Friday, January 06, 2006

2 cachorros e meu recorde

Enquanto eu me aproximo cada vez mais (como se alguém pudesse se aproximar cada vez menos) de entrar para o Guiness Beer Book of Stupid Records como o dono do blog menos visitado desse mundo digital sem pai nem mãe, mais um texto, agora sobre cachorros com direito a epígrafe da venrável senhora woolf! woolf!:

2 cachorros


Such conduct in a man even, in the year 1842,
would have called for some excuse from a biographer;
in a woman no excuse could have availed;
her name must have been blotted in ignominy from the page.
But the moral code of dogs, whether better or worse,
is certainly different from ours, and there was nothing
in Flush’s conduct in this respect that requires a veil now,
or unfitted him for the society of the purest
and the chastest in the land then.
Virginia Woolf


10 de dezembro, 10.55 da manhã
- Porcaria d cadela já vem me atrapalhar o banho d sol. Já ficamos os 2 trancados nessa porcaria de quintal c/ esse pedaçinho d corredor c/ nem bem 2 horas de sol p/ dia e ainda me vem vc! Sai! Sai!
- Pelo cheiro d cebola e repolho picados da espelunca daquele chinês seboso já devem ser quase 11 horas. O sol já vai embora daqui a pouco – será q vc pode chegar um pouquinho p/ lá?
- Vc anda com o focinho entupido. O chinês está tirando a carne do pacote. Hummm... Qto tempo s/ nem lamber um bocadinho de sangue caído no chão da cozinha! Pq é q a Zélia tinha q nos largar aqui com esse muquirana q só nos dá uma porcaria de marmita quase vazia p lamber uma vez p/ dia – se ñ é dia de coxa d galinha só sobra uma ½ dúzia d grãos de arroz p/ um dia inteiro.
- Deixa d ser chorão, reclamando da vida na melhor parte do dia. O almoço já vem.
- Ñ fosse todo o cachorro antes d tudo um forte já estávamos os 2 mortos. E desse jeito o nosso destino – vc acha q cura essa sua sarna c/ essa comida? É demais p/ a cabeça de 1 cachorro. Aquele bando de pulhas passeando livres a noite inteira d muro em muro impunemente e nós 2 aqui presos sem nem 1 sapato velho p/ desabafar a raiva!
- Sente o cheiro d sabão barato e creme d alisar cabelo; o guardador d carro já dobrou a esquina.
- O q é q adianta? Ele entrega todo o dia a marmita pro velho e p/ mais q a gente abane o rabo e faça a festa ele só libera a porcaria da marmita com 1 mero punhadinho q ñ dá nem pro buraco do dente. Miséria de vida!

11 de dezembro, 10.55 da manhã
- Lá vem vc, porcaria de cadela, atrapalhar meu banho de sol. Será que –
- Vamos fugir hoje?
- O q?
- Vamos embora daqui qdo a porta abrir qdo o guardador d carro trouxer a comida.
- Mas logo na única hora em q alguém aparece p/ aqui c/ comida nós vamos embora? Além disso, nós ñ duraríamos 2 dias lá fora.
- Pq?
- Lá fora é 1 mato s/ cachorro, um verdadeiro hospício de gatos, uma selvageria generalizada. Porteiros, zeladores de prédios, raças de gente da pior espécie, prontos p/ te meter o pé nas costelas ou no focinho ou te dar c/ 1 pedra na cabeça ou te escaldar c/ água fervendo ou coisa pior.
- Pior do q viver aqui ñ pode ser. Eu me recuso a morrer de fome.
- Vira essa boca babenta p/ lá, eu ñ vou morrer nunca!
- Então?
- Vc nunca morou na rua sem dono, ñ tem idéia do q é. Vc nem sabe ler.
- Qualquer cachorro c/ 1 mínimo d bom senso e faro razoável aprende a ler o essencial em 2 semanas. Vc mesmo disse.
- Vc se lembra daquela corujinha empalhada safada insolente trepada em cima da mesa do escritório lá em cima?
- Aquela porcariazinha teve o que mereceu.
- É, mas o q é q aconteceu depois que nós 2 demos cabo daquela lambisgóia?
- Tomamos 1 sova c/ um pedaço de fio de cobre q me doeu o lombo 1 semana, mas aquela porcariazinha ñ podia ficar ali em cima da mesa nos provocando impunemente, podia?
- Mas depois da surra que vc recebeu vc decidiu dar o troco nas galochas da Zélia, vc lembra?
- Ela me deu outra surra pior e me trancou no canil frio debaixo da escada 2 dias.
- Pois lá fora isso vc pode se considerar sortuda se conseguir ser tratada assim uma semana inteira!
- Mas qdo eu estiver livre aqueles palhaços ronronando e rebolando lá em cima do muro vão finalmente ter o q merecem.
- Vc vai, eu fico. Assim me sobra mais comida e eu tomo o meu banhozinho de sol em paz s/ encheção de saco.
- Mas q belo covarde vc me saiu, hein? Eu vou dar no pé e ninguém vai me pegar, vc vai ver.
- Vai, bocó, mas a liberdade é 1 golpe de vista, ilusão de ótica, miragem, sonho. Afie as garras e os dentes e apure os latidos pq pode até ser bom de vez em qdo lá fora, mas geralmente é uma lástima obscenamente horrível p/ 1 cachorro s/ dono. Vc ainda vai se lembrar desse quintal c/ 1 paraíso perdido onde vc podia se encostar num canto e sonhar c/ 1 osso bem carnudo ou 1 bom tufo d penas na boca e pode enfiar seu rabo entre as pernas e deixá-lo lá pq lá fora quem balança o rabo na hora errada vira sabão!
- Vira vc essa boba fedida p/ longe d mim e chega p/ lá!

