Sunday, September 30, 2018

Pessimismo em tempos de #elenão

Entusiasmados ou desesperados, assisto partidários do Capitão-Pulha, Haddad, Ciro, Marina e Alckmin tentando seduções baratas, debatendo com sangre frio e clareza ou batendo boca apaixonadamente uns com os outros. A grande novidade, infelizmente, é a extrema direita, pesadelo mundial que chega ao Brasil na esteira de uma crise institucional que começa em 2013 e vai se agravando de desastre em desastre, montando um elenco grotesco de personalidades que eu mais parecem os personagens de um reality show de segunda categoria. Que a luta contra essa extrema direita seja capaz de unir ainda que circunstancialmente o resto do espectro político - quem sabe assim a gente se convença do valor da democracia mesmo quando a gente perde as eleições? Mesmo porque, ainda que derrotemos o Capitão-Pulha, sua mensagem continuará bem viva, esperando por alguém um pouco menos grosseiro que consiga disfarçar melhor a baba do ódio.

Uma coisa, também infelizmente, não muda nada neste ciclo eleitoral de 2018: o Brasil continua se esfalfando em debates e bate-bocas entre candidatos presidenciais variados [suponho que haja um candidato para todos os gostos possíveis] e ao mesmo elegendo um congresso e um senado de péssima qualidade, onde uma minoria de parlamentares valorosos lutam quixotescamente com uma multidão de velhas figuras manjadas, de filhos de raposas velhas decrépitas e de novos farsantes capitalizando em cima de fama no futebol ou na televisão. Digamos que o #elenão poderia muito bem ser complementado por um imenso #elesnão, uma longa lista de figurinhas desqualificadas que variam do grotesco ao deprimente/previsível, muitos deles a caminho de um mandato de 4 ou 8 anos.

Ficamos então na mesma: num sistema republicano democrático onde uma boa parte do poder está com o congresso, sonhamos em tudo resolver com a eleição de algum Buda de presidente com Cristo de vice um ministério de Krishnas e Maomés. Parece que confrontados com essa questão, muitos de nós sonham com soluções autoritárias, nas quais as pessoas elegem um santo-presidente que vai enquadrar na porrada os porcos-deputados e cachorros-senadores que elas mesmas também elegeram.

Wednesday, September 26, 2018

Cai por terra mais um paladino da família

Hoje caiu por terra completamente humilhado o homem-modelo, o famoso homem de sucesso, que se via como modelo de tudo que estava certo e era o retrato do bom senso, que um dia fez um longo discurso cheio de sarcasmo no NAACP culpando a própria comunidade afro-americana pelos seus problemas, inclusive pela violência policial:

"These are people going around stealing Coca Cola. People getting shot in the back of the head over a piece of pound cake! Then we all run out and are outraged, 'The cops shouldn't have shot him' What the hell was he doing with the pound cake in his hand? (laughter and clapping). I wanted a piece of pound cake just as bad as anybody else (laughter) And I looked at it and I had no money. And something called parenting said if get caught with it you're going to embarrass your mother. Not you're going to get your butt kicked. No. You're going to embarrass your mother. You're going to embarrass your family."

Verificou-se há tempos, com base em inúmeros testemunhos de mulheres diferentes, que ele abusou sexualmente de inúmeras mulheres durante anos e anos. E eu não vou aqui ocupar a cadeira na qual ele se refestelava quando fazia seus discursos dizendo exatamente o que as pessoas precisavam fazer e evitar "para fazer Jesus sorrir". Eu quero distância dessa cadeira dos justos e dos indignados que apontam o dedo na cara dos outros e os acusam sem dó nem piedade em defesa da família e dos valores de antigamente, quando supostamente vivíamos um mundo de responsabilidade e esforço.

Por um lado, Bill Cosby é simplesmente um ser humano profundamente falho, exatamente como o catolicismo que eu conheci com os jesuítas enxergava a todos nós que perambulamos esse planeta. E os jesuítas então ensinavam para quem quisesse ouvir: você, que não é santo, deve olhar bem de perto para todas as suas falhas antes de ficar apontando as falhas dos outros e aprender com elas a virtude da humildade. O que realmente impressiona em Bill Cosby não é as suas fraquezas, mas a imensidão da hipocrisia que cultivava uma aura de modelo para todas as pessoas da sua comunidade julgando-as com tanta dureza e nos bastidores abusava do seu poder como homem rico e conhecido para forçar mulheres que ele entorpecia a terem relações sexuais com ele nas quais elas faziam o papel de um boneco inanimado. Impressiona e assusta. Bill Cosby é um ser humano. Bill Cosby é um homem. Para saber evitar as suas terríveis fraquezas deveríamos começar por aí.

