Tuesday, June 30, 2015

Sobre literatura contemporânea

Cinco trechos bastante interessantes de texto recente de Alcir Pécora, alguém com um ponto de vista bastante crítico sobre literatura contemporânea no Brasil, mas que consegue ir muito além da rabujice besta que aparece no jornal umas duas vezes por semestre, chorando saudades dos bons tempos em que os gigantes literários de antanho passeavam suas panças viris pelos bares, cafés e livrarias cariocas e paulistanas...

1. "... diluição da história e da memória na ficção de segundo grau, a serviço de um eu-mínimo. Mas não dá para fazer boa literatura fazendo glosa ou trívia de literatura. Literatura forte não pode estar no passivo das conquistas da literatura, e sim na sua disposição para o novo, para o árido, para o que ainda não se pode definir sequer como literatura."

2. "... a ideia de “Brasil” parece diluída na vontade de ser escritor ou de ser publicado. Mas, desgraçadamente, nem por isso as ideias de “mundo” ou de “estrangeiro” são mais sólidas ou mais trabalhadas. Ou seja, não é uma literatura de caráter nacional, nem pensa o estrangeiro e internacional. É genérica."

3. "... não me parece que seja na literatura, na linguagem da invenção, que se trava, hoje, a batalha das contradições do real ou da busca de suas alternativas mais consistentes.

4. "A forma literária tem um lugar muito determinado pela expressão literária partilhada de antemão, e isso é o mesmo que dizer que ela se encolhe sobre si mesma, torna-se menor do que já foi e revela a desistência da expectativa de produção do “novo”."


5. "... a literatura tem de descobrir uma nova centralidade para si no cerne da vida social ou então nada lhe resta senão conformar-se a um papel lateral, secundário na cultura."

Sunday, June 28, 2015

Recomendação: Nuvem Cigana

Estou lendo com imenso prazer e curiosidade o livro Nuvem Cigana - Poesia e Delírio no Rio dos Anos 70, organizado por Sérgio Cohn.  É uma espécie preciosa e heterodoxa de livro de história da literatura brasileira, uma forma muito adequada para um grupo de pessoas que primava pelo elogio à alegria vitalista. O livro conta a história de um movimento desprezado por muitos que mal o conhecem por esnobismo e/ou elitismo e/ou dificuldade de aceitar escolhas de vida que passaram mais ou menos longe de um certo conformismo classe média, por bem ou por mal. Junta documentos preciosos e os depoimentos de uma pá de gente. Como toda a produção literária de qualquer época que eu conheço, encontra-se aí coisas muito legais, coisas mais ou menos meia-bomba e coisas ruins.

"Isso vai ser ótimo! O primeiro não se lembra, o segundo esquece e o terceiro inventa!"
Charles

"Em cima daquelas dunas começou a se reunir uma estranha espécie de seres peludos, esqueléticos, com pouquíssima roupa e língua alada."
Chacal

"... a massa falida fingindo ser biscoito fino."
Waly Salomão

"A morte em mim não mata nada
a não ser o corpo
ela de mim não leva nada
a não ser o morto."
Ronaldo Santos

"... e em pleno desespero existencial pedi que o motorista me levasse para o bem. E o cara me levou para o Bar Bem, em São Conrado, famoso na época por seu slogan publicitário "É um mal não freqüentar o Bem". Aí eu saí de órbita mesmo."
Ronaldo Santos

"Sempre achei que essa necessidade de superar limitações potencializa a criatividade."
Chacal

"Nós começamos a fazer essas peladas de caso pensado, não só porque adorávamos futebol, mas também como uma forma de nos reunirmos na ditadura. Naquela época, não se podia andar em grupos maiores do que três pessoas na rua, que era considerado quadrilha e a gente podia ser preso."
Pedro Cascardo

"Se você quiser eu danço com você
No pó da estradaPó, poeira, ventaniaSe você soltar o pé na estradaPó, poeiraEu danço com você o que você dançar"
Ronaldo Bastos, música de Lô Borges

Tuesday, June 23, 2015

Borges e Perón atando as pontas

Excelente texto sobre as celeumas a respeito dos direitos de uso da obra de Borges, fugindo do clichê Yoko Ono destruiu os Beatles que andam aplicando à viúva do homem e aproximando borgianamente esses dois monstros argentinos, Perón e Borges:


