Friday, April 25, 2014

Recordar é viver: os bispos da Igreja Católica em 1964

Recordar é viver:

“Declaração da CNBB sobre a situação nacional”
Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil
29 de maio de 1964

"O Brasil foi, há pouco, cenário de graves acontecimentos, que modificaram profundamente os rumos da situação nacional. Atendendo à geral e angustiosa expectativa do Povo Brasileiro, que via a marcha acelerada do comunismo para a conquista do Poder, as Forças Armadas acudiram em tempo, e, evitaram se consumasse a implantação do regime bolchevista em nossa Terra. Teria sido mais do que se pode imaginar: a supressão das liberdades mais sagradas e, de modo especial, das liberdades religiosa e civil.
Logo após o movimento vitorioso da Revolução, verificou-se uma sensação de alívio e esperança, sobretudo porque, em face do clima de insegurança e quase desespero em que se encontravam as diferentes classes ou grupos sociais, a Proteção Divina se fez sentir de maneira sensível e insofismável. De uma à outra extremidade da Pátria transborda dos corações o mesmo sentimento de gratidão a Deus, pelo êxito incruento de uma revolução armada. Ao rendermos graças a Deus, que atendeu às orações de milhões de brasileiros e nos livrou do perigo comunista, agradecemos aos militares que, com grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses da nação, e gratos somos a quantos concorrerem para libertá-la do abismo iminente.
Critério.
A Revolução, segundo afirmam seus dirigentes mais qualificados, teve a intenção de arrancar o País ao comunismo, e de fazer valer a justiça, o direito e o bom senso. Não há dúvida que a ação militar deve consolidar a vitória, mediante o expurgo das causas da desordem. Entretanto, o critério de correção, os métodos a serem empregados na busca e no trato dos culpados, as medidas saneadoras e as penas li não são atribuições da força, como tal, mas de outros valores, sem os quais a força não passaria de arbitrariedade, de violência, de tirania. Que os acusados tenham o sagrado direito de defesa e não se transformem em objeto de ódio ou de vendeta. Mercê de Deus, muito nos tem tranqüilizado a palavra oficial, quer a do Comando Revolucionário, quer a do Senhor Presidente da República, desde que, eleito pelo Congresso Nacional, assumiu a responsabilidade de Supremo Magistrado. Contudo, ao reconhecer as inevitáveis dificuldades do momento e as melhores intenções do Governo, cumpre-nos declarar que não podemos concordar com a atitude de certos elementos, que têm promovido mesquinhas hostilidades à Igreja, na pessoa de Bispos, sacerdotes, militantes leigos e fiéis. Reconhecemos e lamentamos que, até movimentos de orientação católica tenham incorrido em faltas e abusos cometidos por parte de um ou outro element que burlou nossa vigilância, ou de outros que foram vítimas de seu idealism, da falta de malícia ou da inadequada apreciação dos feitos. Porém, na medida em que essas faltas chegaram ao nosso conhecimento, antes mesmo da Revolução, jamais deixamos de advertir e castigar os culpados, fossem laicos ou sacerdotes.
Acusações.
Por outro lado, não aceitamos, nem jamais poderemos aceitar a acusação injuriosa, generalizada ou gratuita, velada ou explícita, de que Bispos, sacerdotes e fiéis ou organizações, como, por exemplo, a Ação Católica e o Movimento de Educação de Base (MEB), sejam comunistas ou comunizantes. Isto se deve, às vezes, à própria tática comunista, outras vezes a certos elementos inconformados com a atitude aberta e corajosa de verdadeiros apóstolos da Igreja, do Clero e do Laicato, que pregam a sã doutrina, seja contra o comunismo, seja contra gritantes injustiças sociais e focos de
corrupção e de degradação dos valores morais. É profundamente lamentável que tradicionais e acirrados inimigos da Igreja e alguns órgãos da imprensa do País levem ao pelourinho da difamação e da calúnia Bispos e Sacerdotes, e cheguem ao extremo de se vangloriarem do título de defensores e orientadores da consciência católica. Contra esta abominação levantamos nossas vozes de autênticos Pastores. Estamos onde sempre estivemos, em defesa dos sagrados direitos de Deus e da Pátria. Insistimos na necessidade e na urgência da restauração da ordem social, em bases cristãs e democráticas. Mas esta condenação não será possível apenas com a condenação teórica e a repressão policial do comunismo e, sobretudo, enquanto o espírito sobrenatural autêntico não impregnar todas as pessoas e todas as atividades humanas. Nossas tradições cristãs e a sagrada instituição da família, assim como o sentimento religioso do povo não devem servir para acobertar aqueles que corrompem os costumes, ou se entregam aos abusos do capitalismo liberal. […]
Apelo.
Fazemos apelo a todas as forças vivas da Nação, para que, pondo de lado os interesses egoísticos, colaborem com as autoridades constituídas na tarefa ingente de reconstrução da Pátria. Esperamos que os responsáveis pelos destinos temporais do Brasil aceitem, defendam e cumpram os princípios do Evangelho e as normas da Doutrina Social Cristã, não só porque esses princípios são os nossos, mas porque constituem a base fora da qual não há, nem poderá haver, ordem social, segurança, estabilidade e verdadeiro progresso […].”  



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