Monday, December 22, 2008

Guernica


Guernica
Em 2003 Collin Powel foi às Nações Unidas apresentar “provas” da presença de armas de destruição em massa no Iraque, justificativa para a invasão que os Estados Unidos avisavam que fariam [e fizeram] com ou sem o apoio das Nações Unidas. De repente alguém nota que ao fundo, na sala onde Powell daria sua conferência de imprensa, estava uma reprodução em tapeçaria de um quadro famoso de Picasso: Guernica.
O nome quadro se refere a uma cidadezinha do país Basco impiedosamente bombardeada por aviões alemães em ajuda às tropas franquistas durante a Guerra Civil. Guernica não era um alvo estratégico na concepção tradicional do termo, mas uma cidade significativa para os Bascos como Ouro Preto é significativa para Minas Gerais, de importância cultural e identitária. O bombardeio de Guernica foi o primeiro ensaio em uma tática que culminaria, ironicamente, com o bombardeio devastador dos aliados em Dresden, na Alemanha: sob o pretexto de abalar a moral do inimigo, levar o poder multiplicado de destruição da guerra pós-industrialização muito além das fronteiras de combate e dos exércitos propriamente ditos, para dentro das casas de todos os habitants de um país e de uma região.
Pintado e exibido pela primeira vez em Paris ainda durante a Guerra Civil Espanhola por um Picasso até então desinteressado por questões políticas e visto com desconfiança pelos que achavam seu modernismo uma forma de esteticismo alienado e decadente [nisso coincidiam Stalinistas e fascistas], Guernica é uma representação dramática da tragédia que a Primeira Guerra apresentou e a segunda Guerra mundial expandiu a níveis inimagináveis. Picasso nunca permitiu que o quadro fosse para a Espanha até que Franco morresse.
Se alguém duvida do poder da arte, pergunte aos acessores de Colin Powell porque eles fizeram questão de cobrir a tapeçaria nas Nações Unidas [há quem diga que a coisa não passou de um pedido feito pelos jornalistas em nome de questões técnicas – se você ainda acredita em histórias da carochinha como “smart bombs” que não matam ninguém inocente pode se consolar com isso também]. Mas, por outro lado, se alguém duvida dos limites desse poder da arte, veja o que aconteceu no Iraque logo depois…

Friday, December 19, 2008

2666

Já comentei que minhas leituras são quase sempre guiadas pelas minhas atividades acadêmicas – raramente leio o eu que quero, pelo puro prazer da leitura. Isso não significa que às vezes a gente consiga unir o útil ao agradável. Uma aluna me procurou para ser seu orientador na sua tese de bacahrelado e ela estava interessada em Roberto Bolaño, especialmente em 2666, seu último romance. Eu já conhecia um par de contos de Bolaño que eu achei muito bons e então aceitei na hora. Bolaño está com a bola tão cheia por aqui nos EUA que foi escolhido entre cinco romances para fazer uma lista de 10 livros mais importantes para o NYT. Agora cá estou eu, internado em casa com um bebê recém-nascido depois de uma tempestade de neve e com um mamute de mais de 1000 páginas para ler. Eis um trecho interessante, da página 62:

“… Pelletier y Espinoza se descubrieron generosos aquella noche, y tan generosos se descubrieron que si llegan a estar juntos hubieran salido a celebrarlo, deslumbrados por el resplandorde su propia virtud, un replandor que ciertamente no dura mucho (pues toda virtud, salvo en la brevedad del reconocimiento, carece de resplandor y vive en una caverna oscura rodeada de otros habitants, algunos muy peligrosos)…”

Thursday, December 18, 2008

Poetas Mexicanos - Gabriel Zaid


Nacimiento de Venus
Así surges del agua,
blanquísima,
y tus largos cabellos son del mar todavía,
y los vientos te empujan, las olas te conducen,
como el amanecer, por olas, serenísima.
Así llegas helada como el amanecer.
Así la dicha abriga como un manto.
Seguimiento, 1964

Nacimiento de Venus

Así surges del agua,
clarísima,
y tus largos cabellos son del mar todavía,
y los vientos te empujan, las olas te conducen,
como el amanecer, por olas, serenísima.

Así todo se aclara, como el amanecer,
y se vuelve palpable el misterio del día.
Práctica mortal, 1973

Monday, December 15, 2008

Nasceu Olívia

Olivia nasceu!!! Sobre ser pai pela segunda vez não há nada de articulado para dizer além dos lugares comuns que todo mundo sabe – então eu não vou dizer nada sobre o assunto. Vamos aos fatos: o parto foi diferente do Samuel mas tavez até mais difícil porque além de atado em um nó bem dado, o cordão umbilical estava enrolado [duas vezes] em volta do pescoço da Olívia - a pobrezinha querendo sair, a mãe fazendo uma bruta força, mas o cordão curto não dava linha. Faltando dois minutos de desconto para o final do segundo tempo e, com a ajuda de uma espécie de desentupidor de pia moderno, Olívia conseguiu sair ainda pelas vias naturais.
Depois de assistir Letícia parir pela segunda vez, mais uma vez eu me curvo humildemente à força quase sobrenatural dessa mulher sensacional e tenho certeza que, se o ser humano fosse mesmo um animal racional, os maridos/pais machões estariam com os dias contados com o fim da era em que os pais fumavam charutos e andavam de lá para cá no corredor do hospital. Samuel chegou ao hospital no fim da tarde, vindo das suas aulas de Taekwondo. Alegre e curioso, aprovou o nome [resolvemos trocar ontem à noite] e deu seu primeiro colo para a irmãzinha com o cuidado, a gentileza e o carinho que eu nunca tive e gostaria um dia ser capaz de ter.

Sunday, December 14, 2008

Poesia Mexicana - Efrain Huerta

Companheiro muito menos conhecido de geração de Octavio Paz, para mim Efrain Huerta acertou a mão na obra madura, com os poemas curtos [que têm uma tradição respeitável no Brasil, mas eram muito “diferentes” para a poesia mexicana]:


Desconcierto
A mis
Viejos
Maestros
De Marxismo
No los puedo
Entender,
Unos están
En la cárcel
Otros Están
En el poder.

Con pasión
Y así
Le dije
Con desolada
Y cristiana
Bondad:
Desnúdate
Que yo
Te
Ayudaré

Idiot box
Esta
Declaración
De amor
Imposible
Se destruirá
En cinco
Segundos

Luz, más luz
Es terrible
Pero
Cada día
Son más claros
Los intereses
Más oscuros

Ecología
De la
Ilusión
A la
Erosión
No hay
Más que
Medio
Siglo

Thursday, December 11, 2008

Repente 4


































[foto: filhos de meeiros no site http://newdeal.feri.org/]


Dando seguimento ao repente com Sabina, retomo outra criatura sensacional [e geralmente muito incompreendida] dos contos de William Faulkner: Abner Snopes. Aqui ele termina de borrocar acintosamente com bosta de cavalo o tapete importado da sala do poderoso Major de Spain, onde ele vive uma vida de miséria como meeiro no Mississippi. Antes da Guerra Civil essas figuras conhecidas depreciativamente como "White Trash" valiam menos que os escravos que faziam todo o trabalho e eram propriedade valiosa dos senhores; agora estão todos na mesma situação mas a tensão racial continua. Abner quer ensinar ao seu filho [o protagonista do conto] alguma coisa sobre identidade de classe, mas o filho não aceita a lição do pai:

"Seu pai não abrira mais a boca. E não abriu a boca de novo. Ele nem sequer olhou para ela. Apenas plantou-se rígido bem no centro do tapete, com seu chapéu na cabeça, as sobrancelhas cinza-ferro desgrenhadas contraindo-se ligeiramente sobre os olhos cor de seixo rolado enquanto ele parecia examinar a casa com deliberação breve. Então ainda com a mesma deliberação ele deu a volta; o menino o viu girar na perna boa e viu o pé capenga girar em arco deixando um último borrão sobre o tapete. Seu pai nunca sequer olhou para o borrão, nem sequer uma vez ele olhou para o tapete. O negro segurou a porta. Esta fechou-se atrás dos dois, deixando para trás o som de uma lamúria feminina histérica, indistinguível. Seu pai parou no topo da escadaria e limpou as botas na beirada do degrau. No portão ele parou outra vez. Ficou ali parado por um instante firmemente plantado no seu pé cambeta, os olhos voltados para a casa. 'Bonita e branquinha, né mesmo?' ele disse. 'Aquilo é feito de suor. Suor de crioulo. Vai ver que ainda não está branco o suficiente para ele. Vai ver que ele ainda quer misturar um pouco de suor de branco nela.'"

Wednesday, December 10, 2008

Viva México! - Muxes

Essa foto é de um Muxe de Juchitán no estado de Oaxaca no México. Eles são homens que sentem mulheres e se vestem assim, trabalhando geralmente em ofícios também tradicionalmente relacionados com as mulheres. Aí está uma prova de que a equação que se faz entre pobreza e preconceito sexual é equivocada.

Sunday, December 07, 2008

Diário do Império - Antenado com a minha casa [BH]

Acompanho a vida no Brasil antes de tudo pela internet, um "lugar" estranho em que a [para mim tenebrosa] classe média brasileira reina soberana, quase absoluta, com seus complexos, suas mediocridades e sua agressividade...
Um conhecido, daqueles que ao inv
és de ter um blogue que a gente visita quando quer, prefere um papel mais ativo, mandando suas "idéias" para os outros por e-mail, me enviou o texto abaixo, que eu vou comentar o mais sucintamente possível: resolvi a partir de amanhã fazer um esforço e tentar, além do blogue, onde expresso minhas "idéias" passivamente, tentar me comunicar diretamente com as pessoas por carta...