O velho cão recosta a cabeça entre as patas e cai imediatamente em sono profundo embalado pelo zumbido abafado dos carros lá fora. Logo veio um sonho e nele apareceram um gato de olhos amarelados repugnantes, um pombo arrogante cheio de penas e um dos chinelos peludos da sua querida desaparecida verdadeira dona que apareceu como sempre com um pelo pedaço de pão besuntado de manteiga ou até um osso balançando da mão e a roupa cheirando a laranja, cigarro, benzina, água de colônia, pipoca, lã e sabão e o chamava com a voz tão doce, tão cheia de amor e alegria e fiu, fiu, totooó, vem cá lindinho vem... e no seu sonho o velho cão e ela saem juntos passeando na rua, ele se deliciando com cada poste e cada canto cheio de tantos cheiros tão bons e os vira-latas com os olhos queimando de inveja e latindo e rosnando indignados chamando-o de “seis pernas” e “meleca de madame” e ele desfilando triunfalmente cheirando cada poste e cada canto e cobrindo com 2 ou 3 gotas de urina cada ponto estratégico da rua e voltando para casa lindo glorioso feliz um cão com dono voltando para casa e ai do gato repugnante e do pombo arrogante e do chinelo peludo cruzando a sua frente despudoradamente...

Wednesday, January 04, 2006

(Quase) glória da ciência nacional

Vamos mudar de registro para continuar furiosos:

(Quase) glória da ciência nacional

Já estavam quase aprendendo a viver
quase sem comer
quando, infelizmente,
vieram a falecer,
deixando para trás aqueles que,
já quase aprendendo
a viver quase sem qualquer desejo,
acabaram, infelizmente, comprando
com um revólver arrendado
uma passagem (com escalas)
ao Carandiru
mais próximo onde,
infelizmente, vieram
também a falecer antes
de aprender de novo
a ser pobre sem trauma de pobreza,
mas
não sem antes dar
ao Estado o que é do Estado
quando o Estado precisa ser Estado:
esse medo duro,
generalizado,
embalado a vácuo,
que cria um ajustamento sem dor,
ou, se preferirem,
um consenso asmático
(quem tiver estômago,
faça uma pesquisa
e pergunte a esfinge
que atende pelo curioso nome,
brasileiro médio,
se ele concorda com a frase,
cunhada de próprio punho,
“o bandido bom é o bandido morto”)
que transformou e transforma
quinhentos anos de violência crassa
na identidade nacional maior.

Enquanto isso, nós,
com a cabeça enterrada
na areia fresca da praia
fazendo as pazes conosco,
vivendo em guerra conosco,
querendo sempre não ver:
são sempre quase todos quase
tataranetos de escravos
moídos em doce duro
que adoça o café amargo
que só vem depois
da tal sobremesa.