Friday, September 29, 2017

Vá pra Porto Rico!

Cuba recentemente se transformou numa obsessão no Brasil. Tendo em vista a insularidade brasileira, qualquer interesse por um país estrangeiro é a princípio bem vinda. Além das idealizações e demonizações meio bestas que imperam no mundo gritado das redes sociais e na imprensa brasileira, acredito que devíamos olhar para Cuba, sim. Mas sinceramente não faz muito sentido querer comparar uma ilha caribenha pertinho da Flórida com um país imenso como o Brasil. Então, que tal comparar Cuba com Porto Rico? Assim a gente aproveita e conhece um pouquinho mais sobre essa outra ilha de gente orgulhosa e batalhadora, que tem muito mais a mostrar do que o tal “Despacito” [como, por exemplo, “Latinoamérica” do Calle 13, que pode não ser nenhuma “Despacito” mas tem mais de 80 milhões de acessos no iutúbio]: 

Infelizmente muito da História recente de Porto Rico não foi feita na ilha. Por exemplo, o Jones Act aprovado no congresso dos Estados Unidos em 1920 estipula unilateralmente que Porto Rico só pode receber em  seus portos bens e pessoas trazidos por navios dos Estados Unidos.  Qualquer semelhança com aquele velho “Pacto Colonial” que estudamos na escola não é mera coincidência. Graças ao Jones Act a pequenina Porto Rico oferece o quinto maior mercado consumidor de produtos estadounidenses do mundo e tem o maior acúmulo de Walmarts e Walgreens [cadeias comerciais americanas] por metro quadrado do mundo. Sem o Jones Act os preços ao consumidor na ilha abaixariam de 15 a 20% e a ilha poderia estabelecer comércio com a América Latina e o Caribe. Mas o Jones Act depende única e exclusivamente da vontade soberana do congresso nos Estados Unidos.

Antes de qualquer furacão a ilha vinha sendo devastada por uma crise de endividamento que chega a 107% do PIB de Porto Rico - 34.000 dólares por habitante, num lugar em que mais da metade da população está abaixo da linha da pobreza e a economia já encolheu mais de 9% nos últimos 10 anos. As soluções de novo são impostas pelos Estados Unidos e consistem naquela manjada receita do FMI: cortar gastos no governo – por exemplo, desmanchando a excelente universidade pública do país – e usar o dinheiro para pagar os credores. Na raiz do problema, a política econômica de industrializar Porto Rico oferecendo insenções fiscais ou impostos baixíssimos a empresas dos Estados Unidos – e mais uma vez o velho Pacto Colonial me vem à mente.




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Tuesday, September 26, 2017

Obituário: Faulkner

Trecho de uma carta famosa do meu amigo de FCBK William Faulkner


"É meu objetivo e fruto de todos os meus esforços que o sumário e a história da minha vida, que é em uma só sentença obituário e epitáfio também, seja os dois então: Ele escreveu os livros e ele morreu" 

[It is my aim and every effort bent, that the sum and history of my life, which in the same sentence is my obit and epitaph too, shall be them both: He wrote the books and he died].

Tuesday, September 19, 2017

Poema meu: Decasia



Decasia*

a orquestra de cinquenta e cinco fúrias pulsavançatravancapita
pontuando festivosinistra a película
que engole e regurgita as imagens do filme
em sequência de sonho mecânico:
o tear nervolento que roda na mão
a manivela que roda na mão do moço
o carrossel que roda a cada dez centavos,
a roda gigante de madeira que roda,
até que chega o dançarino asceta, rodando –
suspende a orquestra em massa em suspenso o mundo
e sobra o apito sibilante.
O dançarino sufi roda
com os braços abertos em êxtase em câmara lenta
roda a saia roda o braço do outro roda a roda
roda roda roda roda a dor a dor me adora
é consolo de muitos crer
que sofrer nos melhora mas
o sofrimento não nos melhora em nada
e é consolo de muitos crer
que a dor quanto mais forte
por isso mesmo melhor e mais nobre
e é consolo de muitos crer
que termina mais resistente aquele
que sobrevive ao pesadelo
do sofrimento agudo intenso e duro
mas o sofrimento não melhora nem enobrece nada
e do meu lote todo até agora
só tirei esse poderzinho pífio
de reconhecer nos olhos dos outros –
no caixa do banco, no padeiro,
na professora do meu filho,
no meu irmão, num mendigo –
a mesma marca líquida que eu tenho
no canto dos olhos,
a marca líquida da corda que esticou
até arrebentar
com os braços abertos em êxtase negativo em câmara lenta
e esse mesmo corpo frouxo,
esses mesmos olhos moles,
e essa mesma corda elétrica solta no ar,
balançando e chiando a mesma nota surda
roda a saia roda o braço do outro roda a roda
roda roda roda roda a dor a dor me adora


*Decasia é um filme de 67 minutos feito em 2002 por Bill Morrison a partir de pedaços deteriorados de filmes antigos e musicado por Michael Gordon.