Esse é um dos calcanhares de Aquiles da cultura puritana que os Estados Unidos espalham até certo ponto pelo mundo inteiro: viver para julgar duramente todos os outros em volta, amar intensamente a máscara de santo, de mártir da verdade e de justo. Os Calvinistas lá na velha Nova Inglaterra viviam em comunidades intensamente unidas por esse ódio visceral ao pecado [principalmente o pecado dos outros]. As redes sociais estão profundamente imbuídas dessa fraqueza bruta, essa intolerância que caça e queima bruxas, enforca hereges e lincha criminosos em júbilo. As fogueiras hoje ardem de alegria pela carcaça de um Bill Cosby cego e andando de bengala.

Sou hoje ainda mais ateu do que era quando me neguei sozinho a fazer a primeira comunhão na escola, sem perceber que meu ato seria interpretado como insulto e soberba. Mas lá com os jesuítas que me atormentaram a vida um bocado também, eu me sinto profundamente triste pelas pessoas que ele fez sofrer tanto. E penso na cultura dentro da qual ele cresceu como cresceu e reconheço essa cultura como a cultura onde eu cresci. Sem essa loucura perversa que ele tinha dentro dele, não tenho dúvidas, mas com a mesma visão estrábica que o machismo impõe a todos os homens, que têm tanta dificuldade em ver as mulheres de carne e osso ali tão perto dele, mesmo depois de anos e anos de vida em regime de convivência desde a escola. Além da lição de humildade e misericórdia, aprendi também a ver as mulheres por trás de duas máscaras: uma de Maria/virgem/mãe e outra de Eva/destruidora do paraíso do lar cristão. Desaprendi a ver santas divindades da pureza e vadias monstruosas da perdição, mas num longo e às vezes doloroso processo onde me ajudaram igualmente as pessoas à minha volta e o mundo [esse mesmo mundo tão terrível às vezes] que parece despertar de um longo sono patriarcal [parece, quem sabe? O suficiente para me acordar.].

Tuesday, September 25, 2018

Entre Brasil e México: Maximiliano o primo de Pedro que quis ser imperador também

Edouard Manet tenta associar o fuzilamento de Maximiliano
aos fuzilamentos denunciados por Goya quando a
França de Napoleão ocupou a Espanha.
O detalhe é que o invasor aqui é que é o fuzilado
Ferdinand Maximiliano Josef é mais conhecido como o efêmero imperador do México que morreu fuzilado em 1867 entre protestos de várias partes do mundo.

O que poucos sabem que Maximiliano esteve no Brasil visitando seu primo Pedro antes de se meter nessa aventura mal-fadada patrocinada pelos Franceses. E deixou registro escrito da viagem.

Não vou reproduzir aqui nenhum trecho do terceiro volume das suas memórias, no qual Maximiliano discorre sobre a sua visita a Salvador, Rio de Janeiro e Petropólis no Brasil em 1860. Não o faço porque o mundo já tem que digerir uma dose cavalar de violência verbal, racismo e imbecilidade e há muito tempo eu me decidi não contribuir com esse estado de exaltação indignada e raivosa que grassa por aí.

Só deixo aqui um simples registro: hoje entendo bem melhor o cada vez maior Benito Juárez, cuja fama rendeu crianças batizadas de Juarez às pencas no Brasil [além de um infame Benito italiano]. Juárez mandou fuzilar o imperador austríaco sem hesitações, apesar de vários protestos - entre eles o quadro famoso de Manet. Juárez fuzilou Maximiliano em vista de tudo o que essa figura fútil e ignorante causou ao seu país. E quando me lembro dos muitos monarquistas que insistiam em pintar a tragédia de um monarca liberal e ilustrado abandonado pelos franceses e pelos conservadores mexicanos... quanta mentira! Maximiliano era muito racista, etnocêntrico até a medula, extremamente fútil e às vezes simplesmente ridículo, além de desinformado.

Feliz o mundo das repúblicas, que está livre dessas cavalgaduras reais que ainda sobrevivem em vários cantos da Europa.

Monday, September 24, 2018

Roque Mexicano dos Anos 80: Caifanes


"Parecemos nubes
que se las lleva el viento
cuando hay huracanes,
cuando hay mal de amores.
Parecemos presos
y como presos pensamos
escapar uno del otro y cometer la fuga...

Vamos a dar una vuelta al cielo
para ver lo que es eterno."




"Piedra déjame piedra
no me deformes más.
Déjame como soy."



