Friday, October 29, 2010

Conto que traduzi há um tempão

Era uma vez

Margaret Atwood

- Era uma vez uma garota pobre, linda e muito boazinha, que vivia com sua madrasta malvada em uma casa na floresta.

- Floresta? Floresta é um negócio passé, entende? Eu já estou cheia desse negócio de vida selvagem. Não é uma imagem adequada para a nossa sociedade, hoje em dia. Vamos de urbanidade, para variar.

- Era uma vez uma garota pobre, linda e muito boazinha, que vivia com sua madrasta malvada em uma casa na cidade.

- Agora melhorou. Mas eu tenho que questionar seriamente essa termo, pobre.

- Mas ela era pobre!

- Pobreza é uma coisa relativa. Ela vivia numa casa, não é?

- É.

- Então, em termos socioeconômicos, ela não era pobre.

- Mas o dinheiro não era dela! Justamente a questão da história é que a madrasta malvada a obrigava a vestir roupas velhas e a dormir ao pé da lareira –

- Ahá! Eles tinham uma lareira! Com a pobreza, deixa eu te dizer, não tem lareira. Vamos ali na periferia, vamos subir a favela, vamos descer ali embaixo do viaduto, onde as pessoas dormem em caixotes de papelão à noite e eu te mostro o que é a pobreza!

- Era uma vez uma garota da classe média, linda e muito boazinha –

- Pode parar aí. Eu acho que a gente podia cortar esse bela, você não acha? As mulheres de hoje em dia já têm que lidar com padrões de beleza intimidadores demais do jeito que as coisas estão, com todas essas peruas nas propagandas. Será que você não podia fazê-la mais, bem, mais do tipo médio?

- Era uma vez uma garota que era um pouquinho acima do peso e meio dentuça, que –

- Eu não acho que seja legal ficar fazendo graça com a aparência das pessoas. Além do mais, você está incentivando a anorexia.

- Eu não estava fazendo graça! Eu estava só descrevendo –

- Deixe as descrições prá lá. Descrições são opressoras. Mas você pode dizer de que raça ela era.

- Que raça?

- Você sabe, negra, branca, indígena, mulata, asiática. Essas são as escolhas. E eu já vou lhe dizendo de uma vez que eu já estou cheia de branco. É cultura dominante para cá, cultura dominante para lá –

- Eu não sei que raça.

- Bom, provavelmente seria a sua raça, não?

- Mas isso não tem nada que ver comigo! É sobre essa garota que –

- Tudo é sempre sobre você.

- Eu estou achando que você não quer ouvir história nenhuma.

- Tá bom, prossiga. Você podia fazê-la de uma minoria. Isso ajudaria.

- Era uma vez uma garota de descendência indeterminada, tão comum quanto boazinha, que vivia com sua madrasta malvada –

- Outra coisa. Boazinha e malvada. Você não acha que nós devíamos transcender esses epítetos moralistas, preconceituosos e puritanos? O que eu quero dizer é que uma boa parte disso tudo é uma questão de condicionamento, não é mesmo?

- Era uma vez uma garota, tão comum em sua aparência quanto bem ajustada, que vivia com sua madrasta, que não era uma pessoa nem muito aberta nem afetuosa porque ela mesma tinha sofrido abusos durante a infância.

- Melhor. Mas eu já estou cheia de imagens negativas de mulheres! E as madrastas – ela sempre pagam o pato! Porque você não muda para padrasto? Faria muito mais sentido de qualquer jeito, levando em consideração o comportanmento que você vai descrever. E põe aí uns chicotes e umas correntes também. Nós todas sabemos muito bem como são esses homens de meia-idade, pervertidos e reprimidos –

- Ei, espera aí um minuto! Eu sou um homem de meia –

- Você fica na sua, Seu Abelhudo. Ninguém pediu para você meter o bedelho, ou o que você quiser chamar esse seu troço aí. Isso aqui é entre nós duas. Prossiga.

- Era uma vez uma garota –

- Quantos anos ela tinha?

- Não sei. Ela era jovem.

- Esse negócio vai acabar em casamento, não é?

- Bom, eu não queria estragar o suspense do enredo, mas – sim.

- Então você pode largar dessa terminologia condescendente. É mulher, minha amiga. Mulher.

- Era uma vez –

- Que história é essa de era? Chega do passado que já morreu. Quero que você me conte uma história sobre o presente.

- Uma vez –

- E aí?

- E aí, o quê?

- E aí, porque não duas vezes?

