Tuesday, November 30, 2010

Homenagem ao Ribeirão Arrudas


O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia,

Mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia

Porque não corre minha aldeia.



Saturday, November 27, 2010

Além da novelinha para Homer Simpson

Além muito além da novelinha para Homer Simpson que o sistema Globo e grande imprensa nos oferece goela abaixo está a opinião de Luiz Eduardo Soares, contundente e muito mais informativo em seu blogue, do qual reproduzo apenas um pequeno trecho:
"O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?"

Wednesday, November 24, 2010

Poesia minha

Lendo Birthday Letters I

A poesia não salva ninguém

além de si mesma

mesmo nos poemas dos suicidas

dos frustrados dos covardes

dos doentes terminais

dos perversos fúteis

mesmo quando em última instância

a poesia lá de fato habita

mesmo quando é o último recurso

dos desesperados

a poesia não salva ninguém

além de si mesma.

A poesia floresce

lá onde menos se espera

rabiscada na parede

dum banheiro torpe

nos olhos injetados dum leitor

ainda mais torpe

lá onde moram monstros engenhosos

e a maldade condensada em dor

jorra sem esforço

dos poros do mundo

a poesia floresce

lá onde menos se espera

Para a poesia

o poema é como uma luva fria

guardando vazia

a memória da mão

para a poesia

o poema só se abre a um nada

um corpo que morre num colchão nu

no chão frio de uma cela vazia

onde tudo o que não é morte

é um ponto cego

para a poesia

o poema é como uma luva fria.

Monday, November 22, 2010

Ainda sobre Lobato, ainda de forma indiretíssima:

"German literature, too, labored under the influence of the political excitement into which all Europe had been thrown by the events of 1830. A crude Constitutionalism or a still cruder Republicanism, were preached by almost all writers of the time. It became more and more the habit, particularly of the inferior sorts of literati, to make up for the want of cleverness in their productions, by political allusions which were sure to attract attention. Poetry, novels, reviews, the drama, every literary production teemed with what was called 'tendency,' that is with more or less timid exhibitions of an anti-governmental spirit. In order to complete the confusion of ideas reigning after 1830 in Germany, with these elements of political opposition there were mixed up ill-digested university-recollections of German philosophy, and misunderstood gleanings from French Socialism, particularly Saint-Simonism; and the clique of writers who expatiated upon this heterogeneous conglomerate of ideas, presumptuously called themselves 'Young Germany,' or 'the Modern School.' They have since repented their youthful sins, but not improved their style of writing."
Trecho de Revolution and Counter-revolution in Germany escrito por Engels, fã (junto com seu chapa barbudo) do "reacionário" Balzac e do "pequeno-burguês" Dickens.

Traduzindo só a parte central:
"Tornava-se cada vez mais um hábito, particularmente entre os literatos de segunda categoria, compensar pela falta de inteligência em suas produções com alusões políticas que certamente atraíam atenção. Poesia, romances, resenhas, teatro, toda a produção literária estavam carregadas com o que era chamado 'tendência, que é uma exibição mais ou menos tímida de espírito anti-governamental."
Mais sobre o assunto, eu recomendo Marxism and Literature de Raymond Williams.

Saturday, November 20, 2010

Quem tem medo de dançar com a Catrina?

A Catrina de Diego Rivera, de mãos dadas com um Diego menino, vestindo um longo cachecol/Quetzalcoatl:










Rivera relia essa Catrina, invenção do genial José Guadaleupe Posadas:











E a Catrina século XXI em Hasta los Huesos de René Castillo:

Wednesday, November 17, 2010

Como sempre atrasado...

Para quem quiser pensar com menos maniqueísmo nas eleições e na tese do país dividido, este mapa do Estado de São Paulo é uma ótima opção. Passando o mouse por cima dele você tem o resultado do segundo turno, município por município no país inteiro. Como toda a representação, ela é passível de leituras distorcidas [por exemplo, um município imenso mas com pouca gente fica super-dimensionado], mas é uma representação mais sutil do resultado, também pela diferença entre vermelho/azul mais forte ou mais claro.
Os poucos e heróicos gatos pingados que acompanham esse blogue sabem que eu estou sempre atrasado, no mínimo três semanas atrás do noticiário. É fruto do meu temperamento bovino...

Tuesday, November 16, 2010

desencavando outra tradução minha

A história de uma hora

Kate Chopin

Sabendo-se que a Senhora Mallard sofria de um problema no coração, tomou-se todo o cuidado para dar-lhe a notícia da morte de seu marido da forma mais gentil possível.

Sua irmã, Josephine, foi quem lhe contou, em frases desconexas, cheias de insinuações veladas que revelavam ao mesmo tempo em que ocultavam o que queriam dizer. Richards, o amigo de seu marido, também estava lá, ao seu lado. Fora ele quem passara pelo escritório do jornal quando lhe chegaram as informações sobre o desastre de trem com o nome de Brent Mallard no topo da lista de “mortos.” Mal se assegurara da veracidade da notícia através de um segundo telegrama, ele apressou-se em trazer a triste mensagem para antecipar-se a qualquer outro amigo menos cuidadoso e gentil.