"No dejes que
nos coma el diablo amor,
que se trague tu calor,
que eructe mi dolor."



"Para que no digas
Que no pienso en ti:

Ando entre seres
oblicuos y ausentes,
buscando la forma
de hacerlos presentes."



"Muchos años uno cree
que el caer es levantarse
y de repente
ya no te paras

Que el amor es temporal
que todo te puede pasar
y de repente
estás muy sólo

Afuera tú no existes, sólo adentro.
Afuera no te cuido, sólo adentro
Afuera te desbarata el viento sin dudarlo
Afuera nadie es nada, sólo adentro"

Tuesday, September 18, 2018

Kafka publica seu primeiro livro

Kafka publica seu primeiro livro, Contemplação, no fim de 1912, com uma pequena tiragem de 800 cópias. A editora paga por um anúncio de página inteira no periódico alemão da indústria do livro, explicando que o escritor, já conhecido nos círculos literários por ter publicado textos em revistas como a Hyperion [onde oito dos 18 textos de Contemplação já tinham aparecido], tinha "uma tendência compulsiva de revisar seus trabalhos", e por isso só publicava seu primeiro livro naquele ano. Menos de 450 exemplares de Contemplação são vendidos nos três primeiros anos e até 1924, ano da morte do autor, a primeira edição ainda não havia esgotado. Não se cogita portanto uma segunda edição da obra naquela época.

Kafka segue escrevendo mesmo assim e, no mesmo fim de 1912, ele escreve "A Metamorfose".

Friday, September 14, 2018

Milton entre letristas num momento luminoso



A música [sensacional, melodicamente e ritmicamente tão ousada] é de Milton Nascimento, mas a letra é dividida entre os dois parceiros mais importantes dele: Márcio Borges [que predomina na primeira parte da carreira nos anos 70] e Fernando Brant [que predomina na segunda, nos anos 80]. Ainda que eu prefira muito mais o Milton Nascimento dos anos 70, Fernando Brant era um excelente letrista, tão bom quanto Márcio Borges. São letristas excelentes e diferentes: as letras de Márcio Borges são mais ácidas, tem mais arestas e momentos de surrealismo, enquanto as de Fernando são bem mais claras, luminosas, alcançando num equilíbrio difícil entre a circunspecção e a sinceridade. 

Suponho, sem saber ao certo, que Fernando Brant começa e que Márcio Borges assume a partir de "Alertem todos os alarmas". Aqui a letra:

O que foi feito, amigo,
De tudo que a gente sonhou?
O que foi feito da vida?
O que foi feito do amor?

Quisera encontrar
aquele verso menino
que escrevi há tantos anos atrás.

Falo assim sem saudade.
Falo assim por saber:
Se muito vale o já feito,
Mais vale o que será. [Mais vale o que será!]
E o que foi feito é preciso conhecer
para melhor prosseguir.

Falo assim sem tristeza.
Falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer. [Nós iremos crescer]
Outros outubros virão.
Outras manhãs
plenas de sol e de luz.

Alertem todos os alarmas
Que o homem que eu era voltou.
A tribo toda reunida.
Ração dividida ao sol
de nossa Vera Cruz.
Quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par.

Quando o cansaço era rio
E rio qualquer dava pé.
E a cabeça rodava
num gira-girar de amor.
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz.

Hoje essa vida só cabe
Na palma da minha paixão.
Devera nunca se acabe
Abelha fazendo o seu mel. [No canto que criei!]
Nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós.

Wednesday, September 12, 2018

Só o pessimismo inconformado nos une

Pessimismo inconformado [mas progressista] de Manuel Bomfim em 1905:

Ninguém se deteve a examinar o caso e procurar os meios eficazes de se fazer a transformação na produção. Não viam, sequer, que o trabalho livre deve ser inteligente e aperfeiçoado, e que era mister, antes de mais nada, educar o trabalhador, instruí-lo, levar o produtor a melhorar os seus processos, meio único de compensar a barateza do trabalho escravo que se perdia. Disto não se cogitou. Decretou-se a libertação, e foram-se todos, considerando a reforma como acabada; e se alguém ainda se ocupou do caso – foi para pedir ou propor que se importassem braços baratos, que pudessem substituir os antigos escravos, nada se alterando nos costumes e nos processos: chineses ou italianos, que viessem ocupar as antigas senzalas – um salário baixo, equivalente à alimentação e ao juro do preço do negro... tudo mais como dantes. Quanto a essa população das classes inferiores, antigos escravos, nacionais proletários – quanto a estes: que sejam obrigados por lei a trabalhar; pedem-se leis sobre a vagabundagem, lei de locação de serviços, na convicção de que, no momento em que alguns decretos, substanciosos de artigos e parágrafos, vierem publicados, todos esses homens se tornarão logo ativos, adorando o trabalho, e dispostos a dar o seu labor ao fazendeiro ocioso e bruto, por um salário miserável. O essencial era garantir o fazendeiro tal qual ele é, criando embora dificuldades no futuro. E o fazendeiro, que viveu sempre parasita, já não quer somente braços baratos; reclama também quotas diretas, em espécie – auxílios à lavoura, compensação aos lucros cessantes... Ontem parasita do escravo, hoje parasita do Estado – é-lhe indiferente, certamente, quem o tenha de manter, contanto que não haja de alterar o viver. E os auxílios vêm; mas nem ele se sacia nem melhoram as condições da lavoura, convertida hoje em verdadeiro pauperismo, cuja miséria aumenta na proporção das esmolas e auxílios que recebe." 
(América Latina: Males de Origem, 125)



