Tuesday, March 17, 2009

Da série: e hoje todos dizem que lutaram pela democracia

Foto:http://publica.corretorunibancoaig.com.br/arq/revista/edicoes/e48/brc.htm
“Não há ditadura no Brasil. O Brasil é um país liberal, o país da alegria. Nós somos um povo livre. Nossos líderes sabem o que é melhor para nós e nos governam com espírito de tolerância e patriotismo.”

Péle, respondendo a pergunta sobre a nossa ditadura militar em entrevista ao jornal La Opinión em 1972 .


[Não quero com esses posts - o outro foi o do editorial tenebroso da FSP em 1971 - ficar apontando o dedo na cara dos outros. Não estou aqui dizendo que Pelé torturou ninguém nem que ganhou rios de dinheiro com obras faraônicas que ninguém podia fiscalizar. Considero essas declarações do Pelé como uma espécie de apoio desinteressado e desconheço qualquer elaboração mais profunda do seu ponto de vista - jogadores de futebol são grandes pelo que fazem dentro do campo e não tem a obrigação de ser brilhantes fora dele.
Em vista da polêmica sobre o termo "ditabranda" na FSP, a minha única intenção é chamar a atenção para um fato curioso que exemplifica bem a relação safada que o Brasil tem com a sua história: é óbvio que muita gente apoiou a ditadura militar em diversos momentos diferentes mas hoje em dia, fora um ou dois coróneis furiosos, praticamente todo o mundo alega ter sido contra a ditadura e mesmo ter sido perseguido por ela.
Quem defendeu publicamente a ditadura, particularmente entre 1968 e 1974, errou feio, fez muito feio, defendeu um regime de brutalidade, de tortura e assassinatos. Passe os olhos em um jornal brasileiro qualquer daqueles anos sombrios [vale a pena] e fica óbvio que as coisas eram bem diferentes. Mas defender [ou conscientemente e hipocritamente se omitir] aquele estado de coisas é uma coisa; outra coisa, bem diferente, é MENTIR e dizer que não teve nada a ver com nada de feio que aconteceu naquela época e que até "lutou" contra a ditadura.
Assim, hoje em dia você não encontra mais ninguém que votou no Collor ou no Maluf ou no Pitta ou no Newton Cardoso e se pergunta: "ué, mas eles não receberam milhões de votos? Onde é que eles foram parar?"

7 comments:

Fred said...

Esse tema é interessante e pode dar pano pra manga.
Eu não chamaria isso de uma relação safada do Brasil com a sua história. Pra mim, é apenas uma evidência de que cada um distorce a história como pode e sempre a seu favor (é claro). No caso de jornalistas, políticos e personalidades que apoiaram a ditadura em algum momento e hoje se dizem censurados e perseguidos, isso fica mais ou menos evidente.
Mas há também aqueles (muitos no governo atualmente) que recorreram às armas numa luta 1) pelo poder, 2) contra o capitalismo e hoje fazem alarde da sua luta contra a ditadura, ainda que não tivessem nada essencialmente contra outros regimes ditatoriais ao redor do mundo.
Vale destacar que o famigerado editorial da Folha de 1971 foi motivado por atentados sofridos pelo jornal no dia anterior e por ameaças de morte feitas contra Octávio Frias e sua família. Do meu ponto de vista isso támbem é um tipo muito violento de censura. Só que feita por pessoas "liberais", "progressistas" e sempre contra "a ditadura".

Fred said...

Ps: Eu votei no Collor uma vez (2º turno de 89), mas hoje eu me arrependo mesmo é de ter votado no Lula nos dois turnos de 2002.

sabina anzuategui said...

Estou fazendo uma disciplina sobre Brecht na pós. É bacana como ele constrói em cena essas mutações de opinião. Um texto de 1925 que eu nunca tinha lido - "Um homem é um homem" - é uma comédia angustiante nessa questão. Como o discurso vai se alterando conforme mudam os ventos.

Paulodaluzmoreira said...

Sabina, Vc já viu a montagem do Grupo Galpão de "Um homem é um homem"?

Diego Viana said...

Na mosca! Acho que tem uma grande parte de oportunismo nessa. Muita gente vai nas ondas, sem grandes convicções, mas depois que a coisa desanda, é o primeiro a saltar do navio, logo antes dos ratos. Nós, brasileiros, somos um tanto quanto vaselináceos...

Diego Viana said...

Na mosca! Acho que tem uma grande parte de oportunismo nessa. Muita gente vai nas ondas, sem grandes convicções, mas depois que a coisa desanda, é o primeiro a saltar do navio, logo antes dos ratos. Nós, brasileiros, somos um tanto quanto vaselináceos...

Diego Viana said...

Na mosca! Acho que tem uma grande parte de oportunismo nessa. Muita gente vai nas ondas, sem grandes convicções, mas depois que a coisa desanda, é o primeiro a saltar do navio, logo antes dos ratos. Nós, não só os brasileiros, mas os seres humanos insuficientemente nobres, somos um tanto quanto vaselináceos...