Sunday, February 27, 2011

Melancolia do Futuro?

[Ilustração: Edvard Munch, Melancolia, 1891]

“Chesterton escreveu certa vez que – ‘as melhores coisas não viajam’. Mas brevemente não haverá mais nada que não viaje. Pois se nós não podemos viajar, o mundo viaja para nós. Brevemente não haverá mais necessidade de viajar. Teremos o mundo inteiro ao alcance da mão. Em nosso quarto de estudo. Não apenas gutemberguizado, reduzido a pasta de papel e tinta de typographia, mas em sons e em imagens e quem sabe em tacto tambem. O mundo todo à mão. Sem nenhum esforço. Mais facilmente que na alegoria do “Mandarim”. E nesse dia o homem morrerá de inercia, por excesso de actividade."


Trecho de “Melancolia da crítica” de Tristão de Atayde de 1930

Friday, February 25, 2011

Recordar é viver: a FSP e seus momentos marcantes lembrados e momentos marcantes esquecidos


[Ilustração: não, não é um flagrante da linda festa de comemoração dos 90 anos da Folha de São Paulo. É só um quadro de George Condo, pintor que, por incrível que pareça, nunca esteve na redação de qualquer jornal brasileiro e nem sequer em Brasília.]


Trecho do discurso de Dilma Roussef no aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo:

“Um homem que é referência para toda a imprensa brasileira. Octavio Frias de Oliveira foi um exemplo de jornalismo dinâmico e inovador. Trabalhador desde os 14 anos de idade, Octavio Frias transformou a Folha de S.Paulo em um dos jornais mais importantes do nosso país. E foi responsável por revolucionar a forma de se fazer jornalismo no nosso Brasil.

Soube, por exemplo, levar o seu jornal a ocupar espaços decisivos em momentos marcantes da nossa história, como foi o caso da campanha das Diretas-Já.”


Segue abaixo um exemplo cabal dessas posições decisivas tomadas pelo jornal em momentos marcantes da nossa história. Trata-se de trecho de matéria publicada numa sexta-feira, 20 de março de 1964, 20 anos antes das Diretas Já:

“A disposição de São Paulo e dos brasileiros de todos os recantos da patria para defender a Constituição e os principios democraticos, dentro do mesmo espirito que ditou a Revolução de 32, originou ontem o maior movimento civico já observado em nosso Estado: a "Marcha da Familia com Deus, pela Liberdade".

(…)

Foi a maior manifestação popular já vista em nosso Estado.
O repudio a qualquer tentativa de ultraje à Constituição Brasileira e a defesa dos principios, garantias e prerrogativas democraticas constituiram a tonica de todos os discursos e mensagens dirigidos das escadarias da catedral aos brasileiros, no final da passeata.
"


São dois lados da mesma moeda, essa cruz que ainda carregamos no Brasil: de um lado a sede insaciável de conciliação no andar de cima do nossa pirâmide social - perde-se um anel do dedo mindinho e assim ficam intactos os dedos - e de outro, a memória seletiva que apaga aqueles momentos em que as gentilezas são postas de lado e pau come solto.



Wednesday, February 23, 2011

Sobre escritores 6

"One day, out of the blue, the memory of my long dead grandfather comes to me. My eyes grow moist seeing him in the last year of his life limping around the yard on his wooden leg throwing some corn to the chickens. I recall the mutt he had then, and I put him in a poem. There’s even a rusty old truck in the yard. The sun is setting while my grandmother is fussing over the stove and my grandfather is sitting at the kitchen table thinking about the vagaries of his life, the stupidity of the coach of the local soccer team and the smell of bean soup on the stove. I like what I got down on paper so far and fall asleep that night convinced I have a poem in the making.

The next day I’m not so sure. The sunset is too poetic, the depiction of my grandparents is too sentimental, and so much of it has to go. Weeks later—since I can’t stop tinkering with the poem—I arrive at the conclusion that the old dog lying in the yard surrounded by the pecking chickens and the rooster is what I like best. The sun is high in the sky, a cherry tree is in flower, and the grandfather is out of the poem entirely. Typically, I have no idea if there will ever be a poem. Only God knows, and I try not to butt into his business. I strain my ears and stare at the blank page until a word or an image comes to me. Nothing genuine in a poem, or so I have learned the hard way, can be willed. That makes writing poetry an uncertain and often exasperating undertaking. In the meantime, there’s nothing to do but wait. Emily Dickinson looked out her window at the church across the street while waiting; I look out of my window at the early darkness coming over the fields of deep snow."