Pessimismo inconformado (e reacionário) de Oliveira Viana em 1920: 

"Há um século estamos sendo como os fumadores de ópio, no meio de raças ativas, audazes e progressivas. Há um século estamos vivendo de sonhos e ficções, no meio de povos práticos e objetivos. Há um século estamos cultivando a política do devaneio e da ilusão diante de homens de ação e de prea, que, por toda parte, em todas as regiões do globo, vão plantando, pela paz ou pela força, os padrões da sua soberania. Nesse contato, que se torna cada vez mais estreito, o nosso destino já está pré-traçado. É o das panelas de barro do apólogo, que giram e regiram no mesmo remanso ao lado das panelas de ferro, e aquelas acabam, num choque, espedaçando." 
(Populações Meridionais do Brasil, 58)

Wednesday, September 05, 2018

Traduzindo "A fórmula secreta" de Juan Rulfo

O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro já seria suficientemente triste. Quando penso que recentemente cogitei fazer concurso e tentar voltar para o Brasil, me arrepio. No momento atual me sentiria como um judeu voltando à Alemanha antes da Noite dos Cristais. As perspectivas por aqui estão muito longe de excelentes, mas é inegável que no Brasil entramos num novo ciclo de auto-destruição, ainda mais intenso que os anteriores. Sua intensidade, com direito à expulsão de refugiados venezuelanos em Roraima, não parece ter criado qualquer senso de urgência em ninguém.
Este ciclo, como aquele longo inverno que começou num 1o de abril de 1964, está sendo calmamente recebido por imprensa e judiciário, e visto por alguns como chance de "redenção" de um país perdido. A mesma dupla que apoiou 1964 e depois lavou as mãos como se não tivesse nada a ver com aquilo, hoje nos assegura que as nossas prezadas instituições republicanas continuam funcionando em perfeito estado. O incêndio do museu apenas indica para a necessidade de acelerar as "reformas" que prometem transformar o Brasil num país ainda mais selvagem em seu capitalismo neo-escravista.  O que estamos cozinhando agora no Brasil é um imenso massacre concertado como o que varreu a Argentina nos anos 70, culminando com copa do mundo e tudo.

Mas também reconheço que não foram os que ficaram se comiserando - como faço aqui agora - que nos ajudaram a sair daquele inferno de 25 anos. Aquela estúpida ditadura que acabou justamente com o derretimento de um país que se afogava entre estagnação econômica, dívida externa e hiperinflação também acabou por causa de muita luta de muita gente vigorosa e determinada. Mas fico me perguntando hoje qual o sentido daquela luta toda daquelas pessoas em vista desse novo ciclo infernal que nos assola. O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro já seria suficientemente triste. E ainda tanta estupidez exibida tão despudoradamente por todos os lados. Tantas frases de efeito, tanta barbaridade. Tanta mentira.

Traduzi não faz muito tempo um poema de Juan Rulfo usado no filme A fórmula secreta de Rubén Gámez. Volta ao poema com pesar, pensando em como ele se aplica, infelizmente, ao Brasil de 2018:


A Fórmula Secreta

I
Dirão vocês que é pura tolice a minha,
que é um desatino lamentar-se da sorte
e ainda mais dessa terra pasma
onde nos esqueceu o destino.

A verdade é que custa trabalho
aclimatar-se à fome.

E ainda que digam que a fome
repartida entre muitos
afeta menos,
o único que é certo é que aqui
todos
estamos à beira da morte
e não temos nem sequer
onde cair mortos.

Pelo que parece
vem aí desgraça da brava.
Nada que dê um nó cego
a esse assunto.
Nada disso.
Desde que o mundo é mundo
andamos com o umbigo colado à espinha,
agarrando-se contra o vento à unha.

