Friday, February 27, 2009

Posts velhos que acaba voltando como velhos fantasmas da ditadura

Recordar é viver - Editorial da Folha de São Paulo de 1971

"Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele.
Nunca ouve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social - realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. O país, enfim, de onde a subversão - que se alimenta do ódio e cultiva a violência - está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa que reflete o sentimento deste."
Octávio Frias de Oliveira, 22 de setembro de 1971

Wednesday, February 25, 2009

É nisso que dá ter um TS Eliot no lugar de um Drummond...

Eu não gosto nem um pouco do oba-oba feito [principalmente em São Paulo] em torno ao modernismo brasileiro. Mas nossa tradição modernista nos traz grandes benefícios. Vejam o texto abaixo sobre o meio poético Americano atual e o problema da melancólica vontade de “grandeza” por lá:

“The easiest way to see this phenomenon in action is to look at a peculiar development in American poetry that has more or less paralleled the growth of creative-writing programs: the lionization of poets from other countries, especially countries in which writers might have the opportunity to be, as it were, shot. In most ways, of course, this is an admirable development that puts the lie to talk about American provincialism. In other ways, though, it can be a bit cringe-worthy. Consider how Robert Pinsky describes the laughter of the Polish émigré and Nobel Prize-winning dissident Czeslaw Milosz: “The sound of it was infectious, but more precisely it was commanding. His laughter had the counter-authority of human intelligence, triumphing over the petty-minded authority of a regime.” That’s one hell of a chuckle. The problem isn’t that Pinsky likes and admires Milosz; it’s that he can’t hear a Polish poet snortle without having fantasies about barricades and firing squads. He’s by no means alone in that. Many of us in the American poetry world have a habit of exalting foreign writers while turning them into cartoons. And we do so because their very foreignness implies a distance — a potentially “great” distance — that we no longer have from our own writers, most of whom make regular appearances on the reading circuit and have publicly available office phones.

In addition, non-American writers are the perfect surface upon which to project our desire for the style and persona we associate with old-fashioned greatness. One hesitates to invoke the dread word “colonialism” here, but sometimes you’ve got to call a Mayflower a May–flower. How else, really, to explain the reverse condescension that allows us to applaud pompous nonsense in the work of a Polish poet that would be rightly skewered if it came from an American? Milosz, for instance, wrote many fine poems, but he was also regularly congratulated for lines like: “What is poetry which does not save / Nations or people? / A connivance with official lies, / A song of drunkards whose throats will be cut in a moment, / Readings for sophomore girls.” Any sophomore girl worth her copy of “A Room of One’s Own” would kick him in the shins.”

Separei essa parte do artigo porque nos diz respeito quando fala da maneira perversa com que os americanos admiram certos autores de fora…

Monday, February 23, 2009

Machado e as trapaças da tradução



Machado de Assis tem um conto chamado "Suje-se gordo!" que teve o título traduzido como "Wallow, Swine". O problema é que não se trata de mandar alguém gordo [que você poderia chamar de suíno no contexto sem problemas] chafurdar na lama, mas sim de que, se você vai chafurdar na lama, que o faça por inteiro, sem timidez – mensagem do personagem do conto que condena no júri a um tímido ladrão de meia-tigela e anos depois é absolvido em um grande caso de fraude. O termo “gordo”, assim como advérbio não me soa português corrente, mas dá para entender [e se deliciar com uma linguagem um pouquinho diferente]. A pressa do tradutor acabou dando em lambança…
Mas é melhor do que um conto de Lima Barreto em que dois adultos se sentam para conversar em uma “candy shop” [um equívoco causado pela “confeitaria” onde os dois personagens se encontram]. A idéia que esse “candy shop” evoca em inglês são dois adultos conversando sobre a vida enquanto chupam um pirulito…

Saturday, February 21, 2009

Ó Minas Gerais!

