Friday, August 30, 2013

Diário de Família: Aprendendo a deixar para trás

Fotos minhas: meu filho brincando com três varetas e a imaginação
Há mais ou menos um mês, quando voltamos do Brasil, meu filho resolver dar seu bicho de pelúcia preferido, um tigre que ele chamava de Haroldo em homenagem ao companheiro do Calvin, para a sua irmã. Quando ela acordou e saiu de casa deixando o Haroldo no chão, meu filho escreveu um bilhete "do Haroldo para a Olívia" e pôs em cima do travesseiro dela, dizendo que ele não gostava de ficar no chão. Ele depois escreveu numa redação com tema livre da escola que ele tinha decidido dar o Haroldo para a Olívia porque ele não queria mais ficar apegado demais às coisas do passado, com medo de perdê-las.

Me lembrou "Os cimos" de Guimarães Rosa, quando o menino protagonista precisa aprender a lidar com a ansiedade da perda:

" Mas o menino concebia um remorso, de ter no bolso o bonequinho macaquinho, engraçado e sem mudar, só de brinquedo, e com a alta pluma no chapeuzinho encarnado. Devia jogar fora? Não, o macaquinho de calças pardas se dava de também miúdo companheiro, de não merecer maltratos. Desprendeu somente o chapeuzinho com a pluma, este, sim, jogou, agora não havia mais. E o menino estava muito dentro dele mesmo, em algum cantinho de si. Estava muito para trás. Ele, o pobrezinho sentado."

O menino do conto é bem mais novo e enfrenta a perspectiva terrível de talvez perder sua mãe, armado de sua própria imaginação. Se eu algum dia eu pudesse começar a explicar a graça de conviver com crianças, seria assim. É um mistério para mim entender como é que tantos adultos, tanta gente interessante e legal e pessoas que inclusive conseguem ser muito bons pais [a começar pelos meus próprios] não vê a menor graça nesse convívio com as crianças. 

Thursday, August 29, 2013

Recomendação: Área de Livre Poesia das Américas

Uma proposta simples e interessante. Poemas traduzidos, todos em espanhol, inglês e português de poetas contenporâneos. Gostei bastante do chileno Yank González. O site está aqui.

que no quiere
Yanko González
“Que
no
quiere
morir
como
un
perro
nadie
quiere
morir
como
un
perro
todo
ser
humano
merece
no
morir
como
un
perro
ha
vivido
como
cerdo
y
no
quiere
morir
como
un
perro”
:

Wednesday, August 28, 2013

Recordar é viver: Comemorando 50 anos do sonho

1. Martin Luther King era um pastor evangélico. Religião, seja qual for, e justiça social não são inimigos. Religião e inteligência não são inimigos.
2. A marcha de cinquenta anos atrás foi importante como momento simbólico da luta pelos direitos civis dos negros nos EUA e marcou o brilhantismo de MLK como orador, mas ficou muito longe das várias marchas e protestos feitos em um ambiente hostil no Alabama. Foi lá que MLK tornou-se o líder respeitado do movimento, forçando sua aceitação contra posições mais moderadas e gradualistas dentro do movimento negro.
3. 50 anos depois o presidente é negro, mas o poder simbólico tem limites muito nítidos. Não quero nem falar em prisões nem dar muitas estatísticas abstratas. Eu moro num bairro excelente cujas casas valem a metade de outro bairro também excelente porque no meu bairro excelente pelo menos a metade das casas são de famílias afro-americanas. Não posso me queixar porque pude comprar a casa que comprei graças a isso, mas o corretor de imóveis resistiu bastante a nos trazer para ver casas aqui no bairro. 75% da cidade é de latinos ou negros e 50% da cidade vive abaixo da linha da pobreza. Já vi a polícia parar dezenas e dezenas de carros em Connecticut e mais de 80% deles eram dirigidos por motoristas negros. Já sugeriram à minha esposa que se auto-intitulasse italiana ao invés de brasileira - ela tem o passaportemas não fala italiano e nunca morou por lá.
4. MLK era um gênio político porque soube usar os poderosos mitos nacionais dos Estados Unidos que se imagina como uma república democrática perfeita para articular um discurso poderosíssimo de convencimento. Já está na hora de alguém fazer a mesma coisa com a ideia de uma harmoniosa democracia racial no Brasil... 

