Monday, March 29, 2010

Jeff Buckley

Essa eu tenho que agradecer ao meu querido Jovem, que introduziu o tio às maravilhas do Buckley filho e de brinde me devolveu às maravilhas do Buckley pai . O Buckley pai - presente que um outro Jeff me deu quando eu ainda morava em Belo Horizonte - é incrível, mas eu tinha meio que me esquecido dele. Nessa canção o que eu gosto entre outras coisas é a paradoxal mistura de fossa total com alegria esperançosa. A mistura é importante para mim nos dias de hoje.

Lover, You Should’ve Come Over

Jeff Buckley

Looking out the door I see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe I'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know
Broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child, you know how much I need it
Too young to hold on and too old to just break free and run
Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one
So I'll wait for you... and I'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh, will I ever learn
Oh, lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that won't ever come
It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when I slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
Well, maybe I'm just too young
To keep good love from going wrong
Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Well I feel too young to hold on
And I'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage I've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love, well I'm waiting for you
Lover, you should've come over
Cause it's not too late


Sunday, March 28, 2010

Sobre a felicidade

Foto: Livia Corona é uma fotógrafa muito interessante que vale a pena conhecer.
Para mim esta foto parece uma metáfora da famosa "busca da felicidade"

Sobre a felicidade [da direita] li artigo de Elizabeth Kolbert na New Yorker sobre uma leva de "happiness research scholars" que andam escrevendo sobre como aplicar às políticas públicas as descobertas do campo, dominado em geral por um empirismo grosseiro. Uma conclusão: já que a desigualdade não afeta o grau de felicidade de ricos e pobres, os governos não deviam investir em reduzi-la. Sobre a popularidade de políticas de combate à desigualdade, o mesmo autor diz que suas pesquisas mostram que as pessoas não sabem o que vai fazê-las feliz de fato e que cabe aos governos escolher entre a demagogia e a ciência. O parágrafo final do artigo é preciso na sutileza de dizer o óbvio:

“Let’s imagine, for a moment, that we had enjoyed ourselves for the past fifty years. Surely, trashing the planet is just as wrong if people take pleasure in the process as it is if they don’t. The same holds true for leaving future generations in hock and for exploiting the poor and for shrugging off inequality. Happiness is a good thing; it’s just not the only thing.”

Wednesday, March 24, 2010

Missão Impossível: desarmar patrulhas num matagal de mal-entendidos - Parte III


[foto: pollo con mole]

Então – só para enfatizar, eu não quero que me prendam de jeito nenhum nesse matagal de mal-entendidos – não é questão de ser anti-crítico, nem bancar o cabotino com sinal invertido, nem tentar uma versão literária do – para mim detestável – Lulinha Paz e Amor, nem fazer uma leitura conspiratória de uma vida cultural governada por uma luta de interesses espúrios.
Para mim o importante é poder discutir literatura finalmente sem patrulhamentos, sabendo que alguns têm o direito de dizer apenas o pouco ou muito que já diz a sua obra; sabendo que não há nem nunca houve uma linha evolutiva muito menos um único caminho redentor para a literatura [nem para nada]; e principalmente sabendo que, mais do que as escolhas literárias em si, é o que o escritor faz com elas que realmente interessa.
Não dá para julgar a obra de ninguém pelas escolhas que supostamente a guiaram. Só para citar algumas das dicotomias mais manjadas do século passado [espero]: não é por ser nem urbano ou rural, nem social ou intimista, nem experimental ou tradicional, nem nacional ou cosmopolita, nem armado de emoção ou de intelecto que um texto literário se salva ou se dana.
Vamos a uma analogia culinária. Não são os ingredientes em si mas sim o que o cozinheiro faz com eles que determina a qualidade do produto final na mesa. Já imagino alguém pensado “ah, é? Mas têm ingredientes que não combinam de jeito nenhum.” Em literatura, não. E talvez nem em culinária: se vocês acham que chocolate com frango não combina, é porque nunca provaram um mole mexicano.

Tuesday, March 23, 2010

A tragédia no geral abstrato e no particular concreto 2


[foto: escultura de entulho de Gabriel Orozco]

[Vamos revezando com o "missão impossível" trechos do poema de José Emilio Pacheco sobre o terremoto no México]


5
Suelo es la tierra que sostiene,
el piso que ampara, la fundación
de la existencia humana. Sin él
no se implantam ciudades ni puede alzarse al poder.
"Los pies en la tierra"
decimos para alabar la cordura,
el sentido de realidad.
Y de repente
el suelo se echa a andar,
no hay amparo:
todo lo que era firme se viene abajo.

