Tuesday, September 29, 2015

Os anos 80: Lembranças do que nunca aconteceu

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Bela Lugosi, undead
Anos 80. Eu tinha sem saber me recuperado sozinho aos trancos e barrancos da minha primeira crise de depressão, mas só queria saber das músicas mais cavernosas e fúnebres que eu pudesse encontrar, além de uma obsessão por dubs de reggae [para quem nnao sabe, um sub-gênero com remixagens com camadas e camadas de eco e toasters, rappers jamaicanos antes do rap existir]. As duas coisas se encontravam na primeira faixa do disco de 1979 de uma banda inglesa com um nome que depois seria muito familiar [fui estudar arquitetura]: Bauhaus.

Hoje no rádio uma conversa supostamente inteligente falava sobre a memória comum de uma dada geração como uma coisa supostamente importante que supostamente não existiria mais em tempos de internet. Essas lembranças sobre uma canção cavernosa que ninguém no Brasil nunca ouviu e mesmo na Inglaterra pouca gente hoje em dia conhece são as memórias de alguém que não compartilhou naquela época com ninguém esses gostos esquisitos. Eu era alguém que não tinha uma turma cavernosa e fúnebre ou de fãs de reggae. Nem tentei. Acho que nem nunca quis.

Os anos oitenta eram uma bela duma porcaria.

Bela Lugosi's Dead
White on white
translucent black capes
back on the rack.
Bela Lugosi's dead

The bats have left the bell tower.
The victims have been bled.
Red velvet lines
the black box.
Bela Lugosi's dead.

Bela Lugosi's dead.

Undead, undead, undead.

The virginal brides
file past his tomb
strewn with time's dead flowers
bereft in deathly bloom.
Alone in a darkened room,
The Count.

Bela Lugosi's dead.

Bela Lugosi's dead.

Bela Lugosi's dead.

Undead, undead, undead.

Undead, undead, undead.

Oh, Bela!
Bela's undead.
Oh, Bela!
Bela's undead.
Bela's undead.
Oh, Bela!
Bela's undead.
Oh, Bela!

Undead.

Monday, September 28, 2015

Flap, flep, flip, flop, flup


 

Meu filhote no meio do recital no mato

Saturday, September 26, 2015

sobre leões e domadores


Cecile e seu caçador/dentista

Uma gota de fenomenologia: sobre leões e domadores

Comecemos com uma obviedade: o leão é mais forte que o domador. Mas o leão não sabe disso. A tarefa do domador é esconder suas cicatrizes e apresentar ao leão um modo de ver o mundo em que a existência da jaula e do chicote seja uma consequência natural. Também deve ser uma consequência natural desse mundo que o domador apresenta ao leão com seu chicote e sua jaula o fato de que a carne de primeira está sempre no prato do domador e ao leão enjaulado resta sempre apenas os ossos e os nervos.
Esse é o ponto nevrálgico que articula o discurso do domador com o seu poder sobre o leão. Outro nome para esse ponto de articulação é ideologia. Ele é como um corte que se esconde por debaixo de uma cicatriz e a faz coçar. Escondê-lo é ainda mais importante que esconder as cicatrizes que o domador porventura carregue na pele.
O discurso que produz essa forma peculiar de ver o mundo como se ela fosse a única forma possível de ver o mundo é executado por um coro de vozes de domadores. Os domadores não são todos cantores iguais. O concerto comporta um certo grau de dissonância. Existe entre os domadores/cantores [e mesmo dentro de cada um deles] um certo grau de diferença. Essa diferença é comparável às diferenças que existem entre vários cães de um mesmo canil. Essa diferença é um dos seus disfarces mais sutis.