Trecho de artigo recente de Charles Simic sobre poesia no New York Review of Books

Friday, February 18, 2011

E agora, José? – Parte 2 ou “no hay pregunta prohibida; todo se puede preguntar”

Carmen Aristegui se manifestou sobre sua demissão, defendendo seus empregadores e recontando a história toda com direito a citações sobre Clinton, Dilma e Berlusconi:




Aproveito para observar: como é saboroso para um falante de português esse idioma nosso primo que os mexicanos manejam como ninguém. “Pulcritud”, por exemplo, é uma palavra deveras maravilhosa e expressões como “buscamos un camino sin claudicar” ou “hecho ominoso” são, para mim, deliciosas...

Bom, o fato é que Aristegui toca o dedo na ferida quando diz que o tema verdadeiro é o duopólio que impera nos meios de comunicação do México, já que sem liberdade de expressão verdadeira, não há democracia realmente plena. Aqui está a segunda parte da cacetada, com o assunto das concessões negadads ou facilitadas, “telebancadas” no congresso, candidatos pré-fabricados em estúdios de jornal e coisa e tal – mas peraí: isso é no México mesmo ou no Brasil?.

Bem, agora acaba de chegar a notícia que Aristegui voltou ao seu programa. Sabe como é, foi tudo um mal-entendido, pois é, já está tudo bem, ajustamos nosso contrato e coisa e tal.

Por incrível que pareça esse nem foi o lance mais insólito dessa carreira brilhante. Por exemplo, não faz muito tempo Miguel de la Madrid, ex-presidente mexicano, deu a Aristegui entrevista [gravada] em que dizia “na lata” acreditar na cumplicidade de Salinas de Gortari com as bandidagens do seu irmão e ainda afirmava ter se arrependido de ter escolhido esse Collor/Menen mexicano para sucedê-lo, naquela época em que um presidente mexicano ainda escolhia simplesmente o seu sucessor, no México do PRI. A repercussão foi intensa apesar do silêncio total por parte da Televisa/TV Azteca [o Plim-plim mexicano a que Aristegui se refere] e os advogados de de la Madrid apareceram com a desculpa mais esfarrapada que eu já escutei – e olhe que eu sou do país das cuecas e bíblias recheadas de dólares: o ex-presidente teria tido um súbito ataque de demência e mandava dizer que não era nada daquilo…

Puxa vida, como nos faz falta uma Aristegui no Brasil, onde desmandos semelhantes são engolidos tão serenamente…

Thursday, February 17, 2011

Extra!


[Ilustração: capa da agência de notícias do Estadão...]

Extra! Estado de São Paulo - aquele vetusto jornal que costuma dizer aos seus leitores que blogues independentes não são confiáveis como ele - cita "reportagem" do National Enquirer! National Enquirer [minha leitura predileta na fila do caixa do supermercado] é um tablóide, digamos assim, humorístico, cheio de notícias estapafúrdias e escandalosas com gente famosa. Seguindo tão eminente fonte, daqui há pouco vai dar no Estadão: "Lex Luthor Returns!", "Gaga-Madonna War Erupts!" ou então "Why Obama is Scary Skinny?" [todas manchetes tiradas hoje do site do National Enquirer]

Wednesday, February 16, 2011

Começo de "O arquivo" de Victor Giudice




[Imagem: Elote Clasificado de Damián Ortega]



No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego.

Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Dessa vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora, joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. A pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.


O resto do conto está aqui.

Sunday, February 13, 2011

[Imagen: George Condo, “Brown abstract dog”, 1989. Mais de Condo, inclusive uma reprodução maior desse quadro, você encontra aqui.]

Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,

ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.

Não desprezo nada que tenha visto,

todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.

Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,

destelho as casas penduradas na terra,

tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.

Desloco as consciências,

a rua estala com os meus passos,

e ando nos quatro cantos da vida.

Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,

não posso amar ninguém porque sou o amor,

tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos

e a pedir desculpas ao mendigo.