Ilustração minha: uroboro
“Pongamos por ejemplo otro Pierre Menard: la invención de la Triple A, viz. historia nacional de la infamia. Juan Domingo Perón creó y firmó el decreto que proscribía al Ejército Revolucionario del Pueblo; imaginemos que este documento es luego copiado por un Pierre Menard que lo reproduce al dedillo y que, oh, es la Junta Militar. Mutatis mutandis, Borges es una especie de Perón que inspira y libera a la juventud para que estallen mil Vietnams del intertexto y a la vez firma el documento que proscribe y persigue a esos miles (o esos pocos guerrilleros literarios). Avala el terrorismo (literario, creativo: verbigracia “escribir es robar”), pero deja instrucciones específicas a su mujer donde proscribe su uso, porque sabe que las va a hacer cumplir con celo policial.
[…]
Que Borges mismo haya comprendido todas las implicaciones de su descubrimiento artístico en vida es algo que puede ponerse en duda; quizás, como Perón firmando el decreto que creaba la Triple A, Borges no protegió a sus hijos espirituales de su viuda.”


Monday, June 22, 2015

Filhos que resgatam pais: Cruz e Souza

Ando às voltas com o maravilhoso João da Cruz e Souza, pedra no sapato de quem acha que a poesia modernista começou em 1922, quando começou a vanguarda que adotou esse nome tão ambíguo. Cruz e Souza dedicou o poema abaixo a seu filho. Gosto muito das suas redondilhas rimadas em duplas, esquema que Cruz e Souza usa com igual perícia e astúcia no também maravilhoso "Litania dos Pobres". E gosto principalmente da ideia de que os filhos resgatam seus pais dos seus próprios infernos e demônios. Isso creio que acontece pelo menos certos pais, pelo menos parcial ou provisoriamente. São os que têm sorte. Tem sido assim comigo há mais de 10 anos. Sou um sortudo.

  

Recolta* de estrelas                                *colheita
(1 out. 1895)
A Tibúrcio de Freitas

Filho meu, de nome escrito
Da minh'alma no Infinito.

Escrito a estrelas e sangue
No farol da lua langue...

Das tuas asas serenas
Faz manto para estas penes.

Dá-me a esmola de um carinho
Como a luz de um claro vinho.

Com tua mão pequenina
Caminhos em flor me ensina.

Com teu riso fresco e suave
Oh! Dá-me do encanto a chave.

Do teu florão de Inocência
Dá-me as rosas da Clemência.

Como outro Jesus bambino,
Esclarece-me o Destino.

Traz luz ao mundano pego*                                                              *abismo ou caverna no fundo do mar
Onde sigo, mudo e cego...

Com teus enleios e graça
Nos meus cuidados perpassa.

Este peito acende, inflama
Na mais sacrossanta chama.

Faz brotar nevados lírios
Das cruzes dos meus martírios.

Dá-me um sol de estranho brilho,
Flor das lágrimas, meu filho.

Rebento triste, orvalhado
Com tanto pranto chorado.

Filho das ânsias, das ânsias,
Das misteriosas fragrâncias,

Filho de aromas secretos
E de desejos inquietos.

De suspiros anelantes
E impaciências clamantes.

Filho meu, tesouro mago
De todo esse afeto vago...

Filho meu, torre mais alta
De onde o meu amor se exalta.

Ânfora azul, de onde o incenso
dos sonhos se eleva denso.

Constelação flamejada
De toda esta vida ansiada.

Crisol onde lento, lento                                                                 *cadinho
Purifico o Sentimento.

Íris curioso onde giro
E alucinado deliro.

Signo dos signos extremos
Destes tormentos supremos.

Orbita de astros onde pairo
E em febre de luz desvairo.

Vertigem, vertigem viva
Da paixão mais convulsiva.

Traz-me unção, traz-me concórdia
E paz e misericórdia.

Do teu sorriso a frescura
Rios de ouro abra, na Altura.

Abra, acenda labaredas,
Iluminando-me as quedas.

