Wednesday, April 30, 2014

Sobre falimentos...


Arte minha: "Curvas do Rio"


"Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."

Guimarães Rosa, fim de "Terceira Margem do Rio"

Tuesday, April 29, 2014

Villoro: tradução como itinerário

Esse artigo incrível, “Te doy mi pal­abra: un itin­er­ario en la tra­duc­ción por Juan Villoro” me foi recomendado por uma boa amiga de FCBK - a qualidade das amizades de FCBK é medida pelas coisas interessantes ou pelo menos divertidas que as pessoas postam por lá. O depoimento de Villoro é o tipo de coisa que vale a pena ler com calma, para concordar e mesmo discordar em alguns momentos. É prova de que existe, sim, vida inteligente, contando que a gente tenha disposição de procurar ao invés de esperar que elas caiam no nosso colo da TV na sala de estar ou nas páginas de algum jornalão. Eis aqui alguns trechos:

"[Sergio] Pitol me habló de la impor­tan­cia de la tra­duc­ción como apren­dizaje lit­er­ario. Bus­car equiv­a­lentes para cada pal­abra y cada giro, per­mite entrar en el taller secreto de otro autor, cono­cer y val­o­rar sus deci­siones, pre­cisar su estética. Pero sobre todo amplía tu pro­pio lenguaje, oblig­ado a decir cosas impre­vis­tas. La lengua de lle­gada se mod­ern­iza con los desafíos de la lengua de par­tida."
[...] 
"... el tra­duc­tor atem­pera su ini­cia­tiva para resaltar la ajena. Al respecto, José Aníbal Cam­pos escribe: “Soy tra­duc­tor, soy una som­bra empeñada en no dejarse ver, una som­bra que fra­casa.” Para el intér­prete de otra lengua, mostrarse es traicionar."
[...] 
"La tra­duc­ción “neu­tra” reclama un esfuerzo que debe pasar inad­ver­tido: “Lo labo­rioso es que un dis­curso parezca de Den­ver sin decir una sola cosa propia de Den­ver”, dice Gar­gan­tagli. La espon­tanei­dad es uno de los may­ores arti­fi­cios del tra­duc­tor. Para con­seguirla, debe estilizar su propia lengua."
[...] 

"Cuando Mal­colm Lowry entró a una fonda mex­i­cana, dos letreros lo con­vencieron de que estaba en un país mágico. El primero decía: “Huevos divor­ci­a­dos.” El autor de Bajo el vol­cán juzgó estu­pendo estar en un sitio donde un platillo merecía esa jurídica sen­ten­cia. En este caso, su inter­pretación de una rareza idiomática era cor­recta. El segundo letrero lo fascinó por un error lingüís­tico. Lowry creyó que esa fonda tam­bién ofrecía “Pollo espec­tral de la casa”. La idea de comer un guiso indi­vis­i­ble le pare­ció aún más fasci­nante que la de los “huevos divor­ci­a­dos”. La ver­dad es que la cocina del lugar no daba para tanto; se lim­itaba a ofre­cer “pollo espe­cial de la casa”, pero elmis­read­ing del escritor fue digno de la atmós­fera de su prin­ci­pal novela."

Saturday, April 26, 2014

A linha na poesia e na arte: uma "sabidura" de Gego

Sabidura
Gego [Gertrude Goldschmidt, 1912–1994]



Relaciones de líneas
creadas
ni de la realidad de ver
ni de la realidad
de saber.

Imagen que disuelve la realidad.