Sou o espírito que assiste à Criação

e que bole em todas as almas que encontra.

Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.

Nada me fixa nos caminhos do mundo.

Poemas, 1925-1929

fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/mu.html

Wednesday, February 09, 2011

E agora, José? - Parte 1

Um partido de esquerda mexicano [não o principal, o PRD, mas um partido menor chamdo PT] criou celeuma no congresso mexicano com um cartaz gigante que eles levaram em conjunto até a tribuna com alusões a um possível alcoolismo do presidente Felipe Calderón.



Após reportagem sobre o acontecido, a comentarista, Carmen Aristegui, comentou o fato - a meu ver de forma respeitosa - e pediu que o governo se manifestasse sobre os boatos de que Calderón seria ou não alcoólatra.



Resultado: por pressão do governo Aristegui foi sumariamente demitida do seu posto, e deu há pouco declaração contundente sobre o assunto.

No Brasil muitas pessoas têm dois pesos e duas medidas quando essas coisas acontecem. Quando se trata de um político de que o sujeito gosta, ele diz que trata-se de deslealdade, de fofoca, de golpe baixo, moralismo barato etc; quando se trata de um político de que o sujeito não gosta, o cara passa a fofoca para frente, dá risada, faz piada, chama de pinguço, faz musiquinha e coisa e tal.
Vi, por exemplo, o PT abusar em campanha eleitoral do mesmo Udenismo moralista que a oposição usa volta e meia. Vivemos um balé curioso, em que os indignados de ontem são os pragmáticos de hoje e vice-versa. ACM era um cancro e Sarney é um mal necessário ou vice versa, ou nenhum dos dois?
E agora, José?

Sunday, February 06, 2011

Poesia Mexicana - Alfonso Reyes








[Foto de Halley de Pacheco mostrando Xochipilli, deusa das flores, presente de Alfonso Reyes ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, cujo jardim de cactus mexicanos contou com contribuições do poeta-diplomata mexicano também.]


El-Rey Don Juan VI trajo [O Rey Dom João VI trouxe]

una palmera de Cuba. [uma palmeira de Cuba.]

Para besarle los pies [Para beijar-lhe o pés]

todas las plantas se juntan. [ todas as as plantam se juntam.]


De los indianos lanceros [Dos indianos lanceiros]

–al cielo el morrión de pluma– [–ao céu o seu gorro de pluma–]

las guardias trazan la senda, [as guardas traçam o caminho,]

la senda corre entre juncias. [ caminho que corre entre chufas.]


Las randas de samambaya [Suas rendas de samambaia]

levanta un bambú de alcurnia. [levanta um bambu de estirpe.]

Los democráticos cactos [ Os democráticos cactos]

se entre-palpan con las púas. [se entre-apalpam com seus espinhos.]


Yace un tapiz de nenúfares [Jaz um tapete de nenúfares]

sobre el agua que se oculta, [sobre a água que se oculta,]

pero el água se estremece [mas a água estremece]

sabiendo que está desnuda. [sabendo que está tão nua.]


La hoja del papagayo [A pena-de-papagaio]

de tantos colores muda, [de tantas cores se muda,]

que ya flamea en granates [que hora queima romã]

o llora de nieve pura. [e hora chora neve pura.]


Un hidalgo, el alcanfor; [Um fidalgo, o alcanfor;]

Una villana, la ruda: [ uma plebéia, a arruda:]

Don Alonso, exhala esencias, [Don Alonso, exala essências,] [Don Alonso=Dom Quixote]

Y Aldonza Lorenzo suda. [E Aldonza Lorenzo sua.] [Aldonza=Dulcineia]


Victoria Regia, de bronce [Vitória Régia, de bronze]

ofrece a Moisés la cuna: [oferece a Moisés o berço]

bandeja sobre el estanque, [bandeja sobre o estanque,]

blanca flor toda de bruma. [ branca flor toda de gesso.]


Y hay otras latiniparlas [ E há outras latiniparlas]

como las preciosas cultas, [ como as preciosas cultas,]

hijas de cien apellidos [filhas de cem sobrenomes]

que ni a ellas mismas pronuncian. [que nem a elas sabem a pronúncia.]


