Sunday, April 30, 2017

Obituário: Belchior

O cearense Belchior já tinha 29 anos quando finalmente estourou com o álbum Alucinação em 1976. No começo daquele ano a consagradíssima Elis Regina já tinha dado um certo impulso ao compositor gravando duas versões fantásticas para músicas dele ["Como nossos pais" e "Velha Roupa Colorida"] no disco Falso Brilhante. O Brasil atual produz cantores genéticos a granel e o contraste não podia ser mais forte, pois Belchior não podia ser confundido com ninguém: A voz anasalada inconfundível e um maneira de encaixar letra na música que deve um bocado a Bob Dylan, particularmente a aquele Dylan mesmo daquela época dos anos 70, que flertava com a música Country daquela época bem à sua maneira, o faziam único. Não se trata, como às vezes se diz por aí, de versos que não rimam, mas de versos que, rimando, esticam ou encolhem a métrica o tempo todo - na base de "o verso só acaba quando eu rimar". Alucinação era um disco de canções com longas letras escritas na primeira pessoa, com uma mistura curiosa de sofisticação numa metralhadora de citações a fontes diversas e um bom humor bastante escrachado com aqueles momentos de dilaceração típicos da música brasileira naquela época, reflexo quem sabe da tristeza que era aquele momento no Brasil. Como muitas coisas gravadas no Brasil naquela época, as influências [estrangeiras ou domésticas] são bem digeridas, processadas muito além de uma simples cópia ou de uma colagem de pastiches. Belchior não tocava então música propriamente nordestina [baião, xote, xaxado, etc] nem oferecia qualquer tipo de mistura tropicalista à moda de tantos outros, mas colava a influência de Dylan e dos Beatles, tão fortes no Clube da Esquina também, com a mesma capacidade de fazer uma coisa muito sua, que respondia muito à experiência de muita gente naquela época e talvez até hoje no Brasil.

Vou destacar aqui uma das maravilhas daquele disco, "Retrato 3x4":

Retraro 3x4
Belchior

Eu me lembro muito bem do dia que eu cheguei.
Jovem que desce do norte pra cidade grande,
os pés cansados e feridos de andar légua tirana
de lágrimas nos olhos de ler o Pessoa
e de ver o verde da cana.

Em cada esquina que eu passava um guarda me parava,
pedia os meus documentos e depois sorria
examinando o 3x4 da fotografia
e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha.

Pois o que pesa no norte pela lei da gravidade -
disso Newton já sabia - cai no sul, grande cidade,
São Paulo violento, corre o Rio que me engana,
Copacabana, zona norte e os cabarés da Lapa onde eu morei.

Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar,
que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar.
Mas a mulher, a mulher que eu amei não pode me seguir, não.
Esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem.
Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua.
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas, coisas novas pra dizer.

A minha história é talvez, é talvez igual a tua:
jovem que desceu do norte
e que no sul viveu na rua
e que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
e que ficou apaixonado e violento como você.
[repete]

Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você que me ouve agora
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você

Deixar a terra natal é tema dominante de música nordestina desde Luiz Gonzaga e "Retrato 3x4" se encaixa perfeitamente nessa tradição, nem tanto por demonstrações de saudades mas pelo par hostil: o Rio de Janeiro enganoso e São Paulo violento. Só que esse "retirante" inventado por Belchior não é um camponês iletrado como aquele inventado pelo letradíssimo Humberto Teixeira. Esse jovem nordestino tem uma rede de conhecimentos sofisticados e cita Fernando Pessoa [como memória do Norte], Isaac Newton [em chave sarcástica para explicar o êxodo de nordestinos como frutas maduras que então "caem" no Sul Maravilha] e Caetano Veloso [chamado pelo sobrenome propositalmente na contra-mão da vontade de exibir proximidade que é tão típica da nossa cultura].

O curioso é que se a gente para para pensar Belchior não fez muito depois de Alucinação. Se gravou nas quatro décadas que separam aquele segundo disco da sua morte agora, foi regravando muitas coisas dessa época. Mas só Anunciação [e não dá para reduzir tudo aí nesse disco] basta. O próprio Belchior tem um depoimento que eu acho fantástico:

"Num momento da vida, você tem que afirmar sua própria vontade e seu próprio modo de existência. Só existe liberdade onde você pode dizer não. Então, eu sempre disse o não que era necessário”. [Achei esse depoimento nesse caderno especial sobre Belchior no jornal O Povo.

Aqui o disco inteiro:

Monday, April 24, 2017

Quatro proposições sobre o mais célebre casal

Desenho meu: Auto-Retrato
Quatro proposições sobre o mais célebre casal

A ansiedade espreme e acelera até que o corpo explode:
é o maquinário batendo pino.
A depressão refreia e sufoca até que o corpo implode:
é o maquinário fundindo motor.

A ansiedade é uma espiral centrífuga
apontando para cima
e se sente no corpo como a pressão
de um buraco negro ao contrário.
A depressão é uma espiral centrífuga
apontando para baixo
e o corpo a sente como a imersão
num nada opaco e viscoso.

A ansiedade é uma contingência
que ara o corpo
no qual a depressão semeia a sua morte em vida.
A ansiedade é uma substância
que derruba o tronco
onde o cogumelo frio da depressão viceja.


