Sunday, September 22, 2019

Notas sobre palestra do Professor Lewis Gordon na Universidade de Oklahoma

Minhas notas sobre a palestra de Lewis Gordon
•A voz é a marca da visibilidade. Porque só tem voz quem é escutado por alguém. Ter voz é ter poder, porque o poder é a capacidade de fazer as coisas acontecerem. E ser escutado é um acontecimento importante.

•São inúmeros os exemplos de escritoras mulheres que centram suas atenções na questão de ter voz e serem ouvidas.

•Entretanto, o verdadeiro jogo do poder é jogado por aqueles que têm a prerrogativa de ouvir ou ignorar as vozes que circulam em volta deles. Dois gestos de poder são para mim complementares: conceder a voz a alguém [oferecendo a possibilidade de assimilação a esse alguém] ou ignorar a voz de alguém [exercendo o fechamento epistemológico contra esse alguém]. 

•O fechamento epistemológico é nomear o outro como o desumano monstruoso, ou o primitivo que já passou seu prazo de validade [aquilo que pertence ao passado morto], ou o mudo que não consegue articular lé com cré.

•É assim que nos educamos e instruímos aos nossos pares sobre como não escutar os outros.

•É assim que se evita para sempre tocar em certos assuntos que são considerados desagradáveis pelos poderosos, porque certos assuntos colocam em evidência privilégios e discriminações que podem mobilizar os injustiçados a lutar por justiça.

•É assim que transformamos a má-fé numa nuvem tóxica transparente. Fingir que ela não existe não a torna menos letal. Pelo contrário.

•É assim que se transforma seres humanos em problemas a serem eliminados ou mantidos a distância.

•Nomear é sempre um ato coletivo e impessoal [feito de um grupo social em relação a outro], mas nomear sempre parte de uma posição afetiva estruturante: ou partimos de uma posição de amor que busca proteger e fazer florescer ou partimos de uma posição de ódio que busca silenciar ou mesmo exterminar o que se nomeia.

•Todas as instituições que conhecemos nas Américas foram construídas a partir de um fechamento epistemológico de corte racista e/ou sexista.

•Falamos a partir e em nome dos nossos antepassados. Devemos a eles justiça.

Friday, September 20, 2019

De Balbúrdia em Balbúrdia IV

Estamos sob muita pressão.

Ontem eu estava pela quarta vez tentando escrever um texto para continuar a série sobre como é trabalhar na educação básica neste momento histórico, nesse lugar chamado Brasil, nessa província chamada Minas Gerais. Não consegui porque não estava conseguindo pensar com clareza. São muitos os fatores que estão pressionando os professores. O salário baixo é o mais antigo deles, mas há ainda a indisciplina, as leis que nos dão autoridades e obrigações e nos retiram as ferramentas para cumpri-las, o volume desumano de trabalho que se tornou ainda mais desumano com fechamento de turmas e o consequente aumento do número de alunos atendidos por cada professor, a precariedade da estrutura física das escolas, as estruturas administrativas que parecem que foram pensadas para impedir a atividade fim de uma escola e nos colocar uns contra os outros, etc, etc, etc.

Meu colega de trabalho Bruno Coga se matou essa noite.

Não estou conseguindo escrever um textão, como dizem, porque não me sobraram pensamentos coerentes. Eles estão soltos e têm muita razão, mas não consigo articula-los.

Renata.


Monday, September 16, 2019

Para contextualizar os possíveis leitores

Volta

O Paulo me convidou a colaborar com ele por aqui. Nós só nos conhecemos assim, pela internet, mas há muitos anos. Quando trocamos as primeiras palavras um com o outro, eu era uma recém adulta estudante de história muito corajosa. E eu escrevia muito. Muito mesmo. Muitas coisas aconteceram na minha existência  e no mundo desde então. Dentre elas, eu envelheci e tomei consciência do tamanho da minha ignorância. Sinto falta de não ter medo de expor ideias não testadas e de deixar frases que não se completam nos textos. O "Ensaio sem compromisso" que vou deixar postado deve ter sido a última vez que fui jovem. Eu meio que já sabia que seria assim e já sentia saudades. Será que tem como voltar?


