Monday, December 22, 2008

Guernica


Guernica
Em 2003 Collin Powel foi às Nações Unidas apresentar “provas” da presença de armas de destruição em massa no Iraque, justificativa para a invasão que os Estados Unidos avisavam que fariam [e fizeram] com ou sem o apoio das Nações Unidas. De repente alguém nota que ao fundo, na sala onde Powell daria sua conferência de imprensa, estava uma reprodução em tapeçaria de um quadro famoso de Picasso: Guernica.
O nome quadro se refere a uma cidadezinha do país Basco impiedosamente bombardeada por aviões alemães em ajuda às tropas franquistas durante a Guerra Civil. Guernica não era um alvo estratégico na concepção tradicional do termo, mas uma cidade significativa para os Bascos como Ouro Preto é significativa para Minas Gerais, de importância cultural e identitária. O bombardeio de Guernica foi o primeiro ensaio em uma tática que culminaria, ironicamente, com o bombardeio devastador dos aliados em Dresden, na Alemanha: sob o pretexto de abalar a moral do inimigo, levar o poder multiplicado de destruição da guerra pós-industrialização muito além das fronteiras de combate e dos exércitos propriamente ditos, para dentro das casas de todos os habitants de um país e de uma região.
Pintado e exibido pela primeira vez em Paris ainda durante a Guerra Civil Espanhola por um Picasso até então desinteressado por questões políticas e visto com desconfiança pelos que achavam seu modernismo uma forma de esteticismo alienado e decadente [nisso coincidiam Stalinistas e fascistas], Guernica é uma representação dramática da tragédia que a Primeira Guerra apresentou e a segunda Guerra mundial expandiu a níveis inimagináveis. Picasso nunca permitiu que o quadro fosse para a Espanha até que Franco morresse.
Se alguém duvida do poder da arte, pergunte aos acessores de Colin Powell porque eles fizeram questão de cobrir a tapeçaria nas Nações Unidas [há quem diga que a coisa não passou de um pedido feito pelos jornalistas em nome de questões técnicas – se você ainda acredita em histórias da carochinha como “smart bombs” que não matam ninguém inocente pode se consolar com isso também]. Mas, por outro lado, se alguém duvida dos limites desse poder da arte, veja o que aconteceu no Iraque logo depois…

Friday, December 19, 2008

2666

Já comentei que minhas leituras são quase sempre guiadas pelas minhas atividades acadêmicas – raramente leio o eu que quero, pelo puro prazer da leitura. Isso não significa que às vezes a gente consiga unir o útil ao agradável. Uma aluna me procurou para ser seu orientador na sua tese de bacahrelado e ela estava interessada em Roberto Bolaño, especialmente em 2666, seu último romance. Eu já conhecia um par de contos de Bolaño que eu achei muito bons e então aceitei na hora. Bolaño está com a bola tão cheia por aqui nos EUA que foi escolhido entre cinco romances para fazer uma lista de 10 livros mais importantes para o NYT. Agora cá estou eu, internado em casa com um bebê recém-nascido depois de uma tempestade de neve e com um mamute de mais de 1000 páginas para ler. Eis um trecho interessante, da página 62:

“… Pelletier y Espinoza se descubrieron generosos aquella noche, y tan generosos se descubrieron que si llegan a estar juntos hubieran salido a celebrarlo, deslumbrados por el resplandorde su propia virtud, un replandor que ciertamente no dura mucho (pues toda virtud, salvo en la brevedad del reconocimiento, carece de resplandor y vive en una caverna oscura rodeada de otros habitants, algunos muy peligrosos)…”

Thursday, December 18, 2008

Poetas Mexicanos - Gabriel Zaid


Nacimiento de Venus
Así surges del agua,
blanquísima,
y tus largos cabellos son del mar todavía,
y los vientos te empujan, las olas te conducen,
como el amanecer, por olas, serenísima.
Así llegas helada como el amanecer.
Así la dicha abriga como un manto.
Seguimiento, 1964

Nacimiento de Venus

Así surges del agua,
clarísima,
y tus largos cabellos son del mar todavía,
y los vientos te empujan, las olas te conducen,
como el amanecer, por olas, serenísima.