Monday, March 22, 2010

Missão Impossível: desarmar patrulhas num matagal de mal-entendidos - Parte II

Foto: Poeta Vanguardista Ted Boy Marino é agredido covardemente por defensor do soneto parnasiano.

II

Agora vamos tentar abrir a tal picada num matagal de mal-entendidos. Não quero que me confundam com alguém que faz um discurso anti-crítico – afinal de contas eu sou professor e pesquisador de literatura. E esclareço que trata-se muito menos ainda de construir um discurso igual com o sinal invertido, ou seja, de montar uma patrulha crítica oposta que vai combater seus inimigos em mais uma briga de bar. Haroldo e Augusto de Campos deram contribuições importantíssimas à critica brasileira, não enquanto voavam as garrafas e cadeiras do bar, mas quando não estavam preocupados demais em ser cabotinos e fizeram revisões importantes de outros autores [por mais que se possa fazer reparos a elas] e traduções importantes [os dois tinham o espírito suficientemente generoso para não se deixar afogar no cabotinismo típico do discurso das vanguardas] e escreveram boa poesia. E finalmente também não é questão de pregar uma crítica boazinha que só fala bem de tudo ou que simplesmente se cala quando não gosta de alguma coisa. Dou um exemplo recente: quando Luiz Costa Lima escreveu uma critica forte contra a obra de Piva como um todo, concorde-se ou não com seus pontos de vista, não havia qualquer ranço dessa postura patrulheira. Costa Lima não estava dizendo: “precisamos combater sem tréguas Piva e sua poesia nociva aos interesses da cultura e literatura nacionais, pois todo o poeta que quer escrever versos desse jeito escreve maus versos”. Simplesmente Costa Lima acha – pelo menos na minha leitura do seu artigo – que, dentro do que se propõe a fazer, Piva se equivoca, não realiza o que pretende. Aos conspiratórios que já devem estar preparando uma risada sarcástica para a minha ignorância sobre o ódio ou amor entre os dois ou pior para me acusar de ser um “Pivista” hipócrita ou “Costa Limeiro” traiçoeiro, aviso que eu não tenho a menor idéia das relações pessoais amistosas ou não de Piva e Costa Lima e francamente não me interessa absolutamente. [Talvez por uma dose diária excessiva de novelas, nós brasileiros temos essa tendência de explicar os conflitos através do melodrama Udenista dizendo: “ora, todo mundo sabe que o Costa Lima detesta o Piva desde que recebeu uma carta anônima sobre os gêmeos trocados na maternidade e soube da falsificação das ações da fábrica de cimento no testamento forjado de Pantagruel Pimenta e, claro, das falcatruas com o dinheiro público – político não presta mesmo”.

Sunday, March 21, 2010

Missão Impossível: desarmar patrulhas num matagal de mal-entendidos - Parte I



Falariam no final dos anos 70 sobre a existência de patrulhas ideológicas no Brasil mas acho que ninguém nunca pensou na longa existência na cultura nacional de patrulhas estéticas. Como exemplo desse tipo de patrulha, reproduzo abaixo uma citação bem manjada de Mário Faustino em sua [interessante] coluna do Jornal do Brasil:

“Carlos Drummond de Andrade só age poeticamente através dos livros que publica. Não escreve a sério sobre poesia. Não faz crítica de livros de poesia. Ao que sabemos não discute a sério poesia (...) Cala-se.”

Faustino estava irritadíssimo porque Drummond não se metia nas épicas brigas de bar entre concretistas e não-concretistas e neo-concretistas sobre a redenção final da poesia brasileira rumo ao nirvana estético da vanguarda. Drummond simplesmente escrevia Claro Enigma e nele “A máquina do mundo”. Como cobrar de alguém que já está escrevendo “A máquina do mundo” qualquer outra “contribuição”, ainda mais que se manifeste sobre a morte do verso ou a relação com a tradição literária?

Na mesma época, gente parecida com Faustino mas atuando no campo da prosa – embora militantes de outras patrulhas com outras políticas de saneamento literário – dizia que o Grande Sertão: Veredas era um “erro” que acarretaria graves prejuízos à evolução da literatura brasileira. Acho que essa dispensa comentários.