Lippy the Lion

Friday, September 25, 2015

Prosa minha: algo em comum

Foto minha: "Urna de Dias"
7 - Uma gota de fenomenologia ou algo em comum


“… è un’impresa senza speranza
rivestire un uomo di parole,
farlo rivivere in una pagina scritta…”
Primo Levi, Il sistema periodico

Tomo em minhas mãos uma entre as muitas autobiografias que encontro nas prateleiras da biblioteca que costumo frequentar todos os dias. Dentro do livro, o eu que conta a história não é idêntico ao eu que é contado. Um terceiro eu, que assina a capa do livro e prega uma foto com sorriso de Mona Lisa na orelha, não é idêntico a nenhum dos outros dois. Longe dali, um quarto eu acorda, se levanta, tira o pijama e escova os dentes olhando sonolento para o espelho – ele também não é idêntico a nenhum dos outros três. Enquanto esse quarto eu escova preguiçosamente os dentes, um quinto eu aparece estampado no espelho do banheiro. Esse quinto eu encara sonolentamente o quarto – mas nem esses dois eus, frente a frente dentro do banheiro, são idênticos.
Ainda assim tenho certeza que todos esses cinco eus têm algo em comum. Não são um exército de um homem só. São um imenso eu expandindo-se e fatiando-se num batalhão, que não é composto por apenas cinco eus. Há outros. Por exemplo, os cinco eus dentro desse texto que você agora lê não são idênticos ao seus alter-egos espalhados por aí. São dez, quinze, vinte. São muitos e todos diferentes mas insisto que tenho certeza que todos eles têm algo em comum. Não quero chamar esse algo em comum de “núcleo” porque não acho que ele esteja necessariamente no centro de nenhum deles. Por enquanto me contento então com o termo “algo em comum”.
Procurando definir melhor esse algo em comum, tomei de empréstimo há uma semana a tal autobiografia. Tenho-a agora aqui em minhas mãos. Com ela subo na balança da farmácia que fica no caminho entre minha casa e a biblioteca. Em seguida deixo o livro no chão e me peso novamente. Uma simples subtração me dá o peso do livro: exatamente meio quilo. Ontem ele pesava 496 gramas. Anteontem, 494 gramas. Há três dias, 493 gramas. Prevejo que amanhã a autobiografia sobre a qual escrevo terá 508 gramas. Se estiver certo, temo que esse livro se transformaria, após um século de uso diário, no equivalente a um buraco negro.   

Wednesday, September 23, 2015

Segunda versão

6 – Uma Gota de Fenomenologia ou Auto das Flores


escovar a história a contrapelo

Estou neste momento tomando um café na mesa de um restaurante assentado num pedaço de terra no município de Moctezuma no norte do estado de Minas Gerais no sudeste do Brasil. Esse restaurante está aqui, creio, faz mais ou menos 20 anos. Foi construído com a permissão do dono desse pedaço de terra, que o herdou de seu pai, que o comprou de um ex-proprietário de uma fazenda que incluía outros terrenos envolta desse. Esse antigo dono, por sua vez, herdou a antiga fazenda de seu pai, que a comprou de um outro fazendeiro que por sua vez herdou a terra de seu pai, que a ocupou. Esse primeiro sujeito, que chegou aqui há seis gerações atrás, foi o primeiro proprietário desse pedaço de terra. Antes ela não pertencia a ninguém. Isso não quer dizer que ninguém vivia aqui. E aqueles que viviam aqui antes da chegada desse primeiro proprietário documentado foi destituído de seu direito de usar esse pedaço de terra para caça, cultivo ou moradia.
Essa destituição, a partir da qual inaugurou-se a longa cadeia de proprietários desse pedaço de terra onde se construiu esse restaurante onde tomo meu café, só foi possível pelo uso de coerção com base em violência ou pelo menos na possibilidade do uso de violência. Se preferem uma imagem mais viva: a destituição dessa terra fez-se com um pedaço de papel registrado em cartório numa mão e uma carabina na outra. A destituição aconteceu e está registrada em cada título de propriedade de cada pedaço de terra daqui até Quebec, ou daqui até a Patagônia. É impossível fazer qualquer coisa, por exemplo tomar um café, em qualquer lugar nesse continente que não seja resultado daquele roubo, daquela destituição, daquela violência.
Quando compramos e vendemos pedaços de terra com ou sem construções em cima, em cidades ou no campo, estamos nos inserindo numa longa linha que começa com aquela destituição. Quando pagamos aluguel, estacionamento, um quarto de hotel, um assento no cinema, uma mesa num bar, uma cama no hospital ou uma consulta no médico, também estamos sendo inseridos nessa mesma longa linha. Há, entretanto, uma diferença imensa, fundamental, entre o lado pelo qual somos inseridos nela. Melhor imaginar essa longa linha como uma faca que estamos sempre segurando, ou pelo cabo ou pela lâmina.