Así todo se aclara, como el amanecer,
y se vuelve palpable el misterio del día.
Práctica mortal, 1973

Monday, December 15, 2008

Nasceu Olívia

Olivia nasceu!!! Sobre ser pai pela segunda vez não há nada de articulado para dizer além dos lugares comuns que todo mundo sabe – então eu não vou dizer nada sobre o assunto. Vamos aos fatos: o parto foi diferente do Samuel mas tavez até mais difícil porque além de atado em um nó bem dado, o cordão umbilical estava enrolado [duas vezes] em volta do pescoço da Olívia - a pobrezinha querendo sair, a mãe fazendo uma bruta força, mas o cordão curto não dava linha. Faltando dois minutos de desconto para o final do segundo tempo e, com a ajuda de uma espécie de desentupidor de pia moderno, Olívia conseguiu sair ainda pelas vias naturais.
Depois de assistir Letícia parir pela segunda vez, mais uma vez eu me curvo humildemente à força quase sobrenatural dessa mulher sensacional e tenho certeza que, se o ser humano fosse mesmo um animal racional, os maridos/pais machões estariam com os dias contados com o fim da era em que os pais fumavam charutos e andavam de lá para cá no corredor do hospital. Samuel chegou ao hospital no fim da tarde, vindo das suas aulas de Taekwondo. Alegre e curioso, aprovou o nome [resolvemos trocar ontem à noite] e deu seu primeiro colo para a irmãzinha com o cuidado, a gentileza e o carinho que eu nunca tive e gostaria um dia ser capaz de ter.

Sunday, December 14, 2008

Poesia Mexicana - Efrain Huerta

Companheiro muito menos conhecido de geração de Octavio Paz, para mim Efrain Huerta acertou a mão na obra madura, com os poemas curtos [que têm uma tradição respeitável no Brasil, mas eram muito “diferentes” para a poesia mexicana]:


Desconcierto
A mis
Viejos
Maestros
De Marxismo
No los puedo
Entender,
Unos están
En la cárcel
Otros Están
En el poder.

Con pasión
Y así
Le dije
Con desolada
Y cristiana
Bondad:
Desnúdate
Que yo
Te
Ayudaré

Idiot box
Esta
Declaración
De amor
Imposible
Se destruirá
En cinco
Segundos

Luz, más luz
Es terrible
Pero
Cada día
Son más claros
Los intereses
Más oscuros

Ecología
De la
Ilusión
A la
Erosión
No hay
Más que
Medio
Siglo

Thursday, December 11, 2008

Repente 4


































[foto: filhos de meeiros no site http://newdeal.feri.org/]


Dando seguimento ao repente com Sabina, retomo outra criatura sensacional [e geralmente muito incompreendida] dos contos de William Faulkner: Abner Snopes. Aqui ele termina de borrocar acintosamente com bosta de cavalo o tapete importado da sala do poderoso Major de Spain, onde ele vive uma vida de miséria como meeiro no Mississippi. Antes da Guerra Civil essas figuras conhecidas depreciativamente como "White Trash" valiam menos que os escravos que faziam todo o trabalho e eram propriedade valiosa dos senhores; agora estão todos na mesma situação mas a tensão racial continua. Abner quer ensinar ao seu filho [o protagonista do conto] alguma coisa sobre identidade de classe, mas o filho não aceita a lição do pai:

"Seu pai não abrira mais a boca. E não abriu a boca de novo. Ele nem sequer olhou para ela. Apenas plantou-se rígido bem no centro do tapete, com seu chapéu na cabeça, as sobrancelhas cinza-ferro desgrenhadas contraindo-se ligeiramente sobre os olhos cor de seixo rolado enquanto ele parecia examinar a casa com deliberação breve. Então ainda com a mesma deliberação ele deu a volta; o menino o viu girar na perna boa e viu o pé capenga girar em arco deixando um último borrão sobre o tapete. Seu pai nunca sequer olhou para o borrão, nem sequer uma vez ele olhou para o tapete. O negro segurou a porta. Esta fechou-se atrás dos dois, deixando para trás o som de uma lamúria feminina histérica, indistinguível. Seu pai parou no topo da escadaria e limpou as botas na beirada do degrau. No portão ele parou outra vez. Ficou ali parado por um instante firmemente plantado no seu pé cambeta, os olhos voltados para a casa. 'Bonita e branquinha, né mesmo?' ele disse. 'Aquilo é feito de suor. Suor de crioulo. Vai ver que ainda não está branco o suficiente para ele. Vai ver que ele ainda quer misturar um pouco de suor de branco nela.'"

Wednesday, December 10, 2008

Viva México! - Muxes

Essa foto é de um Muxe de Juchitán no estado de Oaxaca no México. Eles são homens que sentem mulheres e se vestem assim, trabalhando geralmente em ofícios também tradicionalmente relacionados com as mulheres. Aí está uma prova de que a equação que se faz entre pobreza e preconceito sexual é equivocada.