Saturday, March 20, 2010

Diário da Babilônia - Books-n-Parks



Finalizando os posts sobre a democratização da leitura na cidade onde eu moro, uma iniciativa feita nos muitos parques da cidade [sim, New Haven têm 200.000 habitantes e 3 parques imensos - calcule agora quantos parques imensos Belo Horizontes teria que ter]. É uma simples e pequena idéia, que eu acho muito simpática: uma dúzia de livros usados dentro de uma caixa que os protege das intempéries [e o que não falta por aqui são intempéries]. A pessoa chega no parque - perto dos playgrounds para as crianças e pode pega um deles para ler ou folhear. A escolha é sua: você pode devolver à caixa quando for embora para casa ou pode até levar o livro para terminar casa sem problema. Nesse caso, só se pede que você deixe outro livro qualquer no lugar - e já acho extraordinário o convite para um gesto de civilidade que não tem nenhum fiscalização ou ameaça de sanção. 

Friday, March 19, 2010

A tragédia no geral abstrato e no particular concreto 1


José Emilio Pacheco escreveu um poema longo, Las ruinas de México, logo depois do terremoto de setembro de 1985. Não é o melhor dele, que é talvez o melhor poeta mexicano do século XX, mas vale alguns fragmentos aqui, como uma espécie de reflexão cruzada com os terremotos deste ano.


10
Con qué facilidad en los poemas de antes hablábamos
del polvo, la ceniza, el desastre y la muerte.
Ahora están aquí ya no hay palabras
capaces de expresar qué significan
el polvo, la ceniza, el desastre y la muerte

Thursday, March 18, 2010

John Wayne 2



Para provar que essa história de duas expressões faciais é uma calúnia, dou provas documentais de outras duas expressões faciais de John Wayne, que poderíamos chamar de derivadas da expressão com chapéu:
De chapéu de pele de Guaximim matando mexicanos no começo dos anos 60 e de boina matando vietnamitas no final dos anos 60.

Tuesday, March 16, 2010

John Wayne



Li nas memórias de Érico Veríssimo que o filho Luis Fernando dizia que como ator John Wayne tinha apenas duas expressões faciais: com e sem chapéu.



Tom Molloy



Fui exposição dele no Museu Aldrich aqui perto de casa. No fim de semana passada o NYT fez uma resenha 1/2 ofendida chamando Molloy de Irlandês anti-americano. Acho que a coisa é mais complicada do que isso mas não sei se um par de fotos vai ser suficiente para provar isso. O que eu acho é que Tom Molloy conseguiu duas coisas muito difíceis:
1. ser contundente e sutil,
2. ser contundente mas não ficar ditando soluções ou dispensando sentenças de condenação ou absolvição.

Monday, March 15, 2010

Pindorama: ânimos acirrados no parnaso


Round 1: Para quem não sabe muito de poesia brasileira contemporânea pode ser um jeito interessante de se inteirar: são três blogues interessantes de poetas brasileiros que andaram trocando tapas e pontapés recentemente: no meio do furacão jaguadarte do Ricardo Aleixo e dos dois lados do tablado cantar a pele de lontra do Cláudio Daniel e Rocirda Demencock do Ricardo Domeneck.
Round 2: Como costuma acontecer em Pindorama a coisa rapidamente degenera para pancadaria e como acontece em qualquer lugar do mundo que eu conheço [aqui incluo México e EUA] é uma batalha de egos meio inflados e carteiras quase vazias, mas antes que as mesas comecem voar coisas razoavelmente interessantes foram ditas nesses blogues.
Round 3: Conheço o trabalho dos três e só o trabalho deles. E me abstenho de uma opinião pública aqui no meu cantinho público porque a essa altura "participar do debate" significa comprar a briga dos outros e também porque ninguém nem sabe quem eu sou nem nas rodas de samba poética do meu quintalzinho periférico-montanhoso de Belo Horizonte - já que passo a maior parte do ano bem longe e quando apareço fico mais em casa lendo e escrevendo.