Friday, April 25, 2014

Recordar é viver: os bispos da Igreja Católica em 1964

Recordar é viver:

“Declaração da CNBB sobre a situação nacional”
Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil
29 de maio de 1964

"O Brasil foi, há pouco, cenário de graves acontecimentos, que modificaram profundamente os rumos da situação nacional. Atendendo à geral e angustiosa expectativa do Povo Brasileiro, que via a marcha acelerada do comunismo para a conquista do Poder, as Forças Armadas acudiram em tempo, e, evitaram se consumasse a implantação do regime bolchevista em nossa Terra. Teria sido mais do que se pode imaginar: a supressão das liberdades mais sagradas e, de modo especial, das liberdades religiosa e civil.
Logo após o movimento vitorioso da Revolução, verificou-se uma sensação de alívio e esperança, sobretudo porque, em face do clima de insegurança e quase desespero em que se encontravam as diferentes classes ou grupos sociais, a Proteção Divina se fez sentir de maneira sensível e insofismável. De uma à outra extremidade da Pátria transborda dos corações o mesmo sentimento de gratidão a Deus, pelo êxito incruento de uma revolução armada. Ao rendermos graças a Deus, que atendeu às orações de milhões de brasileiros e nos livrou do perigo comunista, agradecemos aos militares que, com grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses da nação, e gratos somos a quantos concorrerem para libertá-la do abismo iminente.
Critério.
A Revolução, segundo afirmam seus dirigentes mais qualificados, teve a intenção de arrancar o País ao comunismo, e de fazer valer a justiça, o direito e o bom senso. Não há dúvida que a ação militar deve consolidar a vitória, mediante o expurgo das causas da desordem. Entretanto, o critério de correção, os métodos a serem empregados na busca e no trato dos culpados, as medidas saneadoras e as penas li não são atribuições da força, como tal, mas de outros valores, sem os quais a força não passaria de arbitrariedade, de violência, de tirania. Que os acusados tenham o sagrado direito de defesa e não se transformem em objeto de ódio ou de vendeta. Mercê de Deus, muito nos tem tranqüilizado a palavra oficial, quer a do Comando Revolucionário, quer a do Senhor Presidente da República, desde que, eleito pelo Congresso Nacional, assumiu a responsabilidade de Supremo Magistrado. Contudo, ao reconhecer as inevitáveis dificuldades do momento e as melhores intenções do Governo, cumpre-nos declarar que não podemos concordar com a atitude de certos elementos, que têm promovido mesquinhas hostilidades à Igreja, na pessoa de Bispos, sacerdotes, militantes leigos e fiéis. Reconhecemos e lamentamos que, até movimentos de orientação católica tenham incorrido em faltas e abusos cometidos por parte de um ou outro element que burlou nossa vigilância, ou de outros que foram vítimas de seu idealism, da falta de malícia ou da inadequada apreciação dos feitos. Porém, na medida em que essas faltas chegaram ao nosso conhecimento, antes mesmo da Revolução, jamais deixamos de advertir e castigar os culpados, fossem laicos ou sacerdotes.
Acusações.
Por outro lado, não aceitamos, nem jamais poderemos aceitar a acusação injuriosa, generalizada ou gratuita, velada ou explícita, de que Bispos, sacerdotes e fiéis ou organizações, como, por exemplo, a Ação Católica e o Movimento de Educação de Base (MEB), sejam comunistas ou comunizantes. Isto se deve, às vezes, à própria tática comunista, outras vezes a certos elementos inconformados com a atitude aberta e corajosa de verdadeiros apóstolos da Igreja, do Clero e do Laicato, que pregam a sã doutrina, seja contra o comunismo, seja contra gritantes injustiças sociais e focos de
corrupção e de degradação dos valores morais. É profundamente lamentável que tradicionais e acirrados inimigos da Igreja e alguns órgãos da imprensa do País levem ao pelourinho da difamação e da calúnia Bispos e Sacerdotes, e cheguem ao extremo de se vangloriarem do título de defensores e orientadores da consciência católica. Contra esta abominação levantamos nossas vozes de autênticos Pastores. Estamos onde sempre estivemos, em defesa dos sagrados direitos de Deus e da Pátria. Insistimos na necessidade e na urgência da restauração da ordem social, em bases cristãs e democráticas. Mas esta condenação não será possível apenas com a condenação teórica e a repressão policial do comunismo e, sobretudo, enquanto o espírito sobrenatural autêntico não impregnar todas as pessoas e todas as atividades humanas. Nossas tradições cristãs e a sagrada instituição da família, assim como o sentimento religioso do povo não devem servir para acobertar aqueles que corrompem os costumes, ou se entregam aos abusos do capitalismo liberal. […]
Apelo.
Fazemos apelo a todas as forças vivas da Nação, para que, pondo de lado os interesses egoísticos, colaborem com as autoridades constituídas na tarefa ingente de reconstrução da Pátria. Esperamos que os responsáveis pelos destinos temporais do Brasil aceitem, defendam e cumpram os princípios do Evangelho e as normas da Doutrina Social Cristã, não só porque esses princípios são os nossos, mas porque constituem a base fora da qual não há, nem poderá haver, ordem social, segurança, estabilidade e verdadeiro progresso […].”  