Flor noturna da luxúria
Brotada de haste purpúrea.

Dos teus olhos dadivosos
Escorram óleos preciosos...

Óleos cândidos, dos mundos
Maravilhosos, profundos.

Óleos virgens se derramem
E o meu viver embalsamem.

Embalsamem de eloqüentes,
Celestes dons prefulgentes*.                                                          *que brilham primeiro ou mais

Para que eu possa com calma
Erguer os castelos da alma.

Para que eu durma tranqüilo
Lá no sepulcral Sigilo.

Ó meu Filho, ó meu eleito
Deslumbramento perfeito.

Traz novo esplendor ao facho
Com que altos Mistérios acho

Meu Filho, frágil e terno,
Socorre-me do atro* Inferno.                                                           *escuro, sinistro

Onde vibram gládios duros
Por ergástulos* escuros.                                                                  *calabouço

E cruzam flamíneas, fortes,
Negras vidas, negras mortes.

Onde tecem Satanases
Sete círculos vorazes...

Monday, June 15, 2015

Diário da Babilônia: Um pequeno conto sobre corrupção I

1. Em 2013 um senador estadual [sim, existem senados estaduais nos EUA] do partido democrata aventou a possibilidade de se candidatar a prefeito da Cidade de Nova Iorque pelo partido republicano. Para isso ele precisava do apoio de membros do Partido Republicano na cidade. Um envelope contendo 40 mil dólares em dinheiro foi entregue a um certo J. Hallorand III, vereador da "cidade" de Queens na cidade. Halloran serviu como intermediário para um contato com Vincent Tabone e Joseph Savino, que receberam respectivamente 50 e 75 mil dólares. O FBI estava monitorando toda a negociata usando um certo Moses Stern que, condenado a 450 anos de prisão, buscava reduzir sua pena.

2. Em abril de 2013 a notícia estourou e o governador do estado de Nova Iorque convocou a imprensa e anunciou a criação de uma comissão de 25 membros para investigar a corrupção política no estado, dizendo, "eles poderão investigar qualquer coisa que eles quiserem investigar; podem me investigar, investigar o promotor público, o chefe de finanças do estado, qualquer senador ou deputado."

3. A tal comissão convocou uma firma de consultoria política chamada "Buying Time" como parte das investigações, mas o próprio governador era cliente da tal firma e o governador simplesmente encerrou as atividades da tal comissão em março de 2014, menos de um ano depois. O caso chegou aos jornais e o governador, numa longa resposta por escrito, disse que "uma comissão formada pelo executivo do estado não pode investigar o executivo do estado."

4. No final de 2014, o governador foi reeleito com quase meio milhão de votos a mais que o segundo colocado. J. Halloran III alegou ser inocente e teve a tentativa de alegar insanidade mental negada, tendo sido condenado em primeira instância a 35 anos de prisão. Seus advogados estão recorrendo. Os advogados de Vincent Tabone acusaram o FBI de o terem induzido ao crime conseguiu assim interromper o primeiro julgamento, tendo sido este ano condenado a 5 anos por suborno. Seus advogados também estão recorrendo. Joseph Savino pagou uma fiança de 250 mil dólares e, em troca de uma pena menor, confessou o suborno.

Obs. Chamei essa história de "conto" pensando na idéia de Ricardo Piglia de que todo o conto conta duas histórias que se entrelaçam e se iluminam mutuamente.

Saturday, June 13, 2015

Adeus, Fernando Brant!

Foto minha: Água e Pedra em Diamantina
Nessa época na casa dos meus pais cada disco novo de Milton Nascimento ou de Chico Buarque era um acontecimento. Meu pai comprava o disco, levava para casa e a família inteira se reunia em volta da vitrola. Escuteavamos quase me silêncio um lado, alguns faziam uns comentários [nunca eu] e escutávamos o segundo lado. Meu pai se maravilhava com Fernando Brant e eu me encantava mesmo era com a voz do Milton. Pensava comigo que o Milton podia compor em cima de um anúncio de Colorama e tudo ficava lindo. Um desses grandes enganos da infância, direito de qualquer um. Além do mais eu curtia os discos mais antigos, menos doces e as letras nonsense do Márcio Borges. O fato é que quando Milton se fazia acompanhar de um grande letrista que sabia encontrar as palavras justas para os meandos delicados dessas melodias de fazer o coração palpitar... Fernando Brant, nos seus momentos mais felizes, era o melhor deles; meu pai tinha razão. 