Saturday, March 13, 2010

La Jirafa - Calle 13

[tenho a maior simpatia por Porto Rico e gosto do bom humor, do nonsense e das imagens desconcertantes desse rap/reguetón que não tem aquela postura de sou machão, sou o máximo, etc]

Planta tus pies como dos raices
Con ese tumbao'
Puede que me hechices
Cuidao'
Que no te pise
Mamita con cautela
Sacude la tela
En el nombre de tu abuela

Mi canelita
Mi azucarita
Mi linda sara
Mi tormentita huracanada
Mi santa clara
No vo'a dejar que te pise ninguna cosa rara
Vo'a prender las velas pa' que no te pase nada
Aqui no hay cuchillos
Ni pistolas
Aqui hay
Mucha,mucha
Mucha'mucha
Mucha cacerola
Aqui hay mucho sol
Muchas playas
Muchas olas
Aqui todo es melaza
Nada de pangola
Te vo'a pintar la playa
Azul crayola
Fuimonos
Que vamonos
Que fuimonos
Que en yola
Si no hay yola
Lo seguimos de rola
Pa'que
Pa'que
Veas como flota tu cola

Cuando te vi
Me dio mucha cosquilla
Fue como tener
A cuarenta hormigas
Rascandome la barriga
Tu sabes
Tu sabes
Tu sabes
Que estas que estilla
Me llevaste el pantalon tu ere una pilla
Vamo'a embarrarnos en una tortilla

Vamo'a hacer tembleque mezclao' con natilla
Me como tu madera
Con to' y polilla

Ella eeee eeee
Ella eeee ella
Ella eeee eeee
Ella eeee ella

Quiero ver
A toita la jirafa
Quiero que me patalee
A ver quien se zafa
Revolviendo la masa
Quiero cuatro tazas
De zanahoria con calabaza
Tu me llevas
Volando por el campo
Despegao' del piso
Caminando en zancos
Con una canasta de patanco
Pa' caminarle por encima a los barcos
Hasta llegarle a tu cordillera
La que me sana de to la curandera
Por ahi hay rumores
De que tu eres
La suerte de tos los colores
Un huerto repleto e frijoles
Mucho collar adornao'con caracoles
Tu nombre me salio en las tres tarjetas
Me lo dijeron los cometas
Que me meta
Hasta el fondo sin chapaleta
Que me fuera en el viaje
Sin maleta
Para darle la vuelta completa
A to' el planeta
En una colchoneta
Zapa
Zapa
Zapa
Zapateala suela
Vamo'a enrroscar la arandela
Dame
Dame
Dame
Dame un poco de nutella
Contigo yo me voy sin na
A capela

Thursday, March 11, 2010

Teddy Roosevelt de cera e Teddy Roosevelt de carne e osso ou o achincalhe da história



“I don’t go so far as to think that the only good Indians are dead Indians, but I believe nine out of ten are, and I shouldn’t like to enquire too closely into the case of the tenth.”
A pérola acima é de Theodore Roosevelt, aquele bonachão risonho e tímido interpretado por Robin Williams no filme Uma Noite no Museu, quando ele se apaixona pela índia Sacagawea, guia e intérprete de uma famosa expedição pelo oeste americano no começo do século XIX.

Na outra foto vemos o Roosevelt que não é feito de cera, já aposentado, se divertindo em caçadas no sertão brasileiro com Rondon Pacheco. Suponho que, felizmente, na falta de um pele vermelha sobrou para esse veado campeiro…

