Sunday, September 30, 2007

Brasil 4 X Argentina 0 (Guayaquil 1981)

O tempo faz da história uma espetacular peça de ficção imposta pelos entusiastas do senso comum e um poeta [o mais insuspeitado no caso] pode servir de inesperado documento para baixar a bola dos ficcionistas de plantão. Um doce para quem souber quem era o técnico da época...

Brasil 4 X Argentina 0
(Guayaquil 1981)

Quebraram a chave da gaiola
e os quadros-negros da escola.

Rebentaram enfim as grades
que os prendiam todas as tardes.

Nos fugitivos é a surpresa,
vendo que tomaram-se as rédeas

(dos técnicos mudos, mas surpresos,
brancos, no banco, com medo).

Estão presos os da outra gaiola,
que não souberam abrir a porta:

ou que não o puderam, contra o jogo
dos que estavam fora, soltos.

De certo também são capazes
de idênticas libertinagens

uma vez soltos, porém como
se liberar daquele tronco

em que os aprisionaram os táticos
argentinos, também gramáticos.

E enquanto os fugitivos seguem
com a soltura, a sem lei que os regem,

nos bancos é uma indignação:
dos que vão vencendo e dos que não:

“Voltamos ao futebol de ontem?
Voltou a ser um jogo dos onze?

Voltou a ser jogar pião?
Chegou até cá a subversão?

Como é possível haver xadrez?
Sem gramática, bispos, reis?”

Thursday, September 27, 2007

Você sabia?

Você sabia: que 60% dos homicídios no Brasil acontecem por motives fúteis?
O medo é universal, mas as vítimas da violência, não. Você sabe quem está morrendo?
Você sabia que o número de homicídios no Brasil caiu nos dois últimos anos?
Visita o site www.soudapaz.org e pára de ficar reclamando da violência sem fazer nada!

Wednesday, September 26, 2007

Extrema Unção

Extrema Unção

Deus e o diabo
justo se dissolvem
e se me misturam
até desligarem
com a mesma mão
todos os relógios.

Tuesday, September 25, 2007

Mais um jogado no buraco negro dos prazos vencidos

Repórter da revista Caras toma LSD e escreve ensaio para aula de história:

A família é instituição valorizada no Brasil. O país não seria o que é sem os clãs que escreveram sua história: os Maias, Agripino, Tim e César; os Mottas, Sérgio, Zezé e Ed; os primos Mário, Oswald, Eugénio, Aloysio e Carlos Drummond de Andrade; Milton e Nílton Santos, fundadores com Sílvio Abravanel da cidade de Santos e do aeroporto Santos Dumont; Nelson, Dercy e Milton Gonçalves; os talentosos Afonso Romano, Dedé e Telê Santana; Tônia, Tião e Beto Carreiro; Hebe, Wanessa e Zezé di Camargo; o ex-presidente FH e seus pais Elizeth e Newton Cardoso; o magistrado Mário Vianna e seus filhos, Tião, Hermano e Herbert; o casal Lima e Regina Duarte; os Gomes, Mário, Ciro e Dias; os Meireles, Cecília, Fernando e Henrique; os de Morais, Vinícius e Antônio Ermírio.
Mas ninguém supera a família Ramos e vale a pena recontar aqui a sua saga.
Tudo começou quando o Cacique de Ramos ancorou sua caravela no piscinão que hoje leva seu nome, no dia em que hoje se comemora o Domingo de Ramos. O Cacique trouxe quinquilharias de Goa e seus dois filhos mais velhos, Lílian e Graciliano. Enquanto Lílian se aproveitou do carnaval e se transformou na Condessa de Itamar, Graciliano acabou seus dias na Ilha Grande, acusado de honestidade ideológica. Para o Cacique o convite para virar estátua no Madam Tussauds lhe chegou em boa hora; ele, que chegara ao país cheio de esperanças, deu com os burros n’água quando Graciliano foi preso e Lílian sumiu nas águas da Lagoa Nelson Rodrigues de Freitas. Seus netos, Nereu e Nuno Ramos, levaram o velho Cacique ao aeroporto para a despedida melancólica. Nasceriam contudo no Brasil dois outros filhos do Cacique, os imperadores da Lapa: Tony [o Grelo] e Lázaro Ramos [o Madame Satã]. Mas o pobre Cacique não soube do êxito dos seus filhos mais jovens, morrendo de disenteria no museu de cera.
A família ganharia outro ramo no Brasil com a chegada do irmão do Cacique, o Governador Celso Ramos, que para Santa Catarina atraído pelas potocas do irmão indígena. Apesar das praias infestadas de argentinos, o Governador teve melhor sorte: adaptado ao clima, casou-se com Helena e Lucy e teve com as duas três filhos: Mauro Ramos, que ganhou duas Copas [58 e 62, a última como capitão], Arthur Ramos, biógrafo de seu primo Satã, e Ofélia Ramos, cozinheira de mão boba e cabeleira cheia e mãe da dupla sertaneja Saulo e Samuel Ramos.

