Friday, May 31, 2013

Poesia minha: Nós vamos afundar

Ilustração: "Mecanismo" de Letícia Galizzi





































































































Nós vamos afundar

Nós vamos afundar
devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos encontrar
transformados em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs as hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade
vai estar nos esperando
com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntos.


Wednesday, May 29, 2013

Escavando notas: ignorância e alienação

Simón Bolívar
Disse Simón Bolívar num discurso famoso na Venezuela em 1819:
 
"La esclavitud es la hija de las tinieblas; un pueblo ignorante es un instrumento ciego de su propia destrucción; la ambición, la intriga, abusan de la credulidad y de la inexperiencia de hombres ajenos de todo conocimiento político, económico o civil; adoptan como realidades las que son puras ilusiones; toman la licencia por la libertad, la traición por el patriotismo, la venganza por la justicia."

Assino embaixo, mas há que substituir "ignorante" por "alienado", um estado que não se resolve necessariamente com escolaridade. A escola pode combater a ignorância e promover a alienação e assim nos educamos mas continuamos instrumentos cegos de nossa própria destruição.  

Sobre mitos e lendas


Thomas Jefferson
Essa reflexão me veio a partir da pergunta curta mas interessante de uma amiga sobre o que motiva gente inteligente e não-conservadora a mobilizar-se com tanto empenho contra políticas de combate à desigualdade racial no Brasil.

Num texto sobre a atuação de historiadores mexendo nos vespeiros do passado, John Eliot me ofereceu uma explicação involuntária para o desconforto que as políticas contra a desigualdade racial causam em várias pessoas no Brasil:
 
“In general, native historians are more likely than outsiders to be aware of the degree to which a revisionist approach to national history implies losses as well as gains. Imagined communities are shaped in large part by a shared recollection of the past, and societies deprived of cherished memories are threatened by a loosening of the ties that bind them together. To the extent that those memories are wrapped within myths and legends, there are understandable grounds for anxiety about what will happen to the solidarity of the national community when its past is stripped of its legends.”
J.H.Elliot, History in the Making (New Haven: Yale University Press, 2012) 49.

Caem "mitos e lendas" sobre a harmonia racial e a docilidade no trato social e resta um grande desconforto na cabeça de muita gente que pensava [e ainda pensa] o Brasil como um lugar que pode contribuir com o mundo com um exemplo de não-sectarismo e de gentileza. O que é que nos une em uma comunidade imaginária? A primeira resposta, instintiva, de muitos brasileiros é que a miscigenação criou um país "moreno". Cai o mito de que a discriminação no Brasil é só reflexo da desigualdade de classe e foi-se o país moreno. E aí fica o quê? 

Martin Luther King
Eu acho que Martin Luther King [ele aqui representando vários como ele que junto com ele construíram a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos] era um gênio político ímpar porque ele habilmente virou contra seus inimigos uma arma poderosíssima, aquele mito que está bem no miolo da comunidade imaginária que se chama Estados Unidos: o mito da democracia liberal perfeita, da constituição do país como bíblia fundadora de uma terra de igualdade e libertade para todos. Com essa arma na mão, tirada sem cerimônia de um bando de escravocratas do final do século XVIII, o discurso de MLK tornou-se irresistível.

Monday, May 27, 2013

Imperialismos Grandiloquentes e Insurgentes


Um governante de um país rico e poderoso resolve invadir e derrubar o governo de um país inadimplente, empobrecido e arrasado por uma longa e dolorosa guerra com um vizinho e por anos de guerra civil fraticida.

A resistência aos intuitos do tal governante poderoso de “regenerar” o país invadido com uma mudança de regime aumenta paulatinamente até que as tropas do poderoso país são obrigadas a abandonar o governo fantoche à sua própria sorte. Os insurgentes do país invadido então retomam o país e fuzilam o líder do governo fantoche.

O líder da resistência fica famoso pela frase: “Entre as nações como entre os indivíduos,o respeito ao direito do outro é a paz”.

Essa história aconteceu no século XIX. Os países envolvidos nela são França e México. O líder na França era Napoleão III. O líder do governo fantoche era Maximiliano de Habsburgo, primo de D. Pedro II e príncipe austríaco. O líder dos Mexicanos era Benito Juárez, razão pela qual tanta gente no Brasil tem o nome de Juárez.

Manet imagina o fuzilamento de Maximiliano em Querétaro

A Cientologia e a IURD


No The Guardian o sujeito descreve a tal Cientologia nos seguintes termos, digamos, tenebrosos:

“Scientology is a neat reflection of the worst aspects of American culture with its repulsive veneration of celebrity; its weird attitudes towards women, sex, healthcare and contraception; its promise of equality among its followers but actual crushing inequality…. It is, in its own dark way, the inevitable religion to emerge from 20th-century America.”

Tenho minhas dúvidas sobre essas explicações muito “redondinhas” que fazem uma coisa reflexo assim tão óbvio da outra. Um religião é reflexo de uma parte da cultura de uma época e todas as culturas estão imantadas por desejos contraditórios que circulam num dado lugar e tempo. Cada época produz suas religiões com o material que o passado legou e o presente oferece, mas é uma criação coletiva, resultado de muitas subjetividades e vontades diferentes fermentando num contexto específico. Mas se esse raciocínio de que uma religião pode surgir como reflexo simples de uma cultura procede, o que dizer da IURD e congêneres brasileiras do que nos Estados Unidos se conhece como igrejas pregadoras do “Evangelho da prosperidade”?

Mais sobre Cientologia aqui.

Saturday, May 25, 2013

Poesia mais ou menos minha: Belo Horizonte, 1896

-->
Antônio Lopes de Oliveira, de uniforme
Belo Horizonte, 1896

Capitão Antônio Lopes de Oliveira,
pela melhor sociedade estimado
e temido pela gente mal procedida:
raros se revoltavam contra a sua energia
e pagavam caro a sua ousadia:
Recolhia-os ao xadrez de sua delegacia,
depois de fazê-los saborear
as doçuras dos marmeleiros do quintal...
Graças às marmeladas do capitão Lopes
e a fúria do terrível sargento Felão
a cidade de cá em perfeita paz se construía
apesar dos seis mil operários chegados da noite pro dia
apesar da epidemia de ladrões de galinha
apesar dos bares mal-frequentados
que feito cogumelos escuros apareciam
lá na Zona Oeste onde a escumalha construía
os barracos onde a pobreza se escondia.

Na entrada da farmácia
a melhor sociedade se reunia.
Um reclamava do contínuo
que deixava a poeira dos canteiros
descansar no escritório que ele mesmo abria
porque agora o sujeito já não chegava
antes das oito porque agora cantava na missa
“vê se pode,” o patrão se carpia,
“antes o couro cantava nos pretos da cidade
agora são os pretos que cantam no coro.”

Obs. Esse é um mash-up, isto é, praticamente todas as palavras do poeta saíram de textos em prosa de Abílio Barreto sobre a construção de Belo Horizonte. Ah, como eu gostaria de saber o nome e sobrenome e ter uma fotografia do tal contínuo que os bacanas da cidade chamam de "negrinho", e que se recusava a chegar mais cedo que os outros para limpar o escritório porque tinha que cantar no coro da missa! Infelizmente esses personagens não interessavam aos que escreveram a história da cidade. Nesses textos eles muitas vezes entram e saem mudos e geralmente andam em grandes coletivos, como "a gente mal procedida" que construía nas poucas horas vagas a favela no córrego do Leitão e provava das "marmeladas" do Capitão Lopes, que por sua vez, certamente por seus excelentes serviços à paz social da nossa primeira Brasília é "preseanteado" por Abílio Barreto com o adjetivo "moreno escuro".

Friday, May 24, 2013

Memento mori, meu novo livro de poemas em pdf GRATIS


Caros,

Se você tiver interesse em receber por email, GRATUITAMENTE, um arquivo pdf com o meu livro de poesias Memento mori deixe um comentário aqui no blogue com o seu endereço de email.
 

Memento Mori foi concebido como um livro em edição colorida, em papel de boa qualidade, com páginas de 33X28cm. Em um computador comum o arquivo pdf só pode ser visto em formato bem menor. Isso principalmente porque Memento Mori foi pensado para um leitor que pudesse ter sempre à sua frente duas páginas abertas, uma delas contendo um poema escrito e a outra contendo uma ilustração/colagem/poema gráfico ou, no caso do primeiro e do último par de páginas, duas páginas com ilustração/colagem/poema gráfico. Se você tiver interesse eu posso encomendar uma cópia impressa de Memento Mori como eu o concebi e mandar entregá-la na sua casa. O preço de custo de um exemplar seria de no máximo US54, podendo ser menor dependendo da tiragem. Se você tiver interesse em um exemplar impresso, por favor, me avise.

Se alguém que você conhece quiser esse arquivo pdf, por favor, peça que essa pessoa entre em contato pelo meu blogue [www.paulodaluzmoreira.blogspot.com] ou pelo facebook e eu terei o maior prazer de enviá-lo.

Grande abraço,

Paulo Moreira

PS. Segue uma pequena amostra, um par de páginas do livro [clique nas imagens para as ver as páginas 17 e 18:



Thursday, May 23, 2013

Sobre sensações sensações e rótulos

"In 2011, I contributed an article to a big scholarly book on autism. More than fourteen hundred pages. Eighty-one articles in all. Guess what. The only paper that addressed sensory problems was mine.
Over the decades I’ve seen hundreds if not thousands of research papers on whether autistics have theory of mind—the ability to imagine oneself looking at the world through someone else’s point of view and to have an appropriate emotional response. But I’ve seen far, far fewer studies on sensory problems—probably because they would require researchers to imagine themselves looking at the world through an autistic person’s jumble of neuron misfires. You could say they lack theory of brain."

Imagem minha: vida na janela


"Parents come up to me all the time and say things like, “First my kid was diagnosed with high-end autism. Then he was diagnosed with ADHD [Attention Deficit Hyperactivity Disorder]. Then he was diagnosed with Asperger’s. What is he?”
I understand their frustration. They’re at the mercy of a medical system that’s full of label-locked thinkers. But the parents are part of the system too. They’ll ask me, “What’s the single most important thing to do for an autistic kid?” Or “What do I do about a kid who misbehaves?” What does that even mean?
I call this kind of thinking label-locked because people get so invested in what the word for the thing is that they no longer see the thing itself."



Trecho do livro The Autistic Brain escrito pela autista Temple Grandin com Richard Panek. Uma resenha do livro pode ser vista aqui: What Is Autism? by Jerome Groopman | The New York Review of Books

Wednesday, May 22, 2013

Postais do Inferno 7


“Especialistas sem espírito; 
sensualistas sem coração; 
essas nulidades imaginam 
que atingiram um nível de civilização 
nunca antes visto.”
Goethe

Tuesday, May 21, 2013

O Haiti e o lindo espetáculo do sentimentalismo Bono Clinton

 
--> The Big Truck That Went By de Jonathan Katz faz o que quase nenhum jornalista tem feito com relação ao Haiti após o terremoto: vai além do que se apresenta aos repórteres nas elegantes noites de lançamentos de projetos de Bono e cia.  

1. Em março de 2010 prometem com pompa e circunstância enviar nada menos que 8.4 bilhões de dólares para o Haiti. 

2. Naquele ano "chegaram"  $2.43 bilhões a um país com 10.12 milhões de habitantes. O suficiente dava para dar a cada haitiano, cuja renda per capita é de 480 dólares, 240 mil dólares naquele ano!

3. 6% do dinheiro literalmente sumiu; ninguém sabe, ninguém viu. 

4.  1% do dinheiro ($24 million) foi para o governo do Haiti.

5. Todo o resto foi para agências/organizações dos países que doaram a grana e para as Nações Unidas. Ninguém do Haiti tinha qualquer voz na decisão sobre como gastar o dinheiro e o plano ignorava a necessidade de mais de um milhão de casas para pessoas desalojadas pelo terremoto.

6. Meio bilhão (mais ou menos um quinto do dinheiro) foi para um ralo de dinheiro chamado departamento de defesa dos Estados Unidos, que gastou um milhão POR DIA com a manutenção de um de seus navios na baía de Port-au-Prince; $3.6 milhões com manutenção dos helicópteros da marinha e um monte de coisas bizarras do tipo: $194,000 com equipamento audio-visual comprado de uma loja em Manhattan e $18,000 num playground para crianças que custa menos de $6000 online, além de MILHARES de acessórios de cozinha! A Guarda Costeira americana, por exemplo, gastou $4462 com um aparelho para fazer frituras, desses que fazem batatas fritas bem do jeito que tem que ser feitas.

7. As Nações Unidas fizeram o favor de alojar tão mal e porcamente às tropas que ocuparam o Haiti que além de tudo causaram milhares de morte trazendo uma epidemia de cólera. Pelo menos 8.000 haitianos morreram não por causa do terremoto mas por causa de tanta "ajuda" e a ONU sequer admite sua [ir]responsabilidade. 

Arte Minha: desenho sobre ficha de biblioteca descartada


Completo meu post simplesmente reproduzindo a série de twits do escritor Teju Cole em reação à campanha StopKony:

1- From Sachs to Kristof to Invisible Children to TED, the fastest growth industry in the US is the White Savior Industrial Complex.
2- The white savior supports brutal policies in the morning, founds charities in the afternoon, and receives awards in the evening.
3- The banality of evil transmutes into the banality of sentimentality. The world is nothing but a problem to be solved by enthusiasm.
4- This world exists simply to satisfy the needs—including, importantly, the sentimental needs—of white people and Oprah.
5- The White Savior Industrial Complex is not about justice. It is about having a big emotional experience that validates privilege.
6- Feverish worry over that awful African warlord. But close to 1.5 million Iraqis died from an American war of choice. Worry about that.
7- I deeply respect American sentimentality, the way one respects a wounded hippo. You must keep an eye on it, for you know it is deadly.




 

Monday, May 20, 2013

Ai, e esse povo que não sabe ortografia...




“Se alg˜ua pessoa por meu servyço e mandado de mym se parte, e della sento suydade, certo he que de tal partyda nom ey sanha, nojo, pesar, desprazer, nem avorrecymento, ca prazme de sseer, e pesarmya se nom fosse. E se por alg˜uas vezes vem tal suydade que faz chorar, e sospirar como se fosse de nojo. E porem me parece este nome de ssuydade tam proprio que latym nem outro linguagem que eu saiba, nom he pera tal sentido semelhante.”

Famoso trecho em que Dom Duarte I (1391-1438) fala sobre a saudade no seu Leal Conselheiro (1438), p. 151


Postais do inferno 5: clareza

"... se situações limites encarnam quase todos os vícios, 
ao menos guardam uma virtude, 
a da clareza.


Foto minha: um mapa do oco

Como o nervo está exposto, 
não há como nem por que ludibriar, 
fingir ou manter as aparências. 
As coisas são o que são."

João Moreira Salles, "Sarajevo e Rio: duas guerras distintas", 2001 

Sunday, May 19, 2013

Postais do Inferno 4: Fire as Cure

"Simply to release man from the fear of death does not insure... 
Foto Minha: Espectro na Parede
... that he will act as if he were immortal."
Extraído de "Fire as the Cure" de S.L.A. Marshall

Saturday, May 18, 2013

Escavando notas: um narrador monstruoso


Arte Minha: colagem e desenho em cartões antigos da biblioteca Sterling
“Uma só cabeça e vários tentáculos, várias pernas-tentáculos que se assentam em terras diversas e variados mares, deles sugando o que podem oferecer e ofertando o produto à cabeça de um olho ciclópico, montada em um dorso gigantesco de onde saem braços, de onde saem mãos que selecionam caminhos pelas teclas do computador. A cabeça vive dilacerada pelos tentáculos que se distanciam em busca de novos apoios. Cada novo apoio, se não for uma caravela, é uma terra, se não for uma terra, é uma caravela. Se não for caravela ou terra, é uma tela de computador a ser preenchida. 
Sou espelho do que me liberta e me aprisiona. Tenho o corpo feito de montanhas, das montanhas onde reina imperiosa uma cabeça, cuja boca proclama que, depois de uma penosa caminhada, o horizonte é acessível e o respirar menos congestionado. De lá é que descubro outro horizonte, outras montanhas, outros horizontes mais vastos e amplos e menos acessíveis pelo caminhar dos pés, o girar das rodas e o zunir das hélices.”  
Silviano Santiago, Viagem ao México, 20

Friday, May 17, 2013

Escavando notas

-->
Sérgio Buarque de Holanda
Fosse como fosse, eu me sentia identificado com aquela terra e seu povo. Bom identificado talvez não fosse a palavra exata. O melhor seria dizer que eu não conhecia o México, mas amava-o. Não era a mesma coisa? Mas é claro que era! O amor, como a arte, é uma das mais legítimas formas de conhecimento.
(Érico Veríssimo, Solo de Clarineta – Segundo Volume, 7)

Érico Veríssimo


-->
         O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade. (Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 148)



Thursday, May 16, 2013

Postais do Inferno 3

Se você ainda acredita que ler literatura melhora o ser humano...

Foto minha: colegas se preparam para reunião de departamento


... eu recomendo um estágio num departamento de estudos literários.

Tuesday, May 14, 2013

Oito flagrantes do Rio de Janeiro na voz de oito poetas mexicanos


Y no quiero, Río de Enero,
más providencia en mi mal
que el rodar en tus playas
al tiempo de naufragar.
Alfonso Reyes

Desde el avión,
la orquestra panorámica de Río de Janeiro
se escucha en mi corazón.
Carlos Pellicer

La líquida luz del cielo
La liquida luz del mar!
Luis Quintanilla

Abre la luz,                               
                        del cielo, Guanabara.
Y somaremos juntos la jornada.
Jaime García Terrés

El mar de automóviles me arrojó a la playa de un café con vista a la playa
Gabriel Zaid

como cae la lluvia sobre el mar
a la velocidad que se desploma
así vamos fluyendo hacia la muerte
José Emilio Pacheco

sé que sólo habré vivido
en dos países que he querido
Francisco Cervantes

Los comerciantes vendem
            su enlatada alegria
            y detrás de los gritos
            afila los colmillos
            el vampiro banquero.
Hugo Gutiérrez Vega


Monday, May 13, 2013

Viva la mídia loca: sobre reportangens sobre a dengue [parte 2]


PARTE 2

Li um artigo na revista New Yorker [TheMosquito Solution, July 9&16, 2012] sobre o assunto. Eis o que aprendi:

1. Calcula-se que os vários tipos de mosquitos que picam humanos são responsáveis por metade das mortes na história do ser humano no planeta. Uma grande parte pela Malária.

2. O Aedes aegypti provavelmente chegou nas Américas à bordo de navios negreiros. Os ovos podem sobreviver até um ano sem incubar, se necessário, mas depois de quatro dias basta água na temperatura de 27oC e em menos de uma hora os ovos estão “chocados”.

3. A dengue é uma das doenças virais que mais se espalha no mundo. A OMS calcula que pelo menos 50 milhões de pessoas contraem dengue por ano. O número de afetados pela doença cresceu 30 vezes desde 1965. E já saímos da obsessão do brasileiro com tudo o que acontece no seu país e sua profunda ignorância sobre o que acontece em qualquer outro lugar do mundo que não seja uma magra seleção de “fatos” sobre os Estados Unidos e alguns países  a Europa ocidental.

4. O Aedes aegypti é capaz de se reproduzir numa colher de chá de água. Já encontraram sinais do bichinho em tudo quanto é canto, mas especialmente em pneus, onde basta uma colher de chá de água se acumular e pronto. Essa uma das prováveis causas desse grande aumento na doença no mundo desde 1965. A outra é que os mosquitos hoje são imunes aos inseticidas que nos livraram da Febre Amarela no começo do século XX.

5. Só a fêmea do Aedes aegypti precisa de sangue. Ao contrário de outros mosquitos, eles não fazem barulho. Preferem atacar pés, tornozelos e pernas. Ao contrário de outros mosquitos distribuem seus ovos em vários lugares diferentes, multiplicando as chances de que eles sobrevivam.

6. Agora o mais incrível: em 2011 a USP e a Oxitec [Oxford Insect Technologies, empresa inglesa criada a partir da Universidade de Oxford] conduziram um teste com a introdução em comunidades relativamente isoladas de um macho geneticamente modificado do Aedes aegypti no ambiente. É a primeira vez na história que o ser humano fabrica um animal mutante em laboratório e solta o bicho no meio-ambiente. Eles são fabricados em Juazeiro, por uma empresa chamada Moscamed. Os ovos fertilizados pelos mutantes carregam um gene fatal. As larvas morrem antes mesmo de começar a voar.

Ei, mas o mais importante eu já sabia: essa dona aí pegou dengue, coitada. Aliás diz a reportagem que não só ela mas também o marido apresentador da apresentadora da Rede Bobo que inventou a Tiazinha e uma tal de Solange Couto que parece que também trabalha lá. Eu obtive essas informações que MUDARAM minha vida aqui.

Sunday, May 12, 2013

Viva la mídia loca: sobre reportagens sobre a Dengue [parte 1]


PARTE 1

Foto do blogue Natural Unseen Hazard. Uma fêmea do Aedes aegypti se abastece de sangue




Quantas reportagens você já leu sobre dengue nos jornais brasileiros?

O que é que você aprendeu a respeito da dengue com elas?

Eu li várias e divido essas reportagens em dois tipos:

Tipo 1: Já são [número] de pessoas infectadas com o virus da dengue em [nome de estado ou cidade] este ano. Um aumento de [porcentagem]!

Tipo 2: [nome uma celebridade qualquer] está com dengue!

Com elas eu basicamente não aprendi nada. Tantos os números quanto os nomes das vítimas ilustres felizmente se dissolvem na minha memória, numa poça de dados inúteis e desprovidos de sentido. Se eu morasse no Brasil talvez servisse para jogar conversa fora com um motorista de táxi ou o meu açougueiro. Como moro fora, nem isso. Passo os olhos pela manchete e sigo em frente.

Eu só conheço uma reação nas mídias sociais a essas reportagens: gente vociferando contra o abismo da saúde pública no Brasil e contra a incompetência ou indiferença do governo [municipal, estadual ou federal, dependendo das inclinações políticas do comentarista]. Essas chegam sempre com um grande ódio ao Brasil, esse país único em que tudo é ruim e podre. 

Minto. Quando a notícia em questão refere-se a uma celebridade, também vejo comentários engraçadinhos, quase sempre fazendo trocadilhos sobre o estado "dengoso" da tal figura.   

Saturday, May 11, 2013

Música da semana: O Riso e a Faca




O Riso e a Faca
Tom Zé

Quero 
Ser o riso 
E o dente.
Quero 

Ser o dente 
E a faca.
Quero 

Ser a faca 
E o corte
Em 

Um só beijo 
Vermelho.

Fiz meu ber
ço
na
viração
Eu só descan
so
na
tempesta
de
Só adorme
ço
no
furacão

Eu 
Sou a raiva 
E a vacina;
Procura 

De pecado 
E conselho;
Espaço 

Entre a dor 
E o consolo
A briga 

Entre a luz 
E o espelho

Fiz meu ber
ço
na
viração.
Eu só descan
so
na
tempesta
de,
Só adorme
ço
no
furacão.

Espaço 
Entre a dor 
E o consolo.

Obs. Mudei a disposição dos versos no refrão. O resto está como no encarte do disco Todos os Olhos [1974], cuja capa ilustra a música no iutúbio. Aliás dou um doce a quem descobrir [sem colar] de que se trata a capa!