Ensaio sem compromisso

24/12/2015


Escrevi este rascunho há mais ou menos um mês. E então ele ficou guardado, esperando por duas coisas: 1-que eu tivesse tempo para acrescentar umas referências cabeçudas, 2- a oportunidade de publicá-lo em algum lugar onde fosse realmente lido. O tempo está passando, porém, e nenhuma das expectativas se cumpriu. Daqui há pouco ele estará velho e não terá o valor que poderia ter tido quando as pessoas ainda lembravam de Mariana. 

Decifra-me ou te devoro

A primeira vez que eu ouvi Volta, da banda carioca Baleia, havia em mim uma grande expectativa e até certo ponto medo. O primeiro disco deles, Quebra Azul, foi um achado que me fez lembrar outros tempos. Tempos em que eu ainda me surpreendia com freqüência, admirava feitos musicais e então virava uma espécie diferente de fã. Não daqueles fãs que se atiram, que acham os artistas lindos, nunca fui assim. Minha questão sempre foram os feitos. Gostava de contemplar as descobertas sonoras, os arranjos, até onde era possível ir, ou melhor, impossível ir. Baleia e o seu Quebra azul me fizeram voltar à adolescência no sentido de que tinha sido lá a última vez em que eu senti saudades de ouvir pela primeira vez algo que me arrebatasse ao mesmo tempo pela estranheza e pela acessibilidade, algo que me fizesse pensar: "por que foi que eu não compus isso?" Daí o medo do segundo disco. Será que eles iriam além? Ou se repetiriam? Ou pior, será que estariam aquém de si mesmos?
Aconteceu. Baleia lançou um single chamado Volta e o divulgou na internet com um lyric video ambicioso. Ambicioso e minimalista, combinação interessante, aliás. E, devo admitir, meu medo aumentou depois de ver alguns segundos. Parecia demais, num sentido negativo. Tive medo do ridículo, sentimento comum entre os medíocres. Mas não, não era demais e muito menos ridículo.  Era o que era. E era muito bom.
No vídeo, o rosto da vocalista é a única imagem na maior parte do tempo. As variações estão por conta das expressões dela, que mantém os olhos fechados, e da intensidade e proximidade da luz que varia. A música começa com a parte percussiva. Em seguida, aparece o violão forte, mas preso ao compasso e, depois, o baixo com uma linha que sugere suspense. Segundos se vão até que as duas vozes, Sofia e Gabriel Vaz, finalmente apareçam com o timbre feminino em primeiro plano. Quando se pensa que tudo que podia acontecer já aconteceu, eis que surge uma massa de instrumentos de cordas executando frases curtas em ritmo acelerado enquanto a bateria permanece precisa, porém improvável. O circo está armado para arrepiar os ouvintes, mesmo que a letra pareça incompreensível. A estética completa da coisa - sonoridade, letra e vídeo - monta um ambiente de fim de mundo e das viagens ao espaço de grandes feitos do cinema dos últimos anos, Melancolia, Interestelar e Gravidade: "Eu fui repelida ao vazio/ Tudo aqui em eterno arrepio/ Acordei fora da terra/ Eu vou orbitar, sem lugar, vou girar [...]". A voz continua narrando o que vai acontecer e descrevendo a si mesma até que o sujeito que canta define seu lugar como "dois mundos em colisão". A passagem pela atmosfera está terminada. O arranjo de cordas se estende, estamos em gravidade zero. Este é o clímax. Sofia abre os olhos. As frases de cordas se prolongam e o tempo, menos subdividido, parece mais devagar. O coração do ouvinte acelera e ele está prestes a chorar. Sofia e Gabriel cantam num uníssono belíssimo acrescido de camadas e camadas de suas próprias vozes: "Atravessei/ Vou queimar no céu/ Desmanchar/ Dissipar o pó/ E verei/ O que vai sobrar/ E aterrissar no meu corpo".