A maioria de nós viverá feliz sem se dar conta de nada disso, por conveniência própria ou alheia. Entre a minoria que der conta desse fatos, alguns se ofenderão em ver algo tão feio e sujo como uma condição inescapável e dirão que colocar as coisas dessa maneira é distorcer a realidade. Outros aceitarão o fato francamente e dirão cinicamente que, já que não há saída, o melhor é garantir que estaremos sempre do lado que segura o cabo, mantendo intacto nossos dedos e anéis. Apenas uma minoria da minoria, um pequeno grupo seleto, será tocada a fundo por esses fatos terríveis. Esses serão os protagonistas do Auto das Flores.

Thursday, September 17, 2015

Prosa minha: Uma Gota de Fenomenologia ou Auto das Flores


Uma Gota de Fenomenologia ou Auto das Flores


escovar a história a contrapelo

Estou neste momento tomando um café na mesa de um restaurante assentado num pedaço de terra no município de Moctezuma no estado de Minas Gerais no Brasil. Esse restaurante está aqui faz mais ou menos 20 anos. Foi construído com a permissão do dono desse pedaço de terra, que o herdou de seu pai, que o comprou de um ex-proprietário de uma fazenda que incluía outros terrenos envolta desse. Esse antigo dono, por sua vez, herdou a antiga fazenda de seu pai, que a comprou de um outro fazendeiro que por sua vez herdou a terra de seu pai, que a ocupou. Esse sujeito que chegou aqui há seis gerações atrás foi o primeiro proprietário desse pedaço de terra. Antes ela não pertencia a ninguém, o que não quer dizer que ninguém vivia por aqui. Quem vivia por aqui antes desse primeiro proprietário documentado foi destituído de seu direito de usar esse pedaço de terra para caça, cultivo ou moradia.
Essa destituição a partir da qual inaugurou-se a longa cadeia de proprietários desse pedaço de terra onde se construiu esse restaurante onde tomo meu café só foi possível pelo uso de coerção com base em violência ou pelo menos na possibilidade do uso de violência. Essa primeira destituição aconteceu e está registrada pelo menos de forma implícita em cada título de propriedade de cada pedaço de terra daqui até Quebec e daqui até a Patagônia. É impossível portanto tomar um café em algum lugar nesse continente que não seja um documento vivo daquele roubo, daquela destituição, daquela violência.
Quando compramos e vendemos pedaços de terra com ou sem construções em cima, em cidades ou no campo estamos nos inserindo numa longa linha que começa em um roubo. Quando pagamos aluguel, estacionamento, um quarto de hotel, um assento no cinema, uma mesa num bar, uma cama no hospital ou uma consulta no médico, também estamos sendo inseridos nessa mesma linha. Há, entretanto, uma diferença imensa, fundamental entre o lado pelo qual somos inseridos nela. Melhor talvez imaginar essa longa linha como uma comprida faca, uma espécie de faca inescapável, onde estaremos sempre colocados em uma de duas posições, ou do lado do cabo ou do lado da lâmina.
A maioria de nós viverá feliz sem se dar conta de nada disso, por conveniência própria ou alheia. Entre a minoria que der conta desse fatos, alguns se ofenderão, principalmente com ver algo tão feio e sujo ser apresentado como uma condição inescapável, e dirão que colocar as coisas dessa maneira é distorcer a realidade, enquanto outros aceitarão o fato candidamente e dirão, cinicamente, que já que não há saída o melhor é garantir que estaremos do lado que segura o cabo. Apenas uma minoria da minoria, um pequeno grupo seleto, será permanentemente tocado pela força desses fatos terríveis. Esses serão os protagonistas do nosso Auto das Flores.

