Thursday, December 11, 2008

Repente 4


































[foto: filhos de meeiros no site http://newdeal.feri.org/]


Dando seguimento ao repente com Sabina, retomo outra criatura sensacional [e geralmente muito incompreendida] dos contos de William Faulkner: Abner Snopes. Aqui ele termina de borrocar acintosamente com bosta de cavalo o tapete importado da sala do poderoso Major de Spain, onde ele vive uma vida de miséria como meeiro no Mississippi. Antes da Guerra Civil essas figuras conhecidas depreciativamente como "White Trash" valiam menos que os escravos que faziam todo o trabalho e eram propriedade valiosa dos senhores; agora estão todos na mesma situação mas a tensão racial continua. Abner quer ensinar ao seu filho [o protagonista do conto] alguma coisa sobre identidade de classe, mas o filho não aceita a lição do pai:

"Seu pai não abrira mais a boca. E não abriu a boca de novo. Ele nem sequer olhou para ela. Apenas plantou-se rígido bem no centro do tapete, com seu chapéu na cabeça, as sobrancelhas cinza-ferro desgrenhadas contraindo-se ligeiramente sobre os olhos cor de seixo rolado enquanto ele parecia examinar a casa com deliberação breve. Então ainda com a mesma deliberação ele deu a volta; o menino o viu girar na perna boa e viu o pé capenga girar em arco deixando um último borrão sobre o tapete. Seu pai nunca sequer olhou para o borrão, nem sequer uma vez ele olhou para o tapete. O negro segurou a porta. Esta fechou-se atrás dos dois, deixando para trás o som de uma lamúria feminina histérica, indistinguível. Seu pai parou no topo da escadaria e limpou as botas na beirada do degrau. No portão ele parou outra vez. Ficou ali parado por um instante firmemente plantado no seu pé cambeta, os olhos voltados para a casa. 'Bonita e branquinha, né mesmo?' ele disse. 'Aquilo é feito de suor. Suor de crioulo. Vai ver que ainda não está branco o suficiente para ele. Vai ver que ele ainda quer misturar um pouco de suor de branco nela.'"

2 comments:

sabina anzuategui said...

achei difícil de entender só pelo fragmento... li duas vezes, mas o texto é condensado, tenso.

fiquei pensando se não haveria uma maneira mais suave de traduzir as cores... para destacar mais os verbos e substantivos, e menos os adjetivos.

digo isso sem conhecer o original, apenas porque esses qualificativos complexos dificultaram minha compreensão, no início.

Paulodaluzmoreira said...

Faulkner tem esse estilo anarquico, e eh mesmo dificil entender so por esse trechinho. Um ponto que me interessa aqui eh que esse pai tem um discurso que mescla extrema sabedoria do ponto de vista da consciencia de classe e extrema estupidez do ponto de vista racial [os termos que ele usa sao muito ofensivos, dos que gerariam uma briga de sopapos nos Estados Unidos]. Entao o filho fica dividido entre o que ele aprende e aprecia e conhece do pai e o que ele rejeita e detesta - eh dificil para esse filho [pra qualquer filho] separar mecanicamente as duas coisas, fica tudo misturado e o discurso do pai eh ao mesmo tempo um tesouro para vida e uma maldicao para vida do menino.