Sunday, May 21, 2017

Dez motivos para morar e para não morar em Babylon [segunda parte]

Parte 2

Agora os motivos para não morar em Babylon:

O bananão que há
1. As bananas daqui têm gosto de papel e um cascão grosso - são um lixo.
2. As mangas aqui tem gosto de papel azedo e são também um lixo. O caso das mangas ainda é pior porque eu costumo ir ao Brasil em julho, portanto fora da estação das mangas. Então são 10 anos sem comer uma manga de verdade.
3. O assédio constante, incansável de vendedores picaretas de todos os tipos golpe no telefone, email, correio, rádio, televisão, redes sociais, outdoors, anúncios pregados no ônibus, folheto de supermercado e até na porta da sua casa. A malandragem aqui é toda feita com papel passado, e ninguém pensa duas vezes antes de se aproveitar mesmo das pessoas mais desamparadas. Parece até que eles farejam de longe aquele estrangeiro que não sabe falar inglês muito bem e não acha que não existe malandragem em Babylon.
4. A política aqui, no nível municipal e estadual, é em grande medida completamente dominada por um dos dois partidos. A máquina partidária então domina completamente. São 50 anos de vereadores, prefeitos, deputados e senadores estaduais e deputados federais sempre do mesmo partido. A minoria [seja ela 10%, 30% ou 40% dos votos] não elege ninguém nunca e não tem qualquer tipo de representação em lugar nenhum.
5. Ver meu filho de seis anos jurando a bandeira em nome de deus e da união patriótica depois de ter crescido numa ditadura militar que me fazia jurar a bandeira em nome da ordem e do progresso não é sopa.
6. Esse ponto diz respeito ao canto nordeste dos EUA, onde vivi por praticamente 10 anos. Para os padrões de um brasileiro do sudeste faz frio de outubro até abril. Abaixo de 10 graus de novembro até março. Aí começa a fazer um calor para humilhar o verão do Rio de Janeiro. Porque seres humanos vivem aqui em grande número é um mistério que o fato de eu viver 10 anos aqui não explica.
7. Mais de 15 anos gastando bilhões com uma guerra absurda que não acaba nunca mais e 15 anos escutando gente muito inteligente e razoável dizer que é preciso cortar custos, que o governo deve muito e é grande demais, que os professores ganham muito, que as mães solteiras e os viciados em drogas exploram o sistema etc.
8. Aqui não tem padaria. Tem pouquíssimas que levam esse nome mas fecham às 4 horas da tarde e vendem só pão, bolo e biscoito. Aliás o conceito de ir comprar um pão fresco que acabou de ser assado simplesmente inexiste.
"Ra-ra-rá, então você dorme de lado?" 
9. Na média as pessoas aqui não são nem um cisco melhores ou piores do que as pessoas no Brasil. Tem gente simpática e antipática, falante e calada, tímida e ousada, gozadora e austera, pudica e depravada, religiosa e não-religiosa,  fissurada e relaxada. Traçar uma diferença cultural nessas bases não faz muito sentido, me parece uma fraude. Quem passa por aqui um ou até seis meses, pode voltar para o Brasil com a impressão de que a gente aqui é assim ou assado baseado na minúscula amostra de seres humanos daqui que conheceu. Mas o que é particular em uma cultura é algo bem mais sutil, algo que atravessa essas diferenças que a gente costuma prezar tanto. Eu tentaria descrever a particularidade da cultura contemporânea dos Estados Unidos como uma consciência muita aguda que cada um tem da sua individualidade e um zelo muito grande pela preservação desse espaço físico e psíquico só seu. Nesse contexto todas as relações humanas são movidas por interesses, não necessariamente interesses materiais, mas interesses mesmo assim. Com isso eu já aprendi a conviver, mas o sentimento de um grande vazio afetivo é difícil de dissipar.
10. Todos aqueles programas de entrevistas engraçadinhos com aquele tatibitate papo-furado e todas aquelas comédias onde o cinismo azeda a crueldade e a ironia para além do que eu posso aceitar. Mas isso eu suponho que também já impera em Pindorama.

Thursday, May 18, 2017

Dez motivos para morar e para não morar em Babylon [em duas partes]

Observação prévia: meu ponto de vista é absolutamente particular e pessoal e não tem nada desse tal de valor científico de que tanto se fala por aí e eu não tenho nenhum conselho para dar para ninguém, nem que venham, nem que não venham, nem que fiquem, nem que se mandem.