Por quê? Qual o sentido disso? Minha tese é a de que Volta é uma canção que fala principalmente de dois assuntos, rejeição e solidão, necessariamente nesta ordem. Ser repelida ao vazio é justamente a sensação de um fora. O momento em que se ouve o não é o instante da perda das referências, tudo que lembra segurança desaparece, não há nada a que se apegar, o tempo interior fica suspenso. Mas o mundo continua, e embora o sujeito que acabou de ser rejeitado esteja se afastando cada vez mais da Terra, ninguém percebe. Trata-se de uma experiência essencialmente solitária. Perceber-se só é doloroso, é atravessar a atmosfera, é queimar, é dissipar o pó, é cortar os fios e se libertar de todas as falsas impressões de estar inevitavelmente ligado ao mundo exterior. Depois disso, o que sobra? O eu de fato, que consciente de si aterrissa, volta ao seu corpo.
Apesar de o feito poético inicial não ser nem um pouco irrelevante, ele vai além. A grandiosidade e a genialidade da letra, harmonia, melodia e de todos os elementos que compõem Volta talvez esteja no fato de que a metáfora da viagem ao espaço não se refere apenas às sensações experimentadas por um sujeito que foi rejeitado por outro. Ela serve à humanidade. E neste ponto está a semelhança com o ambiente criado pelo cinema em Interestelar e Gravidade. Tais produções cinematográficas falam de uma Terra que não suporta mais os seres humanos. Assim como no cinema, na vida real, o interesse pelo espaço não está mais tão ligado à busca de vida inteligente, como em outros tempos, e sim à procura de condições de vida humana. Ir ao espaço é uma necessidade quando a humanidade está sendo repelida pelo planeta que tenta resistir a nós. E pode ser que essa aplicação maior seja a chave para se entender a parte mais enigmática da música. A bateria impera absoluta, o baixo entra agressivo, e a letra diz: "Uma charada/ Apodrecida/ Na velha forma já engessada [...]".
Enquanto seres humanos produzem filmes sobre o fim do mundo, seres humanos continuam a produzir o fim do mundo. Essa geração de catástrofes que terminarão por destruir o planeta, ou por nos expulsar dele, não cessa porque insistimos em velhas formas engessadas de produção e consumo. Os recursos estão acabando, estamos poluindo rios, mares, ares. Barragens de minério estouram, matam pessoas, extinguem peixes, cidades inteiras banhadas pelo imenso Rio Doce fazem filas por horas para comprar água potável e... Diante disso, a população de Mariana-MG promove passeata pela permanência da mineração com o mesmo modelo inconsequente que gerou a destruição de grande parte do manancial de água potável do estado. Em outras palavras, a realidade grita pela nossa atenção, "[...] Em caixa alta/ E sublinhada/ Com marca texto/ Amplificada/ Examinada/ Esmiuçada [...]", mas continua "desatendida". A canção termina como um aviso: sim, estamos com medo de dar com a cara no lado escuro; sim, estamos com medo de tentar novas formas de vida que por serem novas nos parecem assustadoras, imprevisíveis. Mas lá, e só lá, no desconhecido é que há um futuro. Não temos escolha. E essa charada pode muito bem ser entendida como o enigma e a mudança como a esfinge: ou deciframos o quão urgente ela é, ou ela nos devora.
Andar pelas ruas de Mariana ouvindo Volta nos fones de ouvido, alguns dias depois do rompimento das barragens da Samarco, foi para mim a experiência mais arrepiante dos últimos tempos. A humanidade precisa aterrissar, voltar a si. As evidências disso estão cada vez mais próximas, cada vez mais aqui e agora. Neste contexto, o título da música soa como um pedido. Volta.

