Friday, February 29, 2008

Sobre crítica na imprensa

É natural que gostemos mais de certos artistas por causa de uma afinidade particular com um determinado tipo específico de arte. É natural, por exemplo, que gostemos, uns mais de Pollock, outros mais de Mondrian ou uns mais de Pollock e Mondrian e outros de Warhol, etc. E pode ser divertido se sentar na mesa do bar e discutir sobre essas nossas afinidades. Mas a crítica jornalística precisa levar outras coisas em conta, principalmente quando se dispõe a julgar o mérito do trabalho de um artista. Para começo de conversa, o crítico precisa explicitar se quer identificar e avaliar um projeto estético em si ou se quer julgar o mérito de um Mondrian ou um Pollock ou um Warhol dentro dos parâmetros que eles escolheram ou desenharam para si mesmos. Confundindo essas duas coisas completamente diferentes, a crítica jornalística tem muito pouco a acrescentar além do óbvio. Por exemplo, é um exercício banal e pouco instrutivo, mas comum, criticar um Spielberg com as balizas de um Bergman ou vice-versa. O resultado é invariavelmente o mesmo: um sentencia que Spielberg é frenético, pouco reflexivo, maniqueísta e usa truques baixos de retórica emocional e o outro diz que Bergman é um “chato”, lento demais, insistindo em um enredo “frouxo” sem grandes interesses e desprovido de suspense e portanto sem algo que prenda de fato a audiência. Vamos para a poesia e vemos um sujeito dizer que um certo poema concreto articula um discurso superficial e insuficientemente crítico enquanto outro chama um poema da poesia marginal de prosaico, hedonista, inconsequente. Ler Chacal com a baliza de Castro Alves é um gesto tão fútil quanto ler João Cabral ou Castro Alves com a com a baliza de Chacal. Que sentido tem reclamar da “pobreza das harmonias e melodias” de uma banda Punk? Para que eu perderia o meu tempo lendo sobre isso? Não parece tudo tão óbvio? Para que então eu perder meu tempo escrevendo sobre isso? Ora, basta ler a crítica de jornal com certa regularidade para perceber que parte da crise da mesma se deve à irrelevância em que ela acaba caindo por causa de um mar de obviedades, isso para não falar de “debates” que partem dessa confusão entre o mérito de uma proposta e o mérito de uma obra específica e degeneram rapidamente para uma troca de impropérios deprimente. Nada contra a veemência, mas é preciso ser veemente sobre alguma coisa consistente. Essa tendência ao bate-boca vazio deixa a impressão de que todos gritam muito alto para esconder o fato de que não estão dizendo nada.

Tuesday, February 26, 2008

Kafka e Drummond

“No meio do caminho”
foi primeiro traduzido
por um judeu da Hungria.
“Um maluco de Budapeste”,
diziam.

Preso depois numa ilha de rio,
condenado a construir com as mãos
um edifício a ser demolido
logo depois do último arremate,
“o maluco” aproveitou um intervalo
entre arremate e demolição
e veio parar no Brasil.

Aqui pediu ao poeta funcionário
que o guiasse pelo labirinto do Estado Novo
em busca de um par de vistos
para a mãe e a noiva,
ainda na Hungria.

“Tivesse encontrado mais três homens
como o poeta da pedra
e as duas não morreriam”,
escreveu Paulo Rónai.

Lendo um dia um artigo do húngaro,
Drummond de repente entenderia, lívido:
Kafka sou eu! Sou eu, Kafka!
[que nem Rónai,
nem Carpeaux,
nem Rosenfeld
conheciam].