Thursday, October 28, 2010

Gregory Isaacs

Vejam como eu sou um homem otimista. Enquanto tanta gente nunca foi lá e quando pensa no Maranhão e se lembra da família Sarney, aliada de todos e antes de tudo de si mesma, eu não: quando eu penso no Maranhão, além de morrer de vontade de ir passar pelo menos uma semana por lá, me lembro que lá no Maranhão eles curtem há muito tempo o sensacional [infelizmente recém-falecido] Gregory Isaacs:



Every time I hear the music and I make a dip, a dip
Slave master comes around and spank I with his whip, the whip
But if I don’t get my desire
Then I'll set the plantations on fire
My temperature is getting much higher
Got to get what I require

‘Cause every time we do the work sometimes we are hurt, oh yeah
Boss never do a thing but hold on to his girth
But if I don’t get my desire
Then I'll set the plantations on fire
My temperature is getting much higher
Got to get what I require

Every time I hear the music and I move my hip, my hip
Slave master comes around and spank I with his whip, a whip
Slave master, I’m the shepherd of my pasture
I say you work me to scorn so long me make me gwaan
‘cause I’m accustomed to your whip

But if I don’t get my desire
Then I'll set the stations on fire
My temperature is getting much higher
Got to get what I require

Monday, October 25, 2010

Hora de Poesia: Cacaso

Lar Doce Lar

p/Maurício Maestro


Minha pátria é minha infância:

Por isso vivo no exílio.

Na corda bamba: poesia, 1978

Friday, October 22, 2010

estou achando quase impossível...


Flávia Cera tem um blogue muito interessante. Concordo com algumas coisas e discordo de outras, mas o que me atrai no blogue dela é o tom, um tom que eu agora percebo presente em muitos, mas não todos os meus blogues favoritos. Digo isso inspirado também por uma conversa que tive com a minha cara-metade sobre essas eleições e sobre um certo alívio de não ter que encontrar certas pessoas e ouvir certas barbaridades. Eu não acho que a barbaridade seja só uma questão de conteúdo, mas também de tom. Esse tom dos blogues de que eu estava falando é o tom das conversas que eu gostaria de ter nesses tempos difíceis. Porque uma opinião pode ser contundente e um discurso crítico pode estar engajado mas essa opinião contundente não precisa ser bélica e esse discurso crítico não pode ser panfletário.

Acho que essa campanha eleitoral está sendo marcada pelos limites da nossa cultura autoritária, intolerante, violenta. A declaração de voto agora quase vira declaração de guerra, porque os defensores do outro candidato invariavelmente, quase instantaneamente, começam a atirar insultos [ingênuo, babaca, otário, hipócrita, fanático, cínico, etc]. Acho que o voto em Serra é um tremendo equívoco, mas faço questão de aceitar que os outros votem no Serra também. E assim eu penso: "se pudermos conversar sobre o assunto, tudo bem; se não der então vamos ter que mudar de assunto" - só que mudar de assunto não nos interessa porque certos assuntos, como o aborto, a legalização das drogas e o casamento entre pessoas do mesmo sexo têm que ser discutidos mesmo. O debate entre opiniões contrárias no Brasil freqentemente descamba da contundência para o xingamento e daí chega às vias de fato, porque nós somos autoritários, intolerantes, violentos; mas não podemos silenciar.

Eu me lembro de uma entrevista com Helio Oiticica para um livro sobre a polêmica das Patrulhas Ideológicos no final dos anos 70. O entrevistador pergunta a ele quais as perspectivas para a implantação do socialismo no Brasil e ele se vira e diz assim: “Socialismo no Brasil? Eu estou achando quase impossível, o Brasil é um país bem fascista…”

Eu espero apenas que essa vertente fascista da cultura brasileira fique cada vez mais visível para que assim mais gente se disponha a combatê-la de frente, oferecendo um outro discurso, capaz de contundências mas com respeito e uma certa dose humildade, coisas que fazem parte da nossa cultura também.

Thursday, October 21, 2010

Recordar é viver: os 2 desaparecimentos de Jorge Julio López [27-10-76 > 18-09-06]

Parte 2. “Una noticia, por mala que sea”

Em 2003 as lei “Ponto Final” e “Obediência Devida” e os indultos de Menem foram anulados na justiça e no congresso com o apoio do novo presidente Kirchner. Em 2004 Etchecolatz pegou 7 anos pelo crime de roubo de bebês de prisioneros politicos, mas Etchecolatz foi mandado a cárcere privado, sob protestos veementes dos organismos defensores dos direitos humanos na Argentina.