[dedicado a Stanislaw Ponte Preta]

Obs: Mandei essa nova versão de texto com a frase sobre o museu de cera para a Piauí e o prazo já tinha expirado [de novo]. Ficou melhor um pouco, assim que cá está.

Thursday, September 20, 2007

Tudo começa com o Cacique

Dizem as pesquisas que a família é a instituição mais valorizada no Brasil. Mas a importância da família em nossa cultura vai muito além. Nosso país não seria o que é sem os vários clãs que escreveram nossa história.
Alguns exemplos bem conhecidos:
- os irmãos Agripino, Tim e César Maia;
- a família Motta, do inesquecível Sérgio, sua digníssima Zezé e seu filho Ed;
- os primos Mário, Oswald and Carlos Drummond;
- a dupla Milton e Nílton Santos, depois completada pelo eternamente jovem Sílvio;
- o casal sensação Nelson e Dercy Gonçalves e seu filho, o ator Milton;
- os multi-talentosos Dedé, Telê e Afonso Romano de Santana;
- Tônia e Beto Carreiro;
- Hebe e Zezé di Camargo;
- o ex-presidente acadêmico Fernando Henrique e seus pais Elizeth e Newton Cardoso;
- o magistrado Mário Vianna e seus filhos Tião e Herbert;
- Lima e Regina Duarte;
- a família Gomes, com Mário, Cid e Dias;
- os poderosos Meireles, Cecília, Fernando e Henrique;
- os de Morais, Vinícius e Antônio Ermírio.

São tantas as famílias importantes para a história do Brasil, mas nenhuma família foi tão importante para o nosso país quanto a família Ramos. Por isso mesmo decidi recontar aqui brevemente a saga dessa distinta família.
Tudo começa com a chegada às terras brasileiras do Cacique de Ramos, que ancorou sua magnífica caravela conversível no piscinão que hoje leva seu ilustre nome. Desde então comemora-se em todo mundo o domingo de Ramos, que celebra a chegada da família ao Brasil. Cacique trouxe veio acompanhado de seus dois filhos mais velhos, Lílian e Graciliano. Enquanto Lílian se aproveitou de um carnaval especialmente quente para se transformar na poderosa Condessa de Itamar, Graciliano acabou seus dias preso na Ilha Grande, anonimamente acusado de honestidade ideológica. O Cacique, que chegara ao Brasil cheio de esperanças, deu com os burros n’água da praia quando sua filha Lílian, mãe dos gêmeos Nereu e Nuno, desapareceu misteriosamente nas águas da Lagoa Nelson Rodrigues de Freitas. Nasceriam contudo aqui no Brasil os dois filhos mais famosos do Cacique, os imperadores da Lapa: Tony Ramos, o “Grelo Falante”, e Lázaro Ramos, o “Madame Satã”. Tragicamente o Cacique não viveu o bastante para ver o êxito extraordinário dos seus dois filhos mais jovens, morrendo de desinteira pouco da transferência da soberania nacional de Portugal para a Inglaterra.
A família ganharia [permita-me o trocadilho acidental] outro ramo no Brasil com a chegada do irmão do Cacique, o Governador Celso Ramos, que foi parar em Santa Catarina, atraído pelas potocas do irmão Cacique e suas belas fotos da praia e do carnaval. Apesar das praias infestadas de argentinos, o Governador Celso Ramos teve melhor sorte que o irmão: adaptou-se logo ao clima temperado e casou-se duas vezes, com Helena e Lucy e teve com as duas três lindos filhos: Mauro Ramos, que ganhou duas Copas do Mundo [58 e 62, esta última como capitão da equipe], Arthur Ramos, biógrafo ilustre de seu primo Satã, e Ofélia Ramos, cozinheira de mão cheia e cabeleira formidável, mãe por sua vez de Saulo e Samuel Ramos, ambos filósofos, um no México, o outro no Brasil.