PARTE 1

Braeburn
1. Queijo cheddar "sharp", que não tem nada a ver com esse queijo prato com cor de tangerina que se vende com o nome xédar no Brasil.
2. Cogumelos fresquinhos em qualquer supermercado mixuruca da cidade por preços bem acessíveis.
3. 700 tipos diferentes de maçãs, principalmente aquelas bem doce-azedinhas e crocantes do tipo Jazz ou Braeburn.
4. Ingredientes e comida mexicana, jamaicana, porto-riquenha e cubana fartos e variados.
5. Meus filhos estudam numa escola pública onde nem eu nem ele somos "clientes", onde é proibido ter aula de religião e onde tem aula de música desde sempre. Lá eles almoçam sempre e eventualmente tomam café da manhã.
6. Meus filhos têm colegas que são filhos de pais estrangeiros ou eles mesmos são de países como China, Japão, Coréia, Nepal, Vietnã, Filipinas, Austrália, Nova Zelândia, Egito, Turquia, Israel, Líbano, Etiópia, Gana, Nigéria, Congo, Espanha, Itália, Alemanha, Dinamarca, Inglaterra, Rússia, Chile, Argentina, México, Porto Rico, Cuba, Jamaica, Guatemala, Equador e essa é uma lista da cabeça feita agora mesmo.
7. Minha casa não tem nem muro e nem cerca e minha filha de oito anos anda três quarteirões da escola até o parquinho onde eu a encontro depois da aula.
8. No quintal da minha casa tem uma gangue de esquilos e um coelho, além de um apartamento subsolo frequentado por marmotas e visitas ocasionais de bandos de corvos, pica-paus. perus selvagens e gatos.
Woodchuck
9. Quando escuto rádio posso sempre encontrar uma estação só de música erudita, um canal não-comercial de notícias com programação variada de reportagens e entrevistas locais, nacionais e internacionais.
10. Eu sei de todas as possíveis implicações nocivas das secadoras de roupa, mas lavar roupa com uma máquina ao lado que seca as roupas em mais ou menos uma hora é muito bom.

Tuesday, May 16, 2017

Poesia mais ou menos minha: Mash-Up de Ciencias Morales

Mash-Up: Ciencias Morales

O poder de conquista
que o hábito tem
sobre as coisas da vida:
tudo termina mais cedo
ou mais tarde a lhe pertencer.
É mais que sigilo:
é a ambição de ser invisível
                 e, sendo invisível, ver.


Wednesday, May 10, 2017

O melhor invisível

O Brasil continua a produzir música popular interessante. Só que ela nunca vai tocar na Grobo. Um exemplo do melhor de Belo Horizonte é a banda Graveola e o Lixo Polifônico. Tudo deles está aqui. Compartilho uma canção do primeiro disco deles de 2009. 

Amaciar Dureza
Graveola e o Lixo Polifônico


E viveu uma semana,
foi-se o ano, foi-se Ana,
destinada a caminhar os seus passados lentos.
Sem trabuco, sem trambique,
Ana ia com seu pique,
seu destino a transitar, sertão, cantiga e vento.
Ela foi um desacato,
um descarrego, tantos regos
refletindo seus momentos, santos sentimentos.

Ela não podia crer nos deuses:
Madre Pedra, Padre Zé.
Na lua viu jornadear
lua de sonho, lua de vida.
Por onde passou sentiu o seu destino
amargurado, pequeno, coitado, calado, jorrado,
seus mimos, seus sinos, seus anos passados.
Na vida amaciar dureza.
Na vida amaciar...

E viveu uma semana.
Era Ana, eram anos
Quanta vida enclausurada nesse mundo tempo
Era a cor dos seus cabelos,
tantos erros, tantos zelos.
Vida a passar os momentos deglutindo ventos

Ela só podia crer num Deus:
sai da igreja, resta a fé.
Jornadas viu sob o luar.
Sonho de lua, vida de lua.
Por onde passou, sentiu o seu destino
despedaçado, atado, vidrado, trincado, cortado,
seus vícios, seus mortos, seus caminhos tortos.
Na vida, amaciar dureza
Na vida amaciar...

A gravação original:

Ao vivo, numa versão bem diferente da de estúdio:

Monday, May 08, 2017

Anti-resenha: Dora Bruder de Patrick Modiano

De repente, lendo Dora Bruder de Patrick Modiano, tenho um possível momento de iluminação. Isso acontece quando o narrador engata uma série de rápidas biografias de escritores obscuros, medianos e famosos que cruzaram antes dele os mesmos lugares que ele mesmo e a sua obsessão/protagonista Dora percorreu antes de desaparecer para sempre na fumaça do Holocausto. O narrador se lembra desses escritores que tentaram dizer qualquer coisa sobre a época em que viviam e foram esmagados e tacitamente os compara consigo mesmo, escritor obcecado por certos lugares de Paris naquele período, lugares que tinham sido passagem da jovem protagonista que dá nome ao livro. No mesmo capítulo ele recorda também uma viagem num camburão da polícia e à delegacia, viagem feita por ele mesmo em plena adolescência, [des]acompanhado pelo pai. O pai que o ignorava ostensivamente dentro do aperto do camburão, o pai que havia ele mesmo chamado a polícia para dar queixa do filho que tinha sido mandado pela mãe para cobrar do pai pela pensão que ele não pagava. O narrador compara a sua dor com uma picada de um alfinete em comparação com tantos outros que, como a sua protagonista, foram pegos pelo pente fino do inferno que era o reino nazista em plena 2a Guerra Mundial. Gente que, como a protagonista, fizeram uma viagem semelhança à polícia para nunca mais voltar.
Foto minha: Belo Horizonte Descasca
De repente entendi porque Belo Horizonte [minha protagonista, minha obsessão] faz questão de caçar e reduzir a escombros todas as casas da área central da cidade, casas que nem chegaram a fazer noventa anos na maioria das vezes. Além do motivo óbvio e banal da especulação imobiliária, há também a determinação em desalojar todos os nossos fantasmas, enterrar todos os rios transformados em esgoto, cobrir com asfalto todas as pedras que vieram arrancadas das pedreiras em volta da cidade, cortar todas as árvores um pouquinho mais velhas. Tudo isso é feito em prol de borrar com ênfase aquilo que o tempo e a nossa amnésia tratam de apagar em nome de perpetuar: o moinho de gentes que um dia se chamou senzala, que depois passou a ser chamado de favela, que permanece moendo gente pelas bordas da cidade até hoje.
Patrick Modiano aponta insistentemente [obsessivamente] para os arquivos queimados e para os nomes apagados para apontar [em silêncio eloquente] a determinação da França em se imaginar "apenas" ocupada e portanto desculpada pela subserviência, e mesmo a animada participação de muitos franceses, à máquina de destruição imposta por um punhado de soldados de Hitler. E nós?

Tuesday, May 02, 2017

Na falta de lugar melhor

Eu diria que em torno de 40% da população brasileira [no máximo] está firmemente polarizada entre esquerda e direita num conflito cada vez mais feroz. Cada um desses dois lados conta com aproximadamente 20% do leitorado, e é bom lembrar que esses 20% são geralmente fragmentados entre posições significativamente diferentes. As pessoas de esquerda nunca, em hipótese alguma, votariam num almofadinha de coluna social e as pessoas de direita, dificilmente, votariam de novo num operário filho de retirantes. Mas os outros 60% da população poderiam votar em um e logo em seguida no outro sem passar por qualquer tipo de crise existencial. Nenhuma dessas duas minorias respeitáveis consegue eleger sozinha um candidato a cargo executivo numa cidade grande; talvez nem mesmo um senador.

Cabe sempre a esses candidatos convencer uma parcela respeitável daquele 60% que poderíamos chamar por falta de nome melhor de eleitores desengajados. Não gosto desse nome porque o acho pejorativo. Mas uso o termo mesmo assim porque não acho que seja uma questão de estar "alienado" ou desinteressado da política, mas sim de estar desengajado desse combate entre direita e esquerda. Imersos em suas bolhas respectivas que só reforçam sua convicções, os dois lados têm imensa dificuldade em lidar com uma maioria tão descompromissada com aquilo com que eles têm um compromisso tão firme. Eis uma prova cabal da existência desse grupo majoritário: o mesmo eleitorado de São Paulo elegeu para prefeito Fernando Haddad em 2012 e João Dória em 2016. Isso só seria possível se um número considerável de eleitores de Haddad em 2012 votasse em Dória em 2016. Essas pessoas pertencem aos 60% da população que não se alinha a nenhum dos dois campos. Pesquisas indicam que esses eleitores em geral tem valores de direita no que tange ao combate à criminalidade [eu diria valores punitivistas quase fascistas, defensores que são de espancamentos, castrações, linchamentos, massacres e penas de morte sumárias]. As mesmas pesquisas indicam que esses eleitores em geral têm valores de esquerda no que tange a políticas de educação e saúde [querendo amplo acesso garantido pelo estado e concordando com interferências do estado contra abusos da iniciativa privada]. Tomo as duas informações, com cauteloso ceticismo, como generalizações bastantes simplistas. Mas esses exemplos podem pelo menos deixar a gente vislumbrar a existência desse eleitorado tão dado a oscilações.

