer outro país do mundo e têm 38o melhor serviço de saúde [nomeie uns 30 países e vc vai ver que muitos países que gastam um décimo do que gasta os EUA e tem problemas estruturais muito maiores têm atendimento médico superior]. Um exemplo da minha área de trabalho: Einstein, se repetisse a sua trajetória profissional, não teria a menor chance de conseguir um emprego estável no mundo acadêmico de hoje - um par de papers sobre uma teoria qualquer não serviriam de “parâmetro para avaliar a performance” acadêmica dele como "de excelência". Existe uma dificuldade imensa de tratar tudo o que não pode ser grosseiramente quantificado no mundo de hoje e a educação é uma dessas coisas.