Wednesday, March 10, 2010

Babilônia e Pindorama: Educação

Sinal dos tempos: o governo dos republicanos chamava seu programa de recuperação do sistema de ensino americano de "No Child Left Behind", nome simpático para um programa obcecado com medidores de eficiência, ou seja provas. Agora o governo democrata chama seu programa reformas de "Race to The Top" - o nome dispensa comentários.
Não sei como alguém lá em Washington não explica ao Obama que assim ele não agrada nem aos republicanos - que não vão estar satisfeitos enquanto não voltarem ao poder, mesmo que sua propaganda raivosa termine com um maluco qualquer tentando matar esse presidente "estrangeiro" e nem aos democratas - que não precisam eleger um presidente que promova uma "corrida ao topo" que começa com um aplauso entusiasmado a demissões em massa de professores "ineficientes" em Rhode Island.
Sobre educação queria reproduzir aqui um belo texto que li recentemente no blogue do Alexandre Nodari:
"Ontem, dia 5 de março, aconteceu um simpósio em homenagem aos 60 anos de Raúl Antelo, meu orientador, que já caracterizei como um "jagunço de posse da eletricidade". No evento (O trabalho crítico: Raúl Antelo, escrever a leitura, organizado por Susana Scramim), diversos ex-orientandos, mediados por figuras de peso, como Eneida Maria de Souza e Luz Rodríguez-Carranza, analisaram a obra de Antelo, e deram seus depoimentos. Ao coordenadar a segunda mesa, Eneida chamou a atenção para a heterogeneidade das abordagens e dos trabalhos dos ex-orientandos, observando que via ali uma relação não entre Pai e filhos, mas, talvez, entre tio e sobrinhos. A aparente simplicidade do comentário pode esconder a sua profundidade: mas, de fato, nele, Eneida captou o que está em jogo no trabalho de Raúl Antelo - a construção do Matriarcado. O Matriarcado não é o domínio das mulheres, o Matriarcado é a organização social baseada no filho do direito materno, isto é, na qual quem exerce a figura do "Pai" não é o que concebe, mas o irmão da mãe, o tio. O Matriarcado representa a abolição do Patriarcado, e de tudo que deriva dele: a autoridade, a propriedade, a herança - e, com ela, a tradição. Daí a centralidade da figura da "Acefalia" nos trabalhos de Raúl: a acefalia representa o fim da cabeça, do caput, da autoridade, do Pai. Daí também que não encontremos nele referências positivas ao "socialismo" ou ao "comunismo", regimes que pretendem abolir a autoridade pela autoridade - basta lembrarmos do estágio intermediário da "ditadura do proletariado", em que o poder do Pai se maximiza para se extinguir. Em um dos depoimentos que deu ontem, Raúl nos contou como na sua primeira apresentação acadêmica de relevo, teve o material de arquivo que pesquisava roubado por um dos que dividia a mesa com ele. Naquele momento, diz ele, percebeu que haveria de se armar contra isso. De nada valia ter uma relação de exclusividade com o objeto de pesquisa, na medida em que qualquer outro, apropriando-se dele, podia registrar esta propriedade (i.e., publicando) antes e tomar a exclusividade (a soberania, a autoridade) sobre ele para si. Contingência ou acaso, o fato é que se aquele momento foi um verdadeiro kairós, o tempo da oportunidade, o momento propício, mas também o instante do risco, em que - para usar uma figura que Antelo usou ontem - deve-se agarrar a Fortuna pelos cabelos - e foi o que ele fez. Raúl percebeu que o esquema da propriedade, da exlusividade, só servia para reforçar o poder dos que já detinham poder, a autoridade dos que já detinham a autoridade, e decidiu partir para uma outra relação com o objeto, uma relação que não mais tentasse encará-lo sob o signo da possibilidade da perda (i.e., sob o signo da própria negação da experiência com ele, o que permite justamente, como explica Adorno, trocá-lo por outro equivalente como uma mercadoria), uma relação que fosse, ao contrário, uma relação singular, que não negasse o objeto, mas que produzisse com ele uma experiência única e irrepetível: uma marca, não uma cerca. O objeto de pesquisa, agora, ainda poderia ser roubado, mas não a experiência que se produziu no contato do crítico Raúl Antelo com ele. Qualquer um (e ainda mais hoje com as facilidades que a internet proporciona) pode se apropriar do material de arquivo que Antelo juntou para escrever Maria con Marcel, qualquer um pode inclusive escrever uma história da relação entre Maria Martins e Marcel Duchamp - mas ninguém pode escrever Maria con Marcel. Aqui se entende o melhor o "interesse" com que o próprio Raúl caracteriza seu trabalho em Crítica Acéfala, característica salientada ontem por Joca Wolff: trata-se de um inter-esse, um entre-ser entre o sujeito e o objeto, aquilo que lança o homem ao mundo, ou melhor, aquilo que possibilita a própria idéia de mundo, mas jamais uma propriedade. É por isso que Raúl Antelo não é um Pai e não produz filhos: o que ele "ensina" não é como se apropriar de um objeto, não é um "método" em sentido estrito, o que ele "ensina" é que só uma experiência singular e irrepetível com o objeto interessa, só ela faz história, história que não se pode acumular, herdar ou transmitir, mas apenas viver. Em Raúl Antelo, toda a vã discussão sobre a relação entre teoria e prática faz água: nele há uma obra que se confunde com a própria vida: a das experiências singulares e irrepetíveis. Nele, percebemos a possibilidade de viver naquela "realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias" de que falava Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago, a realidade do "matriarcado de Pindorama", a única que interessa."

Tuesday, March 09, 2010

Café Tacvba 1

[Melancolia...]

Mediodía

Jala una silla,
siéntate a un lado aquí.
Mira las plantas
como reaniman la vista alrededor.
Jala una silla,
siéntate a un lado aqui donde pega el sol.
Mira las plantas,
como reaniman la vista alrededor.
Parece mentira
los pájaros vuelan hasta a mi balcón.
Mira los niños
juegan con globos de cualquier color.
Mira la gente
compra helados de cualquier sabor.
Parece mentira
que haya tanta vida
en este lugar
que felicidad.
Parece mentira
que entre tanta gente
en esta ciudad
no tenga a nadie con quien compartir
la vista desde mi casa
este sabado
al mediodía.