Friday, August 23, 2013

Postais: uma cadeira e duas maçãs

Clarice descansando no final da tarde, flagrada neste site


"Não me posso resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo."
Clarice Lispector em Água Viva

Thursday, August 22, 2013

Postais: Lembrar-se o que o os outros esquecem

"The historian's business 
is to remember 
what others forget." 
Eric Hobsbawn, citado por Edward Said

Tuesday, August 20, 2013

De como extrair uma limonada de um limão de plástico 2 - Impostos

-->
Continuando minha incursão por assuntos que são da minha conta resolvi tentar comparar os impostos de renda [não me peçam para sequer começar a entrar no cipoal de impostos nos dois países].

O salário mínimo nos EEUU é expresso em horas. Assim temos que fazer uma primeira conversão. Em Connecticut o mínimo é de $8,25 por hora, o que poderia dar em 1.584 dólares por mês se o sujeito trabalhar 8 horas por dias, 6 dias por semana. No caso ele teria retido na fonte mais ou menos US$160.35 por mês [se fosse casado com dois filhos].  

O absurdo de comparar essa situação com a de um infeliz casado com dois filhos que ganha um salário mínimo de 678 reais (ou 282.50 dólares) no Brasil é tão patente que eu nem vou falar mais nada. 

Ainda nas minhas fuçações de economista de araque, constato que o renda per capita do estado de Connecticut [conhecido aqui em casa como "conecta e corta"] é de $34,849 ao ano, o que dá numa conversão para os 13 meses de salário no brasil em US$ 2.680,69 por mês - R$6.433, 65. Nesse caso o imposto retido na fonte seria $337,35 por mês - R$809,64.

Connecticut é o terceiro estado com a renda per capita nos EEUU. O terceiro estado no Brasil é Santa Catarina, onde a renda per capita é R$967,45, o que dá R$12.576,85 por ano. E o imposto retido neste caso é zero.

Mais uma vez isso não quer dizer muito: renda per capita só serve para alguma coisa numa situação de distribuição de renda mais ou menos equitativa. Do contrário, dois bilionários elevam a renda per capita de um determinado lugar apesar de um exército de milhares de miseráveis.

Apenas chamo a atenção para o absurdo de comparar um salário de 5.000 reais no Brasil e o equivalente nos Estados Unidos. No Brasil estamos falando de uma elite que ganha mais de cinco vezes a renda per capita [em SC] enquanto que nos EEUU estamos falando de um cara que não ganha nem um terço dessa renda [em CT].  

A conclusão final é a de que não faz muito sentido comparar os impostos na fonte, no final das contas ou quando for no Brasil com os do país mais rico do mundo a não ser que faça sentido comparar um sujeito bem estabelecido na classe média alta de um país com um sujeito quase-carente do outro.


Monday, August 19, 2013

De como extrair uma limonada de um limão de plástico

Fiquei intrigado com um daqueles posts ilustrados que aparecem quase diariamente no fcbk afirmando que o Brasil tinha a gasolina, os políticos e os impostos e mais um punhado de outras coisas mais caros do mundo e daí a revolta apesar do povo alienado e o Lula e a Dilma e bla bla bla.

Aí eu paro e penso, "Mas como é que alguém pode constatar que todas essas coisas são mais caras do que em qualquer outro lugar do MUNDO"?

Por curiosidade resolvi comparar o preço da gasolina ontem em Belo Horizonte e em New Haven. [Sou curioso mas não sou economista nem tenho tempo assim à toa.] Encontrei na internet dados sobre os preços cobrados nos postos das duas cidades ontem. Depois a coisa era mais ou menos simples, dependendo de converter dólares em reais e galões em litros.

De fato a gasolina em BH era mais cara. O preço variava entre R$2.58 e R$3.00 por litro, enquanto aqui em New Haven ele variava entre R$2.29 e R$2.46 por litro.

Eu paro e penso que meu post ilustrado não impressionaria ninguém dizendo:
"A gasolina no domingo passado em Belo Horizonte estava de 29 a 54 centavos mais cara que a gasolina em New Haven!"

Claro que eu podia trocar para porcentagem e usar a distância maior entre os dois preços mais caros e dizer "gasolina é mais de 20% mais cara em BH do que em NH!" Ainda assim não impressiona tanto.

Mas, se eu trabalhasse na Veja ou quisesse impressionar meus amigos de fcbk, eu podia pegar o preço mais barato em NH em comparação com o preço mais caro em BH e omitir as duas cidades:

"Constatei que a gasolina no Brasil é quase 50% mais cara que a gasolina nos EUA!!!!!!!"

