Friday, May 31, 2013

Poesia minha: Nós vamos afundar

Ilustração: "Mecanismo" de Letícia Galizzi





































































































Nós vamos afundar

Nós vamos afundar
devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos encontrar
transformados em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs as hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade
vai estar nos esperando
com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntos.


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