Sunday, November 29, 2015

Notas para um livro impossível sobre crítica

John Updike, que teve uma longa carreira como escritor de resenhas para jornais e revistas, dizia que não fazia o menor sentido reclamar que um autor "não havia atingido o que nunca quis atingir" com uma determinada obra. Trocando em miúdos: é tolice esperar que Spielberg faça um filme de Godard ou que Godard faça um filme de Spielberg. Mas nem sempre é tão fácil assim discernir a partir da obra o que é que o seu autor queria que ela fizesse. Sem falar que muitas obras interessantes acabam fazendo coisas que seus autores nunca quiseram que elas fizessem; uma vez soltas pelo mundo, as obras sofrem metamorfoses impressionantes na cabeça dos seus vários leitores diferentes. Se há um "eu-autor" numa resenha crítica, ele pertence ao crítico antes de tudo.

Mas para isso há que encontrar um público, inclusive um público crítico. Oscar Wilde, com aquela ironia habitual, disse o seguinte: "Minha peça foi um sucesso absoluto. O público é que foi um fracasso". Que muitos artistas hoje trabalhem apesar de uma inquietante falta de público para o que eles estão fazendo não é um problema em si. Mais difícil que discernir as intenções de um autor na sua obra é saber que diacho é esse negócio de público. Não é por nada que Oscar Wilde se refere ao teatro, uma dessas artes em que o contato com o público é visceral e direto, ali, no momento da performance e nas contas da bilheteria. O que eu acho problemático é tomar o que Oscar Wilde disse sem a ironia do autor da frase  [cá estou eu interpretando intenções, ou me escondendo atrás do espantalho do autor - a ironia é  do dito, é minha, ou é do Oscar Wilde?]. A ausência ou indiferença do público não é pouca coisa, não é um problema desimportante. É um grande desafio que devia preocupar muito o artista. 

Junto as pontas [crítica, intenção e público] com uma frase do diário de Witold Gombrowicz; "Nunca assinei contrato para servir aos leitores ideias inéditas. Em mim certas ideias que circulam pelo ar que todos respiramos são combinadas num sentido todo especial e unicamente Gombrowicziano e esse sentido sou eu". Gombrowicz não apenas junta as pontas para mim, mas ainda toca em outro ponto delicado dessa complicada equação. Arte é, sim, feita de ideias [além de outras coisas], mas o seu tratamento para as ideias não é o que se espera de qualquer uma dessas coisas que se arvoram o nome ciência [um rótulo mágico já que tanta gente o preza com fervor religioso]. E muito menos serviço de mensagens. Mas veja bem: Gombrowicz ao mesmo tempo trata de chutar com o bico do sapato a canela de muitos dogmas do estranho puritanismo formalista do século XX [e faz isso nos anos 50 quando ele estava no seu apogeu!]: o "eu" do autor existe e está, sim, entranhado na obra, a presença das ideias e o tratamento dado a elas pelo artista é, sim, importante e não dá para negar a existência de um certo contrato de prestação de serviços entre o artista e o seu público.

Monday, November 23, 2015

Ser pai de uma menina de 6 anos em 2015

Ter uma filha de 6 anos como a minha [cada uma deve ser de um jeito, com certeza] é mais ou menos o seguinte [pelo menos se você quiser aprender e se divertir com ela de verdade]: um sujeito casca grossa feito eu, que cresci com três irmãos mais velhos todos muito ogros, tem que começar a aprender sobre pincéis de maquiagem e fazer sessões de salão de beleza enquanto ela toma banho de banheira para passar 3 xampús diferentes e pentear o cabelo dela, além de aprender a ver desenhos animados "harcore" como Strawberry Short Cake e Monster High e tudo mais quanto interesse a ela. E ela vai pulando de lá pra cá, e eu vou seguindo os novos interesses e obsessões, aceitando tudo com a melhor cara do mundo. Foi assim com meu filho, que hoje é um adolescente e já não quer mais muito saber dos pais. No caso dele eram Pokemóns intermináveis e Changemen e companhia limitada. No caso dela isso inclui um bilhão de gritantes e rebolantes cantoras POP que hoje movimentam o rádio sonhando em ser a próxima Kátia Perry ou Taylor Presunto Swift. Mas música Pop sempre foi assim: no 1/2 de 700.000 produtos de plástico vagabundo aparece uma jóia:







E é melhor aproveitar porque ela só tem mais um mês com 6 anos. A partir de 15 de dezembro a aventura de ser pai de uma menina de 7 anos começa.

E se você, quarentão mofado, não acredita que P!nk é fera, aqui dois vídeos canções pop apropriadamente velhuscas:




Thursday, November 19, 2015

A vida continua: Kara Walker e Titus Kaphar

Talvez o mais importante a fazer antes de tentar escrever algo sobre o trabalho de outra pessoa seja entender como esse trabalho me afeta, entender porque ele me afeta, descobrir meu interesse ao invés de fingir que existe um desinteresse científico da minha parte. Titus Kaphar e Kara Walker são artistas contemporâneos que me interessam muito - já mencionei eles aqui brevemente. O trabalho deles me interessa porque os trabalhos dos dois têm um forte componente narrativo, porque eles trazem visibilidade e inteligência para assuntos que são ignorados tradicionalmente, porque eles falam com inteligência crítica de coisas que eu considero importantes e urgentes. Gostaria de escrever sobre eles e sobre Claudia Rankine e Robin Coste Lewis e talvez aproveite esse meu período de reavaliação das prioridades na minha vida para fazer isso. Ou talvez nada disso passe desse rascunho apressado, escrito nos Estados Unidos em português [essa língua tão "exótica"] sobre artistas estadounidenses que os brasileiros em geral não têm o menor interesse em conhecer. Que eu me dedique a rascunhos apressados então.









Wednesday, November 18, 2015

Burrice e fascismo ou esperteza e fundamentalismo?

Li há pouco tempo um artigo de Eliane Brum sobre a suposta “burrice” nacional, em parte uma resenha bastante positiva do livro de Márcia Tilburi Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. Achei interessante e gostaria mesmo de ler o livro quando puder, mas tenho objeções com o uso de termos como burrice e fascismo. Tenho muita simpatia por tudo o que ela disse, mas acho que chamar o que está acontecendo no Brasil de resultado de "burrice" ou até mesmo de "fascismo" pode ser tentador mas, em última instância, é dar um rótulo meio fácil e antigo a um fenômeno bem mais complexo. Burrice é um termo que subtrai do burro a responsabilidade pelo que diz ou faz, já que o que fala e age é a falta de conhecimento ou de capacidade cognitiva do pobre coitado. Há muita esperteza nessa tal burrice que trata de garantir um debate-boca sempre curto e grosso em torno das mesmas cortinas de fumaça [kit-gay, foro de são paulo, etc]. E nem todo o autoritarismo ou brutalidade política são fascismos. O moralismo que apela para cruzadas dos homens de bem contra mares de lama e o infame "bandido bom é bandido morto" que tem tanta visibilidade no discurso político hoje não são novidades na nossa cultura. E quase 50 anos de infantilização sentimental jogada nos sofás da nação-rivotril no horário nobre sete dias por semana não são só burrice. E já se finge que não houve uma ditadura tosca e brutal com amplo apoio civil há uns 25 anos pelo menos, como se fingiu antes que não houve colonização, que não houve genocídio e etnocídio, que não houve escravidão, que não houve Canudos ou Contestado – a amnésia não é um acidente e sim uma estratégia muito inteligente de perpetuação das coisas que pretensamente são esquecidas. 
Mercadante e Kátia Abreu tramam bolivarianismos

Busco nos confins dos confins um exemplo de simplicidade fabricada para me explicar melhor [quase sempre acabo me explicando pior, mas, paciência…]
Era uma vez um simplório colecionador amador de fatos curiosos chamado Richard Saunders, pródigo em frases cheias de sabedoria popular e bom senso. Saunders publicava um almanaque anual chamado Poor Richard's Almanac, que vendia horrores nas colônias inglesas na América do Norte lá pelos anos 30 do século XVIII. O que ninguém sabia era que a sabedoria simplória do almanaque era obra de um dos homens mais brilhantes das colônias, um tal de Benjamin Franklin, que aliás ficou podre de rico com as vendas do seu almanaque. 

Entre centenas de máximas dispostas em ordem alfabética estão as seguintes:

"Half the truth is often a great lie."
Uma meia verdade cosutma ser uma grande mentira. 

"Half wits talk much but say little."
Gente sem noção fala muito mas diz muito pouco.

“Happy Tom Crump, ne'er sees his own hump.”   
Feliz do Tonico Covas, nunca vê sua própria corcova.
 
“Haste makes waste.” 
A pressa causa o desperdício.
 
He has chang'd his one ey'd horse for a blind one.
Ele trocou seu cavalo caolho por um sem olho. 
 

A internet é uma maravilha para essas coisas e o velho almanaque está disponível para quem quiser.  

Enfim: é fácil finger-se de bronco quando finger-se de bronco me garante um debate-boca onde eu sempre saio ganhando. O fascismo era uma forma de autoritarismo e por ser assim compartilha obviamente algo com os nossos autoritarismos, mas os nossos autoritarismos são muito mais espertos, mais insidiosos. Se há um fenônemo MUNDIAL [e vou sempre brigar para que os brasileiros saiam de sua auto-obsessão e vejam que não são assim tão excepcionais nem para bem nem para mal] com o qual temos que nos preocupar, não é o fascismo e sim o fundamentalismo e não vamos entender as coisas melhor confundido Musolini com Médici.

Sunday, November 15, 2015

Sobre terror, sobre culpa, sobre solidariedade.

Quando alguém emposta a voz e diz que a França ou o Líbano ou qualquer nação foi atacada/ferida/ofendida por um ato de terrorismo, além de um tom épico-fajuto, essa pessoa entra em uma estranha sintonia com o discurso desse tipo de terrorrismo, que sustenta que todo e qualquer cidadão de uma determinada nação é parte responsável pelos atos daquela nação como um todo. Trocando em miúdos, um vendedor de cachorro quente na Praça do Papa é responsável por tudo o que o governo brasileiro faz ou deixa de fazer, por exemplo, com os povos indígenas que habitam o país. Assim sendo, seguindo esse raciocínio, um grupo terrorista que lutasse contra o genocídio dos indígenas no Brasil consideraria explodir esse vendedor de cachorro quente na Praça do Papa e os dois pipoqueiros ao lado como um alvo legítimo para um protesto de natureza violenta.

Um certo Picasso pintou no mesmo 1937 um quadro/protesto que só voltou à Espanha depois que Franco caiu fora
Isso não foi inventado pela escalada do terrorismo dos anos 70. Em 1937 aviões alemães e italianos que apoiavam Franco na Guerra Civil espanhola decidiram testar a teoria de Bombardeio de Terror e escolheram uma cidade sem qualquer importância estratégica na guerra chamada Guernica para testar sua teoria. Os aliados usaram, obviamente sem nunca assumi-lo, o mesmo princípio nos bombardeios que devastaram Dresden, Hiroshima e Nagazaki. Nesses três atos de assassinato em massa de civis durante uma guerra, o rótulo de Bombardeio de Terror foi negado veementemente. Uma fábrica aqui ou ali justificariam esses ataques como "táticos".

É claro que acabou a política de "tolerância" que França e companhia tinham adotado contra o ISIS na Síria - havia um contraste imenso entre a intensidade de bombardeios no Iraque e a timidez em atacar o ISIS na Síria "para não fortalecer Bashad". Quem acha que só vão morrer soldados malvados em Raqqa, deve também acreditar que só morreram nazistas de carteirinha em Dresden ou japoneses sanguinários em Hiroshima. Mas é claro que a imprensa já vai começar a repetir as potocas de que bombardeios são "cirúrgicos" e mísseis são "inteligentes" e que civis e gente inocente nunca morre quando o grande ocidente-varonil-rivotril ataca.

Sou totalmente contra todas as patrulhas da solidariedade alheia. Leão Famoso ou anônimo, natureza de perto ou de muito longe, gente de perto ou muito de longe, solidariedade vazia ou cheia. Eu me solidarizo com vítimas de agressão e violência, não com países. Eu, particularmente, parei de jogar WAR quando era adolescente e não fico aqui vibrando quando alguém mata israelenses ou palestinos ou russos ou soldados ou policiais ou favelados como se estivéssemos contando figurinhas ou apostando para ver quem faz xixi mais longe. Em nome da civilização cristã ou dos os valores do mundo ocidental, então, nem me fale. Não dou meia pataca de entusiasmo por nada disso e se alguém me dissesse que era possível se livrar dessas coisas sem transformar o mundo num tsunami de sangue inocente, eu até apoiaria. Meu negócio é a gente e o meio ambiente; bandeira e hino nacional de onde for, eu até respeito, mas estou fora. Mas só para enfatizar eu repito: cada um devia poder fazer o que bem entendesse com a sua empatia e vontade de solidariedade. O mundo já tem ódio demais.

Thursday, November 12, 2015

Trechos do Diário de Witold Gombrowicz

Estou muito, muito lentamente lendo o diário do escritor polonês Witold Gombrowicz, traduzido para o inglês Lillian Vallee e publicado em 2012. Não gosto de traduzir coisas que foram traduzidas para o inglês mas não sei dizer "oi" em polonês mas a importância dos diários de Gombrowicz para mim foi comprovada quando cruzei recentemente com referências a Gombrowicz no livro FUNDAMENTAL de Eduardo Subirats Mito y Literatura, baseado numa leitura instigante de cinco autores centrais para mim: Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, José María Arguedas e Augusto Roa Bastos. Leio os dois tão lentamente que é capaz de eu nunca chegar ao final dos dois livros, mas chegar ao final das coisas acho que nunca foi meu forte de qualquer jeito...

1953
Quarta-Feira [pg. 67]
O artista que se realiza dentro da arte nunca será criativo. Ele deve permanecer nas periferias onde a arte encontra a vida, onde perguntas desagradáveis como as seguintes aparecem: quanto da poesia que escrevo é convencional, e quanto dela é verdadeiramente real? Até que ponto aqueles que me admiram estão mentindo e até ponto estou mentindo quando me admiro como poeta?

Terça-Feira [pg. 73]
Já viveu um homem em qualquer outro lugar que não em si mesmo? Você está em casa mesmo que se encontre na Argentina ou no Canadá, porque sua terra natal não é um ponto num mapa mas a essência viva de um homem.

1954
Segunda-Feira [pg. 80]
O "eu" não é um obstáculo para estar com as pessoas. O "eu" é aquilo que elas desejam. Tenha certeza, entretanto, que o "eu" não é passado como contrabando. Se há algo que o "eu" não tolera é falta de entusiasmo, timidez, cautela.


Monday, November 09, 2015

Simone de Beauvoir e as definições essencialistas do feminino

A falha principal da humanidade não é a ignorância, mas a recusa do saber.
Tenho dado para ler a vários alunos meus o capítulo introdutório de O segundo sexo de Simone de Beauvoir. Gostei muito que tivessem citado um pedacinho dele no exame do ENEM. Acho paradoxal que algumas pessoas se queixem de reações, digamos, toscas sobre o assunto ao mesmo tempo em que dão máxima visibilidade a essas declarações, em alguns casos óbvias e em outras vindas de ilustres desconhecidos que são alçados a um destaque imenso por sua imbecilidade. 
Acho fundamental ler o texto, voltar ao texto, sempre. Mesmo porque o assunto está longe de ultrapassado, ainda que o livro seja de 1949. Uma grande amiga esteve semana passada numa palestra na universidade sobre « Negociação Para Mulheres », palestra criada provavelmente pela constatação de que as mulheres ganham menos em posições semelhantes na universidade e no mundo corporativo [será que ainda vale a pena diferenciar ?] e pela suposição de que é assim porque os homens negociam melhores que as mulheres. A palestra estava toda baseada numa diferenciação básica : os homens negociam pensando « the world is my oyster » e as mulheres pensando « you can’t draw blood from a turnip » e daí ladeira abaixo com a ideia de que as mulheres não deveriam se « masculinizar » no trabalho, completo com ilustrações comparando mulheres com cabelo preso e terninho a mulheres com batom, vestidos fru-frus e cabelo « arrumado ». 
Ofereço aqui no meu canto, no original e em duas traduções, um trecho fundamental em que Simone de Beauvoir fala sobre a articulação entre essencialismo e dominação . As partes interessantes/problemáticas da tradução estão em negrito:

Pour prouver l’infériorité de la femme, les antiféministes ont alors mis à contribution non seulement comme naguère la religion, la philosophie, la théologie mais aussi la science : biologie, psychologie expérimentale, etc. Tout au plus consentait-on à accorder à l’autre sexe « l’égalité dans la différence ». Cette formule qui a fait fortune est très significative : c’est exactement celle qu’utilisent à propos des Noirs d’Amérique les lois Jim Crow [arrêtés et règlements établissant la ségrégation raciale aux USA, 1876-1964] ; or, cette ségrégation soi-disant égalitaire n’a servi qu’à introduire les plus extrêmes discriminations. Cette rencontre n’a rien d’un hasard : qu’il s’agisse d’une race, d’une caste, d’une classe, d’un sexe réduits à une condition inférieure, les processus de justification sont les mêmes. « L’éternel féminin » c’est l’homologue de « l’âme noire » et du « caractère juif ». Fonte

In proving woman’s inferiority, the anti-feminists then began to draw not only upon religion, philosophy, and theology, as before, but also upon science – biology, experimental psychology, etc. At most they were willing to grant ‘equality in difference’ to the other sex. That profitable formula is most significant; it is precisely like the ‘equal but separate’ formula of the Jim Crow laws aimed at the North American Negroes. As is well known, this so-called equalitarian segregation has resulted only in the most extreme discrimination. The similarity just noted is in no way due to chance, for whether it is a race, a caste, a class, or a sex that is reduced to a position of inferiority, the methods of justification are the same. ‘The eternal feminine’ corresponds to ‘the black soul’ and to ‘the Jewish character’. Fonte

A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia experimental etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo "a igualdade dentro da diferença". Essa fórmula, que fêz fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizam em relação aos negros dos E.U.A. as leis Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações. Esse encontro nada tem de ocasional: quer se trate de uma raça, de uma casta, de uma classe, de um sexo reduzidos a uma condição inferior, o processo de justificação é o mesmo. O "eterno feminino" é o homólogo da "alma negra" e do "caráter judeu”. Fonte

Que aconteceria se a gente passasse a partir daí a definir a mulher brasileira não pelo seu jeitinho ou jeitão de fazer ou deixar de fazer isso ou aquilo mas sim, por exemplo, como uma das que mais morrem assassinadas no mundo? Fonte

Sunday, November 08, 2015

William Kentridge

Gastei um dinheiro que não tinha mas não me arrependi. Sábado às 2 horas assistimos a "Refulsal of the Hour" dirigido pelo artista sul-africano William Kentridge. Uma mistura sensacional de música, desenho, animação, filme, balé, ópera e literatura numa reflexão muito interessante sobre nossa relação com o tempo.

Aqui imagens da instalação "Refusal of Time", da qual saiu o espetáculo.




A vida é boa de vez em quando.

Saturday, November 07, 2015

Poesia minha: Temporada dos Dinossauros

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Foto minha: Retrato no Meio da Fuga
A temporada dos dinossauros

Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.
“El dinosaurio” de Augusto Monterroso

antes que ele bata
eles abrem a porta
e se entra com a bota
borrada de barro e lama
eles trazem logo
o melhor tapete da casa
enquanto ele nos fala
seus sonhos de grandeza
eles balançam a cabeça
e gralham “é isso mesmo
apoiado apoiado”
se sorrir eles gargalham
se tossir eles engasgam
quando ele pausa
eles empestam o ar
com murmúrios e pigarros
quando franze a testa
começa o festival
ele recebem o sinal
e rosnam de cor
os sete nomes do diabo
então promete vingança
e eles salivam alto
o seu muito obrigado
então pede por justiça
e eles buscam a forca
e penduram o primeiro
miserável vagabundo
traidor degenerado
no meio da praça
então promete o osso
que dorme debaixo
da nossa pele e carne
e estraçalham a cidade
até que chegue o dia
e ele desapareça
como um campo minado
eles voltam para casa
“foi um pesadelo”
tomam um banho cansado
e apagam o passado
e quando menos se espera

Foto minha: Ovo do Dinossauro

Thursday, November 05, 2015

Literatura com as palavras dos outros

Pode ser coincidência mas acho que não. Trombei com dois escritores, agora poetas, que trabalham com palavras de outras fontes: Robin Coste Lewis e Kenneth Goldsmith.

Robin Coste Lewis publicou seu primeiro livro chamado Voyage of the Sable Venus and Other Poems e o poema principal é composto de descrições de catálogos de objetos de arte onde aparecem mulheres negras. Aqui um breve exemplo tirado da resenha do livro que saiu na revista New Yorker:


Statuette of a Woman Reduced
to the Shape of a Flat Paddle

Statuette of a Black Slave Girl
Right Half of Body and Head Missing

Head of a Young Black Woman Fragment
from a Statuette of a Black Dancing Girl
O segredo claramente está no jogo de manipulação dos textos originais na página, usando o verso para enfatizar ou dar novo significado ao texto original.

Kenneth Goldsmith escreveu livros copiando coisas como todas as palavras que ele pronunciou durante uma semana, toda uma transmissão do jogo mais longo de beisebol ou um ano de previsões do tempo no rádio e recentemente se meteu numa confusão quando resolveu recitar o atestado de óbito de Michael Brown. Em outras palavras o engraçadinho se meteu com um assunto muito sério e se queimou. Muita gente que já detestava Goldsmith como um terrível perigo à poesia aproveitou-se para sentar o cacete nele, agora com a ajuda de um monte de outras pessoas indignadas com a falta de noção dele.