Em 2006 as leis de proteção aos criminosos da ditadura argentina tinham sido definitivamente derrubadas e Etchecolatz estava sendo novamente julgado pelo crime de genocídio, no dia 28 de junho de 2006 Julio López era uma das testemunhas de acusação. Aqui podemos ver algumas partes do testemunho de Julio López no julgamento de Etchecolatz:




Acho o testemunho em si fortíssimo, talvez dispensando comentários, mais forte quando se pensa no seu desaparecimento pouco depois, ao fim do julgamento, Etchecolatz foi condenado a prisão perpétua. Mas Julio López não assistiu a leitura da sentença, um momento catártico para muitos argentinos: desapareceu no dia 18 de setembro de 2006 em La Plata trinta anos depois de seu sequestro pelo regime militar argentino. Até hoje López não foi encontrado. O título dessa segunda parte do post é parte de um apelo feito pela família de Julio López.

PS. Tenho que citar uma pessoa que conheci ano passado por intermédio da minha companheira de trabalho Moira Fradinger: a viúva do cineasta argentino desaparecido Raymundo Gleyzer, Juana Sapire que, em uma conversa informal, me contou sobre o caso de Julio López, quando eu disse que agora a Argentina era uma democracia. Os brasileiros precisam conhecer muito melhor o resto da América Latina e a Argentina, por exemplo, para conhecer Gleyzer, um documentarista SENSACIONAL que começou sua carreira filmando no nordeste brasileiro em 1964. Para isso vale a pena conferir o documentário sobre Gleyzer.


Tuesday, October 19, 2010

Recordar é viver: os 2 desaparecimentos de Jorge Julio López [27-10-76 > 18-09-06]

Primeira Parte: Fanáticos ou Cínicos?

Jorge Julio López, pedreiro de profissão, nascido em Buenos Aires em 1929, era militante peronista e ficou preso de 1976 a 1979 em um dos 600 Centros Clandestinos de Detenção criados e mantidos pelo regime militar argentino em sua guerra de extermínio contra a subversão. Foi assim que Julio López teve a infelicidade de conhecer Miguel Etchecolatz, Diretor de Investigações da Provincia de Buenos Aires, cujo governador, o general Ibérico Saint Jean, declarou em 1977: "Primero mataremos a todos los subversivos, luego mataremos a todos sus colaboradores, después... a sus simpatizantes, enseguida... a aquellos que permanecen indiferentes y, finalmente, mataremos a los tímidos" [International Herald Tribune, París, 26 de mayo de 1977].

Julio López não morreu e em 1986, depois da ditadura, Miguel Etchecolatz foi julgado e condenado a 23 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos. Seu julgamento foi anulado graças a lei “Obediência Devida”, baixada durante o governo Alfonsín em 1987 sob a pressão dos “carapintadas” de Aldo Rico, militares de baixa patente que se amotinaram em protesto contra a “perseguição” injusta dos civis, dizendo: "si quienes dieron las órdenes van a la justicia no tenemos ningún problema en ir todos a la justicia, pero ningún hombre de bien que vista uniforme militar puede ampararse escudándose en el sacrificio de sus subalternos".

Em 1998, com a chegada ao poder de Menen (que concedeu indultos aos militares ainda presos, inclusive a Aldo Rico), Etchecolatz estava tão seguro de sua impunidade que publicou um livro, La otra campana del Nunca Más (referência explícita ao livro que catalogava os ccrimes da ditadura argentina, cuja versão brasileira ficou conhecida como Brasil – Nunca Mais), defendendo seus atos como a ação de um cristão responsável que tinha que combater a subversão do ateísmo comunista que ameaçava a Argentina livre.

Aqui podemos ver Etchecolatz em programa de televisão argentino Hora Clave:





O que me chama a atenção é a dureza do entrevistador, Mariano Grondona. Uma dureza surpreendente para um direitista católico que apoiou o golpe militar e, antes mesmo do golpe, apoiou entusiasmado a José López Rega, o criador dos esquadrões da morte anti-subversão (os infames AAA) no governo de Isabelita Perón. Em 1977, em pleno genocídio que terminaria com 30.000 desaparecidos, Grondona dizia “Nadie diría que el presidente Videla, por ejemplo, sea un ‘duro’; todos lo pensamos, por el contrario, como un hombre naturalmente abierto para el diálogo y el entendimiento”.

Seria Grondona um dos “cínicos” ou dos “fanáticos” de que ele fala no começo da sua pergunta a Etchecolatz?

Sunday, October 17, 2010

Chegaremos lá?


Mais duas semanas de campanha eleitoral nesse nível e acho que sim...