OS ALUNOS DE UNIVERSIDADES PARTICULARES DERAM UMA RESPOSTA; E A BRIGA CONTINUOU ...


1 - PROVOCAÇÃO INICIAL

Estudar na PUC:............... R$ 1.200,00

Estudar no PITÁGORAS:..........R$ 1.000,00

Estudar na NEWTON:.....R$ 900,00

Estudar na FUMEC:............ R$600,00

Estudar na UNI-BH:........... R$ 550,00

Estudar na ESTÁCIO DE SA:........... R$ 500,00

Estudar na UFMG................ NÃO TEM PREÇO! ! !

2 - RESPOSTA

Mas também Não tem aula... Não tem professores... Não tem giz, carteira, material didático. ... Não tem festa boa... Não tem gente bonita e no verão, não tem férias!!!

Existem (ERRO DE PORTUGUES) coisas que o dinheiro não compra. Desorganização, preguiça etc. ... Para todas as outras, existe o Mastercard.


3 - RÉPLICA DE UM ALUNO DA FEDERAL

Estudar em uma federal: Realmente não tem preço ! ! ! E também:

1. Não tem semi-analfabeto
2. Não tem reitor mercenário
3. Não tem (muito) filhinho de papai
4. Não tem encheção de saco do papai nem da mamãe. Eles não pagam sua faculdade, então não podem falar nada
5. Não tem shopping, manicura, salão de beleza e sacoleira . . .
6. Não tem monitor metido a professor
7. Não fingimos que temos prova, nem fingimos que somos avaliados
8. Não tem provas com média 5.0 para passar
9. Nem o esquema 'ppp' (papai pagou passou!)
10. Tem ensino de qualidade, pesquisa e extensão (será que os cursos
particulares sabem o que é isso? )
11. Temos melhores conceitos no provão

4 - TRÉPLICA DA 'PARTICULAR'

Caro amigo maconheiro, parabéns pelas suas justificativas (ponto pra você).
O fato de pagar a faculdade é problema para os quebrados, não para mim! (ponto pra mim)
Nas federais tem ensino de qualidade, pesquisa e extensão (ponto pra você).
Na minha faculdade alguns dos melhores professores das federais, todos doutores, foram contratados para ganhar 3 a 4 vezes mais e, por isso,ministram as aulas com mais tranqüilidade e empenho, pois não têm que se descabelar com as dívidas e o cheque especial no vermelho!!! (ponto pra mim)
Eu estudo numa sala que tem cadeiras acolchoadas, ar condicionado,canhão de luz com telão, retro projetores, data-show, quadro branco e espaço para todos, que, na maioria, usam bom desodorante!!! (ponto pra mim).

Você provavelmente senta naquelas cadeiras todas detonadas, quando tem cadeira, pichadas com liquid paper, que a minha avó usou. Sem contar o quadro de giz e o ventilador espalhando cal pela sala. (ponto pra mim).

E outra coisa: Na minha faculdade, nós entramos estudantes e saímos como estudantes. Nas federais, na maioria das vezes, entra-se estudante e sai punk, maconheiro, nerd, rasta, canhão, doidão, pé sujo, metaleiro e, quase sempre petista!!! (ponto pra mim)
Por falar em sair: Quando é que você vai sair daí??? Tem alguma previsão? Amanhã pode ter mais greve e você vai ficar mais um ano sem férias. Ah... Férias... Férias... Férias!!! Você não tem mais férias!
Bingo!!! Como diz o velho ditado: "O barato sai caro!"

Friday, December 05, 2008

Repente 1

Propus à Sabina Anzuategui um repente de citações e ela gostou da idéia. Ela postou um texto do Peter Handke e eu contrapostarei o final do conto "Barn Burning" de William Faulkner em uma tradução [infelizmente] ainda inédita feita por mim. O menino protagonista do conto acaba de denunciar seu próprio pai ao proprietário das terras onde eles vivem e foge correndo da fazenda. Faz isso quando percebe que o pai vai, mais uma vez, botar fogo em um celeiro como forma de revolta/protesto/vingança contra sua própria miséria e foge de casa.

"À meia-noite ele estava sentado na crista de um morro. Ele não sabia que era meia-noite e não sabia o quanto havia caminhado. Mas já não havia clarão atrás e ele estava sentado, com as costas para o que ele chamara de qualquer maneira lar ainda que por quatro dias, seu rosto apontado para a mata escura onde ele entraria quando recuperasse o fôlego, pequeno, tremendo com regularidade no frio da escuridão, abraçando-se com os braços metidos dentro do que sobrara da sua camisa puída, a tristeza e o desespero agora não mais terror e medo mas apenas tristeza e desespero. Pai. Meu pai, ele pensava.
- Ele foi um bravo! O menino falou em voz alta de repente, em voz alta mas não alto, não mais que um sussurro: Ele foi! Ele esteve na guerra! Ele esteve na cavalharia do Cornel Sartoris! sem saber que seu pai tinha ido para aquela guerra como um soldado raso no velho sentido europeu da expressão, sem vestir um uniforme, aceitando a autoridade e concedendo fidelidade a homem algum, exército ou bandeira alguma, indo para a guerra como fez Malbrouck : pelo saque – não significando nada e menos que nada se a presa de guerra era do seu próprio exército ou do inimigo.
As lentas constelações seguiam o seu curso. Em pouco chegaria a madrugada e o nascer do sol e ele teria fome. Mas então seria amanhã e agora o que ele tinha apenas frio, e caminhar era uma solução para isso. Seu fôlego já mais tranqüilo agora, decidiu levantar e seguir emfrente, e então percebeu que tinha estado dormindo porque sabia, que era quase alvorada e a noite estava quase no seu fim. Ele sabia por causa dos curiangos. Estavam por toda a parte agora, entre as árvores escuras lá embaixo, constantes, inflexíveis e incessantes, de tal forma que, à medida em que o instante em que eles teriam que dar lugar aos pássaros do dia aproximava-se cada vez mais, já não havia intervalo algum entre o vôo de um e de outro. Ele levantou-se. Estava um pouco duro, mas caminhar seria solução para isso também como seria para o frio, e logo chegaria o sol. Ele desceu o morro, na direção da mata escura na qual os liquidas vozes prateadas dos pássaros chamavam incessantes – o ritmo rápido e urgente do urgente coração cantante da noite do final da primavera. Ele não olhou para trás."

Tuesday, December 02, 2008

Ainda nos mares - um poema meu


Nós vamos afundar
Nós vamos afundar
devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos encontrar
transformados em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs, as hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade vai estar
nos esperando com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntos.

Monday, December 01, 2008

Ainda nos mares do sul - JMW Turner


Em 1840 Turner exibiu em público pela primeira vez esse quadro [clique na imagem para ver melhor, vale a pena] pelo qual ele seria execrado, “Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying: Typhoon Coming On”. Até esse longo nome do quadro mereceria gozações e paródias, mas hoje há quem pense que esse é o quadro mais importante da pintura inglesa do século XIX.
O primeiro “defeito” desse quadro para os contemporâneos de Turner é que o tema escolhido vai provocativamente no sentido contrário do orgulho inglês pelo seu papel na luta pela extinção do tráfico de escravos que continuava a levar milhares de africanos para as Américas: o quadro se refere a um evento perto da Jamaica em 1871 quando o capitão inglês Luke Collingwood atirou ao mar 132 africanos, ainda vivos em sua maioria, do navio negreiro inglês “Zong” no mar para defender os interesses de seus patrões de Liverpool, já que o seguro não os indenizaria no caso de morte por doença mas apenas no caso de “death by the sea”.
Repare os monstros marinhos e pássaros que se revolvem em torno das correntes e algemas que misteriosamente flutuam no mar revolto e ao mesmo tempo o briho do sol que projeta uma faixa branca de calmaria no meio da tempestade e lá no cantinho direito uma réstia de céu azul [seria uma esperança?].
Não dá para um brasileiro não se lembrar do Navio Negreiro de Castro Alves:

Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

Mas eu também imagino que este mar caribenho é quase o mesmo mar do poema de José Emilio Pacheco do post passado, o mesmo poeta que escreveu o seguinte poema, igualmente marcante:

Tierra
La honda tierra es
la suma de los muertos.
Carne unánime
de las generaciones consumidas.

Pisamos huesos,
sangre seca, restos,
invisibles heridas.

El polvo
que nos mancha la cara
es el vestigio
de un incesante crimen.
No me preguntes cómo pasa el tiempo, 1969

Sunday, November 30, 2008

Poema de José Emilio Pacheco

José Emilio Pacheco é um dos poetas mais importantes das letras em espanhol hoje em dia e um prosista maravilhoso também. Adoro esse seu poema, simples e contundente, em que ele reflete sobre a natureza por um viés, digamos, incomum, enxergando no mundo natural não um reflexo de harmonia e justiça, mas das misérias do mundo humano.





Los mares del sur
Felicidad de estar aquí en esta playa
aún sin Milton ni Sheraton.
Arena como al principio de la creación, victoria
de la existencia. Mira cómo salen
del cascarón las tortuguitas.

Observa cómo avanzan sobre la playa ardiente
hacia el mar que es la vida y nos dio la vida.
Prueba esta agua fresquísima del pozo.
No comeremos ni siquiera almejas
por no pensar en nada que recuerde la muerte.

