Wednesday, July 29, 2009

Atrás da linguagem da loucura

Escrevi um conto de um par de páginas baseado em um personagem real. Minha idéia era tentar escutar e então me aproximar o máximo possível da linguagem da loucura sem ficar doido. Eis aqui o primeiro parágrafo:

"Confesso que era ateu quando o tal pastor apareceu na minha casa e insistiu em conversar comigo. Desci e quando o encontrei reconheci de cara o capitão do disco voador com quem tinha tido contato treze anos antes, em novembro de 1951. Eu disse a ele logo de cara que não queria perder meu tempo com um agente estrangeiro subversivo que se disfarçava em uma forma alienígena simples só para confundir e então dominar povos mais inocentes, mas ele me garantiu que não era verdade. Então convidei-o para almoçar com a intenção de testá-lo, com o cuidado de não transparecer meu intuito. "

Thursday, July 23, 2009

Diario de Tenochtitlán 3 - Lomas de Santa Fé


Uma diferença fundamental entre a Cidade do México e as outras metrópolis latino-americanas é que aqui há uma forte tradição de resistência à especulação imobiliária nos bairros mais antigos da cidade. Essa resistência vinha tanto do estado com seu aparato de políticas urbanas como da população dos bairros de classe média que protestavam e não permitiam que se construíssem arranha-céus em seus bairros.
Lomas de Santa Fé era primeiro um imenso buraco - daqui se tirava areia para construir a cidade. Depois começaram a encher o buraco com lixo - aqui estava o lixão da cidade com sua conhecida população de miseráveis. Até que governo e iniciativa privada decidiram transformar Lomas de Santa Fé no bairro "moderno" da cidade, onde os prédios de escritórios podiam ser gigantescos como os da Avenida Paulista ou do Centro do Rio.

Monday, July 20, 2009

Diário de Tenochtitlán 2 - Casa Lamm

A casa Lamm é uma das muitas casas do século XIX do Bairro Roma e foi transformada em um charmoso centro cultural.


Sunday, July 19, 2009

Diário de Tenochtitlán 1


Os mexicanos são conhecidos por sua polidez. Hoje cheguei e consegui essa foto com o típico aviso de não estacionar em garagem cheio de salamaleques...

Saturday, July 18, 2009

Exercício feito na FLIP

[era escolher um personagem de um poema em prosa do Jorge de Lima sobre um desastre de avião. Escolhi as 3 meninas da primeira epígrafe]

Nós vamos afundar


Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda.

Não é o ‘o quê é arte’ mas o ‘quando é arte’.


Antes dos remorsos
desse avião despedaçado
que nunca passeou com os filhos,
antes dos poetas míopes,
do homem de chapéu Panamá,
e dos colecionadores de nuvens,
antes que o sino dobre
e o mosquito amigo do rei
penetre a pele velada
pelo mosquiteiro furado,
nós vamos afundar
dançando devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos reencontrar
transformadas em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade
vai estar nos esperando
com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos reconhecer
e nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntas.

Wednesday, July 15, 2009

o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final

Enfiar o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final, mas só depois de botar aquele vagabundo pra fora de casa e consertar de novo o alarme da minha alegria e aí pronto: é o mundo inteiro contido entre a maiúscula e o ponto final, ainda que depois ninguém entenda patavinas de piripitibas e mesmo assim se ofendam os stalinistas do grande espírito das grandes letras greco-latinas ocidentais e os stalinistas defensores por procuração dos frascos e comprimidos do departamento e estejamos assim todos mal pagos e fodidos; mesmo assim há que se continuar até o fim porque, entre o universo dito e o infinito omitido, o ponto final da frase onde cabe o mundo inteiro é possível, sem truques baratos nem truques raros porque entre populismos para gente que não gosta mesmo de ler e elitismos para gente que não gosta que ninguém leia lá vamos nós nos foder outra vez, mas, sinceramente, quem nunca se fodeu pelo menos doze vezes não merece o papel e a caneta que tem, muito menos o esplendoroso fracasso que só pode conhecer quem tentar pelo menos doze vezes enfiar o mundo inteiro entre a maiúscula e o ponto final – são esses seres de anúncio de escova de dentes que não sabem o que é a derrota ou esses especialistas de gravata que logo entendem tudo de uma vez e não sabem, por exemplo, que o mal existe e não precisa de motivos, que os assassinos e torturadores podem não ter nenhum trauma terrível no fundo do poço da infância (e, por favor, não me confundam com esses grã-finos do intelecto de Nova Iorque que inventaram essa patagoada de “banalidade do mal” para falar de assassinos e torturadores que podem até existir em qualquer povo e qualquer época mas nem por isso são um trisco menos assassinos e torturadores) – e é por causa do esplendor do fracasso e também porque o silêncio é uma covardia terrível que não altera a cacofonia esquizofrênica do mundo capitalista dilacerado entre a disciplina puritana da produção e o hedonismo infantilizado do consumo que apesar de tudo tem que ser mesmo essa peleja descarnada até o fim e como eu não acredito em reencarnação nem em livros psicografados, tem que ser da maiúscula ao ponto final no espaço de uma vida, que é, admito, um peido na história da humanidade e um cisco na história do planeta mas é tudo o que temos e, do que temos a fazer com o que temos, é o mais bonito e o mais divertido (e só a alegria e a beleza dadas têm esse sentido próprio que muita gente insiste em procurar no dinheiro), mas só depois de botar aquele palhaço para fora de casa e consertar o alarme da minha alegria que estragou desde o dia em que agora não vem ao caso quem se instalou de mala e cuia na minha vida como um parêntese infeliz que eu vou fechar agora, antes de começar a tentar mais uma vez enfiar o mundo entre uma maiúscula e um ponto final (pronto)

Tuesday, July 14, 2009

Semianonimato é até otimismo...

"...percebo uma grande empatia dos leitores pelas cartas que recebo. Essa é uma sensação boa para quem passou décadas no semianonimato típico da vida de quase todo escritor brasileiro."
Cristovão Tezza

Monday, July 13, 2009

Abril de 1954

Imagem: http://www.brasilescola.com/upload/e/big%20bang.jpg


[O acesso à internet anda bem restrito e o acúmulo de tarefas terrível, mas garanto aos meus inumeráveis leitores que eu ainda não desisti desse troço aqui.]


Rio, abril, 1954


"Foi assim: eu estava fazendo o livro de novelas - que iam ser 9 (número favorável, cabalisticamente) e estavam saindo enormes, algumas parecendo verdadeiros romances. Pois bem, já prontos os rascunhos das seis primeiras aconteceu que a sétima começou a revoltar-se. Os motivos requeriam espaço e mais espaço, o cartapacio crescia, crescia, por mais que eu tirasse, cortasse, comprimisse, empurrasse a coisada para dentro do saco. Fui ficando seriamente angustiado; até que, de repente, me veio a solução salvadora: mudar o escrito para um romance. Foi o que passei a fazer. A pulso, de cabeçada em cabeçada. Ei-lo, pois, que já chegou à página 219, ontem à noite. (...) A coisa está quente, os assuntos são tremendos, quase terroríficos. Não há capítulos, nem divisões de espécie alguma. Texto maciço. Tijolóide. Narrado, 1a pessoa, e o narrador é um ex-jagunço chefe de bando (...) Muito movimento, muito tiro, muitas batalhas e correrias de cavalo. Só depois, na primeira passada a limpo, é que vou ver se presta."