Tuesday, September 15, 2015

Calle 13 & Rubén Blades: La Perla

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La Perla*                                                        *Bairro de San Juan en Porto Rico
Calle 13 y Rubén Blades

Oye, esto va dedicado a todos los barrios de Puerto Rico
¡Trujillo*!                                                                                 *Cidade de Porto Rico
Dedicado al barrio de La Perla 
¡Pocho! dile a Joana que me haga un arroz con habichuela bien duro.
Eh, un saludito a Osián, lo cogemos bajando 
Y tú, ¿qué estás mirando? 

Yo tengo actitud desde de los 5 años. 
Mi mai me la creó con tapabocas y regaños.                          *mai: madre
Desde chiquito, canito*, con el pelo castaño,                                     *canito: pálido, branquinho
soy la oveja negra de todo el rebaño. 
Y fui creciendo poquito a poco
Brincando de techo en techo, tumbando coco.
Y aunque casi me mato y casi me cocoto*                             *[des]cocotar: romper la cabeza
nunca me vieron llorando ni botando moco.
Siempre perfumado y bien peinadito
para buscarme una novia con un apellido bonito.
Larita, mi primer beso de amor.
Se casó la bruja – lluvia con sol.*                   
*Como o nosso, “Sol com chuva, casamento de viúva”


CORO 
Allá abajo en el hueco, en el boquete, nacen flores por ramillete.
Casita de colores con la ventana abierta. 
Vecinas de la playa puerta con puerta. 
Que yo tengo de todo, no me falta nada.                                *todo: to’ y nada: na’
Tengo la noche que me sirve de sábana. 
Tengo los mejores paisajes del cielo.
Tengo una neverita* repleta de cerveza con hielo.                *neverita: isopor

Un arco iris con sabor a piragua*.                                            *gelo raspado com suco de frutas
Gente bonita rodeada por agua 
Los difuntos pintados en la pared con aerosol 
y los que quedan jugando basquetbol. 
Un par de gringos que me dañan el paisaje 
vienen tirando fotos desde el aterrizaje. 
La policía que se tira sin pena 
rompiendo mi casa para cobrar la quincena. 
Aquí nació mi mai, hasta mi bisabuela. 
Éste es mi barrio y yo soy libre como Mandela. 
Cuidado con la vieja escuela 
que no te coja, que te va a meter con chancleta y palos de escoba. 
Así que no te me pongas majadero*                                        *majadero: arrogante, fora de linha
por que yo vengo con apetito de obrero 
a comerme a cualquiera que venga a robarme lo mío. 
Yo soy el Napoleón del caserío. 
¡Oye! esto se lo dedico a los que trabajan con un sueldo bajito 
para darle de comer a sus pollitos. 
Yo quero a mi barrio como Tito quiere a Caimito*.    
*Félix “Tito” Trinidad boxeador legendario en Puerto Rico, de Caimito, barrio de San Juan 
Yo no lucho por un terreno pavimentado
ni por metros cuadrados
ni por un sueño dorado. 
Yo lucho por un paisaje bien perfumado 
y por un buen plato de bistec encebollado. 
Por la sonrisa de mi madre que vale un millón. 
Lucho por mi abuela meciéndose en su sillón. 
Lucho por unos pinchos al carbón*                                        
*Pincho al carbón: churrasquinho 
y por lo bonito que se ve la Perla desde un avión. 
¡Oye, dile!

CORO X2 

Residente: 
Oye, esto fue por la inocencia de Jonathan Román*    *Em 2005 o lavador de pratos Jonathan Román Rivera foisentenciado a 105 anos pelo assassinato do canadense Adam Ahang em Porto Rico e depois inocentado em 2005.
La Chilinga* desde Argentina,                                       *La Chilinga é uma ONG/escola percussão fundada em 1995 pelo baterista Daniel Buira, mas ou menos como o Olodum de Salvador.
Estamos calentando motores, ¡dale!

