Tuesday, September 19, 2017

Poema meu: Decasia



Decasia*

a orquestra de cinquenta e cinco fúrias pulsavançatravancapita
pontuando festivosinistra a película
que engole e regurgita as imagens do filme
em sequência de sonho mecânico:
o tear nervolento que roda na mão
a manivela que roda na mão do moço
o carrossel que roda a cada dez centavos,
a roda gigante de madeira que roda,
até que chega o dançarino asceta, rodando –
suspende a orquestra em massa em suspenso o mundo
e sobra o apito sibilante.
O dançarino sufi roda
com os braços abertos em êxtase em câmara lenta
roda a saia roda o braço do outro roda a roda
roda roda roda roda a dor a dor me adora
é consolo de muitos crer
que sofrer nos melhora mas
o sofrimento não nos melhora em nada
e é consolo de muitos crer
que a dor quanto mais forte
por isso mesmo melhor e mais nobre
e é consolo de muitos crer
que termina mais resistente aquele
que sobrevive ao pesadelo
do sofrimento agudo intenso e duro
mas o sofrimento não melhora nem enobrece nada
e do meu lote todo até agora
só tirei esse poderzinho pífio
de reconhecer nos olhos dos outros –
no caixa do banco, no padeiro,
na professora do meu filho,
no meu irmão, num mendigo –
a mesma marca líquida que eu tenho
no canto dos olhos,
a marca líquida da corda que esticou
até arrebentar
com os braços abertos em êxtase negativo em câmara lenta
e esse mesmo corpo frouxo,
esses mesmos olhos moles,
e essa mesma corda elétrica solta no ar,
balançando e chiando a mesma nota surda
roda a saia roda o braço do outro roda a roda
roda roda roda roda a dor a dor me adora


*Decasia é um filme de 67 minutos feito em 2002 por Bill Morrison a partir de pedaços deteriorados de filmes antigos e musicado por Michael Gordon. 

Tuesday, September 12, 2017

Proposta para um novo hino nacional do Brasil



Essa canção do grupo de roque argentino Beruit Vergarabat fai fazer vinte anos e, ao invés de envelhecer, fica cada vez mais atual, infelizmente.

Voy a la cocina, luego al comedor,
miro la revista y el televisor.
Me muevo para aquí, me muevo para allá.
Norma Plá* a Cavallo** lo tiene que matar                               
                                                                           *Norma Plá, militante pelos direitos dos aposentados
                                                                            **Domingo Cavallo, o Meirelles do Menen
Que me vienen con chorizo pero ya va a llegar.
Que cocinen a la madre de Cavallo y al papá
o a los hijos, si es que tiene
o a su amigo el presidente no le deje ni los dientes.
Porque Menem, porque Menem,
Porque Menem se lo gana y no hablemos de pavadas
Si son todos traficantes
Y si no el sistema qué y si no el sistema qué
Qué
No me digan que se mantienen con la plata de los pobres
Eso sólo sirve para mantener algunos pocos
Transan, venden
Y es sólo una figurita el que esté de presidente
Porque si estaba Alfonsín, el que transa es otro gil°                           °gil: otário               
Son todos narcos, de los malos
Y si te agarran con un gramo después de que te la pusieron
Se viene la policía, de seguro que vas preso
Y así sube, la balanza
El precio también sube, también sube la venganza,
Y ahora va ¿Y ahora qué?
Son todos narcos, y el presidente
Es el tipo que mantenga más tranquila a nuestra gente
Llega plata del lavado
Mientras no salte la bronca del norte no mandan palos
Ay ay ay
Uy uy uy
¿Qué me dicen del dedito que le meten en Jujuy?             *** Província argentina na fronteira com Bolíiva
Ay ay ay
Uy uy uy
¿Qué me dicen del dedito que le meten en Jujuy?
Ese es el Perro Santillán***                                                 ****Carlos "Perro" Santillán, sindicalista de Jujuy
Si no lo pueden voltear lo van a querer comprar
Con discursos, si no les sale
Son capaz de darle acciones de los grandes mercaderes
Eso no importa, porque El Perro,
Va dejando otro perrito que le mete a este sistema el dedito en el culito y cómo sangra
Y no es el culo
Si no el que sangra y se retuerce es el gran culo de este mundo
¡Adiós el muro, Estalinista!
Los demócratas de mierda y los forros pacifistas
Todos narcos, son todos narcos
Son todos narcotraficantes, te transmiten por cadena
Son de caos, paranoiquean,
Te persiguen si sos puto, te persiguen si sos pobre
Te persiguen si fumás, si tomás, si vendés
Si fumás, si comprás un pobre toto para hacer para comer
Si tomás, vendés, comprás, fumás
Y váyanse a toda la concha de su madre
Y no la quemen ¿qué nos queda?
Elección o reelección, para mí es la misma mierda
¡Hijos de puta! En el Congreso,
Hijos de puta en la Rosada y en todos los ministerios
Van cayendo hijos de puta que te cagan a patadas
Porque en la selva, se escuchan tiros
Son las armas de los pobres, son los gritos del latino
En la selva, se escuchan tiros
Son las armas de los pobres, son los gritos del latino
En la selva, se escuchan tiros
Son las armas de los pobres, son los gritos del latino
En la selva, se escuchan tiros
Son las armas de los pobres, son los gritos del latino
Latino
Latino
Sí, latino
Latinos
Ellos tienen el poder y lo van a perder
Tienen el poder y lo van a perder
Tienen el poder y lo van a perder
Tienen el poder y lo van a perder
Porque en la selva, se escuchan tiros
Son las armas de los pobres, son los gritos del latino
En la selva, se escuchan tiros
Son las armas de los pobres, son los gritos del latino
Latino
Latino