Paro e penso que preciso achar outro termo de comparação e acabo descobrindo em reportagem da Bloomberg [longe de ser um QG do comunismo islamita internacional] que na França paga-se US$8.38 por galão de gasolina. Isso dá R$5,28 por litro [com o dólar do domingo passado]. Ah, e a reportagem ainda me informa de brinde que a França tem a nona gasolina mais cara do mundo. [sinceramente não tenho tempo para descobrir qual é a gasolina mais cara do mundo]

À essa altura paro e penso que o impacto do preço da gasolina numa economia depende, é claro, da dependência dessa economia do uso desse combustível e preço cobrado na bomba [caros amigos do NSA, bomba é o termo em português para PUMP e não tem nada com BOMBA, ok?] pode inclusive funcionar como incentivo ou desincentivo ao consumo/dependência maior.

Friday, August 16, 2013

Música: Domingo


-->
Domingo
do álbum Ciencia de los inútiles


Omar Rodríguez López: violão
Ximena Sariñana: vocal

En el final nos ganan los recuerdos
Recta fugaz de todos mis anhelos
Cuánto amor perdido entre mis dedos
Todo el dolor de lo que me arrepiento

Dejo atrás figuras en mis sueños
Sin terminar se quedan my proyectos
Me llevará calor de mis cariños
Les hablaré de nuestros desatinos

Tengo ganas de vivir
Toma un pedazo de mí

Respetaré las cosas que vivimos
Juntos al fin vestimos desafíos
Quédate quieto que ya no tengo frío
 Me llevará la mano del destino

 Tengo ganas de vivir
 Toma un pedazo de mí

Wednesday, August 14, 2013

Postais: Escavando Notas


Na retórica regida pelo cozinheiro perfeito, 
o texto vira receita e a narrativa, refeição.
Trecho de texto de David Jackson sobre Oswald de Andrade e André Breton que saiu na última Rematede Males.

Monday, August 12, 2013

Poesia mexicana: José Juan Tablada


A un Lémur (Soneto sin ripios)
GO
ZA
BA
YO

A
BO
GO
TA

TE
MI
RE

Y
ME
FUI

Vários livros de Tablada estão disponíveis em facsímile aqui. Recomendo Un día de 1919 e Li Po de 1920, de onde veio o poema acima.

Friday, August 09, 2013

Postais: Alberto Vital acerta no pau da moleira

Duas páginas de um caderno de notas meu


"... sin libre albedrío nadie alcanza a ser ni siquiera una mala persona."
["... sem livre arbítrio ninguém consegue sem sequer ser uma pessoa ruim."]
Do poema "Auschwitz em Sonora" de Regalos de la Tierra do mexicano Alberto Vital

Wednesday, August 07, 2013

Postais: William Blake e ações afirmativas


Imagem: Parte de uma página de um dos exemplares originais do livro artesanal de Blake contendo a citação abaixo
“One Law for the Lion and the Ox is oppression.”



Recordar é viver: truculência, resistência e heróis de carne e osso

-->
James Bevel [1936-2008] era um de dezessete filhos de uma família muito humilde, nascido num fim de mundo do estado do Mississippi. Quando adolescente trabalhou nas siderúrgicas de Cleveland e quase virou cantor antes de tornar-se pastor. 
Em 1963 ele participava do grupo liderado por Martin Luther King [o Southern Christian Leadership Conference, um grupo de negros evangélicos] e visitou a mãe e a irmã de Jimmie Lee Jackson [ver este post passado], que ainda se recuperava da violência que tinham sofrido e se preparavam para enterrar o filho e irmão. Elas disseram a Bevel que as marchas e os protestos tinham que continuar. Bevel saiu de lá e fez um sermão histórico em que propôs a marcha de Selma a Montgomery a capital do Alabama como Ester havia visitado o "rei" para defender seu povo - o rei nesse caso era o governador George Wallace. 
Um semana depois, o sermão do enterro de Jackson foi feito pelo próprio MLK e ele pedia a todos os presentes que, em nome de Jackson, se trocasse a cautela pela coragem.

Dizem que foi Bevel quem convenceu um relutante MLK a deixar que crianças participassem das marchas de protesto da SCLC em 1963. As cenas dessas crianças sendo tratadas da pior forma possível pelas forças da ordem do estado do Alabama finalmente mobilizaram a opinião pública americana contra a repressão brutal que o movimento sofria nas mãos da polícia e de todos os poderes constituídos no Alabama.