Rúben:
Esa risa en la Perla,
la escuché en Chorrillos y desde Pisco hasta Callao*              
*Chorrillos, Callao, Pisco: na costa do Peru
y donde sea que halla chiquillos.
Creo en barrios con madres que dieron iguales razones
y al final se murieron sin tener vacaciones.
Como decía mi abuela así fue la baraja.
En casa del pobre hasta el que es feto trabaja.
Por eso el barrio [es] eterno y también universal.
Él que se mete con mi barrio, me cae mal.

(la noche me sirve de sabana) 
Veo las luces de la Perla desde Panamá 
(la noche me sirve de sabana) 
Brillando en clave morse y me invitan pa’ allá 
(la noche me sirve de sabana) 
Un camino hecho de estrellas, semáforo la luna 
(la noche me sirve de sábana) 
Salí a las siete y media y voy llegando a la una 
(la noche me sirve de sábana) 
El hombre bueno no teme, no teme a la oscuridad 
(la noche me sirve de sábana) 
Nena, frótame con vick vaporub como me hacía mama 
(la noche me sirve de sábana) 
Ni dormido me olvido mi identidad 
(la noche me sirve de sábana) 
(la noche me sirve de sábana) 
Era y no me falta más nada

CORO

Rubén:
Esa pared del barrio, y esto es para que te asombres, 
cincuenta años más tarde todavía guarda mi nombre.
Aquí no se perdona el tonto majadero. 
Aquí de nada vale tu apellido, tu dinero. 
Se respeta al carácter de la gente con que andamos. 
Nacimos de muchas madres pero aquí sólo hay hermanos. 
Y ese mar frente a mi casa, te juro que es verdad, como el de la Perla 
Aunque yo esté en Panamá.
Y sobre el horizonte veo una nube viajera 
dibujando la cara del gran Maelo Rivera*.                             
*O cantor Ismael “Maelo” Rivera [1931-1987], muito famoso a partir dos anos 50, tinha o apelido de “Brujo Boriquen” no Panamá, para onde ia todos os anos para a procissão do Cristo Negro em Portobelo.
Celebra esta reunión, compay! 
¿Qué te parece esta combinación de rubencito y Calle 13? 

(La noche me sirve de sábana) 
Pero eso no resuelve el blanco sospechoso. 
(La noche me sirve de sábana) 
La oscuridad no absuelve al verbo mentiroso. 
(La noche me sirve de sábana) 
Si te perdiste, hermano, encuéntrate a ti mismo. 
(La noche me sirve de sábana) 
Vente aquí a Panamá y contribuye al turismo. 
(La noche me sirve de sábana) 
Mil gracias, Residente, mil gracias, Visitante. 
(La noche me sirve de sábana) 
Villa 31* en Argentina, siga echando para adelante              
*Villa 31: favela emblemática de Buenos Aires
(La noche me sirve de sábana) 
Bolivia la letra va para El Alto a ver si pasa el filtro               
*El Alto: cidade satélite de La Paz com 85% da
população indígena e 15% mestiça
(La noche me sirve de sábana) 
Olvida la tarea, se retira el ministro.                                        *Blades foi ministro de turismo do Panamá de
2004 a 2009 
Soplando, Daniel Ramírez:

https://www.youtube.com/watch?v=B0cVKmkYamU

Friday, September 11, 2015

Existe algo mais parecido com um festim de bruxas que um espetáculo de exorcismo coletivo?

Quando a histeria coletiva sobre bruxas e bruxos atacou as colônias dos puritanos ingleses na América em 1692, 25 vilas e cidades denunciaram por bruxaria entre 144 e 185 pessoas entre 5 e 80 anos de idade, a maioria delas mulheres e em 4 meses enforcaram 14 mulheres, 5 homens e 2 cachorros. Os puritanos [como aliás todos os europeus naqueles tempos] eram obcecados com bruxaria, que era a segunda ofensa mais séria no código de justiça da colônia, depois apenas da idolatria e antes da blasfêmia [3], assassinato [4], envenenamento [5] e bestialidade [6]. E não é novidade que a misoginia estava no centro dessa paranóia coletiva. Como dizia um famoso manual de caça às bruxas, "quando uma mulher pensa sozinha, ela pensa o mal".