Nathanael Lessa: o tipo de Rubem Fonseca que eu gosto

Peçanha pegou a carta da ceguinha e a minha resposta e leu em voz alta: Querido Nathanael. Eu não posso ler o que você escreve. Minha avozinha adorada lê para mim. Mas não pense que eu sou analfabeta. Eu sou é ceguinha. Minha querida avozinha está escrevendo a carta para mim, mas as palavras são minhas. Quero enviar uma palavra de conforto aos seus leitores, para que eles, que sofrem tanto com pequenas desgraças, se mirem no meu espelho. Sou cega _ mas sou feliz, estou em paz, com Deus e com os meus semelhantes. Felicidades para todos. Viva o Brasil e o seu Povo. Ceguinha Feliz, Estrada do Unicórnio, Nova Iguaçu. P.S. Esqueci de dizer que também sou paralítica.
Peçanha acendeu um charuto. Comovente, mas Estrada do Unicórnio soa falso. Acho melhor você colocar Estrada do Catavento, ou coisa assim. Vejamos agora sua resposta: Ceguinha Feliz, parabéns por sua força moral, por sua fé inquebrantável na felicidade, no bem, no povo e no Brasil. As almas daqueles que se desesperam na adversidade deviam se nutrir do seu edificante exemplo, um facho de luz nas noites de tormenta.
Peçanha me devolveu os papéis. Você tem futuro na literatura. Isto aqui é uma grande escola. Aprenda, aprenda, seja dedicado, não esmoreça, sue a camisa.

do conto "Corações Solitários"

Saturday, February 23, 2008

A canção mais triste do mundo














Mal abre a boca o sujeito faz já
quatro coisas de uma vez:

primeiro fala sempre dele mesmo
e do lugar de onde ele vem;

fala também da vida que acontece
da boca pra fora,
esse lugar onde a gente nasce, vive e morre;

também mexe com quem escuta,
mas não pelo que se diz daqui
e sim pelo que se ouve lá
do outro lado
onde a gente nunca vai;

e finalmente borda
com som as letras,
com letras palavras,
e com sons, letras e palavras
um tipo de música sutil,
que às vezes transborda,
mas quase sempre não.

Mal abre a boca o sujeito.

Friday, February 22, 2008

Ainda sobre a TV

E se o seu filho de seis anos pedisse para fumar um cigarro, o que é que você faria? Ah, eu fui na charutaria e comprei um charuto para ele. Fazer o quê, né? É isso que ele quer… Depois o menino me pediu uma metralhadora. Como é que eu ia negar? Não adianta a gente querer negar os fatos de hoje em dia. Depois ele chega na escola e os colegas todos estão lá, com seus charutos acesos e metralhadoras em punho. Coitado do menino, vai se sentir até deslocado, sem assunto.
Bom na minha opinião, é esse o teor básico da conversa que escuto de alguns pais hoje em dia com relação ao hábito dos filhos verem as novelas da televisão…

Tuesday, February 19, 2008

Keats vai ao paraíso










"Corremos, voamos e quando lá chegamos,
quando longe se faz perto, nada se altera,
e nós encontramo-nos com as mesmas misérias,
com os mesmos e estreitos limites, e de novo
a nossa alma suspira pelo mesmo bálsamo
que acabou de se esvair."
Werther

Enfim
fugiu
daqui
e viu
que lá
também
o chão
é duro
e frio
e um metro
tem cem
centímetros
e um quilo
de estopa
é um quilo
de chumbo
são um quilo
e dez
vez oito
ou oito
vez dez
dá oitenta
e as portas,
feitas
do que fossem
feitas,
se abriam
e fechavam
como as brasileiras.

Sunday, February 17, 2008

Ninguém é obrigado a ligar a TV

Volta e meia leio artigos indignados com o baixo nível da televisão e corrupção dos valores e a manipulação da informação, etc.
A solução é muito simples: desliguem a TV! Na minha casa não temos antena nem serviço a cabo há mais de dez anos. O aparelho de TV só serve para ver DVDs que a gente escolhe na vídeolocadora ou na biblioteca. Ninguém morreu, ninguém nem passou mal – vivemos nossas vidas normalmente, exceto pela ausência da dose diária de lixo televisivo. Meu filho [tem 6 anos] assiste TV na casa dos avós ou dos amigos e se irrita de vez em quando quando não pode asssistir o começo de um desenho que ele pega pela metade ou repetir uma cena que ele gostou mais. E ele talvez seja um pouco menos tolerante que os colegas com respeito a certas apelações televisivas e certamente não exige marcas famosas e caras de sapato. Se ele conversa com os amigos na escola e se interessa, por exemplo, pelo “Ben10”, ele assiste uns episódios no site do CN ou, se ele insistir muito, a gente arruma os episódios para ele ver no DVD.
Arranquem e guardem a antenna ou cortem os cabos e encerrem a conta. Vivam sem TV por um mês pelo menos. Se vocês não gostarem da “nova” vida sem TV, basta recolocar a antena ou comprar um pacote de TV a cabo de novo.

