Wednesday, May 26, 2010

Trecho de "Um diário de idéias" de Fábio Durão

"O mundo do respeito pela privacidade é também o mundo da frieza e da indiferença (na Alemanha), ou do pânico em face do outro (nos Estados Unidos). A histeria contra o cigarro, o cuidado obsessivo com a comida (cf. o conceito surrealista de organicfood, que ninguém questiona), a prevenção exagerada contra o álcool, o asceticismo lingüístico (que faz contar piadas tão difícil), o sorriso ubíqüito, a idealização da família nuclear como espaço de realização plena dos afetos, o café descafeinado - tudo isso conota a horror estadounidense diante do que é diferente, daquilo que tem substância, que aponta para uma forma de gozo, que fere o instinto de auto-preservação. (....) Mas é claro que o importante aqui não é louvar a nossa barbárie como se ela fosse superior à pureza frieza e ao medo, mas sim tentar vislumbrar a utopia que surgiria do confronto desses negativos."

Tuesday, May 25, 2010

Pablo Trapero 4 - La Leonera

Este é o filme mais conhecido de Trapero no Brasil por causa da participação de Rodrigo Santoro. Familia Rodante era um filme sobre a família; Nacido y Criado era um filme sobre a paternidade; La leonera é um filme sobre a maternidade. De novo a maravilhosa combinação de coisas que indicariam uma produção "caseira" com atores amadores que são parentes do diretor [Martina Gusman é casada com Pablo Trapero] e uma qualidade de atuação, fotografia e enquadramento estupenda. E na trilha sonora o Palavra Cantada.

Monday, May 24, 2010

Pablo Trapero 3 - Nacido y criado

Nacido y Criado é um filme com um tema melodramático: um homem que se envolve num acidente automobilístico de consequências trágicas para a sua família e "desaparece". Desaparecemos com ele, e vamos parar no sul da Argentina.

Saturday, May 22, 2010

Pablo Trapero 2 - Familia Rodante

O terceiro filme de Trapero é um road-movie em familia, sui generis. Tem gente que acha o filme problemático mas eu o acho estupendo.

Friday, May 21, 2010

El boanaerense, segundo filme de Trapero, é um retrato desconcertante da polícia, porque não há preocupação aqui de identificar culpados e apontar caminhos mas sim de contar uma história de um cara qualquer, um Zé Mané que ganha a vida como chaveiro até abrir uma porta que não devia e que depois cai de pára-quedas na polícia. Vale a pena comparar com Tropa de
Elite...

Pablo Trapero 1 - El Bonaerense

Wednesday, May 19, 2010

Charles W. Chesnutt

Charles W. Chesnutt é um escritor afro-americano mais ou menos contemporâneo de Machado de Assis. Ele escreveu um livro de contos narrado por um preto-velho made in usa que é maravilhoso. É prosa mas é também, até certo ponto, poesia feita por alguém que conhecia a fundo o vernáculo. Apesar de todas as precauções em não ser ofensivo demais nem agredir a sensibilidade do público leitor da sua época, a fala do narrador/personagem Uncle Julius é forte porque remexe as memórias do tempo da escravidão.
À primeira vista parece outra língua mas se você se atém ao som das palavras acaba entendendo. Uma palhinha do conto "Dave's Neckliss" [o começo eu “traduzi” para inglês da norma culta]:

"Dave use' ter b'long ter my ole marster," said Julius; "he wuz raise' on dis yer plantation, en I kin 'member all erbout 'im, fer I wuz ole 'nuff ter chop cotton w'en it all happen'.
“Dave used to belong to my old master” / “he was raised on this here plantation, and I can remember all about him, for I was old enough to chop cotton when it all happened.

Dave wuz a tall man, en monst'us strong: he could do mo' wuk in a day dan any yuther two niggers on de plantation. He wuz one er dese yer solemn kine er men, en nebber run on wid much foolishness, like de yuther darkies. He use' ter go out in de woods en pray; en w'en he hear de han's on de plantation cussin' en gwine on wid dere dancin' en foolishness, he use' ter tell 'em 'bout religion en jedgmen'-day, w'en dey would haf ter gin account fer eve'y idle word en all dey yuther sinful kyarin's-on.
"Dave had l'arn' how ter read de Bible. Dey wuz a free nigger boy in de settlement w'at wuz monst'us smart, en could write en cipher, en wuz alluz readin' books er papers. En Dave had hi'ed dis free boy fer ter l'arn 'im how ter read. Hit wuz 'g'in' de law, but co'se none er de niggers did n' say nuffin ter de w'ite folks 'bout it. Howsomedever, one day Mars Walker--he wuz de oberseah--foun' out Dave could read. Mars Walker wa'n't nuffin but a po' bockrah, en folks said he could n' read ner write hisse'f, en co'se he didn' lack ter see a nigger w'at knowed mo' d'n he did; so he went en tole Mars Dugal'. Mars Dugal' sont fer Dave, en ax' 'im 'bout it.
Tudo vai bem com Dave até que ele é falsamente acusado de roubar um presunto de pernil e é punido tão cruelmente que enlouquece. Descoberta a trama para incriminar Dave, o então jovem Uncle Julius vai correndo buscar Dave, mas é tarde demais:
"'Dave!'
"Dey didn' nobody answer. I didn' wanter open de do', fer w'ite folks is monst'us pertickler 'bout dey smoke-'ouses; en ef de oberseah had a-come up en cotch me in dere, he mou't not wanter b'lieve I wuz des lookin' fer Dave. So I sorter knock at de do' en call' out ag'in:--
"'O Dave, hit's me--Julius! Doan be skeered. Mars Dugal' wants yer ter come up ter de big house,--he done 'skivered who stole de ham.'
"But Dave didn' answer. En w'en I look' roun' ag'in en didn' seed none er his tracks gwine way fum de smoke-'ouse, I knowed he wuz in dere yit, en I wuz 'termine' fer ter fetch 'im out; so I push de do' open en look in.
"Dey wuz a pile er bark burnin' in de middle er de flo', en right ober de fier, hangin' fum one er de rafters, wuz Dave; dey wuz a rope roun' his neck, en I didn' haf ter look at his face mo' d'n once fer ter see he wuz dead.
"Den I knowed how it all happen'. Dave had kep' on gittin' wusser en wusser in his mine, 'tel he des got ter b'lievin' he wuz all done turnt ter a ham; en den he had gone en built a fier, en tied a rope roun' his neck, des lack de hams wuz tied, en had hung hisse'f up in de smoke-'ouse fer ter kyo.

Monday, May 17, 2010

Chico Buarque? Não, Radiohead.

Depois de comparar TomWaits com Chico Buarque da Ópera do Malandro [ou seja o astral soturno dos anos de chumbo injetado com Kurt Weil] acabei me lembrando desse momento Chico Buarque do Radiohead.

"Life In A Glass House"

Once again, I'm in trouble with my only friend
She is papering the window panes
She is putting on a smile
Living in a glass house

Once again, packed like frozen food and battery hens
Think of all the starving millions
Don't talk politics and don't throw stones
Your royal highnesses

Well of course I'd like to sit around and chat
Well of course I'd like to stay and chew the fat
Well of course I'd like to sit around and chat
But someone's listening in.

Once again, we are hungry for a lynching
That's a strange mistake to make
You should turn the other cheek
Living in a glass house

Well of course I'd like to sit around and chat
Well of course I'd like to stay and chew the fat
Well of course I'd like to sit around and chat
But someone's listening in.

Friday, May 14, 2010

De volta ao futuro: 3 mortos-vivos do século XIX

[foto tirada de site sobre os Adventistas do sétimo dia - juro, não é sacanagem. Ali estão de camisa azul, o neo-liberalismo; de cabelo comprido o neo-positivismo; e de blusa azul escura, o neo-fundametalismo. Obviamente os três estavam com pressa e uma baita fome de cérebros. Não sei se a foto foi tirada em Bagdá ou em Nova Iorque]

Rowan Williams é o bispo Anglicano principal [os Anglicanos, claro, não têm Papa] que anda tentando lidar diplomaticamente com grupos da sua igreja na Inglaterra que ameaçam ir embora para a Igreja Católica [o Papa fez a gentileza de convidar publicamente os rebeldes para "voltar" ao manto de Roma]. A causa desse motim religioso é a ordenação de "bispas" na Igreja Anglicana Inglesa.
Willians é um teólogo famoso e numa entrevista fez a seguinte reflexão:
"One of the odd things about fundametalism in its American form, but not exclusively, is that it's paradoxically a very modern thing. A crude 19th century reaction to a crude 19th century scientism - a kind of mirror image of that positivist yes-or-no knowledge that you can pin down."
Ali está o elo entre o fundamentalismo e a ciência de corte positivista. Ambos em alta nesse começo de século. Ambos amarrados como gêmeos siameses a um terceiro filhote do século XIX ressuscitado no final do século passado: o liberalismo econômico.

Thursday, May 13, 2010

Ai, ai

O Estrago de Minas dá na primeira página: "madrugada mais fria do ano: 12 graus". Aqui, já na segunda metade da primavera e às 10 horas da manhã, faz 11 graus.

Wednesday, May 12, 2010

José Vasconcelos e o Brasil 2


[foto: Siqueira Campos, Eduardo Gomes e amigos num animado footing armado em Copacabana em 1922]

Comentando sobre a revolta dos 18 do forte e os protestos pela eleição de Arthur Bernardes, diz José Vasconcelos:
"El caso, un poco complicado, hubiera sido grave en cualquier país menos adelantado que el Brasil; pero bastó que los militares aparecieron entrometidos en la política para que la nación entera se afiliara con Pessoa.El elemento civil y la mayor parte del ejército, educados en ideas modernas de Gobierno, se unieron para aplastar a los pretorianos. Y Pessoa, sin mancharse de sangre, sin consumar una sola ejecución, pudo darse el gusto de tener preso al jefe de los militaristas en la sentina de un barco de guerra. Desde de allí escuchó el fracasado caudillo las salvas y las trompetas que al celebrar del Centenario proclamaban el triunfo definitivo de la cabeza sobre el brazo, de la oratoria de Pessoa sobre el sable del mariscal." Raza cósmica, 102
Quando diz Pessoa [Epitácio, por favor, não Fernando] pensa Vasconcelos em seus próprios sonhos de grandeza: um governante civil triunfando sobre os militares com o poder das idéias e das palavras. A decepção chegou para Vasconcelos em 1929, pouco antes da República Velha ir para o lixo e os gaúchos amarrarem seus cavalos no obelisco da Rio Branco.

Tuesday, May 11, 2010

José Vasconcelos e o Brasil 1


No auge do seu poder político, José Vasconcelos vem ao Brasil em 1922 com a maior de todas as delegações que participam da Feira Internacional que comemora o centenário da independência. Depois visita Uruguai, Argentina e Chile, buscando dissipar a idéia de que a Revolução Mexicana era um reino de bárbaros bigodudos com carabinas prontas para qualquer eventualidade. Encontra um Brasil em polvorosa com a revolta dos 18 do forte de Copacabana e polêmicas com militares envolvendo a campanha de Arthur Bernardes. Mas para Vasconcelos , interessado em propagar a idéia de uma civilização latina superior aos imbecis dos Estados Unidos, tudo são flores e colibris:
"Por todas partes se advierte un bienestar efectivo. Los humildes reciben atención del Gobierno y de las empresas y disponen de oportunidades para mejorar su condición. En los de arriba se observa una delicadeza innata, y en la clase intermedia abunda el talento impetuoso. El porvenir se siente ilimitado, como el horizonte poblado de chimeneas, o como las fértiles campiñas distantes. Desde cualquier eminencia se descubren torres de iglesias recién construídas, cúpulas flamantes, altos edificios civiles; un desbordamiento de acción; en suma una civilización que va en ascenso. Tal es San Paulo, cuna de brasileros ilustres, fecundo de la historia del país y colmena del presente. Allí acuden en la actualidad las emigraciones latinas, que se mezclan para formar un medio en el que, sin gran menoscabo de la bondad, triunfan el talento y la belleza. Su escudo podría ser el martillo que forja, el cafeto que despierta el espíritu y la estrella que orienta la civilización." Raza Cósmica, 60

Monday, May 10, 2010

Lydia Davis e a hora em que a porca torce o rabo


The moment when a limit is reached, when there is nothing ahead but darkness: something comes in to help that is not real.
Frase tirada do conto "Liminal: the Little Man"

Saturday, May 08, 2010

Ainda sobre o texto da Flora Sussekind

Ainda sobre o texto da Flora Sussekind: uma nova crítica literária eu acho que até existe. Posso dar dois exemplos, extremos opostos em muitas coisas: de um lado o calhamaço de Luís Bueno [História do Romance de 30] e do outro os menos de cem páginas de Fábio Durão [Um diário de idéias]. Os dois são produto da pesquisa universitária recente e tem uma vontade de comunicação além dos maneirismos e do jargão que afastam leitores leigos inteligentes. E não perdem a agudeza crítica por causa disso.
O fato é que a crítica literária e todos os campos da cultura brasileira inclusive a literatura e o cinema têm produzido muito e eu acho que desse muito tira-se alguma coisa boa e de tempos em tempos até coisas excepcionais. Sugiro um experimento: escolha um jornal importante no Brasil na época que você escolher e dê uma rápida conferida no caderno cultural. Para cada ocasional texto de qualidade que você encontra, é preciso nadar num mar de tolices. Não há nada de fundamentalmente errado com o cinema brasileiro; o problema é que filmes muito bons são praticamente ignorados nas bilheterias e às vezes mesmo nos jornais.
O que falta não é gente produzindo coisas boas; o que falta é uma caixa de ressonância poderosa que divulgue essa produção para que ela chegue a um número maior de pessoas, dentro do Brasil e fora.
E falta é claro deixar de lado a nostalgia elitista dos bons tempos em que a maioria das pessoas no Brasil não sabia ler e tinha portanto quase nenhum acesso à literatura escrita e assim a cultura era discutida apenas entre uns duzentos homens de alto nível de cultura, todos com seu título de bacharel e seu emprego na repartição.

Thursday, May 06, 2010

Poesia Minha: Quase glória da ciência nacional [de novo]

Com revisões significativas algumas voltando atrás outras, talvez, afundando ainda mais o pé na jaca

Já estavam quase aprendendo
a viver quase sem comer quando
vieram a falecer,
deixando pra trás aqueles que,
sem poder dormir seus doces
sonhos de consumo, acabaram
comprando com uma arma na mão
muita disposição
e uma idéia na cabeça
quatorze passos lacrimosos
até Ribeirão das Neves
onde, antes de aprender
a ser pobre sem trauma de pobreza,
vieram a falecer também
não sem antes dar a César
o que é de César:
esse medo que move
esse ajustamento duro ,
esse consenso asmático
que faz de quinhentos anos
dessa crassa violência
companheira nossa
diária, fiel,
nossa identidade nacional
(se tiver esôfago,
pergunte à esfinge
que atende pelo nome
“brasileiro médio”
se ele não acha mesmo
que o bandido bom
é o bandido morto)
E enquanto isso,
uma cabeça na mão
e as idéias enterradas
na areia fresca da praia,
fazendo as pazes conosco
ou vivendo em guerra conosco,
queremos não ver
todas as vidas moídas
da cana ao açúcar
que adoça o café amargo
que chega sempre bem quente
logo após a sobremesa.

Wednesday, May 05, 2010

E você, quanto ganha?

Um desembargador [que ganha pelo menos uns R$20.000] julga ilegal a greve dos professores estaduais [que têm um salário base de R$369] já que, “embora as aulas sejam repostas, haverá prejuízos irreparáveis para os alunos, pois não se pode afirmar que a reposição ocorrerá com qualidade” e “além disso, não houve a comunicação da decisão da greve aos empregadores e aos usuários com antecedência mínima de 72 horas”.

Enquanto isso dois donos de empreiteira [rendimentos incalculáveis] tentam subornar policiais [salários de talvez uns R$ 2300] oferecendo R$10.000 para que eles "não vissem" que um dos eminentes engenheiros colocava um guarda corpo no décimo andar da obra [onde cada apartamento deve valer pelo menos uns R$100.000]. O tal guarda-corpo lá não estava quando um servente de pedreiro [R$4 por hora] de lá caiu e morreu. Os policiais marcam encontro com os emprenteiros para o pagamento do suborno e prendem os dois em flagrante.

A realidade às vezes não merece comentários.

Avatar em Pindorama


João Ramalho [1493-1580] casou-se com Bartira sob os auspícios do pajé dos Guaianases e tornou-se líder de uma gigantesca liga de tribos tupis. que, com a ajuda providencial de antas, jibóia, onças e outras bestas selvagens, mandou todos os portugueses que não matou em combate de volta ao seu país com os rabos entre as pernas.
O filme Avatar imagina, num mundo ficcional, essa fantasia meio tola de que, se cada Cortés se tornasse um nobre Mexica, cada Caramuru um general dos Tupinambás, cada John Smith um comandante dos algonquians, os povos indígenas das Américas poderiam ter derrotado os invasores europeus e a tragédia humana e ecológica nada edificante que já dura cinco séculos nem teria começado.

Tuesday, May 04, 2010

Recordar é viver: Paracatú, última luz da civilização


Falando sobre Paracatú quando segue em viagem rumo ao sertão de Goiás [com ortografia da época]:
"Última povoação de Minas que reflete a luz da civilização; é a coluna de Hércules que a separa do deserto, que, digamol-o assim, d'alli por diante estende seu amplo e selvagem domínio."
Viagens pelo interior de Minas Gerais e Goyaz, Virgílio de Mello Franco, 1888

A coluna de Hércules [foto ao lado] é o estreito de Gibraltar, a porta de saída do mediterrâneo.

Monday, May 03, 2010

Poesia Outra: César Vallejo


Poema do Trilce de 1922. De matar...

LXXV

Estáis muertos.

Qué extraña manera de estarse muertos. Quienquiera diría no lo estáis. Pero, en verdad, estáis muertos, muertos.

Flotáis nadamente detrás de aquesa membrana que, péndula del zenit al nadir, viene y va de crepúsculo a crepúsculo, vibrando ante la sonora caja de una herida que a vosotros no os duele. Os digo, pues, que la vida está en el espejo, y que vosotros sois el original, la muerte.

Mientras la onda va, mientras la onda viene, cuán impunemente se está uno muerto. Sólo cuando las aguas se quebrantan en los bordes enfrentados y se doblan y doblan, entonces os transfiguráis y creyendo morir, percibís la sexta cuerda que ya no es vuestra.

Estáis muertos, no habiendo antes vivido jamás. Quienquiera diría que, no siendo ahora, en otro tiempo fuisteis. Pero, en verdad, vosotros sois los cadáveres de una vida que nunca fue. Triste destino el no haber sido sino muertos siempre. El ser hoja seca sin haber sido verde jamás. Orfandad de orfandades.

Y sinembargo, los muertos no son, no pueden ser cadáveres de una vida que todavía no han vivido. Ellos murieron siempre de vida.

Estáis muertos.

Sunday, May 02, 2010

Poesia Minha: O beija-flor





O sol cruza o céu
num dia em quatro partes:
manhã, tarde, noite e madrugada.

O sol sobe-desce o céu
num ano em quatro partes:
primavera, verão, outono e inverno.

O sol vê no chão
silencioso e indiferente
o leva-e-traz de esperma e sangue
que abastece o inferno da existência.

O sol atravessa cada corpo
agarrado ao chão
numa vida em quatro partes:
infância, juventude, madureza e velhice.

O sol é um beija-flor.

Saturday, May 01, 2010

Enquanto isso na sala de justiça...

O número 26 do sempre excelente e urgente Sopro traz um texto muito interessante de Giorgio Agambem, que de certa forma ajuda a entender o post anterior. Cito aqui apenas o parágrafo inicial:
"Muitos anos atrás, eu discutia com Guy Debord questões que a mim pareciam ser de filosofia política, até que em certo ponto Guy me interrompe e diz: ‘Olhe, eu não sou um filósofo, sou um estrategista’. Esta frase me chocou porque eu o considerava um filósofo, assim como considerava a mim mesmo um filósofo, e não um estrategista. Mas creio que aquilo que Guy queria dizer é que todo pensamento, por mais puro, por mais geral e por mais abstrato que seja, é sempre marcado por assinaturas históricas, temporais e, portanto, sempre preso, de alguma maneira, a uma estratégia e a uma urgência. Fiz esta introdução porque as minhas considerações serão necessariamente gerais e não entrarão no tema específico dos conflitos. No entanto, espero que estas considerações gerais carreguem de algum modo uma assinatura de uma estratégia."