A tal "grobarização" me permite viver no cu gelado do mundo e mesmo assim estar antenado com o cuzinho do mundo de onde eu vim. Vejam só a seguinte notícia que saiu no "Estrago de Minas" online:


"Mulher é presa por alugar quartos da própria casa para programas sexuais

Uma mulher foi presa nesta sexta-feira em Santa Luzia, na Grande BH, suspeita de alugar os quartos da própria casa para outras mulheres se prostituírem. Quando a polícia chegou ao local, após uma denúncia anônima, a suspeita conseguiu fugir, mas foi encontrada logo em seguida. Uma adolescente de 16 anos também foi apreendida.

A mulher alegou para os policias que fazia a casa de motel. A residência tem nove quartos e fica quase ao lado do 35º Batalhão da Polícia Militar da e da Prefeitura de Santa Luzia."

Eu daqui do meu cantinho me pergunto uma pergunta que não quer calar: Uai, na Guaicurus pode mas em Santa Luzia não pode? Será uma questão de jurisdição ou do proprietário do imóvel? Ladrão de galinha e puteiro de fundo de quintal não tem mesmo vez em Minas Gerais, nem mesmo na gloriosa Santa Luzia, berço dos liberais mineiros do Império...



Friday, February 20, 2009

Correntes que não vão para frente

Minha religião não permite que eu participe de correntes, pelo menos não no papel ativo. Assim sendo, vou cumprir com a minha parte, mas não vou espalhar essa coisa por aí. A quinta [miseravelmente imensa] frase da página 161 do livro que estava mais perto de mim dizia:

"Cette lutte a repris sa place dans votre histoire parmi les faits incontestables; il reste à en déterminer toutes les causes et toutes les formes, à rechercher d'oùvint le principle d'une nouvelle vie dans l'organization municipale, pourquoi, aux approches du XIe siècle, la population urbaine, selon les paroles d'un contemporain, s'agite et machine la guerre; porquoi tous les troubles du temps servent la cause de la bourgeousie, soit qu'elles les excite ou qu'elle s'y mêle, soit qu'elle se soulève pour son propre compte ou qu'elle prenne parti dans les combatsque se livrent les pouvoirs déodaux."
Agustin Thierry, "Récits des temps Mérovingiens"

Thursday, February 19, 2009

Alfonso Reyes e o charme de Getúlio


Alfonso Reyes chega ao Brasil da Argentina e vive nas laranjeiras como embaixador do México durante seis anos. Profundamente traumatizado pela violência da Revolução Mexicana que matou seu pai de uma maneira dramática, Reyes mal chega e testemunha a Revolução de 30, ficando deslumbrado com a habilidade de Getúlio Vargas de executar e consolidar a tomada do poder não só com a força mas também com a habilidosa costura de alianças quase esdrúxulas entre Deus e o Diabo a quatro. Acho que vem daí essa visão admirada do brasileiro como negociador nato:

“Al llegar (…) al hombre, el resultado fue paradójico: por combinación y armonía entre los excesos contraries, resultó la sabia moderación. El brasileño es el diplomatico nato, y el mejor negociador que ha conocido la historia humana. No hay conflicto que se resista a su espíritu de Concordia y a su ardiente simpatía. Como posee la aptitud, desdeña la violencia. Nació para deshacer, sin cortarlo, el Nudo Gordiano.”

Tivesse conhecido Reyes as cavalgaduras de uniforme que tomaram as rédeas da carroça brasileira depois de 1964...

Monday, February 16, 2009

Contos - As fomigas da Lygia


"Quando minha prima e eu descemos do táxi, já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.

-- É sinistro.

Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.

-- Pelo menos não vi sinal de barata -- disse minha prima.