Eles nos regulam até a sombra,
e apesar de tudo
assim seguimos:
meio aturdidos pelo sol maldito
que no diário nos distribui despedaços
sempre com o mesmo ferro,
como se ele quisesse reviver mais o rescaldo.
Ainda que saibamos bem
que nem ardendo em brasas
dará luz a nossa sorte.

Mas somos obstinados.
Talvez isso tenha conserto.

O mundo está inundado de gente como a gente,
de muita gente como a gente.
E alguém tem de nos escutar,
alguém e alguns mais
ainda que rebatam ou se arrebentem
com os nossos gritos.

Não é que sejamos metidos
Nem que estejamos pedindo esmolas à lua.
Nem é do nosso proceder meter-se depressa num buraco
ou cascar fora pras montanhas
toda vez que alguém vem nos atiçar os cachorros.

Alguém terá que ouvir-nos.

Quando deixarmos de grunhir como vespas em
enxame,
ou virarmos rabo de redemoinho,
ou quando terminarmos escorrendo sobre
a terra
com um relâmpago de mortos,
então
talvez
tenhamos todos
remédio.

II
Rabo de relâmpago,
     redemoinho de mortos.
Com o vôo que levam,
     pouco durará seu esforço.
Talvez acabem desfeitos em espuma
     ou os trague esse ar cheio de cinzas.
E até podem perder-se
     indo às cegas
          entre a escuridão revolvida.
No fim das contas já são puro escombro.

A alma haverá de se ter partido
     de tanto dar encontrões com a vida.
Vai que se embaracem entre as fibras
geladas da noite,
ou o medo os liquide
     apagando-lhes até o hálito.

São Mateus amanheceu desde ontem
com a cara ensombrecida.
Rogai por nós.

Almas benditas do purgatório.
Rogai por nós.

Tão alta está a noite e nem há com o que velá-los.
Rogai por nós.

Santo Deus, Santo Imortal.
Rogai por nós.

Já estão todos meio passados de tanto sol
     chupando-lhes o sumo.
Rogai por nós.

Santo são Antoninho.
Rogai por nós.

Rebanho de gente ruim, bando de folgados,
Rogai por nós.

Cambada de velhacos, fileira de vadios
Rogai por nós.

Trança de bandidos.
Rogai por nós.

Ao menos estes já não viverão encharcados pela fome.

Tuesday, September 04, 2018

Castro Alves fala sobre a separação de Eugenia Camara

Amália Rodrigues e Paulo Maurício
como Eugénia Camara e Castro Alves
no filme Vendaval Maravilhoso de 1949
Trecho muito interessante da última entrevista de Castro Alves, de 1871 [a entrevista completa pode ser encontrada aqui ou aqui], quando ele fala sobre o fim do seu relacionamento com a atriz Eugénia Camara:

"... lá [em São Paulo] o nosso amor chegou ao fim. O meu objetivo era terminar os estudos na Faculdade do Largo de São Francisco e o de D. Eugênia retornar aos palcos. No início retomamos a vida intelectual e boêmia, freqüentando saraus e salões, sempre com muito sucesso. Porém, rapidamente, o nosso relacionamento se deteriorou. Eram cada vez mais constantes as nossas desavenças. Cenas violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações. Sopravam-me histórias de adultério. No entanto, sei que ela me amou, como sei que, talvez, meu amor tenha sido insuficiente para sua paixão. Não a recrimino. Em determinado momento, largou a carreira para me seguir. Depois, me largou para seguir a si própria. Rompemos em 68 e a última vez que a vi foi no ano seguinte apresentando-se no Teatro Fênix Dramática, no Rio de Janeiro, quando pude lhe oferecer meus derradeiros aplausos. Despedi-me de Eugênia com a poesia 'Adeus', que termina assim (acomodando-se na cadeira):

Quis te odiar, não pude. – Quis na Terra
Encontrar outro amor. – Foi-me impossível.
Então bendisse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.
 
Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua:
Não quero mais teu amor! Porém minh’alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.
 
E Eugênia me respondeu com uma outra e que sei de cor. Vou dizer-lhe a primeira e a derradeira das 14 estrofes (a voz um pouco mais baixa):
 
Adeus, irmão desta alma, digo-te Adeus!
Mas deixa que eu evite esse – jamais! –
Que o céu se compadeça aos rogos meus
E um dia cessarão teus e meus ais!
 
Adeus! Se um dia o Destino
Nos fizer ainda encontrar
Como irmã ou como amante

Sempre! Sempre me hás de achar."