Sunday, December 07, 2008

Diário do Império - Antenado com a minha casa [BH]

Acompanho a vida no Brasil antes de tudo pela internet, um "lugar" estranho em que a [para mim tenebrosa] classe média brasileira reina soberana, quase absoluta, com seus complexos, suas mediocridades e sua agressividade...
Um conhecido, daqueles que ao inv
és de ter um blogue que a gente visita quando quer, prefere um papel mais ativo, mandando suas "idéias" para os outros por e-mail, me enviou o texto abaixo, que eu vou comentar o mais sucintamente possível: resolvi a partir de amanhã fazer um esforço e tentar, além do blogue, onde expresso minhas "idéias" passivamente, tentar me comunicar diretamente com as pessoas por carta...

OS ALUNOS DE UNIVERSIDADES PARTICULARES DERAM UMA RESPOSTA; E A BRIGA CONTINUOU ...


1 - PROVOCAÇÃO INICIAL

Estudar na PUC:............... R$ 1.200,00

Estudar no PITÁGORAS:..........R$ 1.000,00

Estudar na NEWTON:.....R$ 900,00

Estudar na FUMEC:............ R$600,00

Estudar na UNI-BH:........... R$ 550,00

Estudar na ESTÁCIO DE SA:........... R$ 500,00

Estudar na UFMG................ NÃO TEM PREÇO! ! !

2 - RESPOSTA

Mas também Não tem aula... Não tem professores... Não tem giz, carteira, material didático. ... Não tem festa boa... Não tem gente bonita e no verão, não tem férias!!!

Existem (ERRO DE PORTUGUES) coisas que o dinheiro não compra. Desorganização, preguiça etc. ... Para todas as outras, existe o Mastercard.


3 - RÉPLICA DE UM ALUNO DA FEDERAL

Estudar em uma federal: Realmente não tem preço ! ! ! E também:

1. Não tem semi-analfabeto
2. Não tem reitor mercenário
3. Não tem (muito) filhinho de papai
4. Não tem encheção de saco do papai nem da mamãe. Eles não pagam sua faculdade, então não podem falar nada
5. Não tem shopping, manicura, salão de beleza e sacoleira . . .
6. Não tem monitor metido a professor
7. Não fingimos que temos prova, nem fingimos que somos avaliados
8. Não tem provas com média 5.0 para passar
9. Nem o esquema 'ppp' (papai pagou passou!)
10. Tem ensino de qualidade, pesquisa e extensão (será que os cursos
particulares sabem o que é isso? )
11. Temos melhores conceitos no provão

4 - TRÉPLICA DA 'PARTICULAR'

Caro amigo maconheiro, parabéns pelas suas justificativas (ponto pra você).
O fato de pagar a faculdade é problema para os quebrados, não para mim! (ponto pra mim)
Nas federais tem ensino de qualidade, pesquisa e extensão (ponto pra você).
Na minha faculdade alguns dos melhores professores das federais, todos doutores, foram contratados para ganhar 3 a 4 vezes mais e, por isso,ministram as aulas com mais tranqüilidade e empenho, pois não têm que se descabelar com as dívidas e o cheque especial no vermelho!!! (ponto pra mim)
Eu estudo numa sala que tem cadeiras acolchoadas, ar condicionado,canhão de luz com telão, retro projetores, data-show, quadro branco e espaço para todos, que, na maioria, usam bom desodorante!!! (ponto pra mim).

Você provavelmente senta naquelas cadeiras todas detonadas, quando tem cadeira, pichadas com liquid paper, que a minha avó usou. Sem contar o quadro de giz e o ventilador espalhando cal pela sala. (ponto pra mim).

E outra coisa: Na minha faculdade, nós entramos estudantes e saímos como estudantes. Nas federais, na maioria das vezes, entra-se estudante e sai punk, maconheiro, nerd, rasta, canhão, doidão, pé sujo, metaleiro e, quase sempre petista!!! (ponto pra mim)
Por falar em sair: Quando é que você vai sair daí??? Tem alguma previsão? Amanhã pode ter mais greve e você vai ficar mais um ano sem férias. Ah... Férias... Férias... Férias!!! Você não tem mais férias!
Bingo!!! Como diz o velho ditado: "O barato sai caro!"

Friday, December 05, 2008

Repente 1

Propus à Sabina Anzuategui um repente de citações e ela gostou da idéia. Ela postou um texto do Peter Handke e eu contrapostarei o final do conto "Barn Burning" de William Faulkner em uma tradução [infelizmente] ainda inédita feita por mim. O menino protagonista do conto acaba de denunciar seu próprio pai ao proprietário das terras onde eles vivem e foge correndo da fazenda. Faz isso quando percebe que o pai vai, mais uma vez, botar fogo em um celeiro como forma de revolta/protesto/vingança contra sua própria miséria e foge de casa.