A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro, descascado nas pontas encardidas. Acendeu um charutinho. "

Adoro os contos de Lygia Fagundes Telles e esse "As Formigas" entrou na minha vida meio que pela porta de trás. Eu dou muitas aulas em inglês e aí a seleção dos textos segue um critério "novo" com o qual custei a me acostumar: seu poema preferido pode ser o X, mas se só há uma tradução decente de Y, Y entra na aula e X fica de fora. Depois de dar aula desse conto duas vezes gosto cada vez mais dele. Só para dar uma idéia do quão doido eu sou, leio esse conto com um "cuentito" tirada das Historias de las Indias sobre uma praga de formigas no Caribe no século XVI...

Sunday, February 15, 2009

Sobre una poesía sin pureza - Neruda

"La confusa impureza de los seres humanos se percibe en ellos, la agrupación, uso y desuso de los materiales, las huellas del pie y de los dedos, la constancia de una atmósfera humana inundando las cosas desde lo interno y lo externo.
Así sea la poesia que buscamos, gastada como por un ácido por los deberes de la mano, penetrada por el sudor y el humo, oliente a orina y a azucena salpicada por las diversas profesiones que se ejercen dentro y fuera de la ley.
Una poesia impura como un traje, como un cuerpo, con manchas de nutrición, y actitudes vergonzosas, con arrugas, observaciones, sueños, vigilia, profecías, declaraciones de amor y de revolta, bestias, sacididas, idilios, creencias políticas, negaciones, dudas, afirmaciones, impuestos."
Pablo Neruda, Caballo Verde para la Poesía, 1935.

Friday, February 13, 2009

The Past is a Grotesque Animal

Eles se chamam Of Montreal e são basicamente uma banda de um cara só, chamado Kevin Barnes. Qualquer um que misture David Bowie e Georges Bataille e escreva com a verve de Bob Dylan como no exemplo abaixo merece pelo menos uma chance. Clicando no título dá para ouvir uma versão quase completa no YouTube [faltam só uns segundinhos no final]. Ler a letra só ou ouvir a música sem acompanhar a letra não dá – tem que ser os dois.

The past is a grotesque animal


The past is a grotesque animal
And in its eyes you see
How completely wrong you can be
How completely wrong you can be

The sun is out. It melts the snow that fell yesterday
Makes you wonder why it bothered

I fell in love with the first cute girl that I met
Who could appreciate Georges Bataille
Standing at the Swedish festival
Discussing "Story of the Eye"
Discussing "Story of the Eye"

It's so embarrassing to need someone like I do you
How can I explain, I need you here and not here too
How can I explain, I need you here and not here too

I'm flunking out, I'm flunking out, I'm gone, I'm just gone
But at least I author my own disaster
At least I author my own disaster

Performance breakdown and I don't want to hear it
I'm just not available
Things could be different but they're not
Things could be different but they're not

The mousy girl screams, "Violence! Violence!"
The mousy girl screams, "Violence! Violence!"
She gets hysterical because they're both so mean
And it's my favorite scene
But the cruelty's so predictable
It makes you sad on the stage
Though our love project has so much potential
But it's like we weren't made for this world
(Though I wouldn't really want to meet someone who was)

Do I have to scream in your face?
I've been dodging lamps and vegetables
Throw it all in my face, I don't care

Let's just have some fun
Let's tear this shit apart
Let's tear the fucking house apart
Let's tear our fucking bodies apart
But let's just have some fun

Somehow you've red-rovered the gestapo circling my heart
And nothing can defeat you
No death, no ugly world

You've lived so brightly
You've altered everything
I find myself searching for old selves
While speeding forward through the plate glass of maturing cells

I've played the unraveler, the parhelion
But even apocalypse is fleeting
There's no death, no ugly world

Sometimes I wonder if you're mythologizing me like I do you
Mythologizing me like I do you

We want our film to be beautiful, not realistic
Perceive me in the radiance of terror dreams
And you can betray me
You can, you can betray me

But teach me something wonderful
Crown my head, crowd my head
With your lilting effects
Project your fears on to me, I need to view them
See, there's nothing to them
I promise you, there's nothing to them

