Wednesday, March 28, 2007

Dinossauros

Hoje eu vou fazer diferente: nada de escrever tudo, depois revisar e aí depois postar no blogue. Hoje eu vou na lata. Tem dias em que baixa o desânimo e daí para o desespero é um pulo. Minha vida sempre foi marcada por esses longos períodos desde quando eu me lembro. Só fui diagnosticado e tratado como depressivo quando a crise chegou ao que nossa sociedade considera o único pecado imperdoável para um ser humano: quando eu não conseguia sair da cama e fazer dinheiro, há cinco anos. Um sofrimento para mim e para todo mundo que convivia comigo – minha esposa e meu filho. Um sofrimento que eu só consegui superar com a ajuda de remédios. Mas a coisa mais estúpida do mundo é pensar (como fazem muitas pessoas) que esse estado é uma doença que basta extirpar com uma boa dose disso ou daquilo no cérebro. Se o que eu tenho e tive todas as outras vezes é alguma coisa que chamam de depressão, posso afirmar: NINGUEM fica deprimido sozinho, independentemente do que se passa a sua volta. Sua tendência inata ao estado depressivo só entra em ignição em contato com a podridão, própria e circundante. O mundo humano é, no mínimo, um lugar muito difícil – basta olhar em volta e constatar – onde somos obrigados a agüentar todo o tipo de violência possível com tanta intensidade e regularidade que então como não se atirar ao desespero? Meu recurso preferido é me atirar como um louco em trabalhos que eu sei que têm significado pelo menos para mim. Mas às vezes mesmo assim é muito difícil. A corda cai se esticando até que se arrebenta e cada vez que se faz um remendo eu fiquei trinta anos mais cansado. E quem não quer compartilhar o que faz com os outros? O ser humano morreu há muito tempo e só esqueceu de se enterrar. Somos dinossauros esperando estupidamente por algum meteoro que ponha fim a essa farsa imbecil. E daí?

Monday, March 26, 2007

De como a raiva bem articulada e bem dirigida pode dar em um bom poema

Coisa mais fácil no mundo de hoje é viver com raiva. Como diz um adesivo de carro daqui: "se você não está indignado, é por falta de informação." Mas indignação sozinha não faz poesia. Jaime Sabines sabia ter raiva e quando acertava a mão... acertava a mão:

Cantemos al dinero

Cantemos al dinero
con el espíritu de la navidad cristiana.
No hay nada más limpio que el dinero,
ni más generoso, ni más fuerte.
El dinero abre todas las puertas;
es la llave de la vida jocunda,
la vara del milagro,
el instrumento de la resurrección.
Te da lo necesario y lo innecesario
el pan y la alegría.
Si tu mujer está enferma puedes curarla,
si es una bestia puedes pagar para que la maten.
El dinero te lava las manos
de la injusticia y el crimen,
te aparta del trabajo,
te absuelve de vivir.
Puedes ser como eres con el dinero en la bolsa,
el dinero es la libertad.
Si quieres una mujer y otra y otra, cómpralas,
si quieres una isla, cómprala,
si quieres una multitud, cómprala.
(Es el verbo más limpio de la lengua: comprar.)
Yo tengo dinero quiere decir me tengo.
Soy mío y soy tuyo
en este maravilloso mundo sin resistencias.
Dar dinero es dar amor.

¡Aleluya, creyentes,
uníos en la adoración del calumniado becerro de oro
y que las hermosas ubres de su madre nos amamanten!
Yuria, 1967

Saturday, March 17, 2007

Crítica em pílula 1: Para quem acha que Guimaraes Rosa vivia no mundo da lua

Um trecho de Grande Sertão: Veredas para quem ainda acha que Guimarães Rosa só escrevia sobre flores e colibris ou a música das esferas (um completo equívoco):

“E mandou amarrar o sujeito, sentar nele uma surra de peia. Atual, o cabra confessou: que tinha querido vir drede para trair, em empreita encobertada. Zé Bebelo apontou nos cachos dele a máuser: estampido que espatifa – as miolagens foram se grudar longe e perto.” (93)

É um exemplo casual que não me custou cinco de minutos de busca. Não precisa procurar muito para encontrar vários outros, inclusive nos contos de todos os livros. Mas então porque é que tanta gente se surpreende quanto se fala de violência na ficção de Guimarães Rosa? Em minha opinião é só porque, ao contrário de uma legião de escritores brasileiros que andaram requentando uma literatura naturalista que o Machado espinafrava com gosto, Guimarães Rosa não gigolava a violência tão presente no Brasil (nas Américas todas) desde 1500 em busca de um efeito barato de choque que os mexicanos definiram com precisão em um termo magnífico: tremendismo.

Tuesday, March 13, 2007

Susan Sontag

Os últimos ensaios de Susan Sontag acabaram de sair em livro por aqui. Há quem ache por aqui que ela era essencialmente uma pessoa contraditória, que deu as boas vindas ao prazer e descontração da contra-cultura nos anos 60, mas acabou condenando o lixo cultural no fim da vida. Implicâncias com uma intelectual com coragem de dar a cara a tapa, na minha opinião. Querem ver a profunda coerência de Susan Sontag?

Eis aqui uma montagem com o que parecem ser dois pedaços de uma mesma frase da mesma pessoa (a própria Susan Sontag). Eles estão separados por mais de trinta anos:

Começa em 1968:
“Vivo numa sociedade sem ética que embrutece a sensibilidade das pessoas e tolhe a capacidade de bondade da maioria delas…”
Pouco antes de morrer em 2004:
“… numa cultura comprometida com a unificação de todas as avarezas e ambições desmedidas, com o resto do planeta comendo no mesmo cocho de entrenimento e fantasias eróticas e violentas pasteurizadas.”

Thursday, March 08, 2007

Efraín Huerta e a minha angústia canalizada para uma "Elegia a mulher barbada"

O poeta mexicano Efraín Huerta (um lado B magnífico para as suítes de rock progressivo do seu contemporâneo mais famoso, o "nobelado" Octavio Paz) disse quase tudo o que eu queria dizer sobre meus motivos para escrever em dois de seus poemínimos:

Pues sí
Hablando
Se
Enciende
La
Gente.

Luz, más luz

Es terrible
Pero
Cada día
Son más claros
Los intereses
Más oscuros

Mas será que adianta, Efraín? Resolvi escrever uma elegia, excelente maneira de desopilar o fígado cansado:

Elegia à mulher barbada

Logo abaixo dos bigodes
da mulher barbada
em pose fatal, em postas,
os lábios vendem a boca.

A boca rosada dessa fêmea peluda
vende os alvos dentes,
que vendem pasta de dente que,
vermelha na ponta da escova,
desce branca e espumante,
alagando de creme a baía do estômago
(que vende acidulantes e corrosivos
artesanais orgânicos originais fascinantes)
e depois sobe num espasmo golfo pérsico
pela garganta
(nervosa e relutante por dentro,
aqui de fora ela nos vende
um belo colar de diamantes
que pende da nuca peluda até umbigo
que, potencial de repente descoberto,
vende um belo pingente dourado do líbano
que desce balouçante
até o doce meio das pernas
que nuas vendem fabulosos outros cremes
capazes de rejuvenescer
uma coleira de rugas,
uma floresta de papadas,
uma manada rebelde de gordura flácida,
e até um barril de pólvora grisalha).