Saturday, January 31, 2015

Recomendação: "O método desviante" de Jeanne Marie Gagnebin

Momentos partiularmente significativos para mim no texto "O método desviante" de Jeanne Marie Gagnebin:

1. Não esquecer que o tempo é múltiplo: não é somente “chronos” (uma concepção linear que induz falsamente a uma aparência de causalidade) , mas é também “aiôn” (esse tempo ligado ao eterno, que, confesso, ainda não consegui entender…) e, sobretudo, “kairos”, tempo oportuno, da ocasião que se pega ou se deixa, do não previsto e do decisivo.

2. paciência e lentidão são virtudes do pensar e, igualmente, táticas modestas, mas efetivas, de resistência à pressa produtivista do sistema capitalista- mercantil- concorrencial

3. não querer ser “atual”, estar na moda, up to date, mas assumir o anacronismo produtivo, uma não-conformidade ao tempo (Unzeitgemässheit, dizia Nietzsche), não correr atrás das novidades (mercadorias intelectuais ou não), mas perceber o surgimento do devir no passado antigo ou no presente balbuciante, hesitante, ainda indefinido e indefinível.

4.  não levar demais a sério as “opiniões” pessoais, em particular as suas. São, no melhor dos casos, somente a ocasião de ir além delas, do reino dito encantado das “idéias” e “crenças” subjetivas. Não cair na ilusão liberal de que a liberdade se esconde nas escolhas individuais, arbitrárias e/ou manipuladas.

não se dobrar aos imperativos mercantis-intelectuais da “produção” de “papers” e da contagem de pontos nos inúmeros “curricula” e relatórios administrativos- acadêmicos: se tiver que contar “pontos”, conte para que lhe deixem em paz, mas não confunda isso com trabalho intelectual ou mesmo espiritual.

Friday, January 30, 2015

Sobre brigas que não são brigas

Uma entre várias coisas interessantes que li na entrevista de Jeanne Marie Gagnebin ao Suplemento Literário do Diário Oficial de Pernambuco:

Costumo falar para meus alunos que na discussão/briga entre Adorno e Benjamin sobre a perda da “aura” e a função utópica ou alienante do cinema, ambos podem nos ajudar: Adorno para entender o que é a “indústria cultural” que reina soberana na nossa sociedade; e Benjamin para entender as tentativas de práticas culturais e artísticas contemporâneas que se caracterizam muito mais pela “experimentação” do que pela criação de uma “obra” acabada e singular. Penso notadamente em todas as práticas como instalações, performances, atividades teatrais ou circenses ou cinematográficas lúdicas e efêmeras. A partir notadamente de suas reflexões sobre o teatro “épico’ de Brecht, mas também sobre o teatro de crianças proletárias (que ele conheceu a partir de sua amiga Asja Lacis), Benjamin tentou pensar mais em termos de “ordenação experimental” (Versuchanordnung) do que em termos mais clássicos de “obra de arte” (Kunstwerk).

Thursday, January 29, 2015

Auto-arqueologia: os anos de Belo Horizonte com Samuel


Há dez anos éramos três e vivíamos nessa rua ainda meio calçada de pedra no bairro da Serra em Belo Horizonte. Letícia Galizzi já era pintora e fazia coisas espantosas como essa série para pendurar num pau feito um varal de quadros. Alguns desses quadros ficam parede do nosso quarto no apartamento que a gente ainda tem na mesma rua, atualmente acumulando poeira.

Há dez anos estávamos bastante perdidos ainda. Mas tínhamos um menininho que nos desafiava a fazer melhor, a sermos um pouquinho melhores. Esse menininho de 3 anos hoje é um rapaz de 13. A gente vivia deitando na rede, a gente era, às vezes, bem feliz. Recuperar discos velhos tem dessas nostalgias.



Wednesday, January 28, 2015

Borges em Harvard

As aulas que Borges deu em Harvard em 1967/1968 estão gravadas e agora disponíveis online. É interessante escutar o velhinho malandro mor da literatura argentina fingindo-se de peixe morto e, aos poucos, destilando o seu famoso veneno porteño sobre os "astrônomos que nunca olharam para as estrelas"entre afagos e mais afagos aos seus ouvintes de língua inglesa.