I'm so touched by your goodness
You make me feel so criminal
How do you keep it together?
I'm all, all unraveled

But you know, no matter where we are
We're always touching by underground wires

I've explored you with the detachment of an analyst
But most nights we've raided the same kingdoms
And none of our secrets are physical
None of our secrets are physical
None of our secrets are physical now

Wednesday, February 11, 2009

Sagas dos Grandes Brasileiros 1 - Os Ramos

























Os Ramos

Tudo começa com a chegada às terras brasileiras do Cacique de Ramos, que ancorou sua magnífica caravela conversível no piscinão que hoje leva seu ilustre nome. Desde então comemora-se em todo mundo o Domingo de Ramos, que celebra justamente a chegada da famosa família Ramos Brasil. O Cacique veio acompanhado de seus dois filhos mais velhos, Lílian e Graciliano. O destino dos dois no país em que se plantando tudo dá foi diametralmente oposto: enquanto Lílian Ramos se aproveitou de um carnaval especialmente quente para se transformar na poderosa Condessa de Itamar, Graciliano acabou preso na Ilha Grande, anonimamente acusado de honestidade ideológica. O Cacique se fixou em Olaria e abriu um supermercado conhecido na região. Lílian e o Conde de Itamar tiveram filhos gêmeos, Nereu e Nuno Ramos e foram morar perto da Lagoa Nelson Rodrigues de Freitas. Nereu seria presidente por dois meses inteiros da Escola de Samba “GRES Unidos por Getúlio”, tendo seu irmão Nuno como ministro de Assuntos Ultra-Barrocos.
Mas seriam os dois filhos do Cacique nascidos em Olaria que alçariam aos píncaros da glória a vetusta família, sendo hoje conhecidos como “Os Imperadores da Lapa”: são eles Tony Ramos, o “Grelo Falante”, e Lázaro Ramos, o “Madame Satã”. Tragicamente o Cacique não viveu o bastante para ver o êxito extraordinário dos seus dois filhos mais jovens, morrendo de febre aftosa pouco antes da transferência da soberania nacional de Portugal para a Inglaterra e da construção da Estrada de Ferro Leopoldina.
A família tem ainda [permita-me o trocadilho acidental] outro ramo no Brasil. Celso Ramos, primo torto de Nereu, foi parar em Santa Catarina, atraído pelas potocas do irmão Cacique e suas belas fotos da praia e do carnaval açoriano de Florianópolis. Apesar das praias infestadas de argentinos, Celso Ramos adaptou-se logo ao clima temperado e casou-se duas vezes, primeiro com Helena [grande atriz dramática do cinema nacional] e depois com Lucy [atriz/modelo quase como a sua tia ilustre Condessa]. César teve com as duas esposas três lindos e talentosos filhos: Mauro Ramos, que ganhou duas Copas do Mundo [58 e 62, esta última como capitão da equipe], Arthur Ramos, biógrafo ilustre de seus primos Grelo e Satã, e ainda Ofélia Ramos, cozinheira de mão cheia e cabeleira formidável, mãe por sua vez de Saulo e Samuel Ramos, ambos filósofos sertanejos de extração Kantiana.
PS. Malditos cogumelos! Fui imitado na vida real pelos caso dos dois Daniel Dantas...