Los paraísos duran un instante.

Llegan las aves, bajan en picada
y hacen vuelos raspantes y se elevan
con la presa en el pico: las tortugas
recién nacidas. Ya no son gaviotas:
es la Luftwaffe sobre Varsovia.

Con que angustia se arrastran hacia la orilla,
víctimas sin más culpa que haber nacido.
Diez entre mil alcanzarán la orilla.
Las demás serán devoradas.

Que otros llamen a esto de selección natural,
equilibrio de las especies.

Para mi es el horror del mundo.
Ciudad de la memoria, 1986-1989

Friday, November 28, 2008

Recordar é viver - Editorial da Folha de São Paulo de 1971

"Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele.
Nunca ouve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social - realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. O país, enfim, de onde a subversão - que se alimenta do ódio e cultiva a violência - está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa que reflete o sentimento deste."
Octávio Frias de Oliveira, 22 de setembro de 1971

Tuesday, November 25, 2008

Diário do Império - Wall Street, Manhattan versus the Ninth Ward, New Orleans

Republicanos ou democratas propõem 600 bilhões, 700 bilhões, 800 bilhões para salvar Wall Street do desastre em que se meteu a partir do momento em que teve total liberdade para fazer o dinheiro com mais dinheiro, sem produzir nada além de dívidas e consumo. E ai de quem faça qualquer objeção ou reparo. Enquanto isso em New Orleans, três anos depois da barragens se romperem por negligência com a chegada do furacão Katrina… as pessoas continuam morando em barracas, morando em trailers precários ou nem morando [há quem diga que 40% da população da cidade ainda não voltou, e provavelmente não vai votar nunca mais].

Monday, November 24, 2008

Outro sonho: Martin Luther King Jr.

Langston Hughes escreveu o poema que coloquei no ultimo post em 1951. O famoso discurso de Martin Luther King Jr. é de 1963:

I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.

Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon light of hope to millions of Negro slaves who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity.

But one hundred years later, the Negro still is not free. One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacles of segregation and the chains of discrimination. One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languishing in the corners of American society and finds himself an exile in his own land. So we have come here today to dramatize a shameful condition.
Martin Luther King, Jr., delivering his 'I Have a Dream' speech from the steps of Lincoln Memorial. (photo: National Park Service)

In a sense we have come to our nation's capital to cash a check. When the architects of our republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir. This note was a promise that all men, yes, black men as well as white men, would be guaranteed the unalienable rights of life, liberty, and the pursuit of happiness.

It is obvious today that America has defaulted on this promissory note insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check, a check which has come back marked "insufficient funds." But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation. So we have come to cash this check — a check that will give us upon demand the riches of freedom and the security of justice. We have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of now. This is no time to engage in the luxury of cooling off or to take the tranquilizing drug of gradualism. Now is the time to make real the promises of democracy. Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice. Now is the time to lift our nation from the quick sands of racial injustice to the solid rock of brotherhood. Now is the time to make justice a reality for all of God's children.

It would be fatal for the nation to overlook the urgency of the moment. This sweltering summer of the Negro's legitimate discontent will not pass until there is an invigorating autumn of freedom and equality. Nineteen sixty-three is not an end, but a beginning. Those who hope that the Negro needed to blow off steam and will now be content will have a rude awakening if the nation returns to business as usual. There will be neither rest nor tranquility in America until the Negro is granted his citizenship rights. The whirlwinds of revolt will continue to shake the foundations of our nation until the bright day of justice emerges.

But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred.

We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force. The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. They have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom. We cannot walk alone.

As we walk, we must make the pledge that we shall always march ahead. We cannot turn back. There are those who are asking the devotees of civil rights, "When will you be satisfied?" We can never be satisfied as long as the Negro is the victim of the unspeakable horrors of police brutality. We can never be satisfied, as long as our bodies, heavy with the fatigue of travel, cannot gain lodging in the motels of the highways and the hotels of the cities. We cannot be satisfied as long as the Negro's basic mobility is from a smaller ghetto to a larger one. We can never be satisfied as long as our children are stripped of their selfhood and robbed of their dignity by signs stating "For Whites Only". We cannot be satisfied as long as a Negro in Mississippi cannot vote and a Negro in New York believes he has nothing for which to vote. No, no, we are not satisfied, and we will not be satisfied until justice rolls down like waters and righteousness like a mighty stream.

I am not unmindful that some of you have come here out of great trials and tribulations. Some of you have come fresh from narrow jail cells. Some of you have come from areas where your quest for freedom left you battered by the storms of persecution and staggered by the winds of police brutality. You have been the veterans of creative suffering. Continue to work with the faith that unearned suffering is redemptive.

Go back to Mississippi, go back to Alabama, go back to South Carolina, go back to Georgia, go back to Louisiana, go back to the slums and ghettos of our northern cities, knowing that somehow this situation can and will be changed. Let us not wallow in the valley of despair.

I say to you today, my friends, so even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."

I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today.

I have a dream that one day, down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of interposition and nullification; one day right there in Alabama, little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.

I have a dream today.

I have a dream that one day every valley shall be exalted, every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain, and the crooked places will be made straight, and the glory of the Lord shall be revealed, and all flesh shall see it together.

This is our hope. This is the faith that I go back to the South with. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.

This will be the day when all of God's children will be able to sing with a new meaning, "My country, 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the pilgrim's pride, from every mountainside, let freedom ring."

And if America is to be a great nation this must become true. So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York. Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania!

Let freedom ring from the snowcapped Rockies of Colorado!

Let freedom ring from the curvaceous slopes of California!

But not only that; let freedom ring from Stone Mountain of Georgia!

Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee!

Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi. From every mountainside, let freedom ring.

And when this happens, when we allow freedom to ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual, "Free at last! free at last! thank God Almighty, we are free at last!"

Friday, November 21, 2008

Langston Hughes - Dream Deferred

What happens to a dream deferred?

Does it dry up
like a raisin in the sun?
Or fester like a sore--
And then run?
Does it stink like rotten meat?
Or crust and sugar over--
like a syrupy sweet?

Maybe it just sags
like a heavy load.

Or does it explode?

Thursday, November 20, 2008

Tradução, sacação, traição


Deu na Folha de São Paulo: Roberto Domênico Proença "traduziu" os contos de Voltaire - trocando uns detalhes aqui e outros dali de uma tradução antiga de Mário Quintana. A troca era pura crocodilagem - os erros contidos na tradução do poeta gaúcho continuaram. A Martin Claret, editora especializada em livros de bolso, publicou traduções igualmente plagiadas de "Os Irmãos Karamazov" e "A República". A primeira, assinada por Alexandre Boris Popov, é cópia de uma antiga versão da editora Vecchi. A tradução de "A República", assinada por Pietro Nassetti, é, na verdade, uma versão de Maria Helena da Rocha Pereira.
Essa história de tradução requentada é antiga. Eu perdi o respeito intelectual por um grande poeta [que continuo respeitando muito como poeta] quando percebi que uma das suas "traduções" eram assim mesmo, muito entre aspas. As pessoas se fiam muito na ignorância geral da nação para fazer bonito, mas esse tipo de impostura prolifera particularmente no mundo das traduções, principalmente de prosa, quando quem lê a tradução o faz porque não pode ler o original e não tem como julgar o trabalho feito. É o crime perfeito, até que se pegue o criminoso...
Quem conhece as dificuldades do ofício de tradutor, aumentadas pelas péssimas condições de trabalho, sabe: o melhor a fazer é ler, sempre que possível, o original. Digo isso consciente de que nunca vou passar do "oi como vai" em um punhado de línguas que são importantíssimas: Mandarim, Russo, Japonês, Urdu, Hebraico e Árabe, por exemplo. Portanto há que se cuidar antes de sair dizendo por aí que Dostoiévski é isso e aquilo; o Dostoiévski que eu conheço pode muito bem ser consideravelmente diferente do original Russo. Um artigo recente da New Yorker sobre as traduções "clássicas" de Dostoiévski para o inglês atestam o que eu digo: a tal influência de Dostoiévski em Faulkner é a influência dessas traduções mula-manca para o inglês em Faulkner, assim como até uns poucos anos atrás falar de influência de Faulkner na América Latina é uma piada se o escritor em questão não sabia ler inglês muito bem [e para ler Faulkner em inglês, dependendo do livro...]. A "tradução" do tal poeta de que falei é um bom exemplo do que eu estou dizendo: a tradução brasileira que o camarada copiou era uma traducão do Gogol já traduzido para o francês. Quando comparei as duas com uma tradução do Russo para o inglês, encontrei textos completamente diferentes. E Gogol à essa altura... rola na sepultura. Ou não? O mundo das traduções sempre foi assim, desde a Bíblia, um livro pelo qual as pessoas literalmente se matam e que foi traduzida das maneiras mais absurdas desde sempre até bem pouco tempo atrás. A história da relação entre línguas diferentes tradicionalmente se faz de mal-entendidos - o modelo dessas relações seriam as paródias que Moreira da Silva cantava de filmes de Hollywood:

O Rei do Gatilho [Miguel Gustavo]

Trecho falado :


'' o rei do gatilho, super bang-bang de michael gustav, com kid morangueira, o mais famoso pistoleiro de wichitta. temido pelos bandidos, pois só atirava em nome da lei.''