Tuesday, September 18, 2007

Coyote 15 - Inverno 2007

Saiu a Coyote e lá estou eu! Ainda doutorando - agora sou doutor - e ainda morando em Belo Horizonte - agora estou em New Haven, mas o blogue continua o mesmo...
Feliz é pouco: ser reconhecido por quem a gente admira é motivo de orgulho!!! Principalmente levando em consideração que eu não conheço ninguém lá pessoalmente nem por e-mail.

Monday, September 17, 2007

Soneto da fúria

"Porém meu ódio é o melhor de mim"

A minha fúria só viu pasto
de onde come a sua ira,
que à distância zero parecia
merda pura, contra a qual achava

que lutava a luta justa.
Injusta e errada – eu assumo –
(não é pura, a merda, nem é tudo)
é ainda a minha mesma fúria

o motor maior que me comove.
Que a minha fúria, com a sua crosta,
açucarado rancor profundo

repetente na sua sina pobre
de chocar o medo em sua cova,
não me impeça a comunhão com o mundo.

Friday, September 14, 2007

Certificado de Impunidade

Coisa que escrevi faz tempo mas...
“Nós não medimos nem pesamos esforços no sentido de promover um ambiente o mais propício possível ao desenvolvimento aqui do nosso município. É justamente com esse intuito que temos lançado uma série de políticas públicas e medidas administrativas para simplificar, agilizar, otimizar e desburocratizar os nossos processos, sempre priorizando a eficiência e a transparência em um ambiente propício ao fomento dos mais diversos empreendimentos, buscando uma máxima diversificação dentro das nossas potencialidades e das nossas vocações naturais. E agora, embuídos desse espírito, estamos aqui hoje para anunciar que a nossa administração mais uma vez sai na frente e tem o orgulho de ser a pioneira na aplicação de uma idéia que, com toda a certeza, logo se espalhará por todo o país: o Certificado de Impunidade®.
Como quase todas as grandes idéias que vêm para mudar, o nosso Certificado de Impunidade® surgiu de uma constatação muito simples: ano após ano fortunas dos nossos cofres públicos são gastas inutilmente empregando recursos valiosos e pessoal qualificado na tentativa de investigar, levar a tribunal, julgar e condenar certos indivíduos, sempre sem qualquer sombra de sucesso. Mobilizamos um verdadeiro exército de policiais, investigadores, promotores, juízes, programas de proteção a testemunhas, celas especiais para pessoas com diplomas do terceiro grau e uma imensa estrutura burocrática que drena os recursos públicos sem qualquer retorno, financeiro ou social. Esses são recursos que poderiam ser utilizados no fomento ao desenvolvimento e no cumprimento das prerrogativas básicas do estado. Casos e mais casos notórios sempre terminam sem qualquer resultado prático: no máximo um punhado de reputações levemente arranhadas, coisa que o tempo trata logo de apagar e nossa máquina com uma sensação crescente de impotência e um rombo cada vez maior nas contas públicas.
Com o nosso Certificado de Impunidade® todo esse processo dispendioso e desgastante acaba e, melhor ainda, ganhamos uma nova fonte de arrecadação de recursos com a venda desse produto no mercado de ações, lojas de conveniência, shopping centers e internet. Depois de um processo simples, rápido e seguro, obedecendo a critérios estritamente técnicos, qualquer um pode, sem maiores aborrecimentos, receber seu Certificado de Impunidade® em casa pelo correio. Assim os casos de corrupção ativa e passiva, trabalho escravo e semi-escravo, pistolagem, grilagem de terras, estelionato, fraude, desvio de recursos e tantos outros que sempre existiram, existem e existirão no nosso lindo paraíso tropical abençoado por Deus e bonito por natureza poderão estar à vista de todos sem exclusões, executados com máxima transparência e custo mínimo. Livres dos entraves burocráticos que atrasam e às vezes até paralisam o empreendedor e/ou empresário, nosso município e, logo, todo o país, estarão prontos para crescer muito rapidamente com solidez e estabilidade social, uma vez que todo o aparato legal poderá finalmente dedicar-se em tempo integral àqueles crimes que chamamos de alta punibilidade, tais como o exercício da prostituição autônoma, o pequeno varejo de drogas, batedores de carteira, cambistas e falsos mendigos e aleijados – os delitos que comprovadamente mais irritam e incomodam o cidadão comum no seu dia-a-dia, espalhando um senso geral de desrespeito às leis que põe em risco os pilares da nossa paz social.