Itamarandiba
Fernando Brant / Milton Nascimento

No meio do meu caminho 
sempre haverá uma pedra.
Plantarei a minha casa 
numa cidade de pedra.

Itamarandiba, pedra comida,
pedra miúda rolando sem vida.
Como é miúda e quase sem brilho a vida 
do povo que mora no vale.

No caminho dessa cidade
passarás por Turmalina, 

sonharás com Pedra Azul,
viverás em Diamantina.



Itamarandiba, pedra comida,
pedra miúda rolando sem vida.
Como é miúda e quase sem brilho a vida 
do povo que mora no vale.

No caminho dessa cidade
as mulheres são morenas,
os homens serão felizes
como se fossem meninos.



Friday, June 12, 2015

Postais do Inferno: O testamento de Victor Hugo



Testamento de Victor Hugo, um exemplo de concisão:


"Je donne cinquante mille francs aux pauvres. Je veux être enterré dans leur corbillard. Je refuse l'oraison de toutes les Eglises. Je demande une prière à toutes les âmes. Je crois en Dieu."

"Dou cinquenta mil francos aos pobres. Quero ser enterrado num féretro como os deles. Eu recuso as orações de todas as igrejas. Eu peço uma prece a todas as almas. Eu creio em Deus.

Monday, June 08, 2015

Notas para livros impossíveis

1.
"Ao invés de dar sua própria opinião, um grande crítico possibilita aos outros formar a opinião deles com base na sua análise crítica."

"O realismo de ontem é o maneirismo de hoje."

2.
"As coisas para ele eram engraçadas e tristes ao mesmo tempo, mas você não conseguiria ver a tristeza das coisas se não enxergasse a sua graça porque as duas estavam amarradas."

Meu tio Zuza costumava dizer que o que a mulher mais queria do homem era mandar no casamento, mas há que se considerar que meu tio Zuza viveu a vida inteira solteiro.

3.
"O mundo diminuiu sem que tenhamos crescido."

"Antes de criar devemos existir mas para existir havemos de criar sem trégua."

Não somos consumistas por frivolidade mas por desespero. Nosso mundo está dividido em duas metades complementares. Uma delas é o terrível universo da produção: dominado pelo intelecto, pela objetividade, pela padronização e pelo mais desapiedado desencantamento. A outra metade é o fantástico universo do consumo, dominado pela magia, pela subjetividade, pela crença na afirmação da existência como individualidade e pelo mais despudorado re-encantamento. O mundo do trabalho nos suga as energias até o osso e onde é que nos oferecem descanso? No mundo do consumo.

Wednesday, June 03, 2015

Primeira frase do Discurso sobre o método em cinco versões

Primeira Frase de Discurso sobre o Método

Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée;
Good sense is the best shared-out thing in the world;
O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo:
El buen sentido es lo que mejor repartido está entre todo el mundo,
Il buon senso è fra le cose del mondo quella più equamente distribuita,

car chacun pense en être si bien pourvu,
for everyone thinks he has such a good supply of it
pois cada um pensa estar tão bem provido dele,
pues cada cual piensa que posee tan buena provisión de él,
giacché ognuno pensa di esserne così ben dotato,

que ceux même qui sont les plus difficiles à contenter en toute autre chose
even if he is extremely hard to please about other things.
Que mesmo aqueles mais difíceis de se satisfazerem com qualquer outra coisa
que aun los más descontentadizos respecto a cualquier otra  cosa,
che perfino quelli che sono più difficili da soddisfare riguardo a ogni altro bene

n'ont point coutume d'en désirer plus qu'ils en ont. 
that he doesn’t want more,
não costumam desejar mais bom senso do que têm.
no suelen apetecer más del que ya tienen.
non sogliono desiderarne più di quanto ne abbiano.

Autores:
René Descartes
Jonathan Bennett
Maria Ermantina Galvão / Monica Stahel
Manuel García Morente
Italo Cubeddu