Começa o filme com o garoto me entregando
Um telegrama do arizona, onde um bandido de lascar
Um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona
E não deixava nem defunto descansar.
Dizia urgente que eu seguisse em seu socorro.
A diligencia do oeste neste dia ia levar
Vinte mil dólares do rancho águia de prata
Onde a mocinha costumava me encontrar


'' venha urgente, pois estou morta de medo. só tú poderás salvar-nos.
Beijos
Da tua mary.''


Botei na cinta dois revolveres que atiram
Sem que eu precise nem ao menos me coçar
Assobiei para um cavalo que passava do outro lado
E com o bandido mascarado fui lutar
Cheguei na vila, nem dei bola prô xerife
Entrei direto do saloon, fui me encostando no balcão
Com o chapéu em cima dos olhos nem dei conta
De que o bandido me esparava a traição
''-cuidado, moreira-''
Era um indio meu parceiro que sabia
Das intenções do bandoleiro contra mim
E advertia seu amigo do perigo que corria
Devo-lhe a vida, mas isso não fica assim
A essa altura o cabaret em polvorosa
Já tinha um cheiro de cadáver se espalhando
Houve um suspense de matar o hitchicock
E em close-up prô bandido fui chegando
Parou o show e as bailarinas desmaiaram
Fugiram todos só ficando ele e eu
Ele atirou, eu atirei e nós trocamos tantos tiros
Que até hoje ninguém sabe quem morreu
Eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu
Só sei dizer que a mulher dele hoje é viúva
Que eu nunca fui de dar refresco ao inimigo
Como no filme bang-bang vale tudo
O casamento da viúva foi comigo
Tem um final, mas o final é meio impróprio e eu não digo
Volte na próxima semana se quiser ser meu amigo
Eu de cowboy fico gaiato, mas não fujo do perigo.

Fonte: http://letras.terra.com.br/moreira-da-silva/962265/

Monday, November 17, 2008

Línguas Ferinas - Borges y Bioy Casares


Estou lendo o mastodonte de mais de 1500 páginas com os trechos dos diários Adolfo Bioy Casares sobre Jorge Luis Borges. Como esperado, a fofoca maledicente corre solta no livro e confesso que às vezes me sinto até um pouco sem graça de estar compartilhando assim a intimidade embaraçosa dos dois.

Um pequeno exemplo:

Jueves, 25 de octubre [1956]. Borges me dice: “Le dieron el Premio Nobel a Juan Ramón Jiménez”. Bioy: “Qué vergüenza…”. Borges: “… para Estocolmo. Primero a Gabriela [Mistral], ahora a Juan Ramón. Son mejores para inventar a dinamita, que para dar premios”. [232]

Outro exemplo:
Sábado, 25 de mayo [1957]
“Comentamos títulos absurdos. Recuerdo Libertad Bajo Palavra de Octavio Paz: ‘A continuación del título vigoroso, poemas deshilachados. Pero no agradables, no vayas a creer: en cuanto asoma la posibilidad del agrado, el poeta reacciona, no se deja ganar por blanduras, y nos asesta una vigorosa, o por lo menos, incómoda, fealdad. Así cree salvar su alma’.” [277]

Mais um, agora de natureza geográfica:
Borges: “El Rosario es tan Tosco, que parece incredible que sobre un hombre que camina por sus calles una enredadera no refleje una sombra complicada.” [424]

E por aí vai.

Fico espantado com o anti-comunismo e o anti-Peronismo abolutamente fanático dos dois, que chegam a torcer por um golpe militar na Venezuela só porque Peron estava exilado ali. Mas aí é que eu volto à questão da privacidade: imagine se publicam em livro as conversas particulares que você teve com um amigo íntimo – e é claro que no âmbito privado a gente tem direito de falar coisas que não pode falar publicamente, de ser nada razoável, de dar opiniões que vão ser desditas por você mesmo na semana seguinte, de dizer besteiras que não diria nunca em público, muito menos em um livro.
Esse tipo de livro deveria ser lido com essa perspectiva, com um distanciamento relativo que vale aliás também para a leitura da correspondência privada de alguém, mas tenho a impressão de que as pessoas não estão muito dispostas a esse tipo de sutilezas, principalmente porque hoje em dia muita gente faz questão justamente de dizer em público todo o tipo de barbaridades em busca de auto-promoção e celebridade, uma espécie de pornografia mental.

Saturday, November 15, 2008

Poesia Mexicana - Xavier Villaurrutia


Xavier Villaurrutia [1903-1950] dá nome a um dos prêmios literários mais respeitados do México, é mais um dos poetas venerados no México mas pouco conhecidos for a dele [coisa que o Brasil e o México têm em comum]. O resto o poema abaixo explica.

POESÍA
Eres la compañía con quien hablo
de pronto, a solas.
Te forman las palabras
que salen del silencio
y del tanque de sueño en que me ahogo
libre hasta despertar.
Tu mano metálica
endurece la prisa de mi mano
y conduce la pluma
que traza en el papel su litoral.
Tu voz, hoz de eco
es el rebote de mi voz en el muro,
y en tu piel de espejo
me estoy mirando mirarme por mil Argos,
por mí largos segundos.
Pero el menor ruido te ahuyenta
y te veo salir
por la puerta del libro
o por el atlas del techo,
por el tablero del piso,
o la página del espejo,
y me dejas
sin más pulso ni voz y sin más cara,
sin máscara como un hombre desnudo
en medio de una calle de miradas.

Friday, November 14, 2008

Diário do Império - Get Out The Vote


Assisti ontem a uma palestra interessante em que os métodos “científicos” de pesquisas e campanhas eleitorais foram impiedosamente criticados como charlatanice pura. Donald Green, que deu a palestra, escreveu com Alan Gerber um livro sobre o assunto chamado Get Out the Vote - a ênfase num país em que o voto não é obrigatório é compreensivelmente fazer o máximo número de pessoas que apoiam seu candidato a sairem de casa e irem votar [ou votar pelo correio, coisa mais ou menos comum por aqui]. A eficiência de coisas como chamadas telefônicas eletrônicas, correio, e-mails, propagandas na TV é posta em dúvida por Greer. Quando comparados a grupos de controle os resultados são quase que invariavelmente pífios e os marqueteiros revelam-se como enganadores que fingem eficiência e precisão para poder vender mais do seu peixe. O que Green cita como fator capaz de influenciar as coisas em uma campanha? Um acompanhamento próximo com mais de uma visita pessoal ao provável eleitor [uma coisa cara e difícil de fazer com profissionais contratados] e a mais ou menos sutil pressão exercida pelos vizinhos e conhecidos – o que se chama em inglês de “peer pressure”.

Tuesday, November 11, 2008

Clássicos da MPB

Chega de Boa Esperança, Minas Gerais, uma carta apaixonada de Nair Pimenta de Oliveira, pedindo fortografias para um álbum de recordações. Lamartine Babo se corresponde com a fã apaixonada por um ano, até que esta interrompe as cartas porque ia se casar. Tempos depois Lamartine é convidado para ir à Boa Esperança e quer conhecer a fã apaixonada. Mas não existia nenhuma Nair na cidade – quem lhe escrevia era o próprio homem que o convidara, um dentista colecionador de fotos de celebridades. Lamartine compôs então uma de suas mais belas canções, "Serra da Boa Esperança", interpretada em 1937 por Francisco Alves.

Serra da Boa Esperança
Serra da Boa Esperança, esperança que encerra
No coração do Brasil um punhado de terra
No coração de quem vai, no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança meu último bem
Parto levando saudades, saudades deixando
Murchas caídas na serra lá perto de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar
Adeus
Levo na minha cantiga a imagem da serra
Sei que Jesus não castiga o poeta que erra
Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem
Serra da Boa Esperança não tenhas receio
Hei de guardar tua imagem com a graça de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar
Adeus

Monday, November 10, 2008

Onde o filho chora e a mãe não ouve - Primeira parte

A moça que limpava e arrumava a casa não vem mais e não há ninguém para reclamar de volta o que antes a natureza tomava e aparentemente deixava reconquistar, mas que agora, depois de dois meses, se entrega por completo: tufos de mato brotam das rachaduras do piso, musgo e mofo crescem pelos cantos das paredes e insetos de vários tamanhos e formatos atravessam cada vez menos aflitos distâncias cada vez maiores, fazendo e desfazendo a descoberto suas transações misteriosas. Tudo aqui parece indicar que a história não pára, mas nessa casa o tempo está curiosamente em suspensão: passado e futuro se acumulam em camadas sucessivas sobrepostas a um presente cada vez mais impreciso e obscuro.
São 6 árvores ao todo, plantadas há muito tempo, perto demais umas das outras, amontoadas como que aleatoriamente no espaço exíguo do quintal, confinadas por muros altos que tentam esconder inutilmente três prédios imensos, dois deles colados na divisa do terreno, mastodontes de mais de 20 andares sem garagem, cheios de salas vazias cheias de ratos e baratas e escritoriozinhos obscuros cheios de gente ocupada em negócios e ofícios improváveis. Dos basculantes encardidos caem de tempos em tempos guimbas de cigarro, copos de plástico e pedaços de papel que se acumulam no chão quando atravessam a tela espessa formada por folhas e galhos.
No meio do quintal coberto de folhas secas e lixo miúdo vê-se uma cadeira e uma mesa de plástico ressecado e encardido. Três cachorros sujos, famintos e sarnentos fuçam pelos cantos e entre os tufos de grama esquálida que insistem em uma existência raquítica sob a penumbra quase completa das árvores.
O velho nos aparece então plantado no meio do quintal, quase imóvel na cadeira de plástico, centrado feito uma estátua de pedra assentada em equilíbrio precário. Na frente dele, em cima da mesa, estão uma pilha de jornais velhos, outra pilha de papel em branco, um copo com canetas e tesoura e o molho gordo e pesado, com as mais de vinte chaves da casa, das quais ele só usa uma, a do portão lateral por onde recebe todos os dias às onze a marmita de papel alumínio que um guardador de carros compra num copo sujo nas redondezas. A mão direita do dorso estático escreve com o que à primeira vista seria obstinação mas não passa de compulsão mecânica, abjeta. A letra miúda de inseto, quase ilegível, vai preenchendo lenta e implacável folha atrás de folha que caem no chão num monturo ao lado da mesa. A cada quinze folhas conta-se a mesma história, repetida com exatamente as mesmas palavras escritas na mesma ordem nas próximas quinze, sucessivamente, penosamente, dia e noite.