Thursday, October 14, 2010

De um Mineiro sobre buracos cavados na terra

E já que a moda agora é falar de mineiros saindo de dentro da terra, eis o "Áporo" do mineiro Drummond, que escreveu sobre um tempo tão ou mais escuro do que este em que vivemos agora:


Um inseto cava

cava sem alarme

perfurando a terra

sem achar escape.



Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?



Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:



em verde, sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-se.

Wednesday, October 13, 2010

Delírios de Cafeína, ou Porque Bob Dylan e Chico Buarque têm tudo a ver

Eu prometi aos meus bilhões de leitores e agora cumpro. Eis aqui outra canção de Bob Dylan que me lembra o mesmo "esquema" de várias canções do Chico Buarque. Estão aqui:
1. a circularidade da letra que sempre volta para bater no verso que dá título a canção, reforçado pela sequência de acordes que termina no verso e começa de novo;
2. uma derivada sem tiques modernosos nem distanciamento irônico de uma tradição musical nacional, no caso Dylan bebe no Folk e no Country como Chico bebe no samba carioca;
3. um clima de romantismo meio decadente de cabaré alemão, completo com neon, hotel fajuto e marinheiros na calçada;
4. uma fossa de arrebentar bem no meio cinzento dos anos 70;
5. a rima fixa, perfeita, quase mecânica às vezes carrega de sentido a letra meio non-sense e assim "she was born in Spain / and I was born too late" parece fazer todo o sentido e ao mesmo tempo parece debochar um pouco do clima romântico;
6. e finalmente, Dylan tem uma voz bem melhor, mas mesmo assim ele faz questão de soar meio taquara rachada de vez em quando [deve ser para homenagear o Chico]!

Simple Twist of Fate – Bob Dylan

They sat together in the park

As the evening sky grew dark

She looked at him and he felt a spark

tingle to his bones

It was then he felt alone

and wished that he'd gone straight

And watched out for a simple twist of fate.

They walked alone by the old canal

A little confused I remember well

And stopped into a strange hotel

with a neon burning bright

He felt the heat of the night

hit him like a freight train

Moving with a simple twist of fate.

A saxophone someplace far off played

As she was walking on by the arcade

As the light bust through a-beat-up shade

where he was waking up

She dropped a coin into the cup

of a blind man at the gate

And forgot about a simple twist of fate.

He woke up the room was bare

He didn't see her anywhere

He told himself he didn't care

pushed the window open wide

Felt an emptiness inside

to which he just could not relate

Brought on by a simple twist of fate.

He hears the ticking of the clocks

And walks along with a parrot that talks

Hunts her down by the waterfront docks

where the sailors all come in

Maybe she'll pick him out again

how long must he wait

One more time for a simple twist of fate.

People tell me it's a sin

To know and feel too much within

I still believe she was my twin

but I lost the ring

She was born in spring

but I was born too late

Blame it on a simple twist of fate.

Sunday, October 10, 2010

Editorial é viver Greatest Hits - Editorial da FSP de 1971

Li texto escrito para o ombudsman da FSP em que o autor expressa sua "decepção" com o jornal que sempre esteve ao lado da democracia nos momentos importantes da redemocratização do Brasil. Quando as vans da Folha de São Paulo, que apoiavam a Operação Bandeirantes, foram atacadas pela resistência armada à ditadura, o dono da Folha escreveu um editorial furioso, do qual destaco apenas um trecho:
"Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele.
Nunca ouve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social - realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. O país, enfim, de onde a subversão - que se alimenta do ódio e cultiva a violência - está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa que reflete o sentimento deste."
Octávio Frias de Oliveira, 22 de setembro de 1971

Quarta e última observação sobre George Washington depois de ler um artigo sobre as suas diversas biografias

• Ao editar as cartas e diários de Washington, Sparks também trocava expressões que lhe pareciam inapropriadas e chegava a reescrever frases inteiras que, para ele, não condissessem com a figura pública do grande presidente general. Por exemplo, se Washington se referia em seu diário ao general Putman como “Old Put”, Sparks trocava o “Old Put” por “General Putman”. Outro exemplo: quando Washington se refere a uma quantia irrisória como “a fleabite” [uma picada de pulga], Sparks trocava a expressão informal por “quantia totalmente inadequada para as nossas necessidades”. Quando questionado sobre o procedimento, Sparks disse que, se estivesse vivo, Washington não aprovaria a divulgação para o público em geral de coisas que tinham sido escritas por ele em um âmbito estritamente pessoal sem que se fizesse as correções como as que ele fez que conferissem a esses textos a dignidade de um estadista do porte do grande presidente. Eu sempre tendo a pensar nesse aspecto. Por exemplo, assisti a uma exposição precisa e muito interessante sobre as opiniões políticas de Fernando Pessoa com relação à república portuguesa. As idéias políticas de Pessoa são bastante equivocadas e mesmo primárias em certos momentos, mas não uso aqui o temo "opinião" ao invés de "posição" sem uma reflexão pessoal. Afinal, Pessoa nunca pubicou esses seus textos políticos, reservando-os, até onde sei de propósito, para a esfera privada.