A duas expressam e se alimentam
da pressão constante,
dentro e fora,
da razão surda da produção
e da emoção cega do consumo
e das duas moléstias da propriedade,
a ânsia de ganhar e o medo de perder.











Sunday, April 16, 2017

Seder, Páscoa, Primavera, Equinócio

Brotos trancados no inverno, esperando a morte passar
Aqui no hemisfério norte, em latitudes mais temperadas, o sol fraquinho do inverno "morreu" justinho dentro do cruzeiro do sul e "renasceu" agora forte e semi-tropical. 

A natureza responde esplendorosamente à altura: em poucos dias os brotinhos das árvores peladas, que passaram meses e meses esperando o frio passar, se abrem verdinhos. O chão duro e seco do inverno se descongela de todo finalmente e da terra úmida brotam feito um milagre um monte de plantas que tinham aparentemente "morrido" no final do outono, mas que na verdade hibernavam subterrâneas durante o longo inverno de quase seis meses.


Tulipas são as primeiras a sair da terra.
Antes da chegada do verão já estarão "mortas"
debaixo da terra outra vez.
Os quase dez anos que vivi nessas alturas me ensinaram a observar a natureza e a aproveitar momentos como esse que marcam a possibilidade de passar longas horas no jardim e no quintal da minha casa cuidando das plantas e assistindo à natureza fazer o seu trabalho. Além da compreensão mais rasteira que temos muitas vezes da vida e da morte, essa experiência me fez entender de verdade, com todos os sentidos e com as dedos sujos de terra, que existe realmente um ciclo de morte e ressurreição, que a história de Jesus Cristo não é apenas uma historinha absurda, uma lorota que mobiliza multidões. As coisas morrem e ressuscitam todos os anos. Os passarinhos voltam, os bandos de corvos se separam e se dispersam, sapos e insetos reaparecem. 

Quantas vezes eu mesmo não morri e ressuscitei até hoje? Quantas vezes mais morrerei e ressuscitarei em mim mesmo e nos meus filhos e em outras pessoas que amei e odiei?  


Tuesday, April 04, 2017

Música: do Belo Horror em volta de uma privada às Asas de sorvete

Dois mineiros, um pernambucano e um carioca com fortes raízes cariocas, todos muito jovens, se reuniram no Rio de Janeiro em 1973 para gravar um disco que quase não foi divulgado e era impossível de se encontrar antes da era digital/internética. Sem apoio da gravadora para fazer quatro discos separados, a ideia era juntar forças num disco dividido em quatro. Aí nesse disco mal-conhecido gravou-se a primeira versão de "Manuel, o audaz" de Toninho Horta e Fernando Brant e "Ponta Negra" de Danilo Caymmi e João Carlos Pádua.

Uma das minhas favoritas nesse álbum é "Belo Horror" do lote de Beto Guedes. Na faixa fica claro que Beto Guedes e amigos andavam ouvindo os primeiros discos do Genesis e Yes, mas a coisa não fica no pastiche por causa da letra do Márcio Borges, que contrapõe Montes Claros [cidade natal do Beto e uma das cidades principais de uma região culturalmente riquíssima e financeiramente paupérrima] e a fatídica Belo Horizonte para onde iam padecer o céu/inferno urbano to mundo de todos os cantos de Minas Gerais. O clima da canção é de um pesadelo em que o mato da terra natal é guardado em segredo num ambiente hostil de cidade e proclama o desejo da "palavra errada" e da "hora certa de entortar".
Como outras faixas desse disco quase desconhecido, "Belo Horror" foi regravada bem mais tarde. Em 1999 no álbum Dias de Paz, "Belo Horror" virou "Asas", com algumas mudanças significativas na música e com a letra também bastante modificada. Agora "Caminhar não tem segredo" e o eu da canção anuncia que sabe voar e criar asas.

Aqui está claramente a diferença entre um primeiro momento do Clube da Esquina no começo dos anos 70 e o que veio depois. Entre a contracapa com o bando de cabeludos reunidos em volta de uma privada em 1973 e a capa com uma espécie de sundae musical feito no computador em 1999, alguém entornou um pote de açúcar nas letras e uma colher de glacê nos arranjos.

Essa doçura e esse brilho me incomodam um pouco, como me incomoda um pouco aquela tendência a uma certa "alegria tra-lá-lá" de certos patos e barquinhos da Bossa Nova e da MPB. Escuto e aprecio algo dessa produção, mas já não tanto.


Belo Horror
[Beto Gudes / Flávio Venturini / Vermelho / Márcio Borges]


Belo Horizonte,
Monte claro, meu segredo,
marcado pelo som que vem do mato.

Mato horizontes,
fundo claros contra o medo
e nada tenho a ver.

Quero a palavra errada,
quero a hora certa de entortar.

Meu amor, Montes Claros.
Belo horror horizonte.
Céu sem dono
Mal começa a clarear...



Asas
Vim de muito longe
Caminhar não tem segredo
Eu trago a formação que vem do mato

Fundo horizontes
Me elevo contra o medo
E faço amanhecer

Todo azul que tem na terra
Pássaro de ouro a voar

Sei voar crio asas
com o som.
Destas cordas crio mundos
para você se habitar.