Tuesday, November 29, 2016

Postal: Turner

Máscara mortuária de Turner feita por Thomas Woolner em 1851

"Ninguém acreditaria, 
ao ver uma imagem da minha pessoa, 
que fui eu que pintei esses quadros."
JMW Turner

Quadro de Turner com o qual convivi por nove anos. Perdi a conta das vezes em que me sentei na frente dele.

Tuesday, November 15, 2016

Faulkner e seus fósforos

Faulkner rindo da nossa cara em Los Angeles
Faulkner usou essa cena lindíssima de um fósforo aceso no meio da noite mais de uma vez. Acho que a mais famosa é essa aí, de Luz em Agosto [Light in August], onde a coisa é quase um motive – volta e meia aparece o personagem principal acendendo um fósforo no meio do escuro:

"So Christmas lit the cigarette and snapped the match toward the open door, watching the flame vanish in midair. Then he was listening for the light, trivial sound which the dead match would make when it struck the floor. And then it seemed to him that he heard it. Then it seemed to him, sitting on a cot in a dark room, that he was hearing a myriad sounds of no greater volume-- voices, murmurs, whispers, of trees, darkness, earth, people, his own voice, other voices evocative of names and times and places-- which he had been conscious of all his life without knowing it, which were his life, thinking God perhaps and me not knowing that too. He could see it like a printed sentence, fullborn and already dead God loves me too like the faded and weathered letters of last year's billboard, God loves me too."

Berenice Xavier traduziu a passagem assim:

"Light in August" de De Kooning
“Christmas acendeu o cigarro e atirou o fósforo para o lado da porta aberta, contemplando a chama que se apagava a meio caminho. Em seguida ficou à espera do som vulgar que o fósforo apagado faria quando batesse no chão, e pareceu-lhe que o ouvia. Sentado na cama, com o quarto às escuras, logo lhe pareceu que ouvia uma quantidade inumerável de sons que não tinham maior volume — vozes, murmúrios, sussurros: de árvores, da escuridão, da terra, de gente, da sua própria voz; outras vozes evocadoras de nomes, de épocas e de lugares —, sons de que tivera consciência durante toda a sua vida sem o saber, sons que constituíam a sua vida, e pensava: Talvez Deus também e eu, sem o saber. Podia ver a frase impressa, completamente viva e já morta, também Deus me ama, como as descoloridas e gastas letras do cartaz de anúncios do ano anterior: Também Deus me ama.”

Incrível a fusão de som e imagem, o som da luz como o barulhinho do cigarro morto batendo no chão, essa ideia de um momento breve mas intensa de visão no meio da escuridão.

O escritor espanhol Javier Marías, numa entrevista para Paris Review, pede emprestado essas cenas de Faulkner para fazer bonito no meio de uma resposta "pensamento literário", na qual ele na verdade fala sobre que tipo de livros ele gosta de ler. Eis a passagem:

INTERVIEWER
Is that what you mean when you’ve written of pensamiento literario—literary thinking?
MARÍAS
The term is not new, of course. As a reader—and I am more of a reader than a writer, we all are, I suppose—I can enjoy a good story, but in a novel, which takes time to read, a good story is not enough for me. If I close a book and there are no echoes, that is very frustrating. I like books that aren’t only witty or ingenious. I prefer something that leaves a resonance, an atmosphere behind. That is what happens to me when I read Shakespeare and Proust. There are certain illuminations or flashes of things that convey a completely different way of thinking. I’m using words that have to do with light because sometimes, as I believe Faulkner said, striking a match in the middle of the night in the middle of a field doesn’t permit you to see anything more clearly, but to see more clearly the darkness that surrounds you. Literature does that more than anything else. It doesn’t properly illuminate things, but like the match it lets you see how much darkness there is. 

Pois não é que a coisa do Javier Marías vira meme "de Faulkner" no FCBK, com direito a variadas fotos cheias de photoshopagens de fósforos, lamparinas e braseiros? Tem gente que até versifica a famigerada passagem/suposta citação assim:

O que a literatura faz
é o mesmo que acender um fósforo
no campo no meio da noite.
Um fósforo não ilumina quase nada,
mas nos permite ver quanta escuridão
existe ao redor.

Faulkner nunca falou sobre literatura nesses termos. Muito menos em versos. Se alguém quiser uma frase estilosa de Faulkner sobre literatura, ofereço duas anedotas, uma apócrifa e outra não:

Um editor aparece na casa de Faulkner reclamando que ele não respondia às suas cartas. Faulkner explica:

“When I get a letter from you, I shake the envelope, and if a check doesn’t fall out, I throw it away.”

“Quando chega uma carta sua, eu balanço o envelope e se não cai um cheque de dentro, eu jogo tudo fora”.

Numa carta para Malcolm Cowley, um editor fundamental em reviver no final dos anos 40 um Faulkner então totalmente esquecido, Faulkner se recusa a deixar que façam um perfil jornalístico sobre ele e explica:

“It is my aim, and every effort bent, that the sum and history of my life, which in the same sentence is my obit and my epitaph too, shall be them both: He made books and he died”.

“É meu objetivo, e meu maior empenho, que a soma e a história da minha vida, que é numa só sentença meu obituário e meu epitáfio, sejam ambos o seguinte: Ele fez os livros e morreu”.


 Duvido que façam memes com Faulkner porque Faulkner não é "memético". Mas sem dúvida alguma o que circula e é aceito amplamente nas redes sociais são memes. Pelo menos essa é a minha experiência. 

Thursday, November 10, 2016

Música: "Freight Train" de Elizabeth Cotten

Elizabeth Cotten é uma dessas canhotas danadas que autodidaticamente acabam inventando coisas fantásticas "brigando" com instrumentos e objetos feitos para destros. Falando de forma egoísta, Elizabeth Cotten é também um desses talentos maravilhosos que a pobreza muitas vezes nos esconde e nos nega. Desde esse ponto de vista, a história dela é uma história feliz. Cotten passou 25 anos sem fazer música mas, trabalhando como babá numa casa de músicos, reencontrou o violão e tocou para seus patrões essa canção, "Freight Train" (Trem de Carga), que ela compôs quando tinha 11 anos. 

Já imaginou uma menina de 11 anos cantando “when I’m dead and in my grave [...] Place the stones at my head and feet]!? A letra se encaixa na música de uma forma de certa forma infantil, mas a canção tem uma gravitas incomum. Há uma maravilhosa economia de palavras: a conexão causal entre "Please, don't tell what train I'm on" e "They won't know what route I'm gone" é muda. O fim da rua Old Chestnut é obviamente perto dos trilhos mas esse nomear [da rua e do trem] transmitem uma familiaridade entre quem canta e aquele lugar. Finalmente, há um lindo movimento dissonante entre a abertura [que fala em fuga daquele lugar] e as duas estrofes seguintes [que falam em retorno, num pertencimento final]. 

Freight train, freight train, run so fast.
Freight train, freight train, run so fast.
Please don't tell what train I'm on,
They won't know what route I'm gone.

When I'm dead and in my grave,
No more good times ere I crave.
Place the stones at my head and feet
And tell them all I'm gone to sleep.

When I die, Lord, bury me deep
Down at the end of old Chestnut Street
So I can hear old Number Nine
As she comes rolling by.

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Sinceramente me dá agonia pensar nos muitos talentos, em todas as áreas, que o Brasil já sepultou na sua pobreza e opressão sem dó nem piedade. Sem redenção no final da vida. Enterrados sem dividir com a gente tanto. 



Um pouquinho mais nova:


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