Aqui entre nós a primeira conferência - devidamente disfarçada pela modéstia de quem não quer dizer nada para definir a poesia - é uma aula bem pedante de erudição. Ainda mais se nos lembramos de que todas as citações estão sendo feitas de memória, já que o conferencista era cego. Mas é divertido ver Borges discretamente contrabandeando Macedonio Fernández bem no meio de um luxuoso banquete das musas que vão de Keats até os gregos clássicos ou dizendo que o autor do Don Quixote queria tirar sarro da Mancha e acabou eternizando-a como grande berço literário.


E o inglês de "Georgie"?

Monday, January 26, 2015

Um esporte curioso

Um esporte curioso, seja nas redes sociais da internet, seja nos jornais ou outras mídias tradicionais, é o de dar palpite sobre eventos internacionais acontecendo em contextos sobre os quais sabe-se quase nada. Ao invés de procurar alguém que saiba português mas também conheça a Grécia, um bando de "formadores" de opinião [ou aspirantes amadores ao cargo] começam a propor teses [sempre relacionadas com o umbigo brasileiro] e até mesmo a bater boca sobre o assunto. O sujeito lê umas 20 páginas de jornais sobre o assunto e já começa a articular uma opinião cheia de certezas sobre o assunto, inclusive tomando partido e "torcendo" pela vitória de fulano ou sicrano numa eleição qualquer do outro lado do mundo.

Assim desfilam especialistas instantâneos em Venezuela que não sabem muito mais do dar nome a Caracas; especialistas em políticas sociais francesas; em movimentos islâmicos e religião muçulmana; em relações religiosas no Iraque; em agricultura no Afeganistão; em economia ucraniana e em relações étnicas na Turquia. E o pior é que parece que quanto mais superficial, mas enfática fica a voz dessas pessoas. Nem tudo que a gente encontra por aí é conversa mole: Camilla Pavanelli de Lorenzi criou uma série de "Boletins da Falta d'Água" que são tremendamente informativos e ainda por cima com uma redação divertida e interessante. Meu querido Daniel Salgado da Luz escreve volta e meia notas super-interessantes sobre a sua grande paixão, a ópera. José Geraldo Couto escreve sobre cinema para o IMS e, quer você concorde ou não, entende do que está falando. Meu colega Pedro Meira Monteiro escreve no seu Pena Vadia com um talento raro hoje em dia: consegue ser sutilmente afiado nesses dias em que confunde-se brutalidade com contundência.

Mas encontra-se muito daquilo que meu pai chamava de fancaria; às pencas, para dar e vender. 





Sunday, January 25, 2015

Viva la mídia loca: sobre o caso Heidegger [de novo]

O anti-semitismo de Heidegger e o seu comportamento durante os anos de nazismo no poder já tinham sido objeto de debates e controvérsias antes, mas parece que a publicação dos tais "Cadernos Negros" na Alemanha vão trazer uma nova força a uma discussão que parecia, para muitas pessoas, ter-se esgotado  [aqui uma nota sobre o assunto]. O filósofo Gunther Figal, diretor do departamento de filosofia da universidade de Freiburg e diretor da "Sociedade Martin Heidegger" desde 2003 acaba de pedir demissão do cargo com termos bastante contundentes:
“As chairman of a society, which is named after a person, one is in certain way a representative of that person. After reading the Schwarze Hefte, especially the antisemitic passages, I do not wish to be such a representative any longer. These statements have not only shocked me, but have turned me around to such an extent that it has become difficult to be a co-representative of this.”

Meu convívio próximo na universidade com figuras intelectuais as mais variadas me fez reagir sempre com um certo ar cansado às "denúncias chocadas" sobre comportamentos e manifestações mais ou menos privadas bem desprezíveis de machismo, racismo e classismo de figuras que escreveram, às vezes brilhantemente, às vezes nem tanto. Estou de acordo com um professor com o qual praticamente nunca estou de acordo quando ele declarou que, se alguém tem alguma ilusão sobre os efeitos benéficos da literatura ao caráter e espírito humano, basta conhecer os departamentos de literatura na universidade para saber que o buraco é mais embaixo. Não sei se os meios profissionais que conheço são piores que a média de outros meios profissionais que obrigam as pessoas a conviver num mesmo espaço comum, mas espero sinceramente, para o bem dos que trabalham em outros campos, que os que conheço não sejam melhores.

