Monday, November 17, 2008

Línguas Ferinas - Borges y Bioy Casares


Estou lendo o mastodonte de mais de 1500 páginas com os trechos dos diários Adolfo Bioy Casares sobre Jorge Luis Borges. Como esperado, a fofoca maledicente corre solta no livro e confesso que às vezes me sinto até um pouco sem graça de estar compartilhando assim a intimidade embaraçosa dos dois.

Um pequeno exemplo:

Jueves, 25 de octubre [1956]. Borges me dice: “Le dieron el Premio Nobel a Juan Ramón Jiménez”. Bioy: “Qué vergüenza…”. Borges: “… para Estocolmo. Primero a Gabriela [Mistral], ahora a Juan Ramón. Son mejores para inventar a dinamita, que para dar premios”. [232]

Outro exemplo:
Sábado, 25 de mayo [1957]
“Comentamos títulos absurdos. Recuerdo Libertad Bajo Palavra de Octavio Paz: ‘A continuación del título vigoroso, poemas deshilachados. Pero no agradables, no vayas a creer: en cuanto asoma la posibilidad del agrado, el poeta reacciona, no se deja ganar por blanduras, y nos asesta una vigorosa, o por lo menos, incómoda, fealdad. Así cree salvar su alma’.” [277]

Mais um, agora de natureza geográfica:
Borges: “El Rosario es tan Tosco, que parece incredible que sobre un hombre que camina por sus calles una enredadera no refleje una sombra complicada.” [424]

E por aí vai.

Fico espantado com o anti-comunismo e o anti-Peronismo abolutamente fanático dos dois, que chegam a torcer por um golpe militar na Venezuela só porque Peron estava exilado ali. Mas aí é que eu volto à questão da privacidade: imagine se publicam em livro as conversas particulares que você teve com um amigo íntimo – e é claro que no âmbito privado a gente tem direito de falar coisas que não pode falar publicamente, de ser nada razoável, de dar opiniões que vão ser desditas por você mesmo na semana seguinte, de dizer besteiras que não diria nunca em público, muito menos em um livro.
Esse tipo de livro deveria ser lido com essa perspectiva, com um distanciamento relativo que vale aliás também para a leitura da correspondência privada de alguém, mas tenho a impressão de que as pessoas não estão muito dispostas a esse tipo de sutilezas, principalmente porque hoje em dia muita gente faz questão justamente de dizer em público todo o tipo de barbaridades em busca de auto-promoção e celebridade, uma espécie de pornografia mental.

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