Friday, November 07, 2008

Diário do Império - Obama nas alturas!

Ainda sobre a questão das expectativas sobre o Obama gostaria de chamar a atenção para um dado fundamental: a eleição de Obama vem acompanhada de uma vitória expressiva dos democratas no senado e na câmara. Isso é algo que nem FHC nem Lula tiveram e, pelo jeito, não tão cedo um presidente brasileiro terá. As limitações, as concessões, a "falta de agressividade" da agenda política de um presidente num processo democrático estão ligadas às relações dele com o congresso e muitas das frustrações causadas pelos últimos governos brasileiros estão ligadas a necessidade de trabalhar com congressos que representam em grande medida interesses inconfessáveis – mas precisamos não esquecer que esses são congressos legítimos, eleitos pelo voto livre. A democracia frustra algumas pessoas porque não entrega ao mandatário um poder desmesurado de fazer qualquer coisa que ele queira. Isso é fonte de frustração porque ainda esperamos que o presidente seja um imperador e decrete sumariamente o fim da fome, da guerra, da inflação e da pobreza.

Thursday, November 06, 2008

Arte de Letícia Galizzi e poema de Paulo Moreira

Mash-up 4 – Robert Browning

Ele fez essa carne
de gente, essa bolha
inflada, essa massa
socada que engarrafa
e gruda no chão da terra
essa alma humana, bafo
da boca dEle, vaporosa
vertigem de cinza e nada.

Ele faz aparecer nessa mesma
massa de carne esses picos
e rachaduras por onde
esse vapor engenhoso, esse fogo
esbelto, essa música
delgada, essa coluna de silêncio
puro, esse rio assombroso
que se levanta do leito e flui
pelos ares, que escapa assim de volta
à fonte, sempre um pouco antes da hora.

Isso e tudo mais nesse inferno
que é o artesanato Seu aqui na terra
me aparece assim:
torcido e torneado
com tinta que escorre da Sua boca
e se condensa no papel
jornal de um livrinho vagabundo
jogado num canto cheio
de entulho sobre-humano.

Formigueiros crescendo
dentro de uma caixa de ferro:
Ele nos quer assim:
sem caber dentro.

Wednesday, November 05, 2008

Diário do Império - Eleições 3




Obama ganhou e o mesmo tipo de esperança eufórica que aconteceu no Brasil com a primeira eleição de Lula se espalha pelos Estados Unidos. Mas aqui há uma diferença fundamental: o partido democrata tem agora uma maioria sólida no senado e na câmara. Mas também não custa lembrar que o democrata Lyndon Johnson [vice de Kennedy que o substituiu em 1963] ganhava com uma maioria ainda mais estrondosa do ultra-conservador Barry Goldwater, que ganhou apenas 6 estados. Acho que qualquer brasileiro sabe o que aconteceu em 1964 e como foi a atuação do governo americano. Um resumo do governo de Lyndon Johnson: consolidar a luta pelos direitos civis e o fim do apartheid americano em casa e Vietnã lá fora.

Tuesday, November 04, 2008

Diário do Império - Eleições 2


Meu filho de 7 anos "votou" hoje na escola, onde, ele me disse, Obama ganhou por larga margem. Eu não gosto de ficar falando de política com meu filho - nessa idade ele apenas repetem o que a gente diz sem muita reflexão e tento não ceder à vaidade de ver meu discurso político na boca de um menino de 7 anos, mas neutralidade tem seus limites. O debate "político" do Samuel aconteceu, portanto, na escola dele, e durante o fim de semana, enquanto a gente dava uma volta juntos - ele chupando um geladíssimo picolé do Homem Aranha numa tarde para mim gelada [menos de 10 graus], ele me explicou que ambos candidatos "tinham coisas ruins e coisas boas": que Obama queria a paz enquanto McCain queria guerra, mas que Obama "tirava dinheiro das pessoas e dava para o governo" e McCain não fazia isso. Ele me perguntou o que eu achava. Eu disse que não gostava de guerra e por isso preferia que o Obama ganhasse, mas que eu não podia votar porque era estrangeiro, então não tinha opinião muito forte sobre o assunto.

Monday, November 03, 2008

Diário do Império - Eleições

Eu cada vez mais gosto do sistema distrital de eleições - quem quiser ter uma idéia de como a coisa funciona pode conferir esse mapa muito interessante do New York Times, onde dá para ver estado a estado, distrito a distrito, como anda a briga entre democratas e republicanos:
http://elections.nytimes.com/2008/congress/house.html
Já o sistema de colégio eleitoral para eleição para presidente é uma bela porcaria. Todos os votos de um estado vão para um dos lados, não importando quantos votos o lado perdedor teve [perder com 49% ou com 2% dá quase na mesma]. Isso faz com que a eleição seja disputada basicamente onde as campanhas acham que têm chancer de ganhar [Flórida, Virgínia, etc] e bastante morna onde as coisas estão, de acordo com as pesquisas, resolvidas [ah, as pesquisas...].
http://elections.nytimes.com/2008/president/whos-ahead/key-states/map.html

Sunday, November 02, 2008

Personagens Secundários Memoráveis - Goodhue Coldfield [e Rosa Coldfield]

He had closed his store permanently and was at home all day now. He and Miss Rosa lived in the back of the house, with the front door locked and the front shutters closed and fastened, and where, so the neighbors said, he spent the day behind one of the slightly opened blinds like a picquet on post, armed not with a musket but with the big family bible in which his and his sister's birth and his marriage and Ellen's birth and marriage and the birth of his two grandchildren and of Miss Rosa, and his wife's death (but not the marriage of the aunt; it was Miss Rosa who entered that, along with Ellen's death, on the day when she entered Mr. Coldfield's own and Charles Bon's and eve Sutpen's) had been duly entered in his neat clerk's hand, until a detachment of troops would pass: whereupon he would open the bible and declaim in a harsh voice even above the sound of the tramping feet, the passages of the old violent vindictive mysticism which he had already marked as the actual picquet would have ranged his row of cartridges along the window sill. Then one morning he learned that his store had been broken into and looted, doubtless by a company of strange troops bivouacked on the edge of town and doubtless abetted, if only vocally, by his own fellow citizens. That night he mounted to the attic with his hammer and his handful of nails and nailed the door behind him and threw the hammer out the window. He was not a coward. He was a man of uncompromising moral strength, coming into a new country with a small stock o goods and supporting five people out of it in comfort and security at least. He did it by close trading, to be sure: he could not have done it save by close trading or dishonesty; and as your grandfather said, a man who, in a country such a Mississippi was then, would restrict dishonesty to the selling of straw hates and hame strings and salt meat would have been already locked up by his own family as a kleptomaniac. But he was not a coward, even though his conscience may have objected, as your grandfather said, no so much to the idea of pouring out human blood and life, but at the idea of waste: of wearing out and eating up and shooting away material in any cause whatever.
--.William Faulkner, Absalom, Absalom!

Friday, October 31, 2008

Wednesday, October 29, 2008

Diário da Babilônia - Eleições 2






Além do fato de que as pessoas aqui se preocupam primordialmente em mobilizar as pessoas para votar [ou às vezes simplesmente tentar impedir certos grupos de votar], a política americana difere da brasileira pela polarização regional dos partidos. Os republicanos dominam certos estados e os democratas outros, sobrando um punhado de estados que oscilam a cada eleição. Por causa disso, o estado em que vivo tem uma campanha presidencial morna, já que é considerado favas contados para Obama.
Um exemplo dessa situação: aqui em Connecticut podemos ver o último deputado republicano da Nova Inglaterra [Maine, New Hampshire, Vermont, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut], Chris Shays, perder seu mandato para um democrata nessas eleições. Aliás, que porcaria é o sistema de colégio eleitoral que vigora nos EUA, mas que beleza são as eleições distritais, que põe os deputados numa relação bem mais próxima com seus eleitores diretos…
E para os que acham que tudo aqui são coerências, informo que, apesar de tudo, o governador do estado é uma republicana, Jodi Rell, que uma pesquisa sem vergonha de Princeton que acabou na TV [pelo menos do jeito que foi mostrada pelos jornais – eu não tenho TV] diz que ganhou as eleições porque “parecia” mais competente [estão aí as fotos dos dois para quem quiser conferir quem é o mais "competent-looking" dos dois].