Justiça seja feita: tenho encontrado gente por aí com comportamentos pulhas, canalhas, covardes, arrogantes, vaidosos, ridículos, pedantes, safados, mentirosos, pusilânimes, brutos, mas também tenho encontrado gente honesta, leal, modesta, afável no trato, sincera. Suponho que seja assim em outros meios, desde a máfia até o convento, passando pelo sindicado, partido político, clube, condomínio, diretoria de escola de samba e torcida organizada.

Por um lado penso que qualquer pessoa que alega oferecer uma total transparência/coerência no seu discurso e conduta públicos, principalmente quando estes discurso/conduta são muito "coerentes e admiráveis", é um moralista hipócrita que finge não ter uma existência privada, digamos, humana e, portanto, cheia de falhas. Por outro lado, acho patética a tentativa de justificar safadeza, perversidade, desonestidade, discriminação e covardia em uma retórica sofisticada qualquer. E tudo fica mais ridículo e patético quanto mais sofisticada a retórica empregada ou mais canalha o comportamento privado desculpado por ela.

Tuesday, January 20, 2015

A desmesura de Alejandro González Iñárritu em três curtas

Um que fala sobre a vontade de impactar que o cinema carrega:



Um trabalho que criou bastante controvérsia sobre o 11 de setembro de 2001:



Um trabalho comercial [mesmo no sentido de propaganda] sobre futebol:

Monday, January 19, 2015

Poesia minha


Era uma vez Buster Keaton

Buster Keaton once said that making funny pictures
is like assembling a watch; you have to be sober or it won’t tick.


Era uma vez Buster Keaton
(que era muito meu amigo)
sentou na mesa comigo,
encheu o copo e me disse:
“filme pra fazer chorar
não sei, não vou opinar;
agora filme para rir
a gente monta assim,
como se fosse relógio,
no prumo exato mais sóbrio;
senão fica peça solta,
e aí o trem não bate.”

Eu, que era chato um tanto,
retruquei de bate pronto:
“Então tá então: e fulano?
Faz o quê da vida então?”

Meu amigo Buster Keaton!

Toma um golo na cerveja,
desce o copo cataplaque
na fórmica da mesa
e nem trisca na resposta:
“Fulano!? Fulano… ó:
o que eu sei que o Fulano faz,
além de falar o caray,
o que Fulano mais faz
mesmo é sombra.”


Thursday, January 15, 2015

De um vasto campo minado onde todos são seus inimigos ao bairro em que só os mortos saem para passear

O bairro da fama cheio de famosos passeando
Bolaño escreve um conto ["Encuentro con Enrique Lihn"] em que ele mesmo, expressamente sob o choque de ter ganho seu primeiro grande prêmio literário em 1999, sonha com o poeta chileno Enrique Lihn. Mais ou final no final do conto o mentor/defunto vira-se para o antigo pupilo e diz  "aunque no te lo creas, Bolaño, presta atención, en este barrio sólo los muertos salen a pasear."

No começo do conto ele relata melancólico sua vida antes da fama quando trocava cartas com Lihn: 

Antes de zumbi, tem que passear aqui
"sus cartas en cierta forma me habían ayudado, estoy hablando del año 1981 o 1982, cuando vivía encerrado en una casa de Gerona casi sin nada de dinero ni perspectivas de tenerlo, y la literatura era un vasto campo minado en donde todos eran mis enemigos, salvo algunos clásicos (y no todos), y yo cada día tenía que pasear por ese campo minado, apoyándome únicamente en los poemas de
Archilocus
Arquíloco, y dar un paso en falso hubiera sido fatal. Esto les pasa a todos los escritores jóvenes. Hay un momento en que no tienes nada en que apoyarte, ni amigos, ni mucho menos maestros, ni hay nadie que te tienda la mano, las publicaciones, los premios, las becas son para los otros, los que han dicho «sí, señor», repetidas veces, o los que han alabado a los mandarines de la literatura, una horda inacabable cuya única virtud es su sentido policial de la vida, a ésos nada se les escapa, nada perdonan. En fin, como decía, no hay escritor joven que no se haya sentido así en algún momento de su vida."