Bevel era pastor mas não era santo. Foi condenado por incesto e estava preso antes de morrer de câncer

Outra participante ativa do movimento, Diane Nash [com quem Bevel foi casado po sete anos] foi uma figura impressionante do movimento e foi presa diversas vezes. Depois de um atentado à bomba que matou quatro meninas em Birmingham, Nash e Bevel foram ao estado do Alabama juntar-se à luta pelo direito ao voto. Nash dá um depoimento curtinho no vídeo abaixo sobre como lidou com a intimidação e o medo:


Tuesday, August 06, 2013

Postais: Narciso de Gide


Arte Minha: "the human force clings"

"Todas as coisas já estão ditas; 
mas como ninguém escuta, 
é preciso recomeçar sempre."
André Gide em "O tratado de Narciso" traduzido por André Vallias aqui.

Monday, August 05, 2013

Postal do Inferno e Poesia Minha: Hikikomoris e "O poema desliza em si mesmo como um cubo de gelo numa chapa quente"

As fotos acima são de Hikikomoris, pessoas, geralmente jovens, que se internam em seu quarto e nunca saem de lá, comunicando-se com o mundo exterior apenas através da internet. Calcula-se que sejam centenas de milhares só no Japão.  
 
O poema desliza em si mesmo como um cubo de gelo numa chapa quente


O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

O medo amargava o cabo da língua
quando os loucos de Barbacena descarnavam
dentro de barris cheios de ácido
que detalhavam indiferentes o podre do são
e os ossos abasteciam os mostruários
das escolas de medicina onde se aprendia
a autopsiar fugas e atropelamentos impossíveis. 

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Gostava dele quando eu fechava os olhos
e na língua sem palavras que trago comigo
era tudo um imenso domingo universal.
O calor em que o cão pendura a língua
segurava meu coração pelo rabo
na linha de resguardo,
mas não parava o tempo.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Atrás de sorte e morte
as ruas fermentavam restos de urina e cerveja quente
mas o patrimônio específico dos corações inferiores
como o meu é o ressentimento,
canoão no seco, trem de doido,
pronto para me levar,
oco sem beiras,
para parar de ser
em Barbacena.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

A gente se acostuma com esse vendaval
e ouve o silêncio que existe em toda a solidão.
Cai o parasita, fica o tronco morto.
A seleção natural,
o equilíbrio das espécies:
a imagem do desconsolo,
o horror do mundo.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Em nome de nada,
em nome de ninguém,
sem nenhum sonho,
sem ternura,
sem a paixão da piedade,
sem saudade,
com a fome que nasce
quando a boca está perto da comida,
como o poema e não o seu nome;
como o poema limpo do retorcido desejo humano,
existindo como é.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Eu sei.

 

Sunday, August 04, 2013

Postais - Emerson


your songs 
"are never the same, 
but always new,
like time itself,
or like love."

Thursday, August 01, 2013

Recordar é viver: truculência vs. desobediência 1


Símbolo e slogan do partido DEMOCRATA no Alabama até 1966
Em 1896 o estado da Louisiana tinha mais de 130 mil eleitores negros registrados. Em 1904 restavam apenas 1.342. Selma, no estado do Alabama, tinha a maioria da sua população negra, mas em 1965 apenas 383 dos 15 mil negros que ali viviam estavam registrados para votar.  Perto de Selma, a população negra chegava até 80%. Por exemplo, em Lowndes nenhum negro podia votar em 1965. Como isso acontecia? Voto facultativo, leis absurdas para o registro de eleitores e muita violência e intimidação. MILHARES de linchamentos entre 1880 e 1920, muitos deles em Lowndes.
Jimmie Lee Jackson
Nos anos 60 os negros do Alabama cansaram de protestar contra a segregação e a falta de direitos políticos apenas pelos parcos meios legais, como era a tradição do NAACP. Em 1965 a polícia prendeu por incitação à desordem um militante chamado James Orange em Marion. 400 manifestantes organizaram uma marcha, obviamente não aprovada pelas autoridades, até a delegacia. Foram recebidos por uma força policial armada até os dentes e o pau comeu feio. Um policial, James Fowler, deu dois tiros em Jimmie Lee Jackson, um jovem de 26 anos que havia se refugiado dentro de um café e tentava proteger sua mãe de policiais que baixavam o cacete em todo mundo. Saindo do café, Jackson foi ainda espancado violentamente e depois deixado na rua por meia hora, sangrando. Levado por um companheiro num carro funerário para um hospital em Selma, Jackson recebeu ainda no hospital a visita de um oficial do estado que declarou sua prisão por tentar matar um oficial de paz. Oito dias depois, Jimmie Lee Jackson morreu.



Eis o líder dos protestos contra a morte de Jackson, que fariam três marchas de Selma até a capital do estado para confrontar o famigerado governador George Wallace:
A marcha passaria por Lowndes...