Monday, September 09, 2019

O mundo é o parquinho dos bilionários

Além do abuso sistemático de meninas adolescentes, são componentes da história funesta de Jeffrey Epstein, o bilionário que se suicidou na prisão:

1. Doações milionárias para universidades (no caso, Harvard);
2. Jantares elegantes para cientistas e acadêmicos respeitados;
3. Amigos poderosos igualmente endinheirados;
4. Comissões misteriosas no valor de milhões de dólares;
5. Informação privilegiada sobre idas e vindas do mundo dos negócios;
6. Operações secretas em paraísos fiscais;
7. O serviço leal e discreto de bancos gigantescos;
8. Fundações de caridade que recebem e transferem dinheiro em transações estranhas;
9. Investigações internas que são misteriosamente abortadas antes de chegar ao final;
10. Gangs de advogados com a ferocidade de pit bulls treinados para luta pronto para intimidar;
11. Acordos camaradas com promotores generosos em processos;
12. Revelações escabrosas feitas apenas depois que o sujeito caiu em desgraça. 

Eis os doze componentes básicos da história de Epstein e muitos outros bilionários espalhados pelo mundo, gente sentada em cima de fortunas que transformariam a vida de milhões de miseráveis esfomeados que se espalham pelo mundo. O décimo terceiro componente, neste caso, é o abuso sexual de menores. Há outros "décimo-terceiros" no caso de outros bilionários. Posso resumi-los generalizando e dizendo que em todos eles há sempre um lado B de vítimas do seu poder e da sua agressividade: empregados desesperando cometendo suicídio; gente envenenada pelo ar, pela água ou pela comida que é forçada a usar; pessoas perdendo tudo o que têm para 'desastres' provocados; campanhas políticas sujas; etc. Nós vivemos no playground desses mastodontes. Somos a areia que eles pisam ou os brinquedos que eles amassam quando se sentam. Com a simpatia e leniência de políticos e governos comprados, eles brincam com o nosso destino. Sozinhos, sem nos unir sindicatos ou partidos ou grupos políticos, estamos à mercê dos seus caprichos.

Thursday, September 05, 2019

Duas canções sobre pássaros, vida, morte, memória e sentido

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Pájaros
Café Tacvba

Un pájaro en el cielo atravesó.
Estaba yo dormido y a mi cuerpo despertó.
Como una luz fugaz se deslizó.
Alcanzó las estrellas y entre ellas se perdió.

De pronto casi todo entendí.
Así que de repente supe a que vengo aquí.
Algunos que se han marchado ya.
Algunos que ya vienen y otros seguimos acá

La tierra que me vio nacer.
El cielo me hará perecer.
Tus manos me hicieron crecer.
Mis hijos me harán renacer.

Yo sé que tal vez no regresarás,
Pero aquí con nosotros por siempre estarás.
Del cielo al suelo llega tu raíz.
Los que vienen llegando ya me hacen muy feliz.

Mis manos queriendo rezar, 
Mis ojos queriendo llorar,
Mis labios queriendo reír,
Escucho la tierra vivir.



The Beginning of Memory
Laurie Anderson

There's a story in an ancient play about birds called “The Birds”
And it's a short story from before the world began.
From a time when there was no earth, no land.
Only air and birds everywhere.
But the thing was
There was no place to land
Because there was no land.
So they just circled around and around
Because this was before the world began.
And the sound was deafening.
Songbirds were everywhere.
Billions and billions and billions of birds.
And one of these birds was a lark and one day her father died.
And this was a really big problem because,
what should they do with the body?
There was no place to put the body
because there was no earth.
And finally the lark had a solution:
She decided to bury her father in the back of her own head.
And this was the beginning of memory.
Because before
No one could remember a thing.
They were just constantly flying in circles,
Constantly flying
In huge
Circles.

Wednesday, September 04, 2019

Poesia minha: Glória da ciência nacional

Desenho meu: Caveiras

Glória da ciência nacional

Já estavam quase aprendendo
a viver quase sem comer quando
vieram a falecer,
deixando pra trás aqueles que,
sem poder provar
doces sonhos de consumo,
compraram com arma na mão                                
e disposição na cabeça
a paixão em Neves
em quatorze passos
penitenciários
onde, antes de aprender
a doçura da miséria sem traumas,
também vieram a falecer,
mas não sem prover                     
entre montanhas de decapitados
e colchões queimados
a bucha desse ajustamento duro,     
o consenso asmático do medo        
crasso, violento, diário, banal,
nossa identidade
de quinhentos anos,                     
nosso sorriso de esfinge
reiterando doce e gentilmente                                
que “tem que matar
já que o bom mesmo é o morto.
Com a cabeça na mão
e as ideias enterradas
na areia fresca da praia,                             
fazemos as pazes
vivendo em guerra conosco,                                   
querendo não aprender
todas as vidas moídas
da cana ao grão que adoça o amargo
quente do café, descendo
garganta abaixo depois do jantar.