Assim se pode resumir bolañamente a carreira ideal de um escritor: sair de "um vasto campo minado onde todos são seus inimigos" para parar em "um bairro onde só os mortos saem para passear"...

Tuesday, January 13, 2015

Aventuras de um turista manco e míope em Vancouver

Essa árvore saudável  parecendo 
um paciente de UTI me encarou com seu 
uni-olho e perguntou, "tem base?" 

As pedras da cidade falam
Já fui um turista eficiente e contumaz. Coletava com antecedência informações sobre o lugar que ia visitar, fazia listas de lugares que tinha que visitar e usava mapas para distribuir atividades entre os dias que disponia. Chegando ao destino, tentava usar todo o tempo disponível para conhecer/experimentar coisas do lugar, desde de manhã até a noite, quando planejava os últimos detalhes do dia seguinte. Fazia notas, tirava fotos, guardava papéis de cada lugar visitado.
Trombo de quando em quando com abstrações involuntárias com as quais me apaixono.

E fantasmas nem tão velhos vem me assombrar.
Tudo isso acabou. Não tenho mais ânimo nenhum de ser o turista eficiente e contumaz que um dia fui. Acho bobagem passar um dia inteiro rodando um museu gigantesco até “conhecê-lo”, mesmo estando enfarado de tanta informação e com os pés cheios de calos. Agora sou um desastre como turista: saio da cidade  sem ter conhecido o famoso X, sem ter comido o famoso Y, sem ter passeado no famoso Z e passo em branco em tudo que é "essencial" para conhecer o tal lugar.  Sou capaz de passar uma tarde inteira lendo num café desconhecido e "desimportante" ou de frequentar durante três dias a mesma rua ou a mesma galeria de lojas mequetrefes no centro da cidade. 
A livraria padrão [poderia ser qualquer
Saraiva/Leitura da vida de qualquer
Xópi brasileiro] proclama sua
canadialidade...


... e trai logo no final da escada rolante trai
sua corporatividade modelo gringo-show
As fotos que eu tiro agora refletem isso. Em parte as minhas fotos são como são hoje porque a orgia de informações visuais na internet faz com que me pareça uma estupidez ficar me acotovelando com 200 pessoas para tirar a zilhonésima foto da praça de São Marcos ou do Corcovado quando uma busca simples no Gúgol me leva a fotos bem melhores. Além disso minhas fotos acabam refletindo o fato de que acabo desperdiçando meu tempo batendo perna e olhando para o chão e as paredes, as placas e pedrinhas que vou encontrando pelo caminho. Além do meu costume, desde dos meus tempos de turista contumaz, de esquecer a máquina no bolso ou na bolsa e acabar não fotografando coisas interessantes que vi pelo caminho.
o sebo Mc Leod's Books valeu a viagem!
Em compensação...


Cada um tem o Redentor
que merece. A presença da
cultura indígena contrasta
vivamente com o apagamento
do vizinho ao sul. 
Apresento assim as fotos da minha última viagem, viagem a trabalho solitária, apesar dos encontros com queridos amigos e colegas de profissão e de palestras interessantes. Vancouver na costa oeste do Canadá, pertinho de Seattle, foi minha segunda incursão nesse simpático e em grande medida desconhecido Canadá. Comi Poutine muito gostoso numa birosca da rua Davie, mas esqueci de fotografar o lugar e o prato. Também não consegui tirar qualquer fotografia das vistas lindas da baía em volta do centro que valesse a pena. 
Alegre família de macunaímas do gelo

Wednesday, January 07, 2015

Sobre o passado

Chael Charles Schreier é o número 87 [na ordem cronológica] da lista de 434 mortos e desaparecidos políticos no Brasil entre 1946 e 1988. É fácil conhecer a sua biografia. Ele nasceu em 1946 e morreu em 1969.  

Bem mais difícil é conhecer a biografia das cinco pessoas que mataram torturando barbaramente Chael Charles Schreier, história bem conhecida. Na mesma seção estavam Antonio Roberto Espinoza e Maria Auxiliadora Lara Barcellos, que cometeu suicídio na Alemanha em 1973 aos 31 anos. 

