Sunday, March 29, 2020

Trilha Sonora para o fim do mundo 3



I certainly haven't been shopping for any new shoes and
I certainly haven't been spreading myself around
I still only travel by foot, and by foot it's a slow climb,
But I'm good at being uncomfortable, 
so I can't stop changing all the time
I notice that my opponent is always on the go and
Won't go slow, so's not to focus, and I notice
He'll hitch a ride with any guide
As long as they go fast from whence he came
But he's no good at being uncomfortable, so
He can't stop staying exactly the same
If there was a better way to go then it would find me
I can't help it, the road just rolls out behind me
Be kind to me, or treat me mean
I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine
I seem to you to seek a new disaster every day
You deem me due to clean my view and be at piece and lay
I mean to prove I mean to move in my own way, and say
I've been getting along for long before you came into the play
I am the baby of the family, it happens, so
Everybody cares and wears the sheep's clothes while they chaperon
Curious you looking down your nose at me
While you appease courteous to try and help
But let me set your mind at ease
If there was a better way to go then it would find me
I can't help it, the road just rolls out behind me
Be kind to me, or treat me mean
I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine
Do I so worry you
You need to hurry to my side?
It's very kind
But it's to no avail
And I don't want the bail
I promise you, everything will be just fine
If there was a better way to go then it would find me
I can't help it, the road just rolls out behind me
Be kind to me, or treat me mean
I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine
Oh, if there was a better way to go, then it would find me
I can't help it, the road just rolls out behind me
Be kind to me or treat me mean
I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine

Saturday, March 28, 2020

Trilha sonora para o fim do mundo 2



Days like this I don't know what to do with myself All day
and all night I wander the halls along the walls and under my breath I say to myself I need fuel
to take flight And there's too much going on But it's calm under the waves,
in the blue of my oblivion Under the waves
in the blue of my oblivion Is that why they call me
a sullen girl,
sullen girl They don't know I used to sail the deep and tranquil sea But he washed me ashore
and he took my pearl And left an empty
shell of me And there's too much going on But it's calm under the waves
in the blue of my oblivion Under the waves in the blue of my oblivion Under the waves in the blue of my oblivion It's calm under the waves
in the blue of my oblivion

Friday, March 27, 2020

Trilha sonora para o fim do mundo

Tudo indica que estamos a beira de uma catástrofe no Brasil. A inação e ineficiência dos EUA já vai mostrando como a pandemia pode tomar proporções ainda maiores do que as que ela teve na China, e mesmo na Itália ou na Espanha. Tudo indica que o pior ainda está por vir e acontecerá no Brasil. Finalmente, dezenas de apelidos depois, nosso despresidente encontrou seu epíteto perfeito: "Bolsonero", tocando sertanejo gospel da sacada do seu palácio enquanto assiste sua Roma arder em chamas.

Amarga simetria irônica: Darcy Ribeiro gostava de chamar a América Latina de Nova Roma, seguindo José Vasconcelos. Seremos a Nova Roma em chamas e eu, aqui de longe, vou por as imagens no mudo e ligar essa já velha canção tão estranha, misturando desespero e uma vontade inocente quase piegas de redenção.



Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que vem é perfeição

Thursday, March 26, 2020

Recordar é viver: sentidos do meu trabalho

Hoje há uma ruína na Praça Jornal do Comércio, delimitado pela Avenida Barão de Tefé, Rua Sacadura Cabral e pelo limite lateral do Hospital dos Servidores do Estado, no número 178 da Rua Sacadura Cabral. São restos de um cais de pedra, construído a partir de 1811, para o desembarque de africanos escravizados, no porto do Rio de Janeiro. Por ali chegaram mais ou menos 1milhão de pessoas, 25% de todos os africanos sequestrados e depois escravizados nas Américas. Isso faz do Valongo o maior porto escravagista da história da humanidade. Escondido por baixo da reforma de 1843 que o transformou em Cais da Princesa, o porto recebeu a princesa napolitana Tereza Cristina de Bourbon, esposa do Imperador Dom Pedro II. Aterros feito com a terra dos morros do centro do Rio acabaram de enterrar essa história até recentemente.