Ela não recebeu a notícia como muitas outras mulheres já o fizeram – com uma incapacidade paralizadora de aceitar o seu significado – e chorou imediatamente, com súbito e violento abandono, nos braços da irmã. Quando o vendaval da tristeza esgotou-se, ela foi para o seu quarto, sozinha. Não permitiu que ninguém a acompanhasse.

Lá estava a ampla e confortável poltrona voltada para a janela aberta. Ali ela deixou-se afundar, oprimida por uma exaustão física que atormentava o seu corpo e parecia alcançar-lhe a alma.

Pelo quadrado aberto à sua frente ela podia ver o topo das árvores que vibravam com a vida nova da primavera. Um hálito delicioso de chuva pairava no ar. Na rua lá embaixo um mascate anunciava seus produtos a plenos pulmões. Notas de uma canção cantada por alguém longe dali chegavam-lhe timidamente e um sem número de andorinhas chilreavam pelos telhados.

Havia retalhos de céu azul que apareciam aqui e ali por entre as nuvens, que juntas empilhavam-se umas sobre as outras no oeste em frente à sua janela.

Ela sentou-se com a cabeça atirada para trás, sobre a almofada da poltrona, praticamente imóvel exceto quando um soluço subiu-lhe até a garganta e a sacudiu, como uma criança que chora até cair no sono e continua a soluçar em seus sonhos.

Ela era jovem, com um rosto claro e calmo cujas linhas indicavam uma certa repressão e até mesmo uma certa dureza. Mas agora havia apenas uma expressão sem brilho nos seus olhos que fitavam aqueles retalhos de céu azul lá fora ao longe. Não era o olhar oblíquo de uma reflexão, mas sim uma simples indicação da suspensão de qualquer tipo de pensamento inteligente.

Alguma coisa se aproximava dela e ela a esperava, amedrontada. O que era? Ela não sabia; era algo sutil e elusivo demais para que se pudesse dar-lhe um nome. Mas ela sentia essa coisa, arrastando-se lentamente pelo céu, alcançando-a através dos sons, dos aromas, da cor que enchiam o ar.

Seu colo arfava ofegante. Ela começava agora a reconhecer o que era essa coisa que se aproximava para possuí-la, e lutava para repeli-la com a sua vontade – tão desprovida de força para tal quanto teriam sido as suas mãos delgadas.

Quando ela finalmente abandonou-se, uma palavrinha suspirada escapou por entre os seus lábios ligeiramente apartados. Ela disse, uma e outra vez, entre murmúrios: “livre, livre, livre!” Veio-lhe um olhar vazio e uma expressão de terror que logo em seguida a deixaram. A partir daí seus olhos permaneceram alertas e brilhantes. Seu pulso era rápido e o sangue corria aquecendo e relaxando cada centímetro do seu corpo.

Ela não parou para se perguntar se o que ela sentia era uma alegria monstruosa ou não. Uma percepção clara e exaltada tornara-lhe capaz de desconsiderar esse tipo de insinuação como algo insignificante.

Ela sabia que choraria de novo quando visse as mãos do marido, gentis e carinhosas, cruzadas sobre o peito inerte e o rosto, que nunca lhe dirigira um olhar salvo com amor, agora fixo, cinzento, morto. Mas além desse momento amargo ela vislumbrava uma longa procissão de dias que viriam e pertenceriam a ela somente. E ela abriu e estirou os seus braços para eles, dando-lhes as boas vindas.

Não haveria ninguém para viver por ela durante aqueles anos vindouros; viveria para si. Nenhuma vontade poderosa dobraria a sua própria com aquela persistência cega com a qual homens e mulheres acreditam ter o direito de impor a sua própria vontade sobre a vontade de uma criatura que é seu par. Uma intenção gentil ou uma intenção cruel não faria tal ato parecer-lhe menos criminoso, quando considerado naquele breve momento de iluminação.

E ainda assim ela o amara – às vezes. Freqüentemente, não. O que importava! O que poderia lhe importar o amor, esse mistério não-resolvido, em face ao possuir essa auto-afirmação que de repente ela reconhecia como o mais poderoso impulso de seu ser!

“Livre! Corpo e alma livres!” ela continuava sussurando.

Josephine estava ajoelhada diante da porta fechada, com os lábios colados na fechadura, implorando para entrar. “Louise, abra a porta! Eu imploro; abra a porta –você vai adoecer. O que é que você está fazendo, Louise? Pelo amor de Deus, abra a porta.”

“Vá embora. Eu não vou adoecer.” Não, pelo contrário: ela estava ali exatamente bebendo um dos elixires da vida através daquela janela aberta.

Sua imaginação agora percorria solta os dias à sua frente. Dias de primavera e dias de verão, e todos os tipos de dias que seriam só dela. Murmurou então uma breve súplica por uma vida longa. Há não mais que um dia antes de agora ela pensara com um arrepio que a vida poderia ser longa demais.