No centro desse caldeirão de neuroses explodindo em um surto violento de psicose coletiva, um jovem pastor puritano formado em Harvard: Cotton Mather, o Padre Vieira do período colonial daquelas bandas empobrecidas das Américas. Cotton Mather, cheio de furor religioso e paranóia, descrevia com requinte os primeiros julgamentos com gente voando, chorando lágrimas de sangue e arrancando os cabelos e clamava por "the speedy and vigorous prosecution" [um processo de julgamento rápido e vigoroso] contra a epidemia de adoradores de satã naquela roça que deveria ser uma Nova Inglaterra, melhor e mais pura. Para Cotton Mather a infestação de bruxas e bruxos ali era prova da pureza da fé do seu grupo, que era um alvo natural para o tinhoso: "where will the Devil show most malice but where he is hated, and hateth most?" [Onde mostraria o Demônio sua máxima malícia senão onde ele é mais detestado e destesta mais?].

O jovem Mather era filho do presidente de Harvard, Increase Mather [que nome], um homem hoje meio esquecido mas que se encontrava no ápice de seu prestígio. E foi o pai que, num escândalo numa sociedade rigidamente patriarcal, deu a nota dissonante e disse: "I would rather judge a witch to be an honest woman than judge an honest woman to be a witch" [Preferiria inocentar como uma mulher honesta uma bruxa que culpar uma mulher honesta de ser uma bruxa]. Ambos vinham do mesmo universo de crenças e acreditavam piamente em bruxaria e no capeta, mas Increase Mather admitia a possibilidade de uma justiça falha e dizia que, no caso, preferia a leniência ao excesso punitivo. 

E assim vivemos hoje em tempos de neuroses coletivas intensificadas ao máximo pela internet com suas fotos de caçadores de leões famosos, meninos afogados, cinegrafistas chutadoras de meninos, decapitações ao vivo, malucos de comício para todos os desgostos, infidelidades denunciadas em tempo real e hordas de indignados/revoltados com sede de sangue passando de um objeto de ódio para o próximo feito baratas tontas. São imagens e narrativas que berram altíssimo e exigem de todos nós um estado permanente de indignação extrema cujo combustível é uma disposição nauseante para sentir asco, repugnância, repulsão. As bruxas e os capetas de hoje são outros e diversos, mas os linchamentos reais ou virtuais abundam. A impressão é que tudo deveria ser considerado crime hediondo e todo mundo tem que ir para a cadeia para sempre até prova em contrário ou então fuzilado, apedrejado, excomungado, linchado, espancado.

Mas existe algo mais parecido com um festim de bruxas que um espetáculo de exorcismo coletivo?


Eis o trailer de um filme de Alex de la Iglesia que nos dá, digamos, uma perspectiva ibérica sobre esses delírios bruxescos. e suas fundas origens européias. Um filme muito longe de perfeições comportadas mas com momentos fantásticos:


Wednesday, September 09, 2015

Poesia minha: dormindo estamos mortos pro mundo

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Foto minha: Pedras de New Haven
dormindo estamos mortos pro mundo

dormindo estamos mortos pro mundo
não há dor, não há mágoa, não há pena
se o mundo não dorme aqui conosco
isso já não é mais nosso problema
nós sempre nos deitamos o mais cedo
e acordamos o mais tarde que podemos
à tarde, se possível, adormecemos
e no fim de semana hibernamos
o pijama é o nosso uniforme constante
e a cama é o nosso endereço permanente
dormindo estamos mortos pro mundo
nosso coração segue batendo impenitente
e nós seguimos então exaustos de tudo
dormindo estamos mortos pro mundo


Tuesday, September 08, 2015

Reflexões tímidas, atrasadas e meio capengas sobre gente na rua nos útlimos anos

Muito interessante o artigo que Rodrigo Nunes publicou na FSP. Fiquei curioso e resolvi procurar o tal livro em inglês dele, que por sinal está disponível gratuitamente em PDF. Li até agora apenas a introdução - o livro é curto e planejo lê-lo todo ainda este semestre. Sinceramente me impressiona a coragem das pessoas de tentar refletir num nível macro, e acho mesmo importante que se faça isso aqui e agora. Quando li sobre a comparação com 68, pensei satisfeito que a prosa de hoje é muito superior àqueles rocamboles pós-estruturalistas tão comuns em outras eras.