Wednesday, April 23, 2014

Um quebra-cabeças para espantar leitores

"Nesse momento, a moça
embebida no olhar do marido,
começou a cantarolar à toa,
inconscientemente,
uma coisa nunca antes cantada nem sabida,
na qual coisa um certo lá
trazia após si uma linda frase musical,
justamente a que Mestre Romão procurara
durante anos sem achar nunca.

O mestre ouviu-a com tristeza,
abanou a cabeça,
e à noite expirou.
Fim de "Cantiga de esponsais" de Machado de Assis

Menard (acaso sin quererlo)
ha enriquecido mediante una técnica nueva
el arte detenido y rudimentario
de la lectura:
la técnica del anacronismo deliberado
y de las atribuciones erróneas.
De "Pierre Menard, autor del Quixote" de Jorge Luis Borges

Una vez adquirida la técnica necesaria,
quiso hacer materia de su sueño.
De "El trenzador" de Ricardo Güiraldes

Eu gostaria de poder dizer 
que a literatura é inútil,
mas não é,
num mundo em que pululam 
cada vez mais técnicos.
Para cada Central Nuclear  
é preciso uma porção de poetas e artistas,
do contrário estamos fudidos
antes mesmo da bomba explodir.
De "Intestino Grosso" de Rubem Fonseca

Tuesday, April 22, 2014

De volta ao século XIX

"Situación económica y social

11. Como es sabido, por aquel entonces la concepción del mundo económico que mayor difusión teórica y vigencia práctica había alcanzado era una concepción que lo atribuía absolutamente todo a las fuerzas necesarias de la naturaleza y negaba, por tanto, la relación entre las leyes morales y las leyes económicas motivo único de la actividad económica, se afirmaba, es el exclusivo provecho individual. La única ley suprema reguladora de las relaciones económicas entre los hombres es la libre e ilimitada competencia. Intereses del capital, precios de las mercancías y de los servicios, beneficios y salarios han de determinarse necesariamente, de modo casi mecánico, por virtud exclusiva de las leyes del mercado.
El poder público debe abstenerse sobre todo de cualquier intervención en el campo económico. El tratamiento jurídico de las asociaciones obreras variaba según las naciones: en unas estaban prohibidas, en otras se toleraban o se las reconocía simplemente como entidades de derecho privado.

12. En el mundo económico de aquel entonces se consideraba legítimo el imperio del más fuerte y dominaba completamente en el terreno de las relaciones comerciales. De este modo, el orden económico quedó radicalmente perturbado.

13. Porque mientras las riquezas se acumulaban con exceso en manos de unos pocos, las masas trabajadoras quedaban sometidas a una miseria cada día más dura. Los salarios eran insuficientes e incluso de hambre; los proletarios se veían obligados a trabajar en condiciones tales que amenazaban su salud, su integridad moral y su fe religiosa.
Inhumanas sobre todo resultaban las condiciones de trabajo a las que eran sometidos con excesiva frecuencia los niños y las mujeres. Siempre amenazador se cernía ante los ojos de los asalariados el espectro del paro. La familia vivía sujeta a un proceso paulatino de desintegración."

Trecho de “Mater et magistra” (publicada em 1961) em que o papa João XXIII descreve as condições de vida na segunda metade do século XIX, quando o papa Leão XIII acenou com uma renovação que acabou não saindo do papel.