Nas últimas eleições para presidente prevaleceu o poder de convencimento da esquerda nos cargos majoritários, mas nem sempre na hora de eleger governadores e prefeitos. Esse poder de convencimento da esquerda sempre ficou muito aquém do necessário quando se trata de eleger bancadas majoritárias de vereadores, deputados estaduais, federais e senadores. Quem cresce e aparece cada vez mais nessas bancadas são os BBB da direita: Bala, Boi e Bíblia. Essa é a direita que tomou conta do parlamento brasileiro em 2014, pilotou o espetáculo grotesco de um golpe parlamentar e se instalou de mala e cuia no poder executivo federal a partir daí.

A questão para mim fundamental é: por quê? O espetáculo de gente que escreve elegias à sabedoria popular quando ganha uma eleição e escreve queixas magoadas contra a ignorância e alienação do mesmo povo quando perde a eleição seguinte é sintoma de uma polarização que lembra muito uma briga de torcedores de futebol. Esse se assemelha ao espetáculo de gente que tece elogios à cobertura estrangeira quando essa dá relevo ao que a imprensa nacional [francamente partidária] escamoteia, mas é capaz de acusar essa mesma cobertura estrangeira de imperialista e mal informada quando ela, por exemplo, noticia fofocas [copiadas de colunas sociais de jornais brasileiros] sobre abusos alcoólicos de Lula. Nenhum dos dois espetáculos retóricos ajuda a entender o buraco em que o Brasil se meteu a partir da eleição legítima do congresso mais venal e conservador que já tivemos desde a redemocratização.

Duvido muito de explicações que se fiam no moralismo de um 60% do eleitorado que é, acima de tudo, pragmático. Basta olhar para os últimos trinta anos. Quem não se lembra ou não sabe, lembre-se ou saiba que o PT espumava como uma UDN indignada durante os anos de FHC no poder. Tinha motivos de sobra para isso, com privatizações feitas com empréstimos generosos dos bancos públicos e descontos para lá de camaradas. Procuradores engavetadores e a cobertura da mídia explicariam as duas eleições vencidas por FHC? Na melhor das hipóteses só em parte. O eleitorado fora da órbita daqueles 40% é fundamentalmente pragmático e apoiou o PSDB e FHC enquanto sentiu que eles ofereciam estabilidade financeira e uma melhoria relativa de serviços aqui e ali. Nem a emenda da reeleição, nem a vergonhosa venda da Vale abalaram o governo FHC e o PSDB, que só caiu do cavalo mesmo quando a inflação, a desvalorização cambial, o desemprego e a longa recessão acabaram de tirar todo o lustre do Plano Real. Os esquemas de controle político do PSDB  - e o esqueleto da política econômica do PSDB de FHC - foram mantidos e talvez até expandidos durante os anos em que o PT esteve no poder. Como um autêntico aprendiz de Getúlio Vargas, Lula misturou avanços sociais com conciliações com o setor do poder ruralista e com o setor do poder evangélico e a distribuição generosa de benesses a empreiteiros. A ideia de que a mídia no Brasil "controla" o eleitorado não faz sentido - como teria Lula e Dilma ganhado quatro eleições para presidente se essa mídia fosse assim tão absolutamente controladora? A maioria daqueles 60% apoiou o PT enquanto sentiu que se beneficiava diretamente do crescimento, com a geração de emprego e o aumento do poder aquisitivo. Esse mesmo eleitorado preferiu reeleger Dilma contra um programa neo-liberal rastaquera de um candidato fraquíssimo em 2014, apesar do apoio quase irrestrito da mídia nacional. Foi com o agravamento da crise econômica que esse eleitorado, para usar um termo que a direita tentou emplacar a um tempo atrás, "cansou" e foi assistir o golpe de camarote, quando não deu corpo aos grupelhos alucinados que falam de Cuba e comunismo como se Meirelles e Kátia Abreu fossem neo-bolcheviques.

Desde o primeiro FHC até Dilma, esse grupo tenebroso [mas plenamente legitimado pelo voto popular] recebia mensalos, mensalinhos e mensalões, repartições, ministérios e outros cargos em troca de apoio restrito em nome de uma tal de governabilidade. Mas a eleição que deu a Dilma um segundo mandato trouxe uma mudança significativa: deu ao BBB um poder maior que acabou quebrando a balança desse equilíbrio corrompido. Ao invés de xingar o mesmo eleitorado que mereceu louvações emocionadas por reeleger Dilma, caberia à esquerda perguntar-se sobre o que aconteceu e reconhecer no achincalhe temeroso da previdência, das leis trabalhistas e do SUS uma oportunidade para trazer de volta ao seu lado uma parcela razoável daqueles 60%, antes que um miserável Berlusconi de fundo de quintal ou um aprendiz de Duterte o façam.