     "we need to keep our ideas of 'how things are' as distinct as possible from our ideas of 'how things should be' if we want a clearer sense of how, if at all, we can make the former into the latter."

A ideia é simples: separar o aspecto descritivo [como as coisas são] do aspecto prescritivo [como as coisas deveriam ser]. Reconheço-a de textos de linguística, que enfatizavam a importância e a necessidade de estudar a gramática da língua portuguesa como ela existe concretamente, sem ater-se ao caráter prescritivo que as gramáticas [e as academias que as preparavam] sempre tiveram. Reconheço também o conselho de Lévi-Strauss aos antropólogos: sejam inconformistas quando voltarem para casa, quando estiverem fazendo pesquisa em contato com outras culturas, não queiram mudar nada na cultura local, não queiram influenciar, só simplesmente observem. A advertência tem o seu valor, mas confesso que desconfio um pouco do argumento que diz que vamos nos ater em descrever as coisas como elas são. Descrevemos as coisas como as vemos, então a disposição de ver é sempre positiva. Mas vemos até onde o olhar alcança. Além do mais como falar de ação e organização política sem qualquer tipo de motivação política, interessados apenas na observação em nome do conhecimento? Rodrigo Nunes não propõe uma observação desinteressada e articula sua atuação numa sequência: primeiro olhemos para as coisas como elas são para só depois, num segundo momento, decidir o que fazer para fazer com que as coisas cheguem onde a gente gostaria que elas chegassem. Mas a aproximação da ideologia política com a esfera descritiva primordialmente me parece problemática. Aliás sempre que alguém procura sustentar que ideológico são os outros eu fico com um pé um pouco atrás - essa conotação de ideologia como falsidade ou negação da "realidade" não me apetece nem num pouco.

A introdução do livro também coloca a necessidade urgente de articular algo mais do que as críticas já ouvidas que colocam os movimentos atuais como liberalismo individualista cheio de falsas boas intenções ou como voluntarismo anarquista irresponsável e inefetivo. Não existe organização sem algum tipo de organização. Resta o desafio de descrever uma forma de organização que é marcadamente diferente das formas de organização com as quais nós nos acostumamos. E desafia os militantes a refletir testando os limites do seu próprio discurso com a coragem de não ignorar certas realidades. E lança um desafio dizendo, na lata: "as redes não são e não conseguem ser horizontais" e a tal horizontalidade transformou-se num obstáculo epistemológico. A questão das redes não torna obsoleta a noção de liderança nem a noção de representação nem a necessidade de fechamento de questão em torno de alguma coisa. Em outros termos: ou se leva em conta a necessidade de pensamento e ação estragégicos dentro das redes ou damos com os burros n'água.

Eu fui a apenas duas manifestações, uma em Campinas e uma em Belo Horizonte. Portanto meu conhecimento direto é extremamente limitado e amadorístico e não tenho a pretensão de dizer verdades sobre as tais jornadas de junho de 2013. O que vi ali na rua das duas cidades foi um mar de gente muito, muito diferente num estranho convívio. O pessoal que saiu para pedir o impeachment da Dilma já estava todo lá e, para eles, o movimento era tão deles quando de outros grupos. Vi também um monte de gente segurando outros cartazes, feitos individualmente, que me deixaram muito pouco à vontade por estar ali. A estratégia dos outros participantes como os de uma parte da esquerda, uma minoria significativa num mar de minorias, era ignorar e seguir em frente fingindo não estar na rua ao lado de um possível entusiasta de Caiado, Bolsonaro, Malafaia ou Feliciano. Em 2015, pelo jeito, só esse pessoal reacionário - gostaria de saber se fizeram pesquisas com os manifestantes de 2013 como andam fazendo com os de 2015 - resolveu sair às ruas e acabou intimidando o resto, que ficou em casa.