Tuesday, October 28, 2008

Diário da Babilônia - Eleições

Assisti ontem a uma palestra interessante em que os métodos “científicos” de pesquisas e campanhas eleitorais foram impiedosamente criticados como charlatanice pura. Donald Green, que deu a palestra, escreveu com Alan Gerber um livro sobre o assunto chamado Get Out the Vote - a ênfase num país em que o voto não é obrigatório é compreensivelmente fazer o máximo número de pessoas que apoiam seu candidato a sairem de casa e irem votar [ou votar pelo correio, coisa mais ou menos comum por aqui]. A eficiência de coisas como chamadas telefônicas eletrônicas, correio, e-mails, propagandas na TV é posta em dúvida por Greer. Quando comparados a grupos de controle os resultados são quase que invariavelmente pífios e os marqueteiros revelam-se como enganadores que fingem eficiência para vender seu peixe. O que Greer cita como fator capaz de mudar as coisas? Um acompanhamento próximo com mais de uma visita pessoal ao provável eleitor [uma coisa cara e difícil de fazer com profissionais] e a pressão exercida pelos vizinhos e conhecidos – o que se chama em inglês de “peer pressure”.

Sunday, October 26, 2008

Arquivo de inconstâncias

Há uns 6 anos atrás li Gregório de Mattos de trás para frente e, no final das contas, além de um trabalho bastante meia-bomba que nunca mais vai sair da gaveta, fiz esse poema-ventríloquo sobre “Boca do Inferno”, um poeta que representa, para mim, a matriz do rancor do que seria muito tempo depois de uma boa parte da classe média brasileira, um rancor raivoso provocado pelo sentimento [completamente equivocado na minha opinião] de ser melhor que o país em que se vive. Gregório de Mattos é um grande escritor e um grande escritor transforma em ouro qualquer coisa, até mesmo a mesquinharia de classe e raça:

Arquivo de inconstâncias

Para Ignácio Ruiz



Caí de vertigem em verso 1
até o fundo preto do tacho
ferventando esse caldo macho
onde a cana ferve perversa
com o que havia de ser essa merda 5
que atende pelo nome Brasil –
essa puta que me pariu
e que não larga a minha boca
que fede ao suor dessa louca
tesão de eu ser também o anti- 10

Brasil. E confesso que fui
o que fui manco: sendo barro
despencando barranco abaixo
de mim. Sem querer eu ser ruim,
fui ser fogo duro e instruí 15
cana em bagaço de engenho:
resposta em posta no lenho
requeimando as costas quentes –
minhas costas de indigente
no prato frio do meu empenho. 20

Moinho de gente que eu nego
até que moas o meu peito só
e meu juízo inteiro em pó,
eu bem conheço teu nó cego:
és braseiro, és cruz, és prego, 25
és caralho a quatro empunhado,
bainhado, contraprumado
no oco da sede de ferro.
Não há cona com que esse berro
de bode desencapado 30

que é o meu desejo no Mato
recôncavo possa. Só
voltei porque sei ser pó
na fé, em carne, em Deus, em ato
de arrepensamento fátuo – 35
Pó de onde vim, pra onde eu vou,
nó do que fui do que sou:
esse é o estofo da minha musa
essa desrazão que lambuza
a carne que me forrou. 40

Não forra – hoje não sou carne.
Eu sou papel mudo e mofo
no fundo do arquivo morto
de onde reveio esse alarme
falso de que eu era carne 45
de novo, que eu estava vivo
que não só existi, que existo.
E a que ponto chegaste,
Amigo, não me cheiraste?
Não vês que estou consumido? 50

Friday, October 24, 2008

E agora, Guimarães? A rose is a Rosa is a rose?

Um canadense interessado no assunto me pediu uma opinião sobre a tradução para o inglês de Grande Sertão: Veredas. Eu não quis explicar em termos gerais; achei que era melhor simplesmente tomar um trecho da tradução e fazer uma avaliação detalhada. Escolhi o óbvio, a abertura do livro.

A abertura do livro no original:
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.


A tradução para o inglês:
It’s nothing. The shots you heard were not men fighting. God be praised. It was just me there in the back yard, target shooting down by the creek, to keep in practice. I do it because I enjoy it; have ever since I was a boy.


Os comentários [estão em inglês porque eu não ganho dinheiro escrevendo blogue, mas acho que dá para entender]:
1. Nonada is old Portuguese; it means trifles. The translator explains the term in standard English instead of looking for some equivalent.
2. The second sentence is non-standard Portuguese again, this time taken from the vernacular in Minas Gerais [literally something like “shots you hear were from men-fighting not” but part of the local vernacular]. The sentence ends with a “Deus esteja”, one of typical ellipsis that are either created by GR or adapted from spoken language or both. It means literally “God be”. The “praised” is only implied, and it could be “with us” or something else as well. An example from everyday language: in Minas Gerais the famous catholic interjection “Nossa Senhora!” [Our Lady, i.e. Virgin Mary] is turned into only “Nó!” [literally also “knot”]. The translation again fills in the blanks, smoothes what is odd and unusual, turns the sentence into standard everyday English.
3. “alvejei mira em árvore” is local vernacular – odd sounding to urban Brazilian from other parts of the country – the whole sentence means more or less “I was target-shooting on a tree, in the yard, at the bottom, on the creek.” The punctuation and syntax articulation of GR’s sentences are alternately or even simultaneously derived from poetry and from oral non-standard Portuguese.
4. “Por meu acerto” was incorporated into the last sentence in the English version. It is again unusual Portuguese. Literally it means “By my account”, also “By my right” also “To get it right”, and perhaps even “To get me right.” There is a difference between what the narrator means and how he says what he means. This gap the translation invariably erases, opting usually for spelling out what the narrator means in “plain English”.
5. I’d translate the last sentence in this opening as “Every day I do it, I like it; since I was barely into my young age”. I am doing it to get as close as possible to the feel I get it when I read it in my own language. This language is understandable with an effort on my part, it is from time to time even recognizable as bearing traces of the vernacular I speak, but it is a kind of “new language”, unique.

Meus alunos começam hoje a ler The Devil to Pay in the Backlands...

Thursday, October 23, 2008

Soneto da fúria (uma constatação e um pedido)

Porém meu ódio é o melhor de mim

A minha fúria só viu pasto
de onde come a sua ira,
que à distância zero parecia
merda pura, contra a qual achava
que lutava a luta justa.

Injusta e errada – eu assumo –
(não é pura, a merda, nem é tudo)
é ainda a minha mesma fúria
o motor maior que me comove.

Que a minha fúria, com a sua crosta,
açucarado rancor profundo
repetente na sua sina pobre
de chocar o medo em sua cova,
não me impeça a comunhão com o mundo.

Wednesday, October 22, 2008

Fartura de Curtura

Manchetes listadas como link “Cultura” na página online do jornal O Globo nos últimos três dias:

Dia 1
* Morre autor da lista de astros que se vestem mal
* 'High School Musical 3' chega aos cinemas esta semana
* Tatuagem nas costas de músico é vendida por US$ 200 mil
Cultura

Dia 2
* Zaha Hadid assina sapato para Lacoste
* Homem de L.A. se diz inocente de pirataria do Guns N' Roses
* Grupo RBD lançará uma coletânea de grandes sucessos

Dia 3
* Festival de Cinema de Roma homenageia Al Pacino
* Mendigo encontra cabeça de cera de Paul McCartney
* Aumentam boatos sobre caso entre Madonna e jogador de beisebol

Monday, October 20, 2008

Voltaire e McCain



Antes de eleger Bush pela segunda vez, 53% dos americanos achavam que Saddam estava diretamente envolvido no atentado de 11 de setembro. Esse tipo de insanidade coletiva promovida pelo partido republicano está se repetindo com relação a Obama, com a mensagem de que ele é amigo de terroristas e muçulmano. Uma coisa me chamou a atenção quando vi os videos em que John McCain parece ter um momento de lucidez e decide tentar contrapor essa insanidade que sua campanha vem alimentando contra Obama num país em que, ainda por cima, a violência política e racial não é brincadeira [Lincoln e Kennedy não foram os únicos presidentes americanos assassinados e o número de linchamentos nos Estados Unidos era maior que cem até 1900 e maior que 50 até 1922]. Uma velhinha diz a McCain “ele é árabe” e McCain responde “Não, senhora. Ele é um homem decente.” Esse foi o momento de “humanidade” de McCain? Ser árabe ou muçulmano [pelo amor de Deus, quando é que vão aprender que não é a mesma coisa] significa não ser decente?
Vejam então um trecho do Lettres Philosofiques de Voltaire em que ele faz uma parábola veemente contra as religiões organizadas, eis o que aparece sobre os “desumanos” maometanos:

"Since you wish to instruct me," I said to the genius, " tell me if there have been peoples other than the Christians and the Jews in whom zeal and religion wretchedly transformed into fanaticism, have inspired so many horrible cruelties."
"Yes," he said." The Mohammedans were sullied with the same inhumanities, but rarely; and when one asked amman, pity, of them, and offered them tribute, they pardoned. As for the other nations there has not been one right from the existence of the world which has ever made a purely religious war. Follow me now." I followed him.

Quem puder leia o Voltaire todo. Vale a pena.

Friday, October 17, 2008

Personagens menores e memoráveis de Guimarães Rosa: Don'Ana

"Don’Ana do Janjão e Janjão da Don’Ana são respectivamente esposo e esposa, e, pois, co-proprietários da fazenda da Panela-Cheia. Janjão da Don’Ana é um paspalhão, e não conta. Mas Don’Ana do Janjão é uma mulher-homem, que manda e desmanda, amansa cavalos, fuma cachimbo, anda armada de garrucha, e chefia eleitorado bem copioso, no município."