Ela levantou-se afinal e abriu a porta, atendendo aos apelos inoportunos da sua irmã. Havia um triunfo febril em seus olhos e ela portava-se inadvertidamente como se fosse a deusa da Vitória. Tomou a irmã pela cintura e as duas juntas desceram as escadas. Richards esperava por elas lá embaixo.

Nesse momento alguém abriu a porta da frente com uma chave de trinco. Era Brently Mallard que entrava em casa, um pouco cansado pela viagem, carregando serenamente sua maleta e seu guarda-chuva. Ele estivera longe da cena do acidente e sequer tomara conhecimento de que houvera um. Ficou pasmo com o grito lancinante de Josephine e com a pronta tentativa de Richards de escondê-lo da vista de sua mulher.

Mas Richards não foi suficientemente rápido.

Quando os médicos chegaram disseram que ela havia morrido do coração – da alegria que mata.

Monday, November 15, 2010

Fascismo Made in Brazil: Comentário típico de qualquer reportagem de O Globo

Essa violência ninguém agüenta mais!!!! Eu sou contra a violência mas tinha era que matar esse cara, mas antes tinha que castrar e esfolar ele todo!!!! CADEIA NESSA GENTE, na mãe dele que não ensinou nada pro filho, na irmã que não fez nada e na esposa que bem que aproveitou tbm, essa cachorra com certeza tem culpa no cartório. É muita corrupção esse povo ignorante CONTROLE DE NATALIDADE gente burra merece roubalheira favelado só impostos ninguém agüenta esse pessoal dos direitos humanos punir vigiar politicamente correto depois vem buscar o dinheiro essa mulambada TEM QUE MATAR!!! PENA DE MORTE NELES!!!!

Ass. Morteaviolencia

Saturday, November 13, 2010

O troco

O pop/rock britânico dos anos 60 era para Bettye LaVette uma onda musical que deslocou para um canto ela e todos os outros grandes cantores negros de R&B nos anos 60. Ironicamente foi interpretando essa canção pouco conhecida do The Who que LaVette finalmente chamou a atenção de um público maior, acontecimento seguido por um disco bem legal de reinvenções de canções de Beatles e Companhia por ela mesma.

Bettye LaVette performs Reign Down O'er Me from Walter Smith on Vimeo.

Wednesday, November 10, 2010

Sobre história e racismo [uma reflexão indireta, portanto, sobre a polêmica sobre Monteiro Lobato]

Yale costumava exibir um certo retrato de Elihu Yale, homem que doou dinheiro, uma boa biblioteca e, assim, deu seu nome à instituição. Nesse retrato constava [no canto esquerdo como vocês podem ver] um escravo de bandana que segura uma carta de joelhos ao pé de Elihu. O retrato de Elihu [e sua impressionante peruca] foi exibido durante décadas numa das salas mais importantes da universidade, o “Corporation Room” onde os trustees se encontram. Você pode vê-lo, por exemplo nessa foto da revista Time, tirada durante a cerimônia de despedida de Charles Seymor, reitor da universidade de 1937 a 1951 [e note como a foto da revista já corta o inconveniente escravo quatro anos antes do começo do Civil Rights Movement de Martin Luther King].

Em 2007 o retrato e seus dois personagens saíram desse lugar símbolo de prestígio e poder para algum depósito bem trancado [suponho], gesto simbólico que foi acompanhado de uma justificativa meio desajeitada: o quadro daria a impressão incorreta que Elihu era proprietário de escravos; o escravo teria sido adicionado posteriormente à pintura por ser um símbolo de status comum no século XVIII - podemos ver, à direita, pela janela, os navios do poderoso mercador.

A retirada do retrato do lugar onde estava é, para mim, digna de aplauso. Junto com a chegada de um retrato de Edward Bouchet [primeiro aluno negro de Yale] a um lugar de destaque na principal biblioteca da universidade ele tem valor simbólico importante. Mas o sumiço completo daquele primeiro retrato é uma lástima, porque é um apagamento do passado. Agora podemos todos esquecer que os grandes homens das Américas exibiam seres humanos escravizados junto com suas perucas lustrosas e outros objetos de status e fingir que eram todos abolicionistas, pelo menos de coração, desde sempre? E porque será que ninguém fala sobre os "produtos" que os navios bucolicamente ancorados no retrato levavam? Será que isso levaria a conclusões como as que chegaram em Brown em 2006, onde todo mundo se lembrava de um irmão Brown [o abolicionista] e esquecia o outro [o mercador de escravos]?

Monday, November 08, 2010

José Emilio Pacheco - Em homenagem às eleições presidenciais


Antiguos compañeros se reúnen

Ya somos todo aquello

Contra lo que luchamos a los veinte años.

Desde entonces, 1975-1978

Wednesday, November 03, 2010


Foto: Dia de Finados - Mixquic, Cidade do México [clique na foto]

"O fato tem que ser melhorado no escrito para que o povo creia no acontecido."
Antônio Biá, personagem de Narradores de Javé de Eliane Caffé.