Monday, March 08, 2010

Infruência



Tem gente que acha que é frescura a relutância de um escritor em falar sobre suas leituras – as respostas são geralmente evasivas ou irônicas, do tipo “leio a Bíblia e Dom Quixote uma vez por mês” ou “só leio jornal e revista de jardinagem” ou “tudo o que sei aprendi com meu tio Osvaldo”. Numa simples frase, o dramaturgo Itamar Moses [foto] acertou em cheio no alvo:

“Apparently, naming your influences is just like handing people a stick to hit you with.”

Que “sorte” tem os jovens escritores [ou cineastas, ou pintores ou o que seja] brasileiros, que praticamente não tem mais que lidar com a crítica no jornal – só textos promocionais de amigos do peito, resenhas desajeitadas de alunos de graduação disfarçados de estagiários de jornal ou então o mais completo silêncio. Enquanto isso, na academia, quase todos esperam pacientes pelo falecimento de um autor para então começar a “dissecá-lo” propriamente.

Sunday, March 07, 2010

Recomendação

Todo o mundo que gosta de livros e de lteratura deveria visitar periodicamente o blogue de Denise Bottman, "não gosto de plágio".
É um blogue muito informativo e muita vezes bastante divertido. A gaiatice dos pilantras que empurram goela abaixo de leitores incautos "traduções" de Machado de Assis e traduções "novas" de clássicos da literatura me lembra um mote que aparece em estrategicamente colocado em um samba de Cartola, uma coisa boba mas que volta e meia me vem à cabeça:
É rir pra não chorar.
Mais do que isso, Denise Bottman está fazendo alguma coisa concreta para melhorar as coisas no mundo editorial [e portanto literário] do Brasil.

Thursday, March 04, 2010

Para comemorar "10.000" acessos

Ando meio desconfiado do contador de acessos desse blogue. Queria pedir um favor aos meus "inumeráveis leitores": será que vocês poderiam deixar um comentário do tipo "estive aqui" quando acessarem esse humilde blogue?

Wednesday, March 03, 2010

Maria Felix

Matando a pau em “Doña Diabla”, despachando dois amantes babões sumariamente:

As minhas partes favoritas deste clipe:

- ¡Con razón te llaman Doña Diabla! [Cabrum]

- ¡La vida sin ti no vale nada!
- Pero la vida contigo vale menos!

E quando o cara ameaça o suicídio:
- Ningun hombre se mata por una mujer. ¡Se matan por covardes!

Tuesday, March 02, 2010

Salvador Elizondo


El grafógrafo

Escribo. Escribo que escribo. Mentalmente me veo escribir que escribo y también puedo verme ver que escribo. Me recuerdo escribiendo ya y también viéndome que escribía. Y me veo recordando que me veo escribir y me recuerdo viéndome recordar que escribía y escribo viéndome escribir que recuerdo haberme visto escribir que me veía escribir que recordaba haberme visto escribir que escribía y que escribía que escribo que escribía. También puedo imaginarme escribiendo que ya había escrito que me imaginaría escribiendo que había escrito que me imaginaba escribiendo que me veo escribir que escribo.

Monday, March 01, 2010

O começo e o fim dos anos 60




Há exatos 50 anos atrás um professor de psicologia de Harvard em férias no México experimentava pela primeira vez na vida um chá de cogumelo alucinógeno. Maravilhado, Timothy Leary começou o curso de pós-graduação sobre LSD em Harvard que acabaria dando na sua expulsão da universidade e que daria começo ao que hoje conhecemos como os anos 60 nos Estados Unidos.



John Lennon leu o livro de Leary e quatro anos depois escrevia "Tomorrow Never Knows". Em 1969 Lennon comporia "Come Together" como jingle para a campanha mais descabelada para governador da Califórnia do próprio Leary [a foto acima é do lançamento da campanha]. Richard Nixon chamou Leary de "o maior perigo para o futuro dos Estados Unidos" [ao que Leary respondeu com sarcasmo característico: "avise a eles que já mandei cercar os Estados Unidos"] . Aquela eleição quem ganhou foi Ronald Reagan, justamente prometendo acabar com a baderna daqueles cabeludos doidões - e ali começou o fim dos anos 60.