Thursday, September 13, 2007

Deus

Deus é um poço fundo,
feio, escuro, sem viço nem cheiro.

Meu Deus
é feito de mim mesmo
e diz:

“Eu não erguerei nem um dedo.”

Wednesday, September 12, 2007

O lapso verbal e a guerra do Iraque

Os freqüentes foras de Bush, produto da óbvia dificuldade do presidente Americano em se expressar quando fala de improviso frequentemente trocando uma palavra por outra com pronúncia semelhante e sentido diferente, já renderam algumas coletâneas de “ditos” do presidente [George W. Bushisms: The Slate Book of Accidental Wit and Wisdom of our 43rd President, de Jacob Weisberg].
O tratamento da imprensa dado aos lapsos verbais do homem que veio do Texas varia muito de país para país. Enquanto jornais brasileiros deram grande destaque ao fato de que Bush chamara os australianos [dos últimos aliados fiéis dos americanos no Iraque] de alguma coisa próxima de “Australíacos”, o New York Times menciona o fato brevemente em reportagem sobre a visita lá nos confins do caderno internacional do jornal. Não é simplesmente uma questão de proteger a figura presidencial, uma vez que o New York Times tornou-se um crítico veemente de Bush [depois de apoiar, como aliás toda a mídia americana, a invasão iraquiana num surto de patriotismo exacerbado].
A questão é que a cobertura de política da mídia brasileira é cada vez mais parecida com o jornalismo feito por revistas de fofoca que fuçam a vida das tais celebridades em busca de fatos bizarros ou pitorescos. Será que essas coisas são tão importantes? Bush seria um presidente tão péssimo quanto é mesmo se conseguisse se expressar com eloqüencia e elegância. O que será mais relevante? As flores do jardim do palácio ou a política econômica ainda neo-liberal? As centenas de pessoas mortas em uma guerra baseada em justificativas fraudulentas ou as carecas simiescas do presidente? O corte de cabelo do presidente ou o corte das verbas públicas que aparecem no orçamento mas ficam “contingenciadas”?
É uma questão de ênfase...

Wednesday, September 05, 2007

KERVOKIAN2000™

Mote:
Fernanda Montenegro: “A única opção para fugir do envelhecimento é a morte.”

Glosa:
Você detesta envelhecer, não é mesmo? Você luta com as forças que tem, mas nada parece capaz de realmente parar com o envelhecimento, não é mesmo? Cada vitória contra o dragão da velhice não passa de uma ilusão fugaz, não é mesmo? Dali a pouco as águas do tempo vem e levam as baragens que construímos com tanto zelo consigo e aí então o espelho implacável nos diz que mais uma vez perdemos… Quem não daria tudo para dar um fim definitivo a esse terrível processo de enfeiamento: os músculos cada vez mais flácidos, as gorduras cada vez mais despudoradamente localizadas, as rugas cada vez mais fundas, as papadas despejando-se em dobras, os cabelos caindo aos tufos ou enbranquecendo ou então misteriosamente migrando para dentro das orelhas e narinas?
Pois nós já temos a resposta para os seus problemas: adquira hoje mesmo nosso KERVOKIAN2000™ pelo telefone ou pela internet e lhe enviaremos pelo correio uma única dose para que você possa finalmente encontrar o fim inexorável de todos os seus problemas sem contra-indicações, sem dores e sem arrependimentos.
E não ficamos apenas nisso: junto com a sua dose única do nosso KERVOKIAN2000™ você receberá em sua casa inteiramente grátis uma escritura para o cemitério mais próximo de sua residência e um pacote completo de transporte e manuseio de seus restos mortais, além de caixão, flores, roupa, e coroas nos modelos SEMPRE SOBRIO™, DESPEDIDA CHIC™ ou então nosso revolucionário conjunto ALEGRE ATE O FIM™.
Chame hoje! Não perca! Ponha fim ao envelhecimento!