Thursday, February 05, 2009

Poema meu: Confissão às três da manhã, a 18 graus abaixo de zero
































































But it's like we weren't made for this world
(Though I wouldn't really want to meet someone who was)


(Eu não gosto de poemas longos,
mas vamos lá)
Já faz tanto tempo e eu ainda preciso aprender
a agarrar como um carrapato o que ainda não existe
e deixar de lado quem me rouba a solidão.

Já faz tanto tempo e ele tem razão
quando diz que o passado
é um animal grotesco brincando no meu porão,
mas, ao contrário da direção geral
dos poemas confessionais de todas as facções,
não é o passado que me preocupa;
é esse outro monstro, o futuro,
o dragão de sete cabeças que me espreita e me assusta.

Vai ser difícil falar sobre isso
porque muita gente não vai escutar
e o resto não vai entender
vai ser difícil falar porque
conta-se nos dedos de um porco
as pessoas que sabem olhar para fora de si
mais do que um pequeno instante
que desaparece debaixo do espelho d’água
sem rastro, sem a menor consequência
(um exemplo: meu pai esperando, impaciente,
que eu não fosse mais criança para falar comigo –
na verdade um monólogo entre o orgulho e o ressentido
cujo abismo absurdo qualquer criança revela em dois palitos).
Azar: falar para surdos ou falar para mim mesmo
no fundo nem importa:
fazer poesia é antes de tudo
dizer ao mundo, eu estou vivo, eu existo.

Então o que eu tenho para dizer é o seguinte:

Sair de casa, ir embora pra longe,
viver fora é difícil é ser
estranho, estrangeiro, extraviado, esquisito
o tempo todo, não por escolha mas por definição.
Ah, e o olhar dos outros é mortal.
É cruel o olhar frio de espanto,
o desconforto, o desagrado:
Afinal, o que é que você está fazendo aqui?
E a todo momento um micro mal entendido
involuntário nos separa com um abismo
intransponível. gelado
Mas porque você não faz as coisas como a gente?
Porque você não entende?
Porque você não pára?
Porque você não fala direito?
Porque é que você não cala a boca um pouco?
Porque é que você não se porta como uma pessoa normal?
Porque você insiste em nos lembrar
o tempo todo
que você não é uma pessoa normal?
Eu juro que não consigo não ser quem eu sou
eu não consigo nem querer não ser quem eu sou:
estranho, esquisito, estrangeiro, extraviado,
excêntrico, desajeitado, embaraçoso, tapado.
Não é orgulho ressentido, é incapacidade.
Você tira isso de mim e eu me olho no espelho
e o que eu vejo não é nem “uma figura,
perfil humano, desagradável ao derradeiro grau,
repulsivo senão hediondo”
não é nem “só o campo, liso,
às vácuas, aberto como o sol,
água limpíssima, à dispersão da luz,
tapadamente tudo”
não é nem “o tênue começo
de um quanto como uma luz,
que se nubla, aos poucos
tentando-se em débil cintilação, radiância”.
Você tira isso de mim
e eu sou você.

Não liga não.
hoje eu estou assim:
tudo me fere tudo me afeta
tudo me arrasa uma flor me atropela
hoje esquece tudo o que eu disse
hoje tudo me faz sofrer além da conta
hoje.

5 comments:

sabina anzuategui said...

A foto é assustadora e o poema segue perturbador.

- - -

Fiquei intrigada com as linhas sobre o pai esperando para fazer um discurso. Que relação tensa seria essa?

Paulodaluzmoreira said...

Sabina, isso é uma coisa da minha experiência pessoal mesmo. É uma coisa que eu observei no comportamento do meu pai, primeiro com meus sobrinhos [que hoje têm 18, 20 anos] e depois com meu filho, que tem 7. Meu pai não tem a menor paciência para conversar com crianças, mas gosta de entabular uma relação intelectual com os adolescents, mostrar livros, etc. Quando meus sobrinhos eram crianças eu preferia ficar com eles, escutando as coisas que eles diziam, do que a conversa dos adultos na sala. Eu adoro crianças, que é uma frase cliché que todo mundo repete, mas que não é uma coisa tão comum assim. Esse meu gostar se estende a um interesse intelectual pelas crianças, pelo mundo delas, nos termos delas. Uma criança de 5 anos, por exemplo, não reconhece direito, embora já tenha uma intuição sobre, o funcionamento do dinheiro, por exemplo. Escutar alguém assim é para mim fascinente em si. Mas muitos adultos [adolescents inclusive] simplesmente não se interessam por esse mundo infantil, acham impossível ter uma conversa interessante, instigante, com uma criança. Daí eu imaginar meu pai meio impaciente [a paciência nunca foi uma grande virtude dele] também esperando que eu crescesse. É isso.

Gustavo Galizzi said...

Muito bom, Paulo. O inverno de todos nós...

Paulodaluzmoreira said...

O bom, Guga, eh que o inverno nao dura para sempre...

Gustavo Galizzi said...

É isso aí...