Cola de pavo real, [Rabo de pavão real,]

toda la flora fulgura, [toda a flora fulgura,]

y la luz cambia de cálices [e a luz muda de cálices]

como el día de postura. [como o dia de postura.]


De codos en la montana, [ Os cotovelos na montanha,]

señora desde su altura, [senhora desde sua altura,]

con su escuadrón de furrieles [ com seu esquadrão de furriéis]

la noche espera y escucha. [a noite espera e escuta.]


–los pájaros la consigna [-os pássaros a consigna]

gritaban de punta en punta. [gritavam de ponta em ponta.]

Ya se han cerrado las rejas. [Já se fecharam os portões.]

Ya sólo queda la luna. [Já nos resta apenas a lua.]

Thursday, February 03, 2011

Sobre escritores 5




[Imagem: Lisboa, Avenida Fontes P. de Melo, grafite do projeto Crono, foto do facebook de ablak - zsiráf, dica da Ildiko]


No conto "Recortes de Prensa" de Julio Cortázar, a narradora Noemi visita um escultor que quer que ela escreva um texto para o catálogo de sua exposição. Os dois são exilados argentinos em Paris. Ela traz um recorte de jornal que recebeu de um amigo e pede ao escultor que leia o terrível relato [verdadeiro, tirado de carta a um jornal mexicano] de uma família dizimada barbaramente pela ditadura argentina. Quando termina o relato o seguinte diálogo acontece:


“—Ya ves, todo esto no sirve de nada —dijo el escultor, barriendo el aire con un brazo tendido—. No sirve de nada, Noemí, yo me paso meses haciendo estas mierdas, vos escribís libros, esa mujer denuncia atrocidades, vamos a congresos y a mesas redondas para protestar, casi llegamos a creer que las cosas están cambiando, y entonces te bastan dos minutos de lectura para comprender de nuevo la verdad, para...

—Sh, yo también pienso cosas así en el momento —le dije con la rabia de tener que decirlo—. Pero si las aceptara sería como mandarles a ellos un telegrama de adhesión, y además lo sabes muy bien, mañana te levantarás y al rato estarás modelando otra escultura y sabrás que yo estoy delante de mi máquina y pensarás que somos muchos aunque seamos tan pocos, y que la disparidad de fuerzas no es ni será nunca una razón para callarse. Fin del sermón. ¿Acabaste de leer? Tengo que irme, che.”


E é isso: continuar a escrever “aunque seamos tan pocos, y que la disparidad de fuerzas no es ni será nunca una razón para callarse” e, veja bem, não apenas para “mandarles a ellos un telegrama de adhesion”. O conto “Recortes de Prensa” de Julio Cortázar é uma das peças mais felizes de conjunção entre literatura e contundência política, semelhante às esculturas imaginárias que Noemí vê no ateliê do escultor exilado:

“Me gustó que en el trabajo del escultor no hubiera nada de sistemático o demasiado explicativo, que cada pieza contuviera algo de enigma y que a veces fuera necesario mirar largamente para comprender la modalidad que en ella asumía la violencia; las esculturas me parecieron al mismo tiempo ingenuas y sutiles, en todo caso sin tremendismo ni extorsión sentimental. Incluso la tortura, esa forma última en que la violencia se cumple en el horror de la inmovilidad y el aislamiento, no había sido mostrada con la dudosa minucia de tantos afiches y textos y películas que volvían a mi memoria también dudosa, también demasiado pronta a guardar imágenes y devolverlas para vaya a saber qué oscura complacencia.”



Tuesday, February 01, 2011

Konder, Marx e o Mistério

O que se poderia recuperar nessa releitura de Marx, e como isso seria diferente das leituras predominantes feitas ao longo do século XX?

KONDER: A noção de que o real é inesgotável, irredutível ao conhecimento crítico, dialético, que ele tem sempre algo a nos dizer que não entendemos ainda. Isso contrasta com o tipo de análise que você encontra, por exemplo, em muitos historiadores marxistas. Existem alguns bons historiadores marxistas, mas há vários que são incapazes de se surpreender com os acontecimentos — adotam sempre um mesmo tom conclusivo, como se tudo que acontece pudesse ser previsto de antemão.

O resto da entrevista está aqui.