Thursday, October 16, 2008

Abobrinhas a propósito da lei seca, dos cristãos novos, dos escravos que nunca vieram e dos países independentes ma non troppo


Aconteceu o que sempre acontece: primeiro, o impacto de uma lei draconiana que proíbe terminantemente qualquer motorista de beber qualquer quantidade de bebida; depois, uma fiscalização inversamente proporcional à rigidez da lei; finalmente a “surpresa” decepcionada com o aumento dos acidentes de trânsito.
Descobri essa nossa matriz profunda da nossa cultura política quando li que o rei de Portugal resolveu simplesmente acabar com a questão judaica no império através de um decreto que simplesmente convertia todo o mundo compulsoriamente. “Pronto; agora ninguém mais é judeu e acabou-se o nosso problema.”
Continuamos até hoje de decreto em decreto “resolvendo” nossas questões sumariamente “para inglês ver” [expressão aliás cunhada para descrever um exercício de ficção legal perpetrado por um império, aliás, já sumariamente brasileiro, por decreto].
Mas vá você fazer piadas com a família de alguém que morre atropelado por alguém que dirije encarando as leis de trânsito como esse mesmo cinismo hipócrita que converte à força judeus em cristãos novos, transforma colônias de fato em países independentes no papel e faz do tráfico de seres humanos uma simples farsa inconsequente.
Eu vivo em um país essencialmente puritano e sei que todo o moralismo é hipócrita, mas não precisava exagerar…

Tuesday, October 14, 2008

Poesia Prosaica Minha: Uma gota de fenomenologia

Uma coisa é a coisa que a gente vive nos ossos, nos nervos, na carne e na pele; aquilo que chega e esfria ou esquenta o sangue do caboclo. Outra coisa bem outra é assistir essa mesma coisa mais ou menos de longe. Nem a mãe de um caboclo que passa fome sabe o que é passar fome do jeito que o caboclo que passa fome sabe. A mãe sabe outra coisa, que é o que é ser mãe de um caboclo que passa fome. Isso nem o caboclo sabe: o que ela sabe é dela só, diferente do caboclo e diferente do médico que recebe o tal caboclo e a mãe dele no hospital. O médico sabe da fome do cabloco de um outro jeito porque ele já ficou mais longe daquela fome um tanto mais que a mãe e outro tanto bem mais que o caboclo. O jeito que o médico sabe da fome daquele caboclo pode ser mais ou menos só dele ainda, mas isso só se ele pôr muito reparo no caboclo e na mãe dele. O que geralmente atrapalha o médico é que ele geralmente acha que sabe mais da fome do caboclo que o próprio caboclo e a mãe do caboclo e por isso ele não presta atenção nos dois e por isso ele acaba que sabe de uma fome que é igual à fome que qualquer outro médico em qualquer outro hospital sabe. Mais longe ainda que esse médico fica o jornalista que aparece do nada na porta do hospital para ver e falar com o caboclo e a mãe dele e o médico para depois escrever sobre eles no jornal. O jornalista é geralmente pior só porque geralmente ele acha que já sabe o que o caboclo, a mãe dele e o médico sabem e que por isso sabe mais que eles todos. Agora, a pior raça mesmo de todas é a do fé-da-puta que vem escrever sobre a história da fome do caboclo, da mãe do caboclo, do médico e do jornalista porque esse já ficou tão longe, mas tão longe, que o que ele escreve ainda parece ser mas já não tem quase nada que ver com aquela fome do caboclo: o que ele escreve é essa tal de literatura. Não custa lembrar que se a fome passar nem o caboclo sabe mais a mesma coisa que sabia quando passava fome. O que ele tem depois que a fome passa e só uma idéia (mais uma idéia) do que era a fome que ele um dia passou. Quando ele pára de passar fome e ainda acha que sabe o que é passar fome do mesmo jeito que o outro caboclo que ainda passa fome ele arrisca pretensão quase tão grande quanto a do médico e a do jornalista; pior só a pretensão do bosta do escritor.

Sunday, October 12, 2008

Diário da Babilônia – um pequena provocação

Quando se discute a educação superior no Brasil, especialmente o debate entre educação pública e privada, me espanta a desinformação [que eu não sei se é intencional ou não] a respeito do sistema Americano, onde trabalho. Deixo aqui apenas dois dados provocativos:

1. A maior parte do sistema universitário americano é pública, instituições financiadas pelos estados e mesmo minicípios.

2. Yale, assim como todas as outras universidades privadas de maior destaque nos Estados Unidos, fornece algum tipo de auxílio financeiro a 49% dos seus alunos de graduação. Qualquer família que ganhe menos de 60.000 dólares por ano não precisa pagar um tostão para seu filho estudar aqui [se ele conseguir uma vaga – menos de 10% dos candidatos entra]. A universidade agora cogita, inclusive, deixar de cobrar mensalidades de todos os alunos indistintamente [isso não é filantropia ianque: o pagamento de mensalidades representa apenas 17% da renda da universidade].

Quem quiser saber um pouco mais sobre a discussão aqui nos EUA pode dar uma olhada em http://www.yaledailynews.com/articles/view/25659

Thursday, October 09, 2008

Poesia Mexicana - Jaime Sabines


¿Qué putas puedo hacer con mi rodilla,
¿Qué putas puedo hacer con mi rodilla,
con mi pierna tan larga y tan flaca,
con mis brazos, con mi lengua,
con mis flacos ojos?
¿Que puedo hacer en este remolino
de imbéciles de buena voluntad?
¿Que puedo con inteligentes podridos
y con dulces niñas que no quieren hombre sino poesía?
¿Que puedo entre los poetas uniformados
por la academia o por el comunismo?
¿Que, entre vendedores o políticos
o pastores de almas?
¿Que putas puedo hacer, Tarumba,
si no soy santo, ni héroe, ni bandido,
ni adorador del arte,
ni boticario,
ni rebelde?
¿Que puedo hacer si puedo hacerlo todo
y no tengo ganas sino de mirar y mirar?
Tarumba, 1956

Wednesday, October 08, 2008

Pase Libre / Crónica de una fuga





O cineasta Adrián Caetano tomou o livro de memórias de Claudio Tamburrini e fez o melhor filme até hoje sobre a repressão das ditaduras militares latino-americanos na “guerra suja”. O filme Crónica de una fuga, baseado em Pase Libre é uma lição sobre muitas coisas importantes sobre o que poderíamos chamar de período pós-atrocidades na América Latina. Por exemplo, sobre o que Adorno, falando da arte pós-holocausto, dizia ser a necessidade de falar de “meaning and truth and suffering that neither deny nor affirm the existence of a world transcendent to the one we know” e do que ele chamava de um novo imperativo categórico, que é “arrange their thought and action that Auschwitz would not repeat itself, [that] nothing similar would happen”.

Acho que o final do livro ilustra o que eu estou dizendo. O protagonista está num carro, livre e reflete:

“Estoy inmensamente feliz. Siento que mi vida y mi destino me pertenecen. Y me imunda un optimismo desbordante sobre el futuro. Después de Atila, ya no será possible recaer en los mismos errors y vicios de antes. Siento que me he vuelto más sabio. Salvar la vida habrá sido un ejercicio fútil, so no hace seres humanos mejores que nosotros. A partir de ahora, prometo vivir con la Mirada puesta en la felicidad de la gente.

Aí então o tom da discussão entre o Gallego e seu o pai no banco da frente esquenta e o volume das vozes sobe, voltando a atenção do narrador para a conversa entre eles. O pai, furioso e apavorado, critica o envolvimento do filho com política, lhe pergunta o que é que ele fez de errado para ter sido preso e diz simplesmente que o filho vai ter que se entregar! Para os brasileiros terem uma idéia do que isso significa, estima-se dos 5.000 sequestrados que passaram pelo “Campito” [um dos principais entre centenas de centros clandestinos de detenção da ditadura argentina] só 43 sobreviveram para contar a história!

O narrador então retoma sua reflexão e fecha o livro:

“La dureza de este diálogo, más violento y despiadado que la peor de las torturas, me arroja nuevamente a la realidad con la fuerza de una revelación. ¿Entregarse? Sí. ¡El padre del Gallego le acaba de dar esta orden a su hijo! Por lo visto, las crueldades más atroces se originan no en la distancia, sino en la cercanía afectiva de las personas.

‘Más vale no hacer promesa ninguna’ – pienso para mis adentros.

Parece ser un rasgo común delos humanos ensañarse los unos con los otros.

Sólo cambia la manera de inflingir el daño.”

Monday, October 06, 2008

O menor livro do mundo [em sete capítulos]

Andam fazendo de tudo de para popularizar a leitura no leitor: videoclip de livro, trailer de livro, até "Copa de Literatura" já inventaram. Quero dar a minha contribuição com uma idéia que certamente aumentará dramaticamente o número de livros lidos per capta no Brasil: o micro-livro, que você compra por R$1, cabe no bolso da camisa, e pode ser lido em 1 minuto. Eis aí minha primeira obra, ainda sem título [Quem sabe, "História de Tudo no Mundo"?]:

0. Primeiro aniversário
Mal abre a boca o sujeito.

1. Fenomenologia em gota
Se fica alegre, é a cachaça.

2. E pur si muove
Duas muletas, as dele: a ciência e a fé.

3. Dialética da corrupção moralista
Crio dificuldade hoje; vendo facilidade amanhã.

4. Escreveu, não leu...
Emprestava ao diabo a alma dos outros.

5. Extrema Unção
Deus e Diabo, juntos desligaram meu relógio.

6. O sol se apaga depois do Apocalipse
A Terra e a Lua, enfim, sós.

Sunday, October 05, 2008

Masturbação Mental Também é Cultura 2


Às vezes me parece que o mundo dos adultos se divide cada vez mais entre aqueles que adoram as crianças como se fossem semi-deuses ou seres humanos superiores e aqueles outros que acham as crianças estúpidas e simplesmente insuportáveis.