Tuesday, February 10, 2009

A grande batalha entre o cérebro e o orgão genital

Li recentemente um artigo interessante sobre pesquisas sobre sexo, bem mais interessantes que os proverbiais questionários que povoam a imprensa com grandes “descobertas” sobre o comportamento humano.
Imaginem a seguinte pesquisa: indivíduos de quatro grupos, do sexo masculino e feminino que se auto-proclamam heterossexuais ou homosexuais são expostos a imagens e filmes que mostram:
1. Cena de sexo heterossexual
2. Cena de sexo homossexual entre homens
3. Cena de sexo homossexual entre mulheres
4. Cena de macacos fazendo sexo
5. Um sujeito musculoso correndo pelado na praia
6. Uma mulher atraente fazendo alongamento com roupas de ginástica

Homens e mulheres anotam em um questionário se sentem-se excitados e o quanto estão excitados por cada cena que aparece. Ao mesmo tempo aparelhos medem a circulação e pressão sanguínea dos orgãos genitais e a produção de muco nas paredes da vagina no caso feminino. Um dos grupos apresenta uma discrepância tremenda, digamos assim, entre a cabeça e o orgão sexual. Qual seria?

Sunday, February 08, 2009

Hilda Hilst

Está ainda disponível na internet entrevista de Hilda Hilst para a CULT. Era uma escritora admirável, no pouco que eu li da sua obra uma escritora magnífica, sempre um pouco aborrecida com a pouca repercussão da sua obra. Deixo só uma resposta dela:

- Você nomeia Deus de muitas maneiras: "Grande coisa obscura", "Cara cavada", "Máscara do nojo", "Cão de pedra", "Superfície de gelo encravada no riso". Sua concepção de Deus se aproxima da do poeta alemão Rainer Maria Rilke, do Deus imanente a todas as coisas, do "Deus coisificado"?
- Não é bem isso. O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor. Ele é uma coisa. Se bem que depois que eu li Heidegger, e releio sempre, não consigo mais falar "coisa". Heidegger escreveu um livro enorme só para falar o que é uma coisa. Mas esse tipo de conversa você não pode pôr na revista. As pessoas ouvem falar em Deus e se chateiam. Tem que falar de coisas normais. Só quando o Paulo Coelho fala em Deus é que as pessoas escutam.

Friday, February 06, 2009

Extra! Extra! Saiu no Portal Literal!

Dois contos que eu traduzi do Faulkner com dois personagens ensandecidos [Wash Jones e Abner Snopes]. Tem la tambem um pequeno prefacio sobre eles. Vale a pena!

Thursday, February 05, 2009

Poema meu: Confissão às três da manhã, a 18 graus abaixo de zero
































































But it's like we weren't made for this world
(Though I wouldn't really want to meet someone who was)


(Eu não gosto de poemas longos,
mas vamos lá)
Já faz tanto tempo e eu ainda preciso aprender
a agarrar como um carrapato o que ainda não existe
e deixar de lado quem me rouba a solidão.

Já faz tanto tempo e ele tem razão
quando diz que o passado
é um animal grotesco brincando no meu porão,
mas, ao contrário da direção geral
dos poemas confessionais de todas as facções,
não é o passado que me preocupa;
é esse outro monstro, o futuro,
o dragão de sete cabeças que me espreita e me assusta.

Vai ser difícil falar sobre isso
porque muita gente não vai escutar
e o resto não vai entender
vai ser difícil falar porque
conta-se nos dedos de um porco
as pessoas que sabem olhar para fora de si
mais do que um pequeno instante
que desaparece debaixo do espelho d’água
sem rastro, sem a menor consequência
(um exemplo: meu pai esperando, impaciente,
que eu não fosse mais criança para falar comigo –
na verdade um monólogo entre o orgulho e o ressentido
cujo abismo absurdo qualquer criança revela em dois palitos).
Azar: falar para surdos ou falar para mim mesmo
no fundo nem importa:
fazer poesia é antes de tudo
dizer ao mundo, eu estou vivo, eu existo.