“O enfermeiro” foi publicado por Machado de Assis pela primeira vez na Gazeta de Notícias de 13 de julho de 1884. O conto se passa em 1860 e o narrador se chama Procópio Valongo. Alguma dúvida sobre a relevância da referência? Isso não impediu que muitos escrevessem sobre o conto sem fazer qualquer referência a alusão tão clara e forte. É um exemplo do que poderíamos chamar de racismo por apagamento, especialidade brasileira. O meu trabalho, no que concerne à questão, é desapagar, sempre. Foi com essa ideia que escrevi esse artigo sobre três contos, "O enfermeiro" e ainda um conto de Lima Barreto e outro de Monteiro Lobato. 

Lendo os três contos juntos aprendi bastante sobre o afro-brasileiro que realmente incomoda o Brasil, aquele que avança socialmente e começa a frequentar certos espaços que se querem exclusivos. 


Wednesday, March 25, 2020

Escutando o despresidente falar

Nem tudo é para o mal quando se trata do atual presidente (pindorâmico ou babilônico, podem escolher) no meio de uma pandemia. Podemos exercitar nosso vocabulário. Ao escutar os disparates televisionados, me inspirei em criar um glossário criativo de ofensas. Ficaram de fora os palavrões porque o nível do discurso público já anda em nível subterrâneos, mas fui do quase erudito da nossa última flor do Lácio ao mais vernacular belorizontino. Ele merece mesmo um aluvião de adjetivos:   


A.    asqueroso, anta, agourento, asno, acéfalo, arregão, abobado, abominável, arrombado, atormentado, aborrecido, alma penada dos quintos dos infernos, abcesso purulento,

B.     burro, bostão, biltre, barango, babaca, besta quadrada, bruto, bafo de onça, bronco, bandido, bitolado, brega, bunda mole, boca de esgoto, bichado, bucha de boi,

C.     cafona, cacete, covarde, cachorro sarnento, cão danado, carniceiro, crápula, cafona, canalha, cínico, chupa cabra dos infernos, coisa ruim, capeta, cabuloso, casca grossa, catástrofe, cabeção, chiliquento, caruncho, carcoma, chocho,

D.    demente, demônio, desgraçado, despistado, desastre, degenerado, débil mental, despreparado, desenxabido, desarranjado, desastre, danado, desmoralizado, destrambelhado, doença, dodói, desleixado, desalmado, desonesto,

E.     estrume, esterco, execrável, estelionatário, energúmeno, escroto, excrescência, escroque, equívoco da natureza, erva-de-passarinho, erva daninha, espírito de porco, esculhambado, estragado, engodo

F.     filho de uma que ronca e fuça, fanático, filhote de cruz credo, fedorento, falsário, fanfarrão, filão, fracassado, frustrado, futriquento, fraco, filistino, filisteu,

G.    gomeiro, gatuno, gastura, grosseiro, grosso, gangrena de porco velho, gorado,

H.    histérico, horroroso, horrendo,

I.      inútil, imbecil, idiota, injeção na testa, incompetente, ignorante, insano, insosso, infeliz, intrigueiro, inarticulado, inculto, inseto, inhaca,

J.      jumento, jegue, jerico, jurupari, janota, 

L.     loroteiro, lerdo, lesado, lepra, lereia, lorpa, louco varrido, lazarento, lixo humano, lunático, limitado,

M.    monstro, mentiroso, miserável, malparido, mais perdido que cego em tiroteio, mala sem alça cheia de areia, mastodonte, morto-vivo, melecado, maligno, macabro, monstrengo, maligno, marmota, mesquinho, morrinha,

N.    néscio, nojento, nó cego, nulidade, negligente,

O.    otário, ondeiro, odioso, ordinário, omisso, ovo podre,

P.     podre, pamonha, pavoroso, paspalho, porco, panaca, perverso, parvo, pancada, pascóvio, pascácio, praga, peste, pateta, pilantra, purulento, pestilento, perdido, mal-parido, pileca, peçonhento, patético, passado, prego, pastel, pata choca, pusilânime, poltrão,

Q.    quadrúpede, quasímodo,

R.     rato, repugnante, remelento, rancoroso, rançoso, reles, ralo, ridículo, ruindade,

S.     sacripanta, salafrário, sacana, sádico, sem noção, sem vergonha, safado, sarnento, sanguessuga, suíno, simplório,

T.     tapado, tonto, tarado, tolinho, toupeira, torpe,

U.    usurário, urinol do capeta, urucubaca viva, urticária,

V.    vadio, verme, vândalo, vendido, vaidoso, vulgar,

X.    xexelento,    

Z.     zureta, zero a esquerda, ziquizira,


Monday, March 23, 2020

Almeida Garrett e os ricos

"Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem que de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis."

Trecho de Viagens da minha terra, Almeida Garrett, 1846

Sunday, March 22, 2020

Diário da Babilônia: Crises agudas e dores crônicas

A crise aguda do vírus corona chegando e os problemas estruturais crônicos que permanecem desde algum tempo fazem o Estados Unidos passarem por um momento especialmente delicado.

Antes mesmo da chegada do Vírus Corona, expectativa de vida já havia caído por 3 anos consecutivos nos EUA. A última vez que isso tinha acontecido foi entre 1915 e 1918 por causa da Primeira Guerra Mundial em conjunto com a Gripe Espanhola. A causa dessas quedas na expectativa de vida por aqui foram 600 mil mortes “extra” (não previstas pelos demógrafos) de adultos brancos entre 45 e 54 anos de idade. As causas principais são suicídio, overdose e doenças do fígado causadas por abuso de álcool e os mortos na sua imensa maioria são brancos sem diploma universitário. As mortes causadas pela crise dos opioides chegou a um equilíbrio no ano passado após anos consecutivos de crescimento. Mas as mortes por suicídio e por problemas derivados do alcoolismo continuam crescendo.

A questão é: por que tantas mortes?

Antes de tentar qualquer resposta, é preciso acrescentar a essas mortes outro fator de sofrimento: as dores crônicas. 100 milhões de pessoas nos Estados Unidos sofrem de dores crônicas. Durante alguns anos os médicos receitaram Oxycodone e outros opióides como se eles fossem aspirinas, sem se dar conta que esses remédios eram altamente viciantes. Mesmo depois que o uso legal foi restringido, o resultado foi que se estima que mais ou menos 1 milhão de pessoas usam heroína diariamente nos EUA. Muitos outros usam substâncias como fentanyl, inicialmente para lidar com a dor e depois para lidar com o vício com alguma dessas substâncias. Mais uma vez algo chama a atenção para um grupo específico: as pessoas na faixa dos 50 anos têm taxas bem maiores de dor crônica que as pessoas na faixa dos 70 ou 80 anos. Que dores tão persistentes são essas?

No final dos anos 60, apenas 5% dos homens entre 25 e 45 anos não trabalhava. Em 2010, 20% desses homens não trabalhava. A contagem oficial do desemprego tem maneiras para mim bizarras de “apagar” aqueles que estão cronicamente desempregados: se alguém “desiste” de procurar emprego, essa pessoa desaparece das estatísticas como desempregado. Assim, os anúncios de pleno emprego de uma supostamente exuberante economia escondem debaixo do tapete que um em cada cinco homens entre 25 e 45 anos estão cronicamente desempregados. Numa análise por região, percebe-se que quanto menos gente trabalha nessa faixa etária e de gênero, maior o número de mortes por suicídio, overdose e problemas relacionados ao alcoolismo.

Desemprego crônico, dores (psíquicas e/ou físicas) crônicas, epidemias de desespero. O Corona vem chegando para aplicar mais pressão num tecido já bastante esgarçado. E pior, vem chegando num país onde uma parte importante da população vive uma vida ainda extraordinariamente afluente e ignora o desespero dessa massa irritada. 

Essa massa irritada, por exemplo, votou em massa (quando saiu de casa para votar) em Donald Trump em 2016 e deu a ele vitórias fundamentais em estados onde Obama havia ganhado antes. A reação do resto do país - claro entre os que tinham plena convicção, como eu, de que Trump era muitíssimo pior que Hillary Clinton - foi de indignação. Choveram artigos e ensaios em que se usaram de todos os estereótipos possíveis para darem explicação para esse comportamento "incompreensível" dos brancos da classe trabalhadora nos EUA. 

Essa incompreensão continua tão aguda que, quatro anos depois, o candidato praticamente já escolhido pela oposição democrata para as eleições fala em "fazer as coisas voltarem ao normal", sem perceber que esse "normal" significa um inferno para muitas pessoas. Elas votaram em Trump e talvez votariam em Sanders porque não querem que as coisas continuem como estão. Em vista do que expus aqui, não faz um certo sentido? 

Some-se a isso tudo as dores agudas de uma crise de saúde sem precedentes sob a direção de um energúmeno sem precedentes - perto dele imbecis como Ronald Reagan e George W. Bush parecem exemplos de civismo e classe. O que vai acontecer se os caixões começarem a se empilhar como na Itália? Logo veremos.

Monday, March 16, 2020

Obituário: Keith Flint


I'm the trouble starter,
punkin' instigator.
I'm the fear addicted,
danger illustrated.
I’m the Firestarter,
Twisted Firestarter.

I'm the bitch you hated,
filth infatuated, yeah!
I'm the pain you tasted,
fell intoxicated.
I’m the Firestarter,
Twisted Firestarter.

I'm the self-inflicted,
mind detonator, yeah!
I'm the one infected,
twisted animator!
I’m the Firestarter,
Twisted Firestarter.


Sunday, March 15, 2020

Terceiro Mundo em Babylon

Começamos na sexta-feira à noite no trajeto era Santa Cruz-Santa Bárbara, com baldeação em San Luis Obispo. Meu amigo fazia doutorado em SC e passava os fins de semana em SB, onde a mulher fazia doutorado. Ele começa a achar meio esquisito o trajeto do motorista e quando finalmente resolve que vai falar com ele, percebe que o sujeito dirigia o ônibus com uma lanterna presa pelos dentes e um mapa aberto no colo [isso foi antes dos telefones com GPS].

O motorista então pára no acostamento no meio do nada e anuncia: "estou dirigindo sem parar a dois dias. Se não conseguir encontrar o caminho para San Luis Obispo nos próximos 30 minutos, vou parar em qualquer lugar e dormir." Brancolândia em pânico. Latinos, na maioria mexicanos, tomam o mapa do motorista, esticam o pescoço para fora da janela em busca de referências e começam a parlamentar para tentar botar o ônibus de volta no rumo certo.

Trabalhando em equipe os latinos conseguem ajudar o motorista a reencontrar o caminho para San Luis Obispo. O problema é que com o atraso o ônibus chega depois que todas as conexões já foram embora e a pequena rodoviária fechou suas portas. O motorista desaparece da cena. Quem ficava em SLO foi para casa; a maioria que ia para outros lugares ficou no meio da rua, no meio da noite, no meio do caminho, batendo em vão nas portas fechadas da rodoviária.

Tanta confusão à meia-noite na pacata SLO rapidamente alerta a polícia local e uma patrulha chega à rodoviária para saber o que estava acontecendo. A autoridade policial faz com que o vigia embatucado dentro da rodoviária magicamente de o ar da sua graça e abra as portas contrariado. Não há mais muito o que fazer - novos ônibus agora só no dia seguinte, a partir das dez da manhã.

Os passageiros se acomodam pelos cantos, agarrados aos seus pertences, e tentam descansar um pouco. No dia seguinte o único ônibus para SB sai antes do almoço e é um dos que vão parando pelo caminho. Esses eu conheci pessoalmente, quando gastei seis horas para ir de Los Angeles a Santa Bárbara, um trajeto de 180 quilômetros que se faz em uma hora e meia de carro. Finalmente meu amigo chega a Santa Bárbara no fim do sábado, exausto. E começa a se preparar para voltar a SC no domingo!

Saturday, March 14, 2020

Porque eu amo o México

O mexicano Gabino Barreda lê "Oración cívica" em público pela primeira vez em setembro 1867, celebrando a independência e principalmente a vitória final dos mexicanos contra os invasores franceses e seus aliados conservadores. Ele termina o ensaio com uma espécie de resumo das expectativas com relação ao país do liberalismo mexicano, já sob influência do positivismo:

"Que en lo sucesivo una plena libertad de conciencia, una absoluta libertad de exposición y de discusión dando espacio a todas las ideas y campo a todas las inspiraciones, deje esparcir la luz por todas partes y haga innecesaria e imposible toda conmoción que no sea puramente espiritual, toda revolución que no sea meramente intelectual, Que el orden material, conservado a todo trance por los gobernantes y respetado por los gobernados, sea el garante cierto y el modo seguro de caminar siempre por el sendero florido del progreso y de la civilización."

Muita fé no progresso, dentro de uma ordem liberal que promovesse um avanço espiritual e intelectual identificado firmemente com a civilização [européia, completo eu].

Praticamente meio século depois Manuel Gamio publica Forjando patria. Ainda, de certo modo, sob influência tanto do liberalismo mexicano como do positivismo comtiano, Gamio acrescenta um item importante, fruto dos seus estudos com Franz Boas (antropólogo que também foi professor de Gilberto Freyre e deu conferências no México): uma compreensão aguda da continuidade problemática entre os regimes coloniais e os pós-coloniais nas Américas. No meio de um conturbado processo revolucionário, Gamio explica eloquentemente a necessidade fundamental de reconhecer e romper com essa continuidade:

"Desgraciadamente, en casi todos los países latinoamericanos se desconocieron y se desconocen, oficial y particularmente, la naturaleza y las necesidades de las respectivas poblaciones, por lo que su evolución ha sido siempre anormal. En efecto, la minoría formada por personas de raza blanca y de civilización derivada de la europea, sólo se ha preocupado de fomentar su propio progreso dejando abandonada la mayoría de raza y cultura indígenas."

O seu gesto é o de conhecer o outro [através da antropologia] para construir uma nação que seja de todos. Mais de cem anos depois, pelo menos no Brasil, estamos andando para trás em relação ao que Gamio escrevia em 1916. Ao contrário de intelectuais brasileiros com semelhante pontos de vista (como Manoel Bonfim), Gamio tem oportunidade de fazer imensas colaborações à educação, antropologia e arqueologia no México em duas oportunidades: entre 1913 e 1926 e depois na presidência de Ernesto Cárdenas. Quem tiver a oportunidade de visitar o México, poderá ver muito concretamente a marca desse trabalho no sensacional Museu de Antropologia e no trabalho de recuperação de ruínas pré-hispânicas. 


Thursday, March 12, 2020

Ainda os anos 80

Eu fui me lembrar de "The Boiler" e comecei a me lembrar de um monte de coisas que me levavam à loucura nos anos oitenta, na época em que eu tinha uma banda e sonhava com música o tempo todo.

Duas canções da banda Black Uhuru que eu ouvi 5 milhões de vezes: "Plastic Smile" e "Natural Reggae Beat". Uhuru significa liberdade em swahili. Black Uhuru tinha na cozinha aqueles que são para mim a melhor dupla de baixo e bateria até hoje: Robbie Shakespeare e Sly Dunbar. Além disso eles eram para mim a prova cabal de que se podia fazer com o inglês o que nós fizemos [e fazemos] com o português nas ruas e becos do Brasil.

O uso do pronome "I" no papel de objeto direto no refrão de "Plastic Smile":

"Don't show I no teeth,
Plastic smile can't work!

Take you face from the ground, Girl, stop wearing frown! I'm not a clown that laughs and jokes While my structure in smoke. Every man is born of truth in the natural birth. The things that the Fari say to do now Shows what life really worth.
 Don't show I, don't show I no teeth, teeth can't work"



Ou então a transformação genial de "we" em "I&I" em "Natural Reggae Beat" (que tem uma combinação de baixo e bateria que eu nunca ouvi em lugar nenhum antes ou depois, coisa rara ainda mais no reggae, onde imperam as riddums, que são padrões rítmicos que são usados em várias canções do mesmíssimo jeito).
E ainda na mesma canção a simples omissão do verbo "is" entre "tribute" e "right", fazendo com que o verso seja simultaneamente "then you know the tribute is right" e "then you know the tribute the right way". Ou o jeito de pronunciar "intelligence" como "intelligency".

"You better be ready to
Catch the reggae train
You better catch tha fever
To make you move and groove
It's not the punky honky
It's a natural reggae beat
To make you keen tight (keen tight)
Then you know the tribute right.
Oh, Lord, lead and guide
I &I in the earth!



Cause they try many times
To conquer I & I
but because of high intelligencyI could afford to be here just now."



Esse disco de vinil [que eu guardo no Brasil e acabo escutando pelo menos uma vez por ano] me deu incontáveis horas de alegria e energia - solitárias horas, praticamente. Praticamente porque acabamos tocando coisas puxadas daí na banda. 

Wednesday, March 11, 2020

Aconteceu em 1982 - Lembranças de uma certa adolescência perdida


The Boiler

The Special AKA with Rhonda Dakar

I went out shopping last Saturday
I was getting some gear, and this guy offered to pay
Who's the hunk? I think to myself
For so many years I've been left on the shelf
An old boiler

Then we went walking back down the high street
And I felt so proud because he looked so neat
He was a real hard man, tough as they come
He said I was cool but I still felt like
An old boiler

He bid me "Come out", how could I say no?
He said "Meet me at eight round my place, you know"
With my new gear on, and a blow dried hair-do
But in my mind I knew I was still
An old boiler

We danced all night long to a nice steady beat
But my hair went to frizz in the terrible heat
My mascara ran, and so did my tights
Confirming in my sight, I must be
An old boiler

So we came out this club hot and sweaty
Because we'd been dancing all night
And he says to me "Well, babe, what you doing then?"
"Well, I think I might get a cab" I said casually
"Nah, nah, come back to my place. I only live just round the corner
You can go home in the morning, yeah?"
"Well I don't think so. I've only known you a day. It's a bit soon, innit?
Give me a ring sometime yeah?"
But then he starts to get mad
"Listen here girl, I bought that gear you got on, I paid you in here tonight,
I bought you all them drinks and you wanna go home, I should bleedin’ coco"
And then he stormed off.

Well, I felt a right mug, well you would, wouldn't you?
So I ran after him, caught him up.
And here we are walking down this street about a hundred miles per hour.
Arm in arm, no talking, atmosphere you could have cut with a knife.

There's no one about,
nothing to take your mind off it, you know.
No cars, not even the occasional stray animal.
It was cold and the wind's whistling through the trees
Blowing newspapers accross my legs
so I tripped as I tried to keep up with him.
And there was all these alleyways and railway bridges.
The stink of piss.

Then all of a sudden he grabbed hold of my arm.
And he starts to drag me up one of these alleyways.
Then he starts to hit me really hard across the face, you know?
He was hitting me and grabbing at me.
It was awful because he was, like, so big.
Hitting me he was, and tearing at my clothes.
There was nothing I could do honest, I was helpless.
And then he tried to rape me,
and there was nothing I could do,
honest,
All I could do was scream...

NO!!!!!!!

Wednesday, March 04, 2020

¡Viva la vida y abajo la pedantería!

José Vasconcelos e a jabuticaba

Descrevendo em detalhes sua viagem pelo Brasil em 1922, quando veio representar o México nas festas do centenário da independência, José Vasconcelos se derrete em elogios. Uma das minhas passagens preferidas é a que descreve a jaboticaba:

"Fueron deliciosos los manjares, pero lo que recordábamos después fue el amable empeño del amigo Duarte, el presidente municipal [Rafael Andrade Duarte, prefeito de Campinas em 1922], por hacernos conocer la mejor fruta de la región, la jabuticaba. [...] ... por fortuna nuestro huésped mandó poner en el centro de la mesa una enorme fuente de jaboticabas, se pronuncia llaboticaba. El fruto parece una ciruela obscura [ameixa] con pulpa blanca, dulce y jugosa, pero mucho más delicada y refrescante que la de cualquier ciruela. Los árboles que la producen los había allí mismo, en el parque, y no hay ninguna razón para que no puedan ser trasplantadas a las zonas cálidas de Veracruz y Colima. Conocer un fruto nuevo es un acontecimiento; saborearlo, un deleite que pone en ridículo a todas esas ingenuidades de gabinete que se lamentan que la Humanidad no ha descubierto en tantos siglos una sola voluptuosidad nueva. [...] Si no os decidís a emprender el viaje, pedid desde Europa un cesto de "jaboticabas" lustrosas. Os veréis tentados a gritar: ¡Viva la vida y abajo la pedantería!" [69-70]