"À meia-noite ele estava sentado na crista de um morro. Ele não sabia que era meia-noite e não sabia o quanto havia caminhado. Mas já não havia clarão atrás e ele estava sentado, com as costas para o que ele chamara de qualquer maneira lar ainda que por quatro dias, seu rosto apontado para a mata escura onde ele entraria quando recuperasse o fôlego, pequeno, tremendo com regularidade no frio da escuridão, abraçando-se com os braços metidos dentro do que sobrara da sua camisa puída, a tristeza e o desespero agora não mais terror e medo mas apenas tristeza e desespero. Pai. Meu pai, ele pensava.
- Ele foi um bravo! O menino falou em voz alta de repente, em voz alta mas não alto, não mais que um sussurro: Ele foi! Ele esteve na guerra! Ele esteve na cavalharia do Cornel Sartoris! sem saber que seu pai tinha ido para aquela guerra como um soldado raso no velho sentido europeu da expressão, sem vestir um uniforme, aceitando a autoridade e concedendo fidelidade a homem algum, exército ou bandeira alguma, indo para a guerra como fez Malbrouck : pelo saque – não significando nada e menos que nada se a presa de guerra era do seu próprio exército ou do inimigo.
As lentas constelações seguiam o seu curso. Em pouco chegaria a madrugada e o nascer do sol e ele teria fome. Mas então seria amanhã e agora o que ele tinha apenas frio, e caminhar era uma solução para isso. Seu fôlego já mais tranqüilo agora, decidiu levantar e seguir emfrente, e então percebeu que tinha estado dormindo porque sabia, que era quase alvorada e a noite estava quase no seu fim. Ele sabia por causa dos curiangos. Estavam por toda a parte agora, entre as árvores escuras lá embaixo, constantes, inflexíveis e incessantes, de tal forma que, à medida em que o instante em que eles teriam que dar lugar aos pássaros do dia aproximava-se cada vez mais, já não havia intervalo algum entre o vôo de um e de outro. Ele levantou-se. Estava um pouco duro, mas caminhar seria solução para isso também como seria para o frio, e logo chegaria o sol. Ele desceu o morro, na direção da mata escura na qual os liquidas vozes prateadas dos pássaros chamavam incessantes – o ritmo rápido e urgente do urgente coração cantante da noite do final da primavera. Ele não olhou para trás."

Tuesday, December 02, 2008

Ainda nos mares - um poema meu


Nós vamos afundar
Nós vamos afundar
devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos encontrar
transformados em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs, as hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade vai estar
nos esperando com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntos.

Monday, December 01, 2008

Ainda nos mares do sul - JMW Turner


Em 1840 Turner exibiu em público pela primeira vez esse quadro [clique na imagem para ver melhor, vale a pena] pelo qual ele seria execrado, “Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying: Typhoon Coming On”. Até esse longo nome do quadro mereceria gozações e paródias, mas hoje há quem pense que esse é o quadro mais importante da pintura inglesa do século XIX.
O primeiro “defeito” desse quadro para os contemporâneos de Turner é que o tema escolhido vai provocativamente no sentido contrário do orgulho inglês pelo seu papel na luta pela extinção do tráfico de escravos que continuava a levar milhares de africanos para as Américas: o quadro se refere a um evento perto da Jamaica em 1871 quando o capitão inglês Luke Collingwood atirou ao mar 132 africanos, ainda vivos em sua maioria, do navio negreiro inglês “Zong” no mar para defender os interesses de seus patrões de Liverpool, já que o seguro não os indenizaria no caso de morte por doença mas apenas no caso de “death by the sea”.
Repare os monstros marinhos e pássaros que se revolvem em torno das correntes e algemas que misteriosamente flutuam no mar revolto e ao mesmo tempo o briho do sol que projeta uma faixa branca de calmaria no meio da tempestade e lá no cantinho direito uma réstia de céu azul [seria uma esperança?].
Não dá para um brasileiro não se lembrar do Navio Negreiro de Castro Alves:

Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

Mas eu também imagino que este mar caribenho é quase o mesmo mar do poema de José Emilio Pacheco do post passado, o mesmo poeta que escreveu o seguinte poema, igualmente marcante:

Tierra
La honda tierra es
la suma de los muertos.
Carne unánime
de las generaciones consumidas.

Pisamos huesos,
sangre seca, restos,
invisibles heridas.

El polvo
que nos mancha la cara
es el vestigio
de un incesante crimen.
No me preguntes cómo pasa el tiempo, 1969