Muita gente estava lá, mais de dez, mais eram cinco militares oficialmente envolvidos: 
João Luiz de Souza Fernandes e Celso Lauria, capitães do CIE. 
Ailton Joaquim, tenente e Paulo Roberto de Andrade e Atilio Rossoni, sargentos na 1ª Companhia da PE.

•Ailton Joaquim recebeu a Medalha do Pacificador em 1970 e morreu em 2007 aos 65 anos.  Em 71 já tinha sido promovido a capitão, me informa o Diário Oficial daquele ano. Aos 27 anos, de microfone e retroprojetor deu aula de tortura para seus colegas usando dez presos/cobaias. 

•Celso Lauria nasceu em 14 de março de 1936 no Rio de Janeiro. Foi reformado capitão. Foi à Comissão Nacional daVerdade no dia primeiro de agosto de 2014 e se recusou a responder a quaisquer perguntas. Formou-se na turma Floriano Peixoto de aspirantes a oficial da cavalaria em 1960. Encontro lá uma fotinha dele, possivelmente no ano da formatura.

•Ailton Joaquim morreu em 2007 aos 65 anos. 

•Atilio Rossoni foi reformado já em 1973. Nada mais encontrei. Nem trocando o Rossoni por Rossone. 

•Paulo Roberto de Andrade tem um nome completamente comum: pode ser o dono do Boi Gordo ou o filho do bicheiro Castor de Andrade? Acho improvável. O jornal O Dia nos conta que em 2009 um "policial civil aposentado Paulo Roberto Nascimento" de 61 anos atirou duas vezes contra o motorista de ônibus Carlos Andrade Oliveira, de 30 anos, na altura da Estrada do Portela, em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio, após um desentendimento depois que o motorista se recusou a deixar o tal Paulo Roberto descer sei lá onde. Será?

• Mesmo problema tenho com João Luiz de Souza Fernandes, mas consigo achar coisas plausivelmente dele: consta como formando em 1960 na Escola de Equitação do Exército. O Diário Oficial de 31 de dezembro de 1970 nos informa que a Secretaria Geral do Exército exonerou o tal João Luiz de uma tal "subcomissão de hipismo". Nem meu mais delirante otimismo consegue imaginar que isso tenha sido punição pelo que ele fez com Chael, Roberto e Maria Auxiliadora.

Todos os cinco livres e completamente impunes, viveram ou ainda estão vivendo num confortável anonimato. Nem o Lauria, que foi convocado à Comissão da Verdade, tem uma fotinha que seja, caladinho na frente do microfone, já que ele se recusou a falar. Talvez ele nem tenha ido. 

João Luiz de Souza Fernandes, Celso Lauria, Ailton Joaquim, Paulo Roberto de Andrade e Atilio Rossoni, sargentos na 1ª Companhia da PE.Livre e completamente impunes pelo resto da vida depois de massacrar pessoas covardemente com as torturas mais abjetas possíveis. 
De pijama no domingo lendo um jornalzinho e tomando café na sala de chinelos depois de tudo isso.
Beijando os netinhos e vendo jogo de futebol. 
Contamos com quem para castigar esses sujeitos pelo que fizeram? O destino ou Deus, que se existir é um doido que dá câncer a crianças de cinco anos que não fizeram nada e não faz nada, nem uma dorzinha de dentes crônica, contra um sujeito contra Hitler? 

Antonio Roberto Spinoza em 2009

Monday, January 05, 2015

Ruínas em New Haven




Eu mesmo dou minhas fotografadas em fábricas abandonadas aqui em New Haven. 
Eis aí três fotos que tirei perto aqui de casa. 
Acompanho com um poema meu:


Stultifera Navis

eu sei o preço de ficar aqui
e sei o preço de ir embora
mas hoje meus bolsos estão vazios

eu tenho os dois pés descalços
plantados firmes nesse chão
entre a colheita vazia do não-mais
e o semeio do ainda-não

e tenho que gestar nessa ausência
algo que se possa chamar presença
montar um novo outro-que-não-é
do gelo podre desse o-que-é

eu sei o preço de ficar aqui
e sei o preço de ir embora
mas só tenho dois bolsos descosidos