Friday, October 08, 2010

Quatro observações sobre George Washington depois de ler um artigo sobre as suas diversas biografias:

• Jared Sparks, editor do espólio e primeiro biógrafo do primeiro presidente americano, publicou Life and Writings of George Washington em nada menos que 12 volumes. O que não quer dizer que Sparks não fosse seletivo: dizem que ele simplesmente jogou fora cartas trocadas entre Washington e pessoas consideradas por ele desimportantes. Com a explosão do interesse por biografias e da produção desse tipo de livro, Sparks reclamava sobre a “propensão infeliz” das pessoas de perderem seu tempo escrevendo e lendo biografias sobre gente que, durante suas vidas, nunca deixaram qualquer impressão na vida pública além de um círculo estreito de amigos e parentes e nunca estenderam sua influência além das fronteiras das cidades onde viviam. O historiador Herbert B. Adams foi bem mais seletivo e publicou The Life and Writings of Jared Sparks em apenas 2 volumes.


Thursday, October 07, 2010

Quatro observações sobre George Washington depois de ler um artigo sobre as suas diversas biografias 2

[o que se esconde por trás daqueles lábios enigmáticos? Dentes tortos ou uma dentadura feita de dentes de escravos?]

2• George Washington era reconhecido pelos seus contemporâneos como um homem forte e belo, de uma presença física naturalmente impressionante. Bom, como nasceu muito antes do botox e da lipoaspiração, fora um improvável espartilho e uma bosa dose de banha de porco no cabelo, a presença física de Washington devia ser mesmo natural, exceto pelos seus dentes. Dizem que Washington tinha os dentes péssimos até ele mandar fazer uma dentadura com marfim e alguns dentes arrancados de seus escravos. Podemos supor, portanto, que entre os tais direitos inalienáveis de todos os homens não se incluía o direito de manter seus dentes saudáveis na boca.

Wednesday, October 06, 2010

Amanhã eu continuo com Washington

Comentando a charge sutil do Laerte que vc pode ver aqui, chamo a atenção para duas coisas, a meu ver, fundamentais:
1. Tiririca, como Clodovil e Frank Aguiar antes dele, foram eleitos em São Paulo, estado mais rico e desenvolvido do Brasil. A associação da pobreza com o voto ao Tiririca é, portanto, altamente suspeita. Há poucos dias a Rede Globo entrevistou uma série de seus atores mais conhecidos respondendo de forma patética a perguntas simples como a duração do mandato de senador ou a existência de segundo turno para a eleição de senadores. Não me parece que os galãs da Rede Globo, em geral, pertençam às classes C e D.
2. Reclamar dos eleitores quando uma eleição não tem o resultado que a gente gostaria é um equívoco. Há que se registrar a indiferença ou hostilidade do eleitorado aos valores que a gente defende e lutar para informar esse eleitorado. Coisa difícil em face do monopólio de fato exercido pela mídia conservadora. Devemos lutar por uma mídia plural, onde possamos encontrar opiniões diferentes e escolher aquelas que vêem o mundo com os olhos mais parecidos com os da gente. Para a grande maioria dos brasileiros de TODAS as classes não é isso que acontece.

Tuesday, October 05, 2010

Quatro observações sobre George Washington depois de ler um artigo sobre as suas diversas biografias:


Ilustração: Litografia de 1853 chamda "Life of George Washington - The Farmer". Podemos ver Washington dar um tempo na vigilância dos seus "empregados" que aproveitam para beber um copinho d'água. Ou vice-versa. Note que o bastão que ele leva à mão é meio curto para ser usado como uma bengala. Para que serviria? Talvez os escravos soubessem...

1• Antes e depois de ser presidente dos Estados Unidos, país cuja declaração de independência falava que “all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness”, George Washington tinha fazendas com escravos, escravos que ele acabou libertando – apenas após a sua morte, através do seu testamento. Ainda assim ninguém, que eu saiba, nunca apontou para essa e outras contradições que, suponho, fariam da república americana mais um caso de idéias fora do lugar – pelo menos até o cumprimento do testamento. Mas talvez seria melhor pensar que as idéias não tenham mesmo um lugar e que a história seja exatamente isso: um contraste constante, e frequentemente gritante, entre as idéias e as práticas humanas.