Friday, February 15, 2008

Nu

























Nu

A tesoura gelada rasga a pele,
solta a carne. O sangue corre quente,
cobertor de quando eu era menino.
Sobram as vísceras incandescentes.
Noventa e oito por cento do corpo
é feito de palavras, ascendentes,
infiltrando a laje em cima, cientes
do perigo de um crime perfeito
executado assim, sem alvará.

Só me admira quem não me conhece –
quem sabe de mim me evita:
minha peçonha escorre e pinica.
Eu não me presto.

Ilustração:
Naked Man, Back View, 1991–92
Lucian Freud
Tela; 183.5 x 137.5 cm

Wednesday, February 13, 2008

Cansado















A marca da mancha
da espuma da baba
do verso raivoso
escrito no travesseiro,
é som abafado
de osso esmagado
por entre os ferros
da porta do carro
que arde no fogo,
esvai-se em fumaça
e deixa um punhado
de cinza no chão
que o vento carrega
e a chuva retorna
fundida na lama
que o sol resseca num pó
amargo e fino que irrita
a sua garganta.

Como é que veio cá
amarrar a sua égua
o velho cansado
que espera o futuro
no centro de mim?

Tuesday, February 12, 2008

Cigarros e bundas

Vivemos sobre o império implacável da estética porno-chic do photoshop: primeiro o cigarro de Sartre e agora a bunda de Simone de Beauvoir. Depois falam de Stálin…
Sugestão de leitura: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2951,1.shl

Thursday, February 07, 2008

Algumas observações sobre realidade e ficção


1. Nabokov dizia que “realidade” era uma palavra que devia ser sempre usada assim, entre aspas. Fazem parte da “realidade” as várias formas de atração sexual, a relação pais-filhos, o medo da morte, a velhice, e tantas outras coisas afins; tanto quanto a injustiça social, o tráfico de drogas, a tortura e a corrupção policial, entre outras coisas.
2. TODA narrativa de ficção, desde a Branca de Neve até Tropa de Elite, relaciona-se de alguma forma com algum aspecto da “realidade” humana, dizendo alguma coisa sobre um aspecto qualquer, mais ou menos diretamente. Ser mais ou menos direto não implica em ser mais ou menos arguto, nem profundo. Às vezes a abordagem mais direta pode ser a mais superficial e a abordagem mais alegórica pode ser a mais profunda.
3. Ficção e “realidade” não são a mesma coisa. Tropa de Elite e Branca de Neve são IGUALMENTE ficcionais. Talvez Branca de Neve até jogue mais limpo, porque não fica fazendo de conta que é a “realidade” em si. O que Tropa de Elite tem de sobra é verossimilhança, mas o filme está para a realidade do Rio de Janeiro como a Mona Lisa está para o rosto feminino de carne e osso que um dia posou para Leonardo da Vinci.

Monday, February 04, 2008

Preguiça

Tem dia que eu fico igual ao Manuel, que “gostaria de saber quem inventou o trabalho, para poder tirar vingança”.

Saturday, February 02, 2008

Já diziam os antigos 2:




















Nietzsche gostava de calanguear [na linha do á]:

Minha barba pegou fogo
meu bigode quis queimar
Eu gritei por São João
São Pedro mandou apagar
Meu bigode não tá curto
Comprido também não tá
Queria por atrás da orelha
Danado não quer chegar.