Sunday, April 20, 2014

Poesia minha: Poema Circular

Foto minha: Asa de Pedra

Poema Circular 

gente que caminha sem pernas
e segue não sei como mas segue
porque tem dentes para morder,
porque tem olhos para ver
e o couro duro de rasgar
a crosta dura que cobre o doce
açucarado dos sonhos velhos
herdados de mães e avós
e outros que eu tenho que esquecer
porque a vida não é o que se vive
mas o que se lembra e se conta
para alguém que queira ouvir
e eu não posso mais caber tanta dor
e não há ninguém para ouvir
porque minha língua está morta
sou gente que caminha sem pernas
e segue com dentes para morder
e olhos para chorar
e o couro duro de rasgar
cicatrizes que sussuram um cheiro doce
mãos açucaradas da menina que eu fui
enchendo os pulmões de ar seco e frio
da terra que já não há
sem terra e sem língua o que resta
é caminhar sem pernas
respirar o vazio
enxergar o escuro
escutar o silêncio
provar o cheiro e o sabor do nada
rodar em falso
abrir à força as comportas
e se esvair livre
livre de si mesmo,

afinal.  

No comments: