Thursday, July 31, 2008

Singela Homenagem a Nossos Dantescos Tribunais

Grafite nas paredes de Palermo nos anos 70:

"Chi ha soldi e amicizie va in cullo all Giustizia"

A fonte é a melhor revista de notícias do Brasil, disparado: Carta Capital. Ironicamente a mais equilibrada é a única que assume suas posições sem fingir "neutralidade".

O sábio provérbio aparece em versão levemente suavizada na Córsega:
"Chi ha soldi e amicizie storce il naso alla giustizia."

Wednesday, July 30, 2008

Soneto da fúria

Trouxa, Artur Barrio, 1969
Tecido, barbante, tinta industrial


Soneto da fúria

Porém meu ódio é o melhor de mim

A minha fúria só viu pasto
de onde come a sua ira,
que à distância zero parecia
merda pura, contra a qual achava
que lutava a luta justa.
Injusta e errada – eu assumo –
(não é pura, a merda, nem é tudo)
é ainda a minha mesma fúria
o motor maior que me comove.
Que a minha fúria, com a sua crosta,
açucarado rancor profundo
repetente na sua sina pobre
de chocar o medo em sua cova,
não me impeça a comunhão com o mundo.

Thursday, July 24, 2008

O contrabandista cultural

Ninguém nega que exista circulação de informação e cultura em escala global, mas poucas pessoas parecem conscientes que essa circulação obedece a regras rígidas que estabelecem rotas fixas de caráter claramente colonial e/ou imperialista. Assim só conhecemos no Brasil músicos, diretores, atores, escritores, etc de um outro país periférico no sistema quando esse indivíduo é "eleito" nos centros culturais globais, recebendo a chancela de "aceite". E vice-versa, mesmo em países próximos como Brasil e Argentina. Eles ficam com Cidade de Deus, mas sem Lavoura Arcaica, nós ficamos com O Filho da Noiva, mas sem Mundo Grúa. Poderíamos chamar esse conjunto de regras de mercado aplicada à cultura tanto quanto aos bens de consumo de um sistema internacional de aduana cultural. Se você atua de alguma maneira como agente cultural [penso aqui que agentes culturais vão desde de um produtor profissionalizado a um simples dono de blogue caseiro] e não trata de novelas de TV, Ivetes Sangalos, filmes da Xuxa ou livros do Paulo Coelho, então, meu caro leitor, você exerce essa função vital para a cultura contemporânea: você é um contrabandista cultural, um peixinho miúdo do tipo sacoleiro vindo do Paraguai, e deveria estar plenamente consciente disso para exercer com máxima eficiência a sua função. Quando falo com brasileiros de Mundo Grúa, de Adrián Caetano, de Garage Olimpo [um filmaço sobre a repressão Argentina], de Carlos Pellicer, de Rosario Castellanos, de Juan Rulfo, etc, faço o mesmo papel de quando falo com estrangeiros de Edifício Master, de João Moreira Salles, de Cabra-Cega, de Drummond, de Cecília Meirelles, de Guimarães Rosa. Sei que a maioria franze a testa e pensa: "de onde é que esse cara tira essas coisas?" Graças ao mundo globalizado "essas coisas" estão cada vez mais logo aí ao seu alcance. Pelo menos potencialmente falando. Graças ao sistema de alfândega cultural que aceitamos passivamente esse potencial magnífico não se concretiza. Como eu já disse, sou um sacoleiro: meu ofício é no "café pequeno", no varejo miúdo. E daí? Quem quiser abrir os olhos vai perceber que grandes coisas, coisas muito importantes, estão sendo feitas por aí a torto e a direito. Mas é preciso querer abrir os olhos para o que se passa além dos entrepostos oficiais da aduana cultural: os jornalões, a TV comercial, os "grandes meios".

Wednesday, July 23, 2008

Tradutores

"Que Dios y Usted me ayuden!"
Harriet de Onís, em carta a Guimarães Rosa na qual confirmam o contrato de tradução de Grande Sertão: Veredas para o inglês pela editora Knopf.

Wednesday, July 16, 2008

Bernardo Soares [Fernando Pessoa] e o patriotismo

"Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."


Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.

Tuesday, July 15, 2008

Mundo Novo, Mundo Cão

Vemos hoje a expansão da lógica do capitalismo financeiro a todas as esferas do humano. Alguns exemplos concretos:
1. A revista New Yorker trouxe há tempos reportagem sobre o fascínio que o programa preferido de executivos em todo o mundo, o Power Point, exerce sobre a forma de pensar e se comunicar desses executivos, que só conseguiam comunicar-se no estilo de tópico e comentário com ilustrações, e não apenas no seu trabalho. Um deles queria resolver problemas na sua família sentando esposa e filhos à mesa e apresentando em Power Point uma “agenda propositiva para uma família melhor”.
2. A indústria farmacêutica e sua “parceira sinérgica” do setor de seguros saúde transformam juntas os sistemas de saúde no mundo inteiro com a imposição das regras da boa “governância corporativa”: uma medicina propositalmente cara e excludente [pensem nos bancos que cobram mais taxas de quem têm menos dinheiro em conta]. Um dos efeitos desse processo: milhões de pessoas com problemas emocionais de todo o tipo são transformados em consumidores de drogas como o Prozac, drogas que buscam ajustar todos os indivíduos que sofrem moléstias mentais a uma vida integrada e produtiva no mais curto prazo e ao custo mais baixo (as causas são reduzidas a desequilíbrios químicos que por sua vez são reduzidos a tendências genéticas).
3. A questão de quem é artisticamente relevante nas artes plásticas passou das mãos de curadores e museus para o mercado internacional graúdo, onde megainvestidores empregam seus muitos milhões extras [ninguém além de mim se pergunta de onde ou de quem tirou-se todo esse dinheiro?) em obras de arte, vistas aqui como mais um lucrativo investimento.
4. Roberto Schwartz escreveu um artigo sobre a “internacionalização de Machado de Assis” [o texto está disponível online] e comenta com precisão sobre a influência dos modelos corporativos de gerenciamento e marketing no sistema acadêmico americano, sistema por sua vez exportado e copiado em todo o mundo acriticamente.

Friday, July 11, 2008

O que é isso, Companheiro? (1996) e Batismo de Sangue (2007)






















Eu acho que é um equívoco terrível pensar que “considerar os dois lados” ao contar a história de um dado conflito é o suficiente para alcançar uma posição de neutralidade que equivale à fazer justiça. Essa equívoco parte do pressuposto algo ingênuo de que no fundo somos todos seres humanos e portanto merecemos todos, sem exceção, um olhar de compaixão. Imagina-se que transformando um nazista de vilão absoluto em homem trágico é o suficiente para ser mais profundo e humano na representação do nazismo.
Um exemplo desse equívoco foi o filme O que é isso, companheiro? adaptado livremente do livro do sobrevivente da guerra suja brasileira Fernando Gabeira, centrando atenção em um episódio da história brasileira que não ocupa o centro do livro, o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. O filme de Bruno Barreto decidiu dar dores de consciência e justificações patrióticas a um torturador do aparato repressivo da ditadura militar e transformar um dos seqüestradores em um assassino frio e sanguinário. Seria produto de preguiça mental imaginar que Bruno Barreto equivocou-se por ser um simpatizante da ditadura militar ou uma pessoa com problemas cognitivos. Acho que o roteirista do filme errou feio na construção da história do filme mas também acho que esse erro só pode ser visto hoje com tal clareza por termos um distanciamento de doze anos e ver o resultado do filme em retrospecto. Suponho até que os problemas de O que é isso companheiro? acabaram servindo de lição para vários cineastas brasileiros que abordaram a ditadura militar depois dele.
Quero esclarecer que esse equívoco particular no roteiro do filme não deriva do problema de Bruno Barreto tratar de fatos históricos e das pessoas ali retratadas sentirem-se aviltadas pelo filme – outra questão interessante para discutir, principalmente em vista da visão algo ingênua de que, já que história e ficção têm fronteiras tênues, elas são a mesma coisa. O problema aqui é outro e é preciso dizer algo óbvio: nem tudo é relativo e nem sempre compreender os dois lados garante a uma narrativa histórica profundidade e justiça.
Por isso é que eu acho que um outro filme baseado em um livro de um sobrevivente da ditadura, no caso Batismo de Sangue de Frei Betto sobre o mesmo período lançado em 2007 e que vai em outro sentido, Batismo de Sangue de Helvécio Ratton, é, apesar da relativamente pouca repercussão, um filme excepcional: denso, humano, sincero e justo tanto com as vítimas como com os algozes. Justo, sim, porque tentam hoje cada vez com maior freqüência simplesmente igualar os dois lados que lutavam a guerra suja no Brasil nos anos sessenta e setenta e isso é um equívoco terrível. A mensagem que essas pessoas acabam passando da história do período é mais ou menos a seguinte: “Fleury e Marighella mais ou menos são iguais, os dois lados usavam de violência, tratava-se de uma guerra e não devemos julgar nenhum dos dois ou então condenar os dois nos mesmos termos.” Isso não é compreender em profundidade o que aconteceu na época (muito pelo contrário, é substituir a reflexão necessária sobre o período pela repetição de chavões de livros de auto-ajuda) e isso não é fazer justiça a pessoas que levantaram armas contra uma ditadura violenta e intolerante e foram caçadas por pessoas que foram capazes de gestos abomináveis porque buscavam usufruir das benesses dessa mesma ditadura.

Tuesday, July 08, 2008

Vinicius de Moraes e o patriotismo

Pátria minha
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes."

in Antologia Poética
in Pátria minha
in Poesia completa e prosa: "Nossa Senhora de Los Angeles”

[Texto tirado do sensacional site do Vinicius [www.viniciusdemoraes.com.br/], que recomendo a qualquer um que ainda interpreta erroneamente essa história de poetinha e acha que Vinícius não é um grande poeta. E, diga-se de passagem, impressionante como a família de um cara que tinha tudo para ter a família mais complicada do universo com tantas mulheres e filhos de cada uma delas é uma das famílias de escritor mais construtivas que eu conheço, que busca servir à obra ao invés das próprias vaidades menores de cada um.]

Monday, July 07, 2008

Jose Emilio Pacheco e o patriotismo

Alta Traicion
No amo mi Patria.
Su fulgor abstracto es inasible.
Pero (aunque suene mal) daría la vida
por diez lugares suyos, cierta gente,
puertos, bosques de pinos, fortalezas,
una ciudad deshecha, gris, monstruosa,
varias figuras de su historia,
montañas
- y tres o cuatro ríos.

Saturday, July 05, 2008

Rosario Castellanos e o patriotismo

Um pedacinho da cordilheira de Santa Madre de Chiapas

Elegía
La cordillera, el aire de la altura
que bate poderoso como el ala de un águila,
la atmósfera difícil de una estrella caída,
de una piedra celeste ya enfriada.

Esta, ésta es mi patria.

Rota, yace a mis pies la estera que tejieron
entrelazando hilos de paciencia y de magia.
O voy pisando templos destruidos
o estelas en el polvo sepultadas.

He aquí el terraplén para la danza.

¿Quién dirá los silencios de mis muertos?
¿Quién llorará la ruina de mi casa?
Entre la soledad una flauta de hueso
derramando una música triste y aguda y áspera.

No hay otra palabra.
Poemas, 1957