Eu tenho um filho de 7 anos que eu admiro sem reservas nem senso crítico e, portanto, pertenceria certamente ao primeiro grupo, mas tenho muitas reservas quanto à idealização da infância. A infância é fascinante, rica, livre de algumas amarras das quais os adultos padecem, mas daí a transformar isso em uma bondade inata... Acho um exagero quando as pessoas acham que qualquer criança é sempre boa simplesmente porque é pura e inocente – puro ou impuro, inocente ou experiente, o ser humano é um ser freqüentemente vil [e ocasionalmente maravilhoso] e as crianças são seres humanos!

Um exemplo recente do noticiário: um menino de 7 anos invadiu um zoológico e em 35 minutos matou brutalmente vários animais no centro de répteis de Alice Springs na Austrália. O garoto alimentou um crocodilo com diversos animais vivos que jogava na jaula do réptil. Dez répteis, uma tartaruga, quatros lagartos de língua azul, dois dragões-barbudos, dois diabos-espinhosos e um iguana de 20 anos e de 1,8 metro foram jogados para o crocodilo de 200 quilos. Outros três lagartos foram encontrados mortos em seus viveiros. O menino foi interrogado pela polícia, mas se manteve calado. Os policiais afirmaram que não têm a menor idéia do que pode ter motivado o ataque. As imagens do circuito interno de televisão do centro mostram o garoto sorrindo enquanto assistia o crocodilo atacar um lagarto de língua azul.

E os seres humanos ainda têm a cara de pau de usar a palavra réptil como termo ofensivo…

Friday, October 03, 2008

Cansado

Aqui está um traço da mancha da espuma da baba do verso raivoso, escrito no meu travesseiro, num pesadelo: o som abafado do osso esmagado por entre os ferros da porta do carro que arde no fogo; esvai-se o corpo em fumaça e em um punhado de cinza que o vento carrega do chão e a chuva retorna fundida na lama que o sol do meu sonho resseca num pó preto, amargo e fino, que irrita a garganta e desce ao pulmão. Como é que vem cá, no meio do sonho, e amarra a sua égua o velho cansado que espera o futuro aqui dentro, no centro no meio de mim?


3 dias dormindo depois das 4 da manhã e levando no máximo às 9 e meia, resolvi reescrever esse pequeno poema, agora em prosa. Antes ele era assim:

Cansado

Aqui está um traço
da mancha da espuma
da baba do verso
raivoso , escrito
no meu travesseiro,
num pesadelo:
o som abafado
do osso esmagado
por entre os ferros
da porta do carro
que arde no fogo;
esvai-se o corpo
em fumaça e em um punhado
de cinza que o vento
carrega do chão
e a chuva retorna
fundida na lama
que o sol do meu sonho
resseca num pó
preto, amargo e fino,
que irrita a garganta
e desce ao pulmão.
Como é que vem cá,
no meio do sonho,
e amarra a sua égua
o velho cansado
que espera o futuro
aqui dentro,
no centro
no meio
de mim?

Wednesday, October 01, 2008

O rei está nú!


"Quizás indignará a algunos hacer notar el paralelismo entre el pensar paciano y el cantinfleo. En Paz la dicotomía se resuelve en la eufonía; critica códigos con una dialéctica que empareja los opuestos, distendiéndolos. Cantinflas falla al rehacer (repetir) el discurso preexistente, ¡lo revuelve!, lo hace bolas, pedazos, lo vuelve incoherente; Paz logra rearticular los discursos preexistentes, los hace elocuentes, los reimagina, los embellece. Es Cantinflas corregido y estetizado." - Heriberto Yépez

Tuesday, September 30, 2008

Goya 2 - Caprichos


Segunda lição de Goya: olhar o inferno de frente, mesmo o inferno dentro da gente.

Monday, September 29, 2008

Sunday, September 28, 2008

O mal ator de suas emoções




O mal ator de suas emoções

Julio Torri [1889-1971]


E ele chegou à montanha onde vivia o ancião. Seus pés estavam ensangüentados por causa das pedras no caminho e o brilho dos seus olhos manchado pelo desalento e pelo cansaço.
- Senhor, sete anos se passaram desde que vim pedir-lhe conselho. Os varões dos mais remotos países louvavam sua santidade e sua sabedoria. Cheio de fé escutei as suas palavras: “ouve a teu próprio coração, e o amor que tenhas por teus irmãos não ocultes.” E desde então não encobria minhas paixões aos homens. Meu coração foi para eles como guia em águas claras. Mas a graça de Deus não desceu sobre mim. As mostras de amor que dei a meus irmãos, eles as tomaram por fingimento. E veja então como a solidão obscureceu o meu caminho.
O ermitão o beijou três vezes na testa; um leve sorriso iluminou a sua face e ele disse:
- Encobre o amor que tenhas a teus irmãos e dissimula tuas paixões ante os homens, porque és, meu filho, um mal ator de tuas emoções.

Esse é um poema em prosa escrito no México mais ou menos na mesma época do Modernismo brasileiro por uma figura importante da geração de intelectuais que antecedeu à Revolução Mexicana. Não era um grupo de artistas, embora muito fossem artistas também. Julio Torri, por exemplo, era professor de literatura e escreveu uma Historia da Literatura Espanhola. É uma reflexão simples sobre uma coisa que todo mundo que escreve deveria estar careca de saber, mas nem sempre percebe: que para ser autêntico há que saber representar, que para ser simples há que se ter artifício, que autenticidade e simplicidade, ao contrário do dita o senso comum, precisam de muita elaboração estética e não tem nada de transparente.

Thursday, September 25, 2008

Coração de Cachorro



[Esse post eu dedico para nosso querido Totó, atualmente vivendo em um sítio muito, muito longe daqui.]
Cachorros são sobreviventes natos, acima de tudo. Eu adoro um romance de um russo [Bulgakov] chamado "Heart of a Dog" [não sei se foi traduzido para o português] que ele abre com a "voz" de um cão abandonado nas ruas de Moscou no inverno. Um cozinheiro tinha jogado água fervendo para espantar o pobre do cão e uma hora o cão diz assim:
"My side hurts dreadfully, and I can see my future quite clearly: tomorrow I’ll have sores, and, I ask you, what am I going to cure them with? In summertime, you can run down to Sokolniki Park. There is a special kind of grass there, excellent grass. Besides you can gorge yourself on free sausage ends. And there’s the greasy paper left all over by the citizens – lick it to your heart’s content! And if it weren’t for that nuisance who sings “Celeste Aida” in the field under the moon so that your heart sinks, it would be altogether perfect. But where can you go now? Were you kicked with a boot? You were. Were you hit with a brick in the ribs? Time and again. I’ve tasted everything, but I’ve made peace with my fate, and if I’m whining now, it’s only because of the pain and the cold – because my spirit hasn’t yet gone out of my body…. A dog is hard to kill, his spirit clings to life."


Chegou
“Wait till I get him back
He won’t have a back to scratch”
Fiona Apple
Lá vem
vou entornar o caldo de novo
eu sei
vou perder de novo meu tempo
eu sei
de novo esse inferno todo
eu sei
mas não adianta falar
não adianta dar conselho
nem correr adianta agora
nem se eu pular pela janela
a pé
agora não adianta mais nada
eu estou a pé.

Eu sei como é
a fome dói aqui em cima
e aí vai
subindo uma dor nos quartos
e aí vai
os olhos e ouvidos se fecham
e aí a boca vai
se abrindo num grito medonho
que eu sei
espanta todo mundo que eu amo
eu sei
vai embora quem presta quem vale a pena vai
e eu sei
só ficam aqui do meu lado
nesse buraco que eu mesmo cavei
meus piores amigos
quem é ainda pior que eu
mas agora foi-se
azeite.
Eu não resisto
eu quero tanto
eu não consigo
eu não sei resistir
não sei sair disso
sair daqui
sair de mim
eu não sei não ser incondicional
me perdoa meu bem
mas eu não sei.
Lá vem
subindo quente rio acima
constante
esse fogo é esse fogo é fogo e aí
pronto
eu entro de novo pelo cano
eu sei
eu me arrebento todo lá embaixo
eu sei
explodindo quebrando arrebentando tudo
de novo eu sei
estúpido animal humano sou eu
eu sei
arrancando o cabelo pela raiz
de novo eu sei
imbecil duro o osso
careca de eu sei
queimando trocando os pés pelas mãos
na lama eu sei
é duro de roer esse meu osso
meu bem
estourando o balão cheio
outra vez na cara
do palhaço com o revólver na mão.
Lá vem
vou me estrepar outra vez
eu sei
perfeitamente bem
eu sei
eu vou me foder bonito outra vez
eu sei
mas me diz porque não?
porque não mais uma vez?
se eu não faço mal demais a ninguém
se eu não faço mal a ninguém mais
além de mim mesmo
se eu não faço sempre assim
se assim eu passo o tempo passa mais rápido
se assim eu não sou tão mal assim
no final das contas
no frigir dos ovos
se eu não tenho medo de sangue
se eu não tenho medo nenhum de mim
porque não mais uma vez?
Só mais uma vez
só mais uma
segura que lá vem
chegou.