Saturday, September 09, 2017

Oito Heresias sobre Música Popular

Um sujeito jurássico como eu demora a entender as coisas mas já percebi que na ‘ternet a controvérsia é que atrai cliques e os cliques são a medida objetiva da relevância no mundo da mídia social. Então resolvi oportunistamente criar polêmica com essas oito heresias cínicas:

1.     90% das manifestações públicas sobre gosto musical no Brasil não passam de expressões de preconceito de classe. Caetano Veloso canta Vicente Celestino e é lindo. Vicente Celestino canta Vicente Celestino e é um horror. Caetano Veloso canta Peninha e é lindo. Peninha canta Peninha e é uma barangada. Caetano Veloso canta Peninha outra vez e é lindo outra vez. Peninha continua cantando Peninha e continua sendo um cafona. Por outro ângulo, visual: compare uma foto de uma daquelas duplas sertanejas que exalavam sacarina e dor de corno por todos os poros nos anos 90 [depois da consagração na Globo] e antes da fama.  


2.     Gostaria que aqueles que chicoteiam no pelourinho das mídias sociais as letras do chamado sertanejo universitário usassem a mesma severidade ranzinza com letras muito parecidas de músicas bacaninhas roque nacional [como “Óculos”, “Meu Erro” ou “Será”, por exemplo] ou com as letras de alguns clássicos da Bossa Nova [como “O Pato”, “Barquinho”, “Eu sei que vou te amar”].

3.     As letras da primeira fase dos Beatles, via de regra, são bem piores que as do Roberto Carlos de qualquer fase. Mesmo na segunda fase da carreira os Beatles têm várias canções com letra bem boboca – e não é letra boboca por acidente; é de propósito mesmo, com convicção.

4.     Já os Rolling Stones – que para mim, faz tempo, não são grande coisa – morreram lá pelo final dos anos 70. Essa coisa que anda perambulando o mundo berrando de “Satisfaction” a “Start Me Up” [que bem podia ser letra de um funk] é a prova viva de que os zumbis dão dinheiro desde antes dos filmes de zumbi entrarem na moda. Mil vezes o Elvis gorducho cantando em Las Vegas.   

5.     Quando eu era adolescente fui cheio de reverência mostrar a um amigo a canção “Light My Fire” do The Doors. Ele escutou aquela introdução de orgão de churrascaria e lascou na mesma hora: “olha, Papai Noel está chegando!” Aquilo foi uma lição para o resto da vida. Muita gente se diz ateu como se isso fosse uma grande vantagem e depois vive cultuando esse monte de santos de meia-tigela. Nem meus mais favoritos de todos eu venero – venerar é coisa de gente lesada.

6.     Eu amo Led Zepellin de paixão, mas 75% das letras deles são igualzinho a essas letras de música brasileira que só falam de sacanagem. O resto, nos seus melhores momentos, consiste basicamente naquelas viajações enmaconhadas sem base, que ficam quase nonsense sem querer.  

7.     Eu até gosto do Queen de vez em quando [com moderação eu diria], mas as letras deles em geral ficam entre um Waldick Soriano piorado e o Dominó, aquele sub-Menudo brasileiro. Uma das músicas deles que eu mais gosto tem uma das letras mais ridículas que alguém já ousou escrever: Bohemian Rhapsody.

8.     Esclareço aqui que todas essas minhas analogias heréticas não têm como intenção decretar que Beatles e companhia são todos produtores de porcarias de quinta categoria. O que eu queria demonstrar era que exigir uma letra complexa e interessante de uma música que foi feita [por exemplo] antes de qualquer coisa para dançar é o mesmo que questionar um jogador de futebol como Pelé por ter sido um goleiro medíocre. O assunto é complexo mesmo, e não se resolve com um simples contador de acordes ou de adjetivos.