Então o que eu tenho para dizer é o seguinte:

Sair de casa, ir embora pra longe,
viver fora é difícil é ser
estranho, estrangeiro, extraviado, esquisito
o tempo todo, não por escolha mas por definição.
Ah, e o olhar dos outros é mortal.
É cruel o olhar frio de espanto,
o desconforto, o desagrado:
Afinal, o que é que você está fazendo aqui?
E a todo momento um micro mal entendido
involuntário nos separa com um abismo
intransponível. gelado
Mas porque você não faz as coisas como a gente?
Porque você não entende?
Porque você não pára?
Porque você não fala direito?
Porque é que você não cala a boca um pouco?
Porque é que você não se porta como uma pessoa normal?
Porque você insiste em nos lembrar
o tempo todo
que você não é uma pessoa normal?
Eu juro que não consigo não ser quem eu sou
eu não consigo nem querer não ser quem eu sou:
estranho, esquisito, estrangeiro, extraviado,
excêntrico, desajeitado, embaraçoso, tapado.
Não é orgulho ressentido, é incapacidade.
Você tira isso de mim e eu me olho no espelho
e o que eu vejo não é nem “uma figura,
perfil humano, desagradável ao derradeiro grau,
repulsivo senão hediondo”
não é nem “só o campo, liso,
às vácuas, aberto como o sol,
água limpíssima, à dispersão da luz,
tapadamente tudo”
não é nem “o tênue começo
de um quanto como uma luz,
que se nubla, aos poucos
tentando-se em débil cintilação, radiância”.
Você tira isso de mim
e eu sou você.

Não liga não.
hoje eu estou assim:
tudo me fere tudo me afeta
tudo me arrasa uma flor me atropela
hoje esquece tudo o que eu disse
hoje tudo me faz sofrer além da conta
hoje.

Wednesday, February 04, 2009

Complexo de Mazombo

Um crítico perspicaz da obra de Gregório de Mattos chamou sua forma de ver o mundo como "Complexo de Mazombo" [Mazombo era o termo para brancos nascidos na colônia, como o "criollo" no castelhano]. Tudo o que ele vê está filtrado pelo seu ressentimento e até indignação, motivados pela convicção do Mazombo de que ele é melhor do que o lugar onde vive, de que o lugar onde ele nasceu ou onde vive não merece suas qualidades culturais e morais superiores. Junte-se a isso a convicção de que negatividade é necessariamente agudeza de juízo; que grosseria é firmeza de príncipios e um imensa vontade de distanciamento, de não se sentir responsável, co-autor da realidade onde vive e temos o quadro completo. Agora, cá entre nós, bater na Danusa é brigar com cachorro morto. Existem por aí casos bem mais sofisticados do Complexo de Mazombo, mesmo porque desde o pós-ditadura ele é quase uma epidemia entre as elites brasileiras.
PS. Para não criar mal-entendidos, Gregório de Mattos é um poeta que eu já li muito e de quem gosto imensamente. Quem dera um décimo dos Mazombos de hoje em dia escrevessem com um décimo da verve e talento dele…

Tuesday, February 03, 2009

Poema meu: Saudades desde muito longe

“- Dói muito?
- Muito, Doutor. Dói demais.
Tem um país saindo de dentro de mim
e não entra nada no buraco que fica
latejando, velando minha insônia,
pedindo não sei bem o quê.
E não há tango argentino que resolva, Doutor.
Nem o tango argentino me resta.”

O melhor texto que eu já li passou ali
na minha frente quando eu nem esperava
nem queria. O capricho das palavras,
os caprichos da poesia, como os de Goya,
caindo de fora de dentro do meio
pediam pelo silêncio sutilmente histérico
da cidade que ainda é a minha casa.
Ela é que me faz falta.

O resto é um outro silêncio que me abraça
cada vez que eu encaro duro o fato
de que o ser humano
humano mesmo, como a imaginação humana
concebe nesse sonho que é a vida, não existe –
o ser humano de fato é assim,
que nem eu:
o ser humano mesmo
não passa mesmo
de um negocinho muito besta.

Monday, February 02, 2009

Contos: "La carne" de Virgilio Piñera




Imaginem um Kafka mais nervoso, parecendo às vezes estar à beira de um ataque de nervos e quando você começa a se preocupar com ele, ele se vira para você e ri na sua cara!
É assim que eu imagino o cubano Virgilio Piñera, ou pelo menos o Virgilio Piñera que – devo esclarecer antes que os apressadinhos encontrem aqui ecos de George Orwell tropical – publicou o conto “La carne” DOIS anos antes de explodir a Revolução Cubana. A insanidade de que fala Piñera diz respeito a todos os lugares e todas as épocas desse planeta cheio de seres humanos.
O conto abre assim:

"SUCEDIÓ CON GRAN SENCILLEZ, sin afectación. Por motivos que no son del caso exponer, la población sufría de falta de carne. Todo el mundo se alarmó y se hicieron comentarios más o menos amargos y hasta se esbozaron ciertos propósitos de venganza. Pero, como siempre sucede, las protestas no pasaron de meras amenazas y pronto se vio a aquel afligido pueblo engullendo los más variados vegetales.
Sólo que el señor Ansaldo no siguió la orden general. Con gran tranquilidad se puso a afilar un enorme cuchillo de cocina, y, acto seguido, bajándose los pantalones hasta las rodillas, cortó de su nalga izquierda un hermoso filete. Tras haberlo limpiado lo adobó con sal y vinagre, lo pasó –como se dice- por la parrilla, para finalmente freírlo en la gran sartén de las tortillas del domingo."

Logo a população inteira adere entusiamada ao método do tal señor Ansaldo:

“Pronto se vio a señoras que hablaban de las ventajas que reportaba la idea del señor Ansaldo. Por ejemplo, las que ya habían devorado sus senos no se veían obligadas a cubrir de telas su caja torácica, y sus vestidos concluían poco más arriba del ombligo. Y algunas, no todas, no hablaban ya, pues habían engullido su lengua, que dicho sea de paso, es un manjar de monarcas. En la calle tenían lugar las más deliciosas escenas: así, dos señoras que hacía muchísimo tiempo no se veían no pudieron besarse; habían usado sus labios en la confección de unas frituras de gran éxito. Y el alcaide del penal no pudo firmar la sentencia de muerte de un condenado porque se había comido las yemas de los dedos, que, según los buenos gourmets (y el alcaide lo era) ha dado origen a esa frase tan llevada y traída de ‘chuparse la yema de los dedos’.”

E o conto de uma página termina com o misterioso desaparecimento de diversas pessoas – tudo o que resta delas é um montinho de bosta no chão…

Sunday, February 01, 2009

Contos: "O engraçado arrependido" de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato conta em "O engraçado arrependido" a história trágica de um homem que não consegue se livrar do papel de palhaço da cidade, papel que interpretou com maestria durante 32 anos na sua cidade interiorana. Pontes é um artista, um gênio da comédia e por motives de espaço coloco aqui só o miolo da introdução em que o narrador descreve o ser humano como “o animal que ri” e descreve a arte do protagonista:

"Em todos os gestos e modos, como no andar, no ler, no comer, nas ações mais triviais da vida, o raio do homem diferençava-se dos demais no sentido de amolecá-los prodigiosamente. E chegou a ponto de que escusava abrir a boca ou esboçar um gesto para que se torcesse em risos a humanidade. Bastava sua presença. Mal o avistavam, já as caras refloriam; se fazia um gesto, espirravam risos; se abria a boca, espigaitavam-se uns, outros afrouxavam os coses, terceiros desabotoavam os coletes. E se entreabria o bico, Nossa Senhora! eram cascalhadas, eram rinchavelhos, eram guinchos, engasgos, fungações e asfixias tremendas.
– É da pele, este Pontes!
– Basta, homem, você me afoga!
E se o pândego se inocentava, com cara palerma:
– Mas que estou fazendo? Se nem abri a boca...
– Quá, quá, quá! – a companhia inteira, desmandibulada, chorava no espasmo supremo dos risos incoercíveis.”