Sunday, July 31, 2011

Keren Ann - I'm not going anywhere



Keren Ann:
“Time will rise and fall along the bay
And I’m not going anywhere
I’m not going anywhere
People come and go and walk away
But I’m not going anywhere
I’m not going anywhere”

[Essa é para aqueles que se preocupam com a recente transformação do "Às moscas" em "Às traças"...

Friday, July 22, 2011

Diário de Curitiba 3

Imagem: gravura de Poty com as araucárias que são símbolo da cidade e [oh incorrigível narcisismo!] do jardim no quintal da nossa casa na Serra em Belo Horizonte.

1. New Haven aparece no noticiário da TV sobre onda de calor nos EUA! A imagem mostra a ponte sobre o Quinnipiac em Fair Haven que o locutor diz que foi fechada por causa da dilatação da estrutura de ferro! Em Curitiba aproveito um dia morno e chuvoso [compro um guarda-chuva nas Lojas Americanas no caminho para o congresso] teima em contrariar a imagem de “capital mais fria do Brasil”.

2. De novo: travar um primeiro contato com uma cidade desconhecida é resistir à tentação de ler em tudo o que acontece significados além daquela experiência banal: um vendedor bem educado vira exemplo de uma cidade cordata; um mendigo no centro demonstra indiferência com a desigualdade social; pai e filho conversando em japonês indicam uma colônia japonesa que preserva sua identidade; um engarrafamento prova de que o trânsito não é tão bem administrado; uma rua cheia de pedestres nos mostra que não se depende tanto de carro.

3. Poty Lazzarotto é uma espécie de artista plástico oficial de Curitiba, com grandes murais espalhados pela cidade. Mas falta um local onde se possa arquivar e exibir a sensacional obra do ilustrador de Guimarães Rosa e da nata da ficção brasileira [Raul Bopp, Jorge Amado, Rachel de Queiróz, Darcy Ribeiro, Euclides da Cunha, Dalton Trevisan, Valêncio Xavier]. Alguém me diz que muita gente na cidade torce o nariz para Poty – pelo caráter de artista official da cidade ou simplesmente porque “santo de casa não faz milagre”?

4. Mais tarde, num excelente sebo na rua Emiliano Perneta, encontro um único exemplar do livro de Valêncio Xavier editado pela Companhia das Letras sendo vendido a R$150. Seriam os santos de devoção da cidade ou exemplo de interesse por esses excelentes escritores que a cidade parece produzir às pencas? Brinco com alguém daqui que deve haver algo especial na água da idade de Dalton Trevisan e companhia. A pessoa me responde na lata: com esse frio e chuva e numa cidade em que nada de interessante ou importante acontece o que é que as pessoas vão fazer se não forem escrever?

5. Várias referências ao conservadorismo da cidade, vindo de pessoas diferentes: alguém até fala de um casal homossexual de professores universitários qu pensa em se mudar em vista da hostilidade dos vizinhos. Vejo na parede de um cartório uma baita foto do Papa João Paulo e, na parede do lado oposto, um crucifixo dourado. Já me vejo tentado a viajar na maionese e imaginar uns católicos poloneses prontos para escalpelar os infiéis em qualquer esquina. Mas e o curso de “Deusa do Amor”, anunciado com uma faixa na entrada da boutique de roupas eróticas?

Tuesday, July 19, 2011

Diário de Curitiba 2


1. Em minhas incansáveis [bom, na verdade estou exausto] andanças pelo centro de Curitiba, trombei com uma exposição excelente de Debret no Centro Cultural da Caixa Econômica. Uma gentil funcionária da caixa me deu um catálogo da mostra quando eu tentei tirar fotos desses e outros tropeiros [ou eu ando dando muita sorte ou as pessoas em Curitibas são de uma gentileza impressionante].
2. Nunca vi uma fila tão grande numa caixa de supermercado. Ia comprar umas maçãs e depois de uns quinze minutos, longe ainda de ser atendido, acabei desistindo.
3. Fui tomar um café no mercado: limpo, cheiroso e arrumado. Descobri um tal "café mineiro" com doce de leite que me deu idéia da nossa fama de comedores ou fabricantes de bom doce de leite, mas preferi o café normal mesmo. Esqueci meu casaco por lá - prova de que o terrível frio curitibano ainda não deu as caras. Mas sinceramente quem vive onde eu vivo não pode ter medo de frio no Brasil...
4. Descobri que não consigo entender uma coisa sobre essa pronúncia de erre "americano": por que é que algumas pessoas falam assim e outras não numa mesma cidade? Já entendi que é só nos erres antes de consoantes: porta leva, mas carro, não. Carta leva mas cara não. Quando eu vou falar [adoro aprender a falar em outros sotaques], me enrolo todo e acabo enviando o tal erre onde não devo. De qualquer maneira ainda falta entender esse cantar que me parece estar num interessante meio do caminho entre o paulista e o gaúcho.

Monday, July 18, 2011

Diário de Curitiba

1. A gente fica tentado a interpretar o que vê, mas de que vale um passeio cego pelo centro num par de horas? Gosto das calçadas de pedra portuguesa, dos prédios e casas mais ou menos antigos que não foram demolidos e estão bem cuidados, das ruas para pedestres, das pracinhas de interior, da gente na rua, dos velhos confabulando como na antiga praça 7, do português cantado e dos erres a maneira do Sul de Minas.
2. Minha Curitiba é uma sombra de Belo Horizonte: coisas iguais, coisas parecidas, coisas diferentes. Se Belo Horizonte tivesse tido um prefeito muito bom desde os anos 70, a cidade poderia ter um centro tão aprazível e bonito. Apesar disso o tom menor, de uma cidade que vive para si mesma e se esconde um pouco dos turistas vale para cá também, pelo menos nessa primeira caminhada no centro. Curitiba, como Belo Horizonte, não se entrega de bandeja ao turista acostumado a cidades turísticas que vivem de encantar visitantes.
3. Entro numa livraria - péssima - mas qual a probabilidade de alguém perambulando por Belo Horizonte encontrar a Fernandes Tourinho? O único livro sobre a cidade vai das curiosidades ["Curitiba significa um monte de araucarárias ou de pinhas"] a nonsense ["a colônia japonesa é famosa pelo seu folclore meigo"].
4. Trombo com uma exposição surpreendente de Botero sobre a violência na Colômbia e faço as pazes com os gordinhos do pintor. Caminho mais uns quatro quarteirões e encontro "Rico Pão", uma padaria/lanchonete honesta. Do outro lado da padaria onde como um misto quente vejo uma faixa pendurada na porta da "Madame Celine - Boutique Sensual" oferecendo um "Curso Deusa do Amor" e prometendo "encante com: pompoarismo, massagem sensual e strep tease."

Friday, July 15, 2011

Poesia Minha - Browning e o Mundo

BROWNING E O MUNDO

A tap at the pane, the quick sharp scratch

And blue spurt of a lighted match,

And a voice less loud, thro' its joys and fears,

Than the two hearts beating each to each!

ELE fez da gente

essa carne salgada,

essa bolha inflada,

a massa socada

que gruda e engarrafa ao chão

a alma amarga,

esse bafo ínfimo,

vertigem de cinza e de nada.

Mas também traçou

com engenho e arte

nessa mesma massa

os picos e rachas

por onde escapa

esse fino vapor engenhoso,

esse fogo esbelto,

essa música delgada,

essa coluna de silêncio puro,

esse doce rio

quente, assombroso

que se levanta do leito

e flui pelos ares.

Corpo, alma e orgasmo:

eis o Seu artesanato.

Formigueiro que cresce na caixa

de ferro soldada

até não caber.

Wednesday, July 13, 2011

Definição de literatura, ou o diabo mora nos adjetivos

Leyla Perrone-Moyses disfarça mas acaba tentando definir literatura na Folha de São Paulo no último Domingo:

"... textos escritos numa linguagem particular, que interrogam e desvendam o homem e o mundo de maneira aprofundada, complexa, surpreendente."

Bom, o diabo mora mesmo é nos adjetivos. Resta saber - para começar - o que significa exatamente "particular". Depois vamos a "aprofundado", "complexo" e "surpreendente"...

Se a literatura morreu ou está morrendo, deve ser uma daquelas intermináveis mortes de melodrama, quando o personagem do pai honesto mas pobre fazia um longo monólogo no leito de morte enquanto a mocinha segurava a sua mão e sutentava sua cabeça.
A melhor parte da "Ilustríssima" (que devia chamar-se mesmo "Caderno Magérrimo") foi o (particular, aprofundado, complexo e surpreendente?) poema de Ana Martins Marques, "O relógio". Não fosse essa última página, eu diria que quem está a beira de bater as botas são os cadernos culturais dos jornais de Pindorama...

Monday, July 04, 2011

Poesia Minha - LUNA PARK

Escrever poesia para mim é ficar sempre balançando entre fragmentação e coesão. Um exemplo: escrevi há tempos um poema chamado LUNA PARK, que era assim:

Mash-up: LUNA PARK

Nací cuando del sollozo del último siglo,

No se oía ni un solo eco

Luis Cardoza y Aragón

O soluço do último século

abriu a fenda onde passaram

galopando as montanhas.

O século seguinte

ofereceu a Dom Quixote

um aeroplano,

lastre lançado ao passado.

Do trigo dos campos de batalha

um grão de loucura

germinou nas minhas entranhas.

O rio suicida me piscou um olho;

sua suave sonolenta corrente noturna

não quer os barcos que singram, fumando,

pacientes, sobre trilhos, no mar.

Nesse bosque de chaminés fumantes

escuto o músculo obediente,

fiel, sonoro, da máquina,

construindo castelos no ar.

Para as vidas sublinhadas

em vermelho pela guerra

o choro veste os rostos

com caretas de máscaras de clown:

o futuro é um feto que não vem.

E que Deus é esse

que só ouve súplicas em inglês?

Que prazer sentir-se bruto

e desfolhar a vida sem saber

nada da feira do mundo,

nada desse LUNA PARK

enorme, fantástico,

triste farsa universal!


Deixei descansar e quando li de novo pensei: "fragmentado demais, assim ninguém [nem eu] entende nada. Então reescrevi tudo e o poema ficou assim:


LUNA PARK

Nací cuando del sollozo del último siglo,

No se oía ni un solo eco

Luis Cardoza y Aragón

O soluço do penúltimo século

abriu uma fenda por onde passaram

galopando as montanhas.

O século seguinte

ofereceu a Dom Quixote

um aeroplano,

lastre involuntário

lançado ao passado.

O rio suicida me piscou um olho;

sua suave sonolenta corrente noturna

não quer mais os barcos

que singram pacientes sobre trilhos,

fumando, no mar.

No velho bosque

de chaminés fumantes

se escuta o eco do músculo

obediente, fiel,

sonoro, da máquina

que construía castelos no ar.

Do trigo dos campos de batalha

outro grão de loucura

germinou nas entranhas:

para as vidas sublinhadas

em vermelho pela guerra

o choro veste os rostos

com caretas de máscaras de clown

e o futuro é um feto

que não cresce, no formol.

E que Deus é esse

que só ouve súplicas em inglês?

Ainda o prazer

de sentir-se bruto

e desfolhar a vida sem saber

nada da feira do mundo,

nada desse enorme,

fantástico LUNA PARK,

triste farsa universal!


Deixo descansar agora e provavelmente quando voltar a ele vou pensar: "nossa, ficou óbvio demais..."

Em tempo: Luna Park era um parque de diversões emblemático da virada do século XIX para o XX - mas poema com nota de pé de página!?

Friday, July 01, 2011

Uma guerra neo-liberal: TCNs, ou uma nova legião estrangeira de civis

Em dez anos mais de dois mil civis contratados - muitos deles estrangeiros contratados de forma ilegal em países de terceiro-mundo por empresas de recursos humanos que prometem empregos em lugares como Dubai e mandam os caras para a guerra lavar pratos, cortar cabelo ou fazer batata frita para os soldados - morreram e mais 51 mil ficaram feridos em bases americanas no Iraque e Afeganistão. Pela primeira vez, as perdas de funcionários de empresas privadas se equiparam com as de tropas americanas nas duas zonas de guerra, chegando a 53% das vítimas do lado americano nos primeiros seis meses de 2010.


Mais aqui.

O nome dessa gente na burocracia da guerra é TCNs [Third-Country Nationals]. Um exemplo de TCN, para dar stofo ao esqueleto das estatísticas: Constantine Rodrigues, homem de 38 anos deixa mulher grávida em Goa atrás de um emprego que paga $450 por mês no Pizza Hut num acampamento americano no Iraque. Depois da explosão de um foguete que matou dois dos seus colegas de trabalho, TCNs de Bangladesh, Constantine vai voltar para Goa para encontrar